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Além do MAGA: o mosaico que forma a base eleitoral de Trump

Foto: Takayuki Fuchigami / The Yomiuri Shimbun via AFP

Donald Trump não formou uma seita, mas uma coalizão. Essa é a premissa da pesquisa Além do MAGA: Um Perfil da Coalizão Trump (íntegra), divulgada pelo instituto More in Common nesta terça-feira, data que marca um ano do início de seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. O estudo desmonta a ideia de uma base homogênea ao mapear quem, afinal, levou Trump de volta à Casa Branca em 2024. Também elucida como visões de mundo distintas coexistem sob o mesmo guarda-chuva eleitoral.

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Para chegar às respostas, o instituto combinou pesquisas quantitativas, entrevistas em profundidade e grupos focais realizados ao longo de dez meses com mais de 10 mil eleitores de Trump, trabalho concluído no início deste ano. O material revelou quatro perfis distintos que, somados, formam uma coalizão bem mais diversa do que a imagem uniforme frequentemente associada ao trumpismo, cristalizada no imaginário público pelo mar de bonés vermelhos que domina os comícios. Essa diversidade se revela, ainda, na forma como esses eleitores se relacionam com o próprio slogan que deu identidade ao movimento. O Make America Great Again (MAGA) não ocupa o mesmo lugar para todos: apenas 38% o consideram importante, 32% dizem que ele não é importante, e 31% o veem como nem relevante nem irrelevante.

No núcleo mais fiel e radical do movimento estão os chamados MAGA hardliners, responsáveis por 29% da coalizão. Extremamente leais ao presidente, esses eleitores tendem a enxergar a política americana como uma disputa existencial entre o bem e o mal. A religiosidade é um traço central: eles são significativamente mais propensos a se identificar como evangélicos e a associar o apoio a Trump à vivência da própria fé. Nesse grupo, 89% afirmam que Trump é o melhor líder que o Partido Republicano já teve em suas vidas, e 62% concordam que o presidente deveria punir seus oponentes políticos pelos danos causados. Também concentram as visões mais desconfiadas em relação às instituições: 93% dizem que a esquerda “odeia” os Estados Unidos, e quase oito em cada dez acreditam que burocratas e aliados do chamado “Estado profundo” controlam a política americana.

Maioria moderada

Ainda assim, esse núcleo não é majoritário. A maior fatia da coalizão corresponde aos republicanos tradicionais, conservadores moderados, que somaram 30% dos votos em Trump em 2024. Diferentemente dos hardliners, esses eleitores se identificam tanto como republicanos quanto como apoiadores do presidente e demonstram maior confiança no funcionamento do país. São menos propensos a afirmar que os Estados Unidos estão em declínio (39%, contra 58% entre os demais eleitores de Trump) e mais inclinados a acreditar que o “sonho americano” é hoje mais acessível do que foi para a geração de seus pais. Nesse recorte, a adesão a Trump passa menos por mobilização identitária ou religiosa e mais por afinidade com pautas clássicas do conservadorismo, como o endurecimento da política migratória, a defesa de uma economia forte e a preservação de um senso de estabilidade cultural.

Entre esses dois polos está o grupo dos conservadores anti-woke (contrários a políticas identitárias e ações de inclusão por etnia e gênero), que representa 21% da coalizão. São eleitores mais abastados, politicamente engajados e com sentimentos particularmente negativos em relação aos democratas. Embora compartilhem da crítica à esquerda progressista, diferenciam-se dos hardliners por uma relação menos intensa entre fé e política, apenas 14% dizem que sua religião influencia diretamente suas posições políticas, e por maior adesão declarada à democracia como sistema de governo, defendida por 76% desse grupo. Nesse segmento, o apoio a Trump tende a ser mais instrumental: 61% o consideram o melhor líder republicano de suas vidas, índice elevado, mas significativamente inferior ao observado entre os hardliners.

Na outra ponta da coalizão aparece a chamada direita relutante, responsável por 20% do eleitorado de Trump e decisiva para levá-lo de volta à Casa Branca. Trata-se de um grupo com menor identificação ideológica e partidária (51% se dizem republicanos) e mais propenso a ver esquerda e direita como igualmente afastadas do interesse nacional. Aqui, o voto em Trump foi menos fruto de entusiasmo e mais de conveniência ou rejeição à alternativa democrata. Não por acaso, só 9% o consideram o melhor líder que o Partido Republicano já teve, enquanto 37% afirmam não nutrir esperança em relação aos próximos quatro anos nos Estados Unidos, o maior índice de pessimismo entre todos os perfis mapeados pela pesquisa.

O “problema woke”, um eixo comum

Apesar das diferenças internas, há um fio que atravessa quase toda a coalizão trumpista: a percepção de que o avanço do chamado movimento woke se tornou um dos grandes problemas do país. Enquanto, na média nacional, 53% veem o woke como uma ameaça relevante, entre os eleitores de Trump esse sentimento sobe para 75%. No núcleo mais radical do MAGA, a preocupação beira a unanimidade, chegando a 96%, seguida de perto pelos conservadores anti-woke, com 91%. Mesmo entre republicanos tradicionais (65%) e na direita relutante (71%), a avaliação negativa permanece majoritária. Essa leitura compartilhada ajuda a explicar por que a oposição à esquerda progressista funciona como um dos principais elementos de coesão da coalizão. Não por acaso, três em cada quatro eleitores de Trump concordam que a esquerda woke “arruinou” áreas centrais da vida americana, como educação, imprensa e entretenimento. A intensidade varia, mas o diagnóstico atravessa quase todos os segmentos.

Entre os eleitores mais jovens de Trump, o anti-woke assume contornos próprios. Mais do que simples rejeição, ele se traduz na afirmação de valores alternativos. É nesse ponto que emerge um “novo tradicionalismo”, menos como uma ideologia fechada e mais como uma reação contracultural às normas progressistas dominantes. Entre esses jovens, 26% concordam com a ideia de que “o homem deve liderar e a mulher deve seguir”, mais que o dobro do índice observado entre eleitores mais velhos de Trump (10%) e também acima do registrado entre jovens que não votaram no republicano (13%). A percepção de que a cultura americana “precisa de mais masculinidade” segue a mesma lógica: é compartilhada por 49% dos jovens trumpistas, ante 39% entre os eleitores mais velhos e apenas 25% entre jovens fora da coalizão. Nesse contexto, até a fé adquire um significado distinto: para 43% desses jovens, ser religioso é um gesto mais rebelde do que ser ateu, invertendo códigos tradicionais de conformismo cultural.

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