Não é o PIB que vota. É a fatura do cartão
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O famoso escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo criou um personagem de humor conhecido como analista de Bagé. Para esse personagem, a economia tinha uma filosofia bastante simples: “Inflação é quando o dinheiro que está no seu bolso não vale nada, recessão é quando vale mas não está no seu bolso”. E dinheiro no bolso (ou falta de) é um tema central dessa eleição.
A reeleição de Lula em 2026 não será decidida na variação dos boletins do PIB. Será decidida nas mesas de cozinha, nas faturas acumuladas e na percepção de que a renda não chega ao final do mês. Essa percepção, hoje, é amplamente negativa.
O Brasil chega ao ciclo eleitoral com um dos maiores níveis de endividamento familiar de sua história. Quase 80% das famílias carregam alguma dívida, e 29% da renda já está comprometida com pagamentos mensais. O que chama atenção não é o volume, mas a persistência: o estoque cresce mesmo sem choques externos, revelando que parte crescente da população sustenta seu padrão de vida não por renda, mas por crédito.
O peso está concentrado em cartão de crédito e crédito rotativo, instrumentos de custo elevado que, com juros altos, tornam o serviço da dívida progressivamente mais oneroso. Para o eleitor, isso não é abstrato: é restrição de consumo e a sensação de estar correndo para não afundar.
Os dados da pesquisa Meio/Ideia de abril confirmam essa dor: 44% dos brasileiros se dizem mais endividados hoje do que há um ano; apenas 10% a 12% relataram melhora. Entre 60% e 65% percebem aumento do custo de vida. Para quase 40% dos eleitores, esses fatores serão decisivos em 2026. Mais decisivos, inclusive, que outros temas como saúde, segurança e corrupção.
Para um segmento em especial, esse tema é ainda mais latente. Esse é o grupo de eleitores que votaram em Lula no segundo turno de 2022 e atualmente acreditam que esse governo não merece continuar (3 pontos percentuais) ou não sabem responder sobre a continuidade do governo (2 pontos percentuais). Um grupo de grande importância para a disputa eleitoral. Nesse grupo, o tema de aumento de custo de vida é decisivo para 66%. Ou seja, tem grande potencial de ser o tema que decidirá a eleição.
O mecanismo é conhecido: eleitores avaliam governos pela experiência concreta, não pelos agregados. Quando a renda é corroída por dívidas e inflação percebida, a aprovação cai, mesmo com PIB crescendo.
O problema é estrutural. O Brasil avançou no acesso ao crédito, mas ficou para trás na qualidade. Muitos modelos de negócio exploram os vieses dos consumidores mais vulneráveis. Medidas do governo federal como o Desenrola são paliativos, não solução. O enfrentamento real exigiria avaliação obrigatória de capacidade de pagamento, supervisão de canais digitais, regulação das apostas online e fim dos instrumentos predatórios como o cartão consignado e o cartão benefício. Sem isso, o superendividamento continuará sendo produzido pelo mesmo sistema que promete incluir.
O teste de 2026 é simples: não se o PIB cresceu, mas se a renda voltou a caber no bolso. Para a maioria dos eleitores, ainda não coube. E, em democracias, quem paga essa fatura é o incumbente.


