O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

Você vai pagar o Master

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

Quando Tiradentes subiu o patíbulo, naquele 21 de abril em 1792, ele estava com um juiz, um padre e o carrasco. Os três o acompanharam desde o início da procissão, quando saíram da cadeia pública, no Rio de Janeiro. É onde fica hoje a Assembleia Legislativa, ela não se chama Palácio Tiradentes à toa. Ele não estava barbado, isso é ficção, coisa que inventaram para o alferes parecer Jesus Cristo. Quem era executado na forca não usava barba. Atrapalhava. Então o carrasco pôs nele o capuz e aí perguntou. Quais são suas últimas palavras.

PUBLICIDADE

Ontem, dia de Tiradentes, um monte de gente gravou vídeo lembrando dele, lembrando dos inconfidentes. Uns disseram que a revolta era por causa de impostos. Mas que bobagem. Coisa de quem leu sobre a revolta mineira no Zap e não entendeu nada. Flávio Bolsonaro foi nessa. Teve uns que foram melhorezinhos, mas aí vieram com o papo de que o Brasil ainda está lutando por liberdade, que o governo é como se fosse a coroa portuguesa. Romeu Zema. Pô, gente, tem limite, né? Quer ser presidente do Brasil e não sabe a diferença entre ser colônia de um império absolutista e ter um governo precário?

Bem, vamos organizar essa conversa. O brasileiro tem muito do que reclamar, mas, olha, os inconfidentes iam adorar viver no Brasil atual. Muito melhor do que era naquela época. Mas muito. E isso não quer dizer que o país esteja pronto, ou mesmo bom. Isso não quer dizer que o brasileiro não tenha o direito de perguntar: por que pago imposto? Porque, vem cá, ele olha em volta e não vê muita entrega.

Como é que nós, liberais, olhamos para imposto? Imposto, numa democracia liberal, é um marco civilizacional. Porque, veja, imposto num império absolutista é dinheiro para o rei, para a Raina, para a família real. É para isso que serve. Numa democracia liberal é dinheiro do povo. Nós, cidadãos, pagamos com dois objetivos.

O primeiro, é que o Estado garanta infraestrutura essencial. Isso é muito, muito importante. Estradas, portos, eletricidade, internet, esgoto, moeda, bancos. Ou o Estado provê essas coisas ou providencia que alguém ofereça esses serviços e determina as regras. Cada sociedade vai decidir o que aí é público e o que é privado com regra, mas precisa ter. A razão é simples: uma sociedade precisa criar riqueza. Para isso, pessoas precisam se conhecer, fazer planos, criar coisas, produzir, transportar, fazer acordos.

Agora, a segunda razão é mais delicada e igualmente relevante. Se a gente quer liberdade, se a gente acredita que todo mundo tem o direito a liberdade, então temos de providenciar para que a sociedade realmente dê espaço a todos para que possam ser o melhor que dê. Claro, cada pessoa terá seus talentos, uns vão mais longe, outros menos. Somos diferentes. Mas vida digna todo mundo tem de ter e explorar seu potencial máximo todo mundo tem de poder. Vale pro filho do banqueiro, vale pro filho do gari. Isso quer dizer, então, que serviços como educação para todos tem de ser garantida. Claro, alguns liberais vão preferir modelos como o proposto pelo Milton Friedman, quem não pode pagar ganha dinheiro para pagar. A maioria tende a preferir um serviço de educação pública, mesmo. É o que Finlândia, Estados Unidos, Reino Unido, França, todo mundo faz. Mas todo mundo concorda que estes serviços de garantia de dignidade e garantia de desenvolvimento pessoal precisam ter. Educação, saúde, segurança.

O problema dos liberais não é com impostos. Não de liberais de verdade. O problema de nós, liberais, é que a coisa não é entregue. Não tem segurança. O estado brasileiro, vamos falar com toda clareza, não entrega segurança. Não entrega educação e qualidade. A gente tem uma estrutura razoável, mas veja só: carregamos coisa que não acaba mais por caminhão, não carregamos por trem. Isso tem custo alto. Bastante alto. E tem umas decisões bem bizarras que tomamos, não é? Por exemplo, uma motocicleta Yamaha. Para a moto ser montada na Zona Franca, as peças vêm de navio de fora do país para o porto de Manaus. A moto é montada. E aí, pra chegar em São Paulo, Rio, Minas — onde a maior parte é vendida — ela volta de navio costeando o Brasil inteiro, ou desce de caminhão atravessando selva e balsa. Tudo isso pra fábrica pagar menos imposto. E a gente paga mais caro pela moto por causa disso. Faz sentido para a maioria dos brasileiros? Temos um dos Judiciários mais caros do mundo que não entrega um serviço padrão democracia europeia. Por que pagamos mais por um serviço pior?

Tem perguntas para ser feitas. Muitas perguntas. E você sabe que a conta do Banco Master vai ser paga com nossos impostos, não sabe?

Nada disso tem qualquer coisa a ver com Tiradentes ou com os inconfidentes. Quando ele subiu ao patíbulo, quando se pôs em cima do cadafalso, quando o carrasco pôs a corda ao redor do seu pescoço, Tiradentes segurava um crucifixo para o qual olhava fixo. Quais suas últimas palavras? “Seja breve”, ele falou. Talvez seja por isso que a gente nunca estuda isso nos livros de história. “Seja breve.” Faz com que seja rápido, por favor. Ele olhava para o crucifixo, rezava. Ele estava com medo. Mas aquilo pelo qual ele lutou, pelo qual os inconfidentes lutaram, aquela luta foi conquistada. O Brasil é independente, os impostos que se cobram no Brasil são gastos por pessoas que nós escolhemos. Aquela fase já passou.

Nosso problema é outro. Precisamos discutir sobre em que realmente queremos gastar os impostos, se gastamos bem. Se você não está feliz com o Brasil, é porque, não, não gastamos bem.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Se você chegou até aqui pensando “ninguém está conversando assim”, não é impressão sua. No Brasil, imposto virou ou bandeira de quem faz pose de liberal pra fugir de conta, ou defesa cega de qualquer gasto público de quem faz pose de progressista. Quase ninguém senta, olha com calma, e faz a pergunta que importa de verdade: pra onde esse dinheiro está indo — e isso faz sentido pra você?

O Meio é pra quem quer pensar assim. Sem torcida. Sem bolha. Discordar com base, ouvir argumento antes de aceitar conclusão. Se você já cansou da raiva da direita e do autoengano da esquerda, seu lugar é o Meio. Assine.

Porque na segunda parte desse PdP, a pergunta fica mais dura: em que o Brasil deveria estar gastando — e em que ele está gastando hoje sem que quase ninguém perceba.

E este? Este é o Ponto de Partida.

Veja só o buraco do Banco Master. Vamos lá. Daniel Vorcaro comprou o banco durante o governo Temer, o BC não deu licença, veio o governo Bolsonaro, o BC deu licença. Ele cresceu o banco mais de dois mil por cento. Uma coisa gigantesca de grande e era puro castelo de cartas. Não ficava de pé. Ele pôde fazer isso porque contou com ajuda de gente dentro do Banco Central, que fingiu que não viu, com gente dentro do Congresso Nacional, que lutou pra facilitar a vida dele e, por fim, com gente dentro do sistema Judiciário. Todo mundo foi muito bem compensado pelo serviço. Mas, veja, o castelo desmoronou. Essas coisas sempre desmoronam. O jogo é feito sabendo que vai desmoronar. Só que, quando tudo se espatifa no chão, fica sobrando uma conta. Quem paga?

Parte do pagamento será feito pelo Fundo Garantidor de Crédito. Esse é um dinheiro que todos os bancos depositam no BC e, quando algum banco ou fundo quebra, todo portador de CPF pode ser indenizado em até 250 mil reais. Você dirá: ah, mas é dinheiro dos bancos? Sim, é. Mas banco é empresa que dá lucro. Se perdeu esse dinheiro, o que acontece é que ele é distribuído no spread. Ou seja, todo mundo que tem algum tipo de uso de banco, pode ser conta do adolescente no Nubank, pode ser conta de bacana no Itaú Personnalité. Todo mundo vai pagar um juro um pouco mais alto, uma taxa bancária um pouco mais alta. As pessoas que perderam tudo serão indenizadas porque um banqueiro fraudou o sistema. A gente paga essa indenização.

Aí vêm os fundos de pensão de estatais e de diversos estados. Quem cuida do dinheiro da aposentadoria de funcionários públicos e estatais investe esse dinheiro. Se o dinheiro vira pó, quem indeniza? Tipo, na boa? Porque, veja, o gestor que botou dinheiro ali sabia muito bem que a coisa era uma fraude. Em outra ocasião, a Postalis, dos Correios, meteu os pés pelas mãos numa picaretagem dessas. O Tesouro Nacional foi lá e cobriu o rombo. Você sabe de onde vem o dinheiro do Tesouro, não é? Os funcionários públicos do Rio de Janeiro ou do Amapá vão ficar sem esse dinheiro? Não. A gente vai cobrir a conta.

E aí tem o BRB, o Banco público do Distrito Federal. O presidente do banco ganhou, sem brincadeira, ganhou por fora quatro imóveis no valor somado de R$ 146 milhões. O prejuízo que o BRB tomou é gigante, porque o BRB tomou o prejuízo a gente sabe muito bem. O cara foi pago pra botar o banco a serviço do Master.

Isso é um caso. Vem cá, a gente já teve uma conversa a sério sobre como o Brasil gasta dinheiro dos impostos? Nunca tivemos, realmente. Esse ano vai ter eleição presidencial. Os candidatos estão lá, fazendo vídeo demagógico, evocando Tiradentes, falando que tem de cortar imposto e tudo o mais. A gente não devia, antes, conversar sobre o que queremos pagar? A gente quer pagar a Zona Franca de Manaus? Queremos pagar o rombo do Banco Master? Queremos dar dinheiro para a FIESP? Queremos pagar todo prejuízo que gestor corrupto, incompetente ou ambos de banco público ou fundo de pensão público provoca? Será que podemos ter voz sobre o quanto custa nosso Judiciário?

Se bem que, aí, não. Dia desses uma juíza falou, depois duns penduricalhos serem cortados, que ser juiz no Brasil vai virar escravidão. Isso não é certo. Coitados. Aí sim é voltar ao tempo do Tiradentes.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.