Edição de sábado: O Brasil em Nove Bolhas

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Nos acostumamos a dizer que vivemos em bolhas. Agora, temos a evidência científica de que é verdade. Saiu esta semana O Brasil no Espelho, novo livro do cientista político Felipe Nunes, fundador e diretor da Quaest Pesquisas. O livro traz o resultado da mais profunda survey realizada no Brasil com o objetivo de mapear quais são nossos valores. Em 2023, sob encomenda do Grupo Globo, Felipe e sua equipe caíram no país para realizar mais de dez mil entrevistas com um questionário que leva algo próximo de duas horas para ser completado. Raramente pesquisas de opinião vão tão fundo para compreender o que pensam as pessoas.
O retrato que ele encontrou não é bonito. Somos uma sociedade em que parte importante está mobilizada pelo ressentimento e, a outra, pela frustração de que lhe prometeram muito e pouco foi entregue. Não bastasse, a experiência de viver no Brasil é dura. O brasileiro não se sente seguro com a economia, com a possibilidade de manter seu lugar na sociedade e, claro, por conta da criminalidade. Somos um povo muito religioso, muito dedicado à família e com uma profunda desconfiança um do outro. Não confiamos no próximo. Ser brasileiro é sentir-se sozinho no mundo, sem ter com quem contar.
Se este é o retrato geral, no particular nos dividimos em nove bolhas distintas. Três se alinham com a esquerda e, quatro, com a direita. Duas flutuam. A boa notícia é que a bolha de extrema direita é a menor de todas. Não é insignificante, são seis milhões de brasileiros, mas juntos representam 3% do todo. São estes que desejam substituir a democracia por uma ditadura. A maioria dos eleitores de Jair Bolsonaro não quer isso. Se votaram nele é porque rejeitam o PT.
Os dois grupos que flutuam agrupam 5% cada. De um lado, os liberais sociais. Fundamentalmente democráticos, urbanos, cosmopolitas, leem muito. São de uma classe média tradicional. Desejam uma economia liberal e um Estado de bem-estar social. Se votaram em Lula foi por repulsa a Bolsonaro. Mas têm horror à política externa do governo, e esta lhes é muito importante. A política econômica é outra que os afasta. Ao seu lado estão os empreendedores. Fizeram faculdades ruins, criadas nos primeiros governos Lula, e com o ensino capenga não encontraram o trabalho bem pago que lhes havia sido prometido. Assim, dirigem carros de aplicativo e fazem entregas. Não querem ajuda do Estado, acreditam no próprio trabalho. Votam em Lula, em 2022, por razões econômicas. Se afastaram dele quando o governo tentou regular os aplicativos. Se atraíram por Pablo Marçal, na eleição municipal paulistana. Não é ideologia que os move, mas a busca por crescer. Votarão em quem sentirem que tem mais chance de oferecer um país onde melhorar de vida com as próprias mãos é possível.
São eles, na avaliação de Felipe, que definirão o vencedor da próxima eleição. A seguir, a entrevista, que também pode ser assistida em vídeo na edição especial do Conversas com o Meio, disponível em nossa exclusiva plataforma de streaming.
Acho que precisamos começar do básico. Como descobrimos, numa pesquisa, os valores das pessoas?
Existe um grande projeto sobre valores chamado World Value Survey, conduzido por muito tempo pelo professor Ronald Inglehart (1934-2021). A base dessa conversa parte do princípio de que os valores de uma sociedade dependem fundamentalmente de quanto tempo, na sua socialização primária, você viveu sob segurança física, emocional e mental. Com quanto de instabilidade você viveu. O que o Inglehart nos ensina é: sociedades que ficaram muito tempo vivendo guerras, instabilidade e processos de escassez acabam desenvolvendo pessoas com valores mais conservadores na média. Enquanto sociedades que viveram abundância, estabilidade e paz econômica, social e política, acabam desenvolvendo valores mais autoexpressivos, em que você se permite sair do básico da sobrevivência para se expressar, experimentar e inovar. Nós, então, selecionamos uma bateria de questões em 11 diferentes dimensões que vão desde família, religiosidade, tradição, individualismo, meritocracia, confiança, honestidade, segurança e ideologia. Submetemos os brasileiros a essa conversa longa sobre o que eles pensam, acreditam, desejam e temem.
Se entendi bem, por esta classificação, há duas maneiras essenciais de encarar a vida. Uma conservadora e a outra, autoexpressiva — a liberdade de se expressar e experimentar. Costumamos pensar no brasileiro como conservador. Somos?
Somos. Este é um livro que fala muito sobre tradição e conservadorismo. O Brasil é um país que se autoidentifica como mais de centro-direita. Estamos falando de um país conservador tradicional. Por quê? Porque na essência do país está a convicção de que Deus é muito importante na vida do brasileiro, independentemente da religião. A família organiza um centro fundamental de motivações, expectativas e medos. Nós nos tornamos, nos últimos anos, um povo mais individualista e menos coletivista, achando que as soluções serão resolvidas basicamente pelo indivíduo. Você sente que não pode contar com ninguém, a não ser a sua família e Deus. Então essa combinação do fatalismo religioso — o “vai com Deus”, o “se Deus quiser” —, junto à importância da família e desse individualismo constitui uma visão conservadora.
Isso não é claro para mim. Costumo pensar nas três macroideologias: conservadorismo, liberalismo e socialismo. O conservadorismo bota a família no núcleo, o liberalismo bota o indivíduo, e o socialismo bota a sociedade. Quando você fala da liberdade de se expressar e experimentar, imediatamente pensamos numa sociedade liberal. Moderna. Mas você sugere que sociedade está simultaneamente mais individualista e mais ligada à família. Menos disposta a experimentar. O que é esse individualismo? Não é o individualismo liberal?
Não. Estou falando do individualismo do ponto de vista da confiança mútua. O Brasil não acredita em solidariedade. Para vencer na vida, você não vai conseguir ter o apoio de ninguém. Depende de si. Isso está muito ligado ao crescimento na sociedade da ética protestante do capitalismo, onde o sucesso para chegar no céu é, no fundo, ter sucesso na Terra. Mas o nosso é um sucesso sem a colaboração dos outros. Sem solidariedade.
A ideia de ética protestante que o sociólogo alemão Max Weber descrevia era de um mundo se liberalizando, onde a comunidade era uma infraestrutura que permitia o crescimento porque acordos aconteciam entre as pessoas.
Sim. Mas, no Brasil, não é isso que a gente está vendo. O que identifico no Brasil no Espelho é o inverso. Cada um por si. Quanto mais pobre se é, maior a dimensão de que ninguém vai colaborar. Desse lugar do individual, onde você acha que está sozinho e não tem solidariedade coletiva, desdobram-se duas consequências impressionantes. Uma é que estamos voltando a viver em tribo. Só que não chamamos mais de tribos. Chamamos de bolhas.
Este é um retrocesso. Mas, hoje, nos sentimos confortáveis quando todos à volta pensam como nós. Visões críticas incomodam. A outra consequência é que essa sociedade individual do esforço não coletivo está ancorada no que, acho, é nosso maior problema: o Brasil é um dos países com maior grau de desconfiança interpessoal. “Desconfio do vizinho, de quem trabalha comigo, de quem vota diferente; só confio na família.” O que vemos no espelho quando de um lado há desconfiança e, do outro, bolhas? Preconceito, violência, discriminação. Isso leva para um lugar que não tem nada a ver com o liberalismo no enunciado da sua pergunta.
Este é o desenho de uma sociedade dura de viver.
Mas é duro viver no Brasil. Não é? Tem violência. Tem desigualdade, muito preconceito. Tudo isso somado gera, frustração e ressentimento.
Vamos explorar essa ideia de ressentimento? É o afeto predominante nas democracias liberais faz uns 10 anos. Tem um corte circulando nas redes, de uma entrevista sua ao Pedro Bial, onde fala do momento em que percebeu esse ressentimento. Conta essa história?
A gente faz uma bateria de perguntas que envolve basicamente a ideia: “Pedro, nos últimos 20 anos, você ou pessoas como você melhoraram de vida?”. Quando analisamos os subgrupos, os homens, em geral brancos, que moram no Sul/Sudeste e têm renda alta, respondem que não melhoraram de vida. Em compensação, as mulheres, as pessoas de renda baixa, do Nordeste, católicas e pretas dizem que sim, melhoraram de vida. Até aí, é um conflito sobre redistribuição. Certo?
Sim
Mas aí vem a próxima pergunta: “Independentemente do que aconteceu com a sua vida, na sua avaliação, aqueles que melhoraram na sociedade brasileira nos últimos 20 anos, mereceram melhorar?” Os pretos, mulheres, nordestinos e pobres dizem que sim. Mas o outro grupo — homens brancos, Sul/Sudeste, renda alta — diz: não. Aqueles que melhoraram não mereceram. Aí é a deflagração de um conflito social. O ressentimento é produto de visão de status. É como se as regras para chegar na melhora estivessem erradas. Como se jogo estivesse errado.
Você conhece o conceito do elefante de Milanovic?
Claro.
Porque, em parte, é o que você está descrevendo, não é? O economista sérvio Blanko Milanovic mostra isso num gráfico que lembra o contorno de um elefante. Os muito miseráveis, que começam lá embaixo na calda, subiram muito no período da globalização. A classe média da Ásia floresceu (o dorso do elefante), mas a classe média do Ocidente estagnou e os operários desceram (a cabeça do elefante rumo à base da tromba). Aí vêm bilionários, tromba acima, que explodiram. É deste movimento nosso ressentimento?
Sim. Os miseráveis que melhoraram muito rápido, na visão desses brasileiros críticos, melhoraram por programas sociais que não são considerados “mérito”. A classe média tradicional se sente achatada: os mais pobres estão se aproximando dela e os muito ricos ficando distantes. O brasileiro no livro fala com eloquência sobre isso.
Se você pensa com a cabeça da classe média tradicional, o que aconteceu é que os muito ricos ficaram muito mais distantes, e uma turma enorme ficou muito mais perto. Traz para o jogo as lojas online chinesas, e a turma da periferia passou a ter acesso a um tipo de consumo que antes só nós, da classe média tradicional, tínhamos. A diferença pelo consumo acabou em relação aos mais pobres, e os ricos ficaram muito longe.
Exato. O que é o espelho do Brasil na dinâmica social? Primeiro, uma visão de que a mobilidade é impossível, como se vivêssemos em castas. A casta de cima não quer que a de baixo suba, e a de baixo acha que não vai chegar lá por esforço. A outra coisa é que, para nós brasileiros, ter coisa é mais importante do que ser. O status social, no Brasil, é coisificado. Ele é baseado em quantas coisas você tem.
Mas deixa eu provocar, aqui. Um dos vídeos recentes meus que mais geraram irritação, vindo da esquerda, foi um no qual afirmei que, se você ganha R$ 15 mil por mês, já está colando ali no topo do 1% mais rico do Brasil. Um monte de gente ficou irritada dizendo que “eu não entendo o que é elite”.
É a demonstração clara desse diagnóstico. Porque não é só ter dinheiro, é que tipo de acesso esse dinheiro te dá. A irritação vem da compreensão de que R$ 15 mil não compram “coisa de rico”. Você tem que analisar que carro tem, que viagem faz. Quando as pessoas percebem que o outro, que em tese está mais baixo, passa a viajar de avião ou frequentar o shopping como você, isso irrita. Porque, na visão desse brasileiro ressentido, ele está fazendo isso sem mérito.
Para que serve o Estado para nós, brasileiros?
O Estado é uma unanimidade no Brasil. Todo mundo quer mais Estado. Para gerar qualidade de vida, cuidar, oferecer saúde e segurança. O Estado, para nós, ocupa o lugar que a relação de confiança ocupa em outras sociedades. Como você não confia no outro, precisa de muito Estado e muita lei. Mas. Veja, não é um Estado redistributivo, é um Estado distributivo. Ele tem que dar as mesmas condições para todo mundo. Se o pobre tem direito a um benefício, o rico também quer ter, mesmo que não precise. O brasileiro acredita na manutenção da desigualdade porque a maior parte acha que os pobres não fazem por merecer para melhorar de vida. E quem é o pobre nessa visão? Quem recebe até dois salários mínimos.
Mas então me explica isso: a classe C, a população da periferia urbana, cresceu concretamente. Mas votam nos mesmos candidatos que a classe média tradicional mais ressentida. O que acontece aí?
Vamos voltar no ressentimento. Houve uma promessa política de que, se você entrasse na universidade, viraria doutor. Quando essa primeira geração saiu com o canudo na mão, encontrou um mercado de trabalho aos frangalhos, incapaz de absorver essa mão de obra. Até porque o mercado não encontrou capital humano mais qualificado. Essas universidades novas não entregam este resultado. Isso produziu uma frustração gigantesca. O sonho de virar doutor se realizou no motorista do aplicativo ou na entrega do delivery. Os pais são pobres e valorizam os programas sociais, mas os filhos têm uma visão diferente: eles não acham que o Estado vai ajudá-los, porque carregam a frustração de não ter conseguido realizar o sonho da ascensão via diploma. Eles votam como a classe média estagnada porque estão frustrados. Você junta os ressentidos com os frustrados.
Parece que sua conclusão é de que uma das raízes fundamentais do nosso problema está na qualidade de ensino. A pesquisa tem dados capazes de mostrar isso?
Sim. Fizemos tipo um “ENEM” com quatro perguntas sobre a realidade do país. Se o PIB está subindo ou descendo, depois o mesmo sobre desemprego, homicídios e mortes na Covid. Quarenta de dois por cento dos brasileiros não acertaram nenhuma das quatro perguntas. A média de acerto foi 0,82 em 4. Mas fica mais desafiador: perguntamos quantas perguntas eles achavam que tinham acertado. A média da autoavaliação foi 2,82. Acharam que acertaram mais da metade. Ou seja, vivemos a “ilusão do conhecimento”. As pessoas acham que sabem muito mais do que sabem de fato. Qual a consequência disso no debate público? É conversar todo dia com gente que acha que sabe e vai ficar tentando convencer a você de que está certo. Faz isso com um grau de convicção que anula qualquer capacidade de diálogo, debate, escuta. Quando tento confirmar meu viés, meu conhecimento equivocado, produzo no outro uma irritação enorme. O outro também acha que sabe. Somamos ressentimento, uma sociedade dividida em tribos e com ilusão do conhecimento. A consequência disso também não é democracia, é o contrário. É convicção e não debate. É dogma e não visão crítica.
Existem duas fontes de redução dessa ilusão: educação e jornalismo profissional. Quanto mais escolarizado, menor a ilusão do conhecimento. É o “só sei que nada sei”. E, olha que curioso: os homens acertam mais que as mulheres na prova. Sabe por quê? Porque chutam mais. As mulheres admitem com mais frequência o “não sei”.
Então qual a diferença entre homens e mulheres do ponto de vista de valores?
As mulheres são o motor das mudanças de valores no Brasil. Os homens são a âncora conservadora. O que é esperado do masculino ainda é muito tradicional: força, trabalho, coragem, proteção. Para o feminino, ainda se espera cuidado, mas agora também se espera trabalho e, veja, dupla coragem: coragem para mudar o status quo e coragem para lidar com o perigo do mundo. O Brasil é um país muito hostil à mulher. Vinte e cinco por cento dos brasileiros dizem ter sofrido discriminação de raça. Mas 38% das mulheres dizem ter sofrido discriminação de gênero. Como 20% dos domicílios são compostos exclusivamente por mulheres e metade já é chefiado por elas, esse protagonismo está empurrando a conversa sobre valores para uma visão mais autoexpressiva, enquanto os homens continuam conservadores.
Vamos entrar em esquerda e direita, então? Que tipo de gente tende a ser de esquerda e que tipo tende a ser de direita?
O que mais faz diferença é a socialização na infância. Aqueles que viveram sob escassez, instabilidade e insegurança tendem a se declarar mais de direita. Quem viveu abundância e segurança, mais de esquerda. A escolaridade interfere nisso, produzindo uma visão mais à esquerda. Mas há um dado curioso: o eleitorado do Lula tem um contingente enorme de conservadores. Metade da esquerda brasileira é conservadora: defende o Estado e programas sociais, mas também defende família, fé e Deus. Já a direita é mais homogênea: quase 70% de quem se diz de direita é conservador. Hoje, temos uma sociedade de centro-direita: cerca de 40% de direita, 40% de centro e 20% de esquerda.
Mas, então, vamos finalmente às bolhas. Quais são elas?
As identidades passaram a determinar o comportamento dos brasileiros mais do que a classe, sexo, idade ou escolaridade. Então foi preciso entender os valores da sociedade como um todo. Usamos essa bateria de perguntas para agrupar as pessoas em segmentos dos que têm os mesmos valores, preferências e atitudes. Ou seja, não somos mais apenas brasileiros. Somos nove tribos que convivemos no mesmo espaço geográfico.
Não nos vemos mais como brasileiros?
Calma. Ainda há o que nos une. Temos valores diferentes, mas Deus, família, individualismo, desconfiança e insegurança nos aproximam demais. Esse é o achado do livro. Embora a gente viva em tribos e bolhas, essas bolhas são mais parecidas do que sugerem quando olhamos apenas para a política. É na política que são muito diferentes.
Então, quem são os nove grupos?
Primeiro, o Militante de Esquerda. É um grupo marcado basicamente pela ideia do partido político, da vivência partidária, e 7% da sociedade se encaixa nessa bolha.
Depois os Dependentes do Estado. É quem sabe que depende do Estado para o seu bem-estar. É quem defende a creche, a escola pública, quem precisa do ônibus e do transporte coletivo, dos programas sociais, senão a vida é muito pior. Esse é o segundo maior grupo dentre todos, 23% do Brasil.
Aí temos os Progressistas. É aquele grupo que combina ser de esquerda com a pauta progressista: defesa das minorias, a discussão da agenda ESG, woke. Eles compõem 11% do Brasil. Temos os Liberais Sociais. Esse grupo compõe aproximadamente 5% do eleitorado e é o antigo tucano. É aquele que defende a economia liberal, mas acredita na social-democracia, num papel do Estado.
Na sequência, os Empreendedores Individuais. Esse grupo é novo. É filho dos Dependentes do Estado. É aquele grupo que está frustrado porque foi para a universidade e acabou virando motorista de aplicativo, entregador de delivery, vendedor de loja ou trabalhador informal precarizado.
Esses são os cinco grupos que foram fundamentais para eleger Lula, em 2022. Os liberais sociais e empreendedores individuais votaram no PT pela primeira vez por rejeição absoluta a Bolsonaro.
Do outro lado, o que a gente tem?
Vamos lá. Os Conservadores Cristãos, que são a maior identidade, a maior tribo brasileira: 27% do eleitorado. É o público majoritariamente evangélico ou católico conservador. A religião e a família são muito importantes para esse grupo.
Daí, o Agro (13%), que cada vez mais é uma identidade sertaneja que cresce no Brasil, ligado ao produtor e à ideia da terra. Os Empresários (6%), o burguês que investe, emprega e faz, no sentido mais clássico. E, por último — e acho que essa é a grande contribuição do livro —, a Extrema Direita. São apenas 3%.
Esse é o susto que todo mundo toma. Como é que a extrema direita só tem 3%?
Equivocadamente optou-se por misturar o eleitor que votou no Bolsonaro com o fato de o Bolsonaro ser de extrema direita, como se todo mundo fosse igual. A verdade é que há um enorme contingente de conservadores cristãos, do agro e empresários que votaram no Bolsonaro contra o projeto do PT, mas não por acreditar na visão da extrema direita. Mas não é que a extrema direita não exista. São 6 milhões de brasileiros. É muita gente. Mas está longe de ser o todo do eleitorado de Bolsonaro.
O que diferencia esses 3% do resto?
Cem por cento deles defendem que um regime autoritário é melhor do que uma democracia. Essa é a variável definidora.
Sinto falta de explorar um pouco melhor Liberais Sociais e Empreendedores Individuais. Este é o grupo que nunca votou no PT e, desta vez, definiu a eleição presidencial.
Eu e Thomas Traumann mostramos em Biografia do Abismo que o comportamento eleitoral está calcificado. A esquerda, os dependentes do Estado e os progressistas estão fixados de um lado. Do outro, a extrema direita, o agro, o empresário e o conservador cristão, também. Mas estes dois grupos estão se movendo na sociedade. Os Liberais Sociais e os Empreendedores Individuais estão em disputa.
O Liberal Social está em disputa porque a vida inteira votou contra o PT. Até que o medo de um golpe fez com que eles abrissem mão de identidades divergentes e se aliassem ao Lula. Ele é urbano, de classe média tradicional, muito bem educado, cosmopolita. Lê muito, gosta de debater. A insatisfação desse grupo com o governo, hoje, é muito alta.
Agora, vamos falar do Empreendedor Individual. Ele é majoritariamente masculino, tem renda baixa, mas se considera de classe média e se comporta como classe média. Ele se cansou do Estado como solução. Viu a mãe ter a vida inteira Bolsa Família e não quer manter essa dependência. Essa visão de que o Estado é prejudicial faz com que ele queira ter flexibilidade no trabalho. É o grupo que acha que patrão é um horror, que escraviza. Ele quer liberdade para empreender. Em 2022, o grupo se dividiu. Mas, depois que o governo Lula passou a discutir a regulamentação do trabalho em aplicativo, o grupo se distanciou. Eles acham que o governo não os entende, não fala a mesma língua.
Então imagino que, quando o Tarcísio fala que “o Brasil precisa mudar o CEO”, esse empreendedor individual adora esse discurso.
Sem dúvida. As pesquisas mostram o país dividido e o Lula perdendo a maioria porque boa parte desses empreendedores individuais mudou de lado. Mas ainda estão em disputa. Esse grupo não é ideológico, é pragmático. Ele busca o sonho concreto da melhora de vida. Ele é aquele frustrado do ensino superior que ainda acredita que pode vencer pelo mérito e pela flexibilidade. E para não deixar escapar, tem um ponto que unifica a volatilidade do liberal social e do empreendedor individual: o medo da violência urbana. Nas capitais, 70% dos brasileiros têm medo de andar na rua. Esses dois públicos, por motivos diferentes, são muito sensíveis a isso.
As rotas para livrar Bolsonaro
O presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro já ocupavam seus lugares no auditório do centro empresarial Brasil 21, na Asa Sul, em Brasília, antes mesmo das 14h. Era o horário marcado para a reunião de emergência convocada para alinhar a reação do partido à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Havia dois dias, Bolsonaro fora levado para a Superintendência da Polícia Federal, a onze quilômetros dali, após violar a tornozeleira eletrônica e ter a prisão domiciliar convertida em preventiva. E, na terça-feira, soubera que permaneceria onde estava: com o trânsito em julgado decretado, começaria ali o cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado.
Mas naquela segunda-feira, a engrenagem ainda girava em outro tempo. Lidavam com o peso imediato da transferência para a cela e a iminência do encerramento definitivo do caso. Aos poucos, como peças retornando a um tabuleiro em movimento, o grupo começava a se recompor. Chegaram os filhos que ainda permanecem em solo brasileiro, o senador Flávio Bolsonaro e os vereadores Carlos Bolsonaro e Jair Renan. Vieram também as figuras que formam o músculo político do PL, os líderes: deputados Sóstenes Cavalcante e Luciano Zucco, e os senadores Rogério Marinho e Izalci Lucas. A eles se somaram nomes como Nikolas Ferreira, Paulo Bilynskyj, Altineu Côrtes e tantos outros.
Do lado de fora, jornalistas esperavam sob um ar-condicionado impiedoso. Embora alguns tenham ido embora por conta do frio, a baixa temperatura era um detalhe menor diante do que se decidiria ali dentro. Quando as portas se abrissem, o PL revelaria sua estratégia. E elas só se abriram depois das 17h. Todos os olhos, então, foram capturados por Flávio Bolsonaro. Coube ao “Zero Um” verbalizar a ofensiva pela anistia. “A gente acabou de ter uma reunião muito importante para redirecionar a oposição no Congresso Nacional e saímos daqui com a voz uníssona de que o nosso objetivo único, a partir desse momento, é a aprovação do projeto de lei de anistia na Câmara dos Deputados e, tendo êxito, obviamente, no Senado Federal”, disparou diante dos microfones.
A fala revelou nuances do que se passara a portas fechadas. A “voz uníssona” fora, em parte, construída depois de uma bronca de Michelle Bolsonaro, que cobrou unidade e clamou que as disputas internas ficassem de lado em nome da resposta legislativa. De que forma essa resposta viria a se materializar escapou minutos depois, quando Flávio avançou no discurso. “Sempre deixamos bem claro que a dosimetria é um tipo de acordo que nós não faríamos. O que sempre pedimos foi que a democracia prevalecesse. O relator pauta o relatório dele, com a redação que bem entender — que ele diz já publicamente que é em relação a dosimetria —, e vamos usar os artifícios regimentais para aprovar a anistia”, afirmou.
Líder da oposição do Senado, Rogério Marinho aprofundou o recado: “O que nós queremos é que o Parlamento cumpra seu papel. Não obrigamos ninguém, nem queremos compromisso de mérito; queremos que cada deputado possa, de forma livre, colocar de que maneira enxerga esse problema. Nós defendemos a anistia, e alguns defendem a dosimetria. Que o voto vença e que o debate seja desinterditado.” Desinterditado. A palavra apontava diretamente para o centro do impasse que se arrastava havia semanas.
Presidente fantasma
Após seis relatórios e um cabo de guerra exaustivo entre o projeto enviado pelo Executivo e o texto relatado pelo deputado Guilherme Derrite (PP), a Câmara dos Deputados finalmente aprovou, com 370 votos, o Projeto de Lei Antifacção (PL 5582/2025), rebatizado de Marco Legal da Segurança Pública contra o Crime Organizado. A aprovação coroava dias de negociações cerradas. Quando o texto final chegou ao Plenário, as pontas pareciam amarradas. Ou, ao menos, era o que supunha o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A ilusão durou pouco. A oposição tentou emplacar um destaque para classificar facções como grupos terroristas. Motta já havia combinado que este ponto ficaria de fora. Ele barrou a votação, alegou que o destaque era “estranho ao projeto”, e engoliu seco. Fez o bico habitual de quando é contrariado. De microfone desligado, ainda sentado na mesa diretora, gesticulava irritado com líderes do Centrão e da oposição. Não gostara nem um pouco de ser escanteado de negociações que imaginava comandar.
A resposta foi digitada pela madrugada. Às duas da manhã, Motta enviou a Sóstenes, líder do PL na Câmara, pelo WhatsApp: “nunca mais conte comigo para nada”. O mal-estar estava instaurado. E não apenas com a oposição. Exaurido após semanas de críticas públicas feitas pelo líder do PT, Lindbergh Farias, Motta rompeu com o partido. Decidiu articular a formação de um bloco parlamentar sem o PT e o PL, reunindo 275 deputados do União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB, Cidadania e Podemos.
Nos dias seguintes, o azedume se cristalizou. A reunião de líderes, um dos principais instrumentos à disposição do presidente da Câmara, simplesmente deixou de ocorrer. É nesse encontro, tradicionalmente realizado entre terças e quintas-feiras, que se negociam pautas e se fecham consensos. Mas nesta semana… nada. Silêncio. Nenhuma reunião fora convocada. E isso, para Brasília, é notícia demais.
É nesse terreno instável que a oposição tenta emplacar a anistia. “Esperamos que isso aconteça nesta semana ou, no máximo, na semana seguinte”, disse Marinho ainda no discurso de segunda. Mas, sem reunião de líderes, não houve sequer o espaço formal para a construção de um acordo. As costuras aconteceram por fora.
“É conversa que não acaba mais”
A oposição garante que a temperatura com Motta baixou. Flávio, à frente das negociações, tem falado com ele quase diariamente. Também conversa com líderes do Centrão, ao lado de Rogério Marinho, Sóstenes Cavalcante e Luciano Zucco. Ainda assim, interlocutores admitem que o presidente da Câmara hesita em pautar o projeto de anistia. “É conversa que não acaba mais. Eles conversam com o Motta desde fevereiro, todas as semanas, sem exceção. Agora, ainda mais por conta do fim do ano”, diz um deles.
Essa mesma fonte reconhece que a janela de votação está estreita. Falta menos de um mês para o fim do calendário legislativo. E, até 22 de dezembro, outras pautas devem atravessar o Plenário. Entre elas, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que define as bases do Orçamento de 2026, e a Lei Orçamentária Anual (LOA), que autoriza a execução dos gastos a partir de janeiro.
Outro nome próximo ao núcleo duro das negociações avalia que Motta coleciona poucos êxitos, e um dos raros foi justamente a aprovação do PL Antifacção. Talvez seja caro demais gastar esse capital recém-adquirido ao pautar uma matéria tão controversa. “Ele vai ser cauteloso, vai olhar pesquisas de opinião, sentir como está o clima”, analisou. Um levantamento do PoderData, de outubro, mostra que 64% dos brasileiros são contra a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro.
Para contornar o receio de Motta, a oposição traça três rotas. A primeira é insistir que ele paute o projeto, mas sem repetir a ofensiva de agosto, quando ocuparam as mesas da Câmara e do Senado, ou ameaçar obstrução, ao menos por ora. A estratégia é demonstrar que há sustentação política e pressionar Motta a transferir a decisão ao Plenário. Argumentam que, se os deputados aprovarem ou rejeitarem, o peso será coletivo; e eles que se entendam com o eleitorado. Se o presidente da Câmara se recusar a pautar, a responsabilidade recairá exclusivamente sobre ele. Caso Motta ceda ao argumento e leve à votação o texto do relator Paulinho da Força (Solidariedade) — voltado à dosimetria, não à anistia — a oposição já tem a manobra engatilhada: apresentar um destaque de preferência para substituir o texto principal pelo projeto de Marcelo Crivella, que concede anistia integral. (Vale lembrar que Paulinho ainda não apresentou qualquer versão de seu texto publicamente).
Com a artimanha, a oposição insistirá na anistia “ampla, geral e irrestrita”. O destaque, no entanto, pode ser rejeitado. Assim, admitem recuar para a redução de penas, não para a dosimetria. Sóstenes faz questão de enfatizar que “dosimetria é prerrogativa do Judiciário”, ou seja, definir penas cabe à Justiça, não ao Parlamento. A ideia em discussão deixaria livres os envolvidos de menor participação e reduziria a pena do núcleo principal. “Flávio só quer ver o pai solto”, resume um aliado próximo. Embora o regime de urgência tenha sido aprovado por 311 votos a 163, Sóstenes projeta um placar mais modesto para o mérito: “entre 280 e 290”.
Se nada disso prosperar, entra em cena o plano B: começar no Senado. Ali, calculam que o terreno é mais fértil, diante do ressentimento do presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) com o governo Lula, que preteriu seu aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga no Supremo Tribunal Federal, escolhendo Jorge Messias. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), rebate: “A manobra fere o regimento”.
Pelo rito legislativo, nenhum projeto pode simplesmente “ser puxado” para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sem antes existir formalmente no Senado. Também sequer é possível importar, por requerimento, um texto que a Câmara se recusou a pautar. Para que a tramitação começasse pela Casa Alta, seria preciso reconstruir tudo do zero: um senador teria de protocolar um novo PL de anistia; a Mesa Diretora precisaria enviá-lo à comissão de mérito — e, tratando-se de matéria constitucional, penal, processual ou eleitoral, o destino natural seria a CCJ. A partir daí, abrir-se-ia o trâmite ordinário: o presidente da comissão designa um relator; o relator elabora e apresenta seu parecer; a comissão debate e vota o texto. Só então, se aprovado, o projeto seguiria ao Plenário do Senado. E, dali, aprovado novamente, seria remetido à Câmara para iniciar outra rodada de discussões e votações. Há tempo hábil até o final do ano legislativo? Qualquer tentativa de abreviar esse percurso seria suficiente para deflagrar uma guerra regimental.
Se essa segunda rota também naufragar, a oposição guarda uma última carta na manga: o projeto que internamente apelidaram de “Fim da Lei dos Exageros”, o PL 5977/2025. A proposta, de autoria do senador Carlos Viana (Podemos-MG), pretende simplesmente revogar os crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado. Os dispositivos foram incluídos na reforma da antiga Lei de Segurança Nacional. Há um detalhe irônico: foi o próprio Bolsonaro quem sancionou essa mudança na legislação em 2 de setembro de 2021; quatro anos depois, em 2 de setembro de 2025, o STF iniciaria o julgamento que o condenaria com base nela.
A articulação para aprovar a urgência da matéria é conduzida por Rogério Marinho. Segundo aliados, já há 35 assinaturas, acima das 27 necessárias, o que acendeu o alerta no Planalto, especialmente em meio à crise aberta com Alcolumbre. Se a urgência passar, o texto pode avançar com velocidade. E, se aprovado, abriria caminho para reduzir a pena de Bolsonaro para apenas seis anos, relativos aos crimes de organização criminosa armada, dano ao patrimônio público qualificado pela violência e grave ameaça, e deterioração de patrimônio tombado — tempo suficiente para permitir o cumprimento em regime aberto.
No governo, contudo, a avaliação é de que o risco é mínimo. Auxiliares de Lula apostam que, mesmo que o Senado aprove a mudança, ela não sobreviveria ao crivo do Supremo. Essa leitura, aliás, é compartilhada por setores da própria oposição, que veem no projeto mais uma peça de pressão política do que uma via real de reversão da pena. Por isso, apesar dos atalhos e manobras possíveis, o centro de gravidade permanece no mesmo lugar: a anistia. “Deve ser pautada na semana que vem… Mas eu já tô até com vergonha de dizer isso”, desabafou uma aliada próxima às negociações.
Forças da natureza
A natureza opera de forma misteriosa. No caso da atriz Maria Manoella, ela exerce um papel central em seus dois trabalhos mais recentes. A peça Escute as Feras, adaptação do livro da francesa Nastassja Martin, que narra um encontro devastador entre a antropóloga e um urso na Sibéria, com consequências profundas tanto no corpo como na psique da autora. E a recente exposição Onda, Avalanche e Vulcão, feita em parceria com seu namorado, o fotógrafo Mauro Restiffe, para a galeria Fortes, D’Aloia e Gabriel, em São Paulo, em que são intercaladas as forças do amor e da sedução e as naturais. “A exposição com o Mauro fala dos encontros radicais e alteradores, da potência dos encontros, que é um pouco o que o Escute as Feras também fala”, diz.
Escute as Feras está atualmente em sua terceira temporada, em cartaz às quartas e quintas, até 11 de dezembro, no Teatro Estúdio em São Paulo. A peça estreou no Sesc Ipiranga em novembro de 2023, e teve uma curta segunda temporada, gratuita, no teatro Cacilda Becker em 2024, uma exigência do edital do ProAC, fundamental para a realização do projeto. A peça é quase um monólogo, uma vez que Manoella faz o papel de Nastassja, mas tem no palco também Lúcio Maia, o guitarrista da Nação Zumbi, que dispara a trilha sonora em tempo real, o que acaba se transformando, na prática, em um diálogo entre texto e som. O novo teatro traz uma dimensão diferente para a montagem, proporcionando uma relação mais próxima com a plateia porque “a gente está no mesmo nível do espectador, o que traz uma relação mais íntima”.
A ideia de adaptar o relato verídico da francesa foi da própria Manoella com a editora Fernanda Diamant, sócia da editora Fósforo. No desenvolvimento da dramaturgia, uma terceira voz entrou em cena, a da diretora Mika Lins. As três decidiram se ater mais à questão da ação física da protagonista, priorizando o “caderno branco”, a parte mais antropológica e factual do livro, em detrimento do mais onírico “caderno preto”.
Um elemento crucial adicionado à peça foi a voz do urso, sugerida por Fernanda Diamant a partir de um conto-resposta ao livro, escrito por Ana Paula Pacheco. Para Manoella, dar voz ao urso “amplia muito o debate em torno da territorialidade e do eurocentrismo, da exploração daquele espaço, do colonialismo”. Lúcio Maia trouxe uma camada a mais ao sugerir usar a figura da La Ursa, personagem do carnaval pernambucano, para materializar o urso em cena. O que resolveu um impasse: “tudo que eu construía, que eu fazia fisicamente, lembrava tudo menos um urso, podia ser um macaco, uma fera, mas não um urso”, conta Manoella, defendendo que o uso da La Ursa ajudou a dar um “feliz final para essa peça” e a evitar a melancolia.
Intimidade impressa
No hiato entre as duas montagens, aconteceu a exposição Onda, Avalanche e Vulcão, que ocupou o galpão da Fortes D’Aloia e Gabriel em São Paulo de agosto a outubro deste ano. A exposição era composta por imagens da intimidade sexual de Mauro e Manoella, intercaladas com imagens da natureza. Segundo Manoella, ela surgiu de forma espontânea, depois que ela e Mauro começaram a namorar. “Ele começou a trazer a câmera pros nossos encontros” e perguntou se ela se incomodaria de ele fotografá-la. Obviamente, ela não se incomodou. “Como o Mauro tem um processo analógico, que é um processo lento, no sentido de que ele vai fotografando, depois ele junta um monte de filme e manda revelar, passaram-se uns meses, ele me liga um dia e fala: ‘Manoela, eu comecei a revelar aqui meus últimos filmes e queria que você desse uma olhada, porque eu estou começando a enxergar um trabalho muito muito louco e queria que você visse para me dizer se você vê o que eu tô vendo.”
Olhando os contatos, já com as fotos que ele tinha circulado, Manoella confessou ter ficado “um pouco assim ressabiada, um pouco assustada,” sem saber se tinha coragem de expor isso. Mas ficou com a ideia na cabeça. Um tempo depois, ela leu uma matéria no Globo sobre três tipos de orgasmos femininos, intitulados “onda, avalanche e vulcão” e brincou: “Olha, a gente já tem o título da nossa exposição”. A partir daí entrou o elemento natural e os dois foram para a Islândia para o Mauro fotografar os vulcões que integram a exposição. Manoella chegou a sugerir a ilha Lanzarote, menos fria em dezembro, mas Mauro já estava com uma coisa na cabeça e queria trazer neve e a paisagem vulcânica para essa mistura de paisagens e corpos. No meio do processo, Manoella também assumiu a câmera, primeiro timidamente, pedindo para o Mauro fazer o foco, para depois desenvolver uma mirada. “Eu não sou uma fotógrafa, eu não tenho um olhar como dele. Mas, observando o corpo dele, eu comecei a desenvolver um olhar fotográfico”.
Uma coisa bacana na carreira de Manoella é o fato de que, seja no teatro, no cinema ou na televisão, ela consegue transitar bem entre projetos mais populares e comerciais e aqueles que dialogam mais profundamente com a arte. Ela vê a carreira de ator, especialmente no teatro, como uma “paixão que maltrata, mas que você não consegue viver sem”, uma “droga muito poderosa”. E mesmo com todo reconhecimento de crítica e público, ela diz que “não tem sido fácil. Eu passo um perrengue financeiro mesmo”.
A falta do “fabular”
Outro ponto interessante que aparece na nossa conversa é sobre a dramaturgia atual. Ela critica a tendência de se “pautar pelas pautas”, sem tirar o mérito das discussões de gênero, raça e orientação sexual. “Eu não estou querendo diminuir a importância das pautas, eu acho que elas são muito importantes, mas tem muita gente oportunista que traz um discurso vazio, a pessoa não está preparada para discutir aquilo”, defende. E lamenta uma certa perda de capacidade de “fabular, de inventar histórias, de inventar ficções” na arte contemporânea.
Para o próximo ano, a atriz tem novos planos. Manoella planeja uma “temporada longa” de Escute as Feras, possivelmente na sala pequena do Cultura Artística. Ela também está começando a planejar um projeto com o diretor Diego Moschkovich, tradutor de Stanislavski direto do russo, que envolveria a adaptação do romance Ferida, de Oksana Vassiákina. O livro é uma autoficção sobre “uma mulher gay, uma curadora e poeta que viaja pela Sibéria com uma urna com as cinzas de sua mãe”. De novo, de alguma forma a Rússia, que já entrara na sua obra em 2016 com o filme Vermelho Russo, feito com a atriz e amiga Martha Nowill e dirigido por Charly Braun, agora parece voltar. “Para mim aquilo é tão outro mundo, é tão fabular, que me permite viver outras vidas diferentes da das minhas. Esse é o barato da profissão, né? Brincar de outras coisas.”
Vocês, que são a nossa audiência mais especial, merecem um presente à altura neste fim de ano. É com imensa alegria que anunciamos que Fernanda Montenegro: Luz e Mistério está chegando no streaming do Meio. No dia 4, lançaremos o documentário: um encontro íntimo com a memória de uma artista que reflete a própria história da arte brasileira. O teaser já está disponível.
Esta semana deu quase só política nos interesses dos nossos assinantes. “Quase” porque às vezes bate fome. Confira as os links mais clicados:
1. g1: Vídeo mostra Jair Bolsonaro na portaria da PF, onde está preso, após visita de Michelle.
2. g1: Bolsonaro afirmou a policiais que utilizou ferro de solda na tornozeleira; veja transcrição da fala.
3. Poder360: Prisão de Bolsonaro vira meme nas redes sociais.
4. g1: Como votaram deputados e senadores na derrubada dos vetos ao PL do licenciamento ambiental.
5. Panelinha: Barrinha de tâmara com cacau.


























