A ideologia de Lula e a de Bolsonaro
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Qual é a sua ideologia? Você já parou pra pensar nisso? Um pedaço importante da Pesquisa Meio/Ideia foi mapear, pela primeira vez, a ideologia dos brasileiros. E uma das coisas que a gente descobriu, de cara, é que esse mapa ideológico explica muito sobre a crise da democracia brasileira.
Vamos lá. 59% dos brasileiros são de direita, 34%, de esquerda. E 6,45% são de centro. Sim. O centro existe. Ele só é um bocado mirrado. Só que isso não é ideologia. Existem muitas maneiras de ser de direita, muitos jeitos de ser de esquerda, e só tem um tipo de centro. Então essa orientação aí numa reta que vai da esquerda à direita é só o começo de um mapa ideológico.
Pra gente mapear as ideologias do Brasil e entender o que elas dizem sobre nossa sociedade, precisávamos de método. A classificação não podia ser aleatória. Bem, a gente pegou o maior especialista brasileiro em ideologias. Christian Lynch. Colunista aqui do Meio. Esse é o trabalho da vida dele. Como é que você faz isso? Mapear os jeitos de entender o Brasil e seu lugar no mundo? Você lê. Políticos, intelectuais públicos, jornalistas. Desde o tempo em que as pessoas estavam discutindo como seria um Brasil independente. E lendo o Christian foi percebendo que havia uma coerência ao longo das décadas e séculos. O jeito que o Frei Caneca pensava o Brasil tem muito do jeito que Rui Barbosa pensava, quase um século depois. Que tem muito de como Fernando Henrique pensou em seu governo mais um século após. Ao todo, o Christian mapeou 10 ideologias. Dez jeitos diferentes de pensar o Brasil.
Vamos começar do básico? Existem muitas maneiras de definir o que é esquerda, o que é direita. Estamos usando, aqui, uma classificação do cientista político britânico Michael Freeden. Ela está na base desse estudo. A esquerda entende que a sociedade é uma construção histórica, humana, e que sua marca é dominação e injustiça. O governo deve lutar para reverter essa injustiça. Esta é a missão fundamental do Estado.
A direita vê algo muito distinto. Para uma pessoa de direita, a estrutura da sociedade não é uma criação deliberada. Aí existem algumas teses. Para um tipo de direita, a mais antiga, a sociedade se organiza de um jeito que foi inspirado por Deus. Para outra, a construção da sociedade vem da história e da cultura. Ela é uma tradição. Um terceiro grupo, a direita mais recente, considera que são as forças do mercado que organizam o jogo. O fundamental aqui é que a força de organização não depende da vontade individual de ninguém e que, justamente porque ninguém tenta mexer, há um equilíbrio. Então qual é a função do governo, do Estado, para alguém de direita? Proteger a maneira como a sociedade se organiza. Garantir que não sairá do equilíbrio. Ou, para a turma mais radical, restaurar a organização mais antiga da sociedade.
O centro vê de um terceiro jeito. Não dá nem pra chamar de um meio termo entre os dois. Porque uma pessoa de centro não acha que existe uma justiça utópica por se alcançar com a força do Estado. Ao mesmo tempo, uma pessoa de centro não acha que existe um equilíbrio perfeito na sociedade. O que um centrista vê no mundo é que injustiça existe e desequilíbrio é constante. Entende que o conflito é dado em qualquer sociedade. O conflito, na verdade, é sinal de uma sociedade saudável. Há debate, há discordância e tudo bem. Não vai mudar. Enquanto houver muita gente junta e essas pessoas forem livres para que digam o que pensam, haverá conflito. Então o que é preciso são instituições que todos respeitam e que cuidem de mediar o conflito tanto quanto seja possível.
No desenho das dez ideologias brasileiras do Christian, não entram apenas esquerda, centro e direita. Levamos em consideração outros dois eixos. Um entre ser nacionalista e ser cosmopolita. É possível ser de esquerda nacionalista e esquerda cosmopolita. Na direita, idem. E são duas esquerdas e duas direitas diferentes. O último eixo é até óbvio. Você pode ser uma pessoa moderada ou uma radical. Ou seja, uma pessoa que acredita que o sistema democrático é capaz de resolver as desavenças ou uma pessoa que considera que, não, não rola. O radical acha que precisa forçar a mão porque a democracia não dá conta de fazer um mundo melhor.
Na nossa pesquisa, somos, os brasileiros, 60% nacionalistas e 40% cosmopolitas. Somos 89% moderados e 10% radicais. Sim. Hoje nós, brasileiros, demonstramos acreditar que a democracia é capaz de resolver o problema.
E como as ideologias se distribuem? E o que elas nos falam sobre o Brasil, sobre nossa crise, sobre Lula e Bolsonaro? Muita coisa.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Você se interessa por compreender melhor as dez ideologias brasileiras? O Christian deu um curso só sobre isso aqui no Meio. Curso em vídeo, uma aula por ideologia, contando sua história, explicando nos detalhes as crenças de cada um. E, para os assinantes premium do Meio, este curso é de graça nesse mês. Basta assinar o Meio Premium e foi. Está no nosso streaming para assistir.
Sabe, o que a gente está tentando fazer aqui, no Meio, é pensar o Brasil. Sim, como digo claramente, eu tenho ponto de vista. Venho de um lugar. Mas uma das coisas que ter a consciência do próprio ponto de vista permite é, justamente, ser capaz de compreender outros pontos de vista. Não quer dizer concordar, claro. Mas compreender é fundamental. Compreender de onde as ideias vêm. Por que os grupos são assim.
Vamos passar este ano eleitoral fazendo exatamente isso. Todo mês tem pesquisa nova. Os assinantes, os mesmos que poderão assistir ao curso do Christian, vão receber em primeira mão, em detalhes, cada nova pesquisa. É um jeito diferente de fazer jornalismo em tempo de eleição. Jornalismo com método. Assine o Meio. Vai fazer diferença na sua compreensão do Brasil.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Esquerda, direita. Nacionalista, cosmopolita. Vamos fazer a combinação? Uma esquerda nacionalista, uma esquerda cosmopolita. Uma direita nacionalista, uma cosmopolita.
O que é ser de esquerda e nacionalista? Pensa Getúlio Vargas. Leonel Brizola. Ciro Gomes. Pensa considerar que o Estado precisa de um imenso esforço não só para corrigir injustiças impostas pela elite como, também, para desenvolver economicamente o país. O nome dessa ideologia: Socialismo nacionalista. 18% dos brasileiros. Muito feminino. 63% de mulheres. Pobre. A maior ideologia do Nordeste, a segunda do Sudeste.
E direita nacionalista? Pensa Juscelino Kubitschek, mas pensa também Ernesto Geisel. Como a esquerda nacionalista, essa turma também acha que o Estado precisa de um imenso esforço para desenvolver o país. Só que, como é direita, precisa de outra coisa. Um Estado forte para manter a ordem pública. Polícia, sabe? Nome: Conservadorismo estatista. 17% dos brasileiros. A maior ideologia do Norte, a segunda maior da Região Sul. Quase três quartos têm no máximo ensino médio.
E a outra esquerda? Pensa o PSOL, o PT das origens. O foco é muito menos Estado e muito mais a sociedade civil organizada. Sindicatos, movimentos sociais, entidades estudantis. Enquanto os getulistas pensam do Estado para baixo, essa turma vai pensar da sociedade para cima. Percebem a diferença? Socialismo cosmopolita. 14% dos brasileiros. 60% recebe de 1 a 3 salários mas, olha, é também a segunda maior concentração de brasileiros com alta renda. Um quarto tem ensino superior, uma média bem maior do que a nacional. Um grupo muito feminino. Muito particular, esse grupo. Junta gente muito pobre com gente com grana.
Duas esquerdas, uma direita. A outra direita grande não é cosmopolita, ela também é nacionalista. Só que de um jeito diferente. O foco dela não é o poder do Estado, mas é estabilidade. O centro da sua vida é a família. Enquanto um quer ordem imposta, essa direita quer paz. Quer tranquilidade. Não quer que as coisas balancem. Se para os conservadores estatistas Bolsonaro e o discurso de ordem pela força soam como música, para estes ele está balançando demais o barco. Para. Conservadores societários. 20% dos brasileiros. Pois é. O maior dos quatro. É um grupo que é o retrato do Brasil no IBGE. 52% mulheres, 48% homens. 47% pardos, 42% brancos. Principalmente classe C. Essa aqui é a direita que votou em Lula contra Bolsonaro em 2022.
Essas quatro juntam 70% dos brasileiros. Todas as outras são ideologias bastante menores.
A quinta é a direita cosmopolita. Libertários. Segunda maior ideologia do Centro-Oeste. 64% são homens, nenhuma ideologia tem um corte que pese tanto para um gênero só. É a turma do mercado, mercado, mercado. 11% do total do Brasil. Daí vêm os reacionários religiosos. O nome explica tudo, não é? As leis de Deus deveriam se aplicar ao mundo. Já foi uma coisa católica TFP, no passado, hoje é muito evangélica. Mas, olha, estamos falando de quase 7%. É isso.
A minha turma, os liberais democratas, vêm depois. 6,45%. Adoraria arredondar pra 7%, mas é forçar um pouco, né? É a única ideologia centrista do Brasil. No fim das contas, a principal preocupação é manter as regras do jogo. Gerenciar conflitos naturais pelas instituições democráticas. A democracia é a ideologia. É o grupo com maior concentração de pessoas com alta renda, o segundo são os Socialistas cosmopolitas. É o grupo com maior presença de pessoas com ensino superior, 30% do total.
Aí, por fim, os ultra-nanicos. Fascistas, 2,8% da sociedade. Maior concentração no Nordeste. E Comunismo nacionalista, a turma do Jones Manoel, do João Amazonas, de Luis Carlos Prestes. 0,7% do total.
A gente vai falar muito de ideologias e de eleições, este ano. Mas guarda essas duas informações. Das pessoas que respondem que vão votar em Lula ou alguém da família Bolsonaro sem você oferecer nenhum nome, quer dizer, aquela pesquisa espontânea, a gente pega a base de cada grupo. Lula tem uma base de 30% dos eleitores. A família Bolsonaro, quase 20%. São bases grandes. Na base dos Bolsonaro, só 15% são de ideologias de esquerda. Da base de Lula, 45% são de ideologias de direita. A gente já sabia que conservadores votam em Lula. André Singer já tinha sacado isso quando criou o conceito de Lulismo. Agora a gente vê com nitidez. Pessoas com valores de direita que veem, em Lula, estabilidade. Por isso aqueles conservadores societários gostam dele. Por sentirem que ele oferece essa estabilidade. Essa é a primeira informação importante.
A segunda informação é a seguinte. Destas ideologias, três são solidamente democráticas. Conservadores societários, Socialistas cosmopolitas e Liberais democratas. Nunca, na história do Brasil, alguém de um desses grupos pediu golpe. É uma gente firmemente democrática.
Três são grupos que operam primordialmente na democracia mas, no limite, se o conflito está muito intenso, aí viram pruma solução autoritária. Conservadores estatistas, socialistas nacionalistas e Libertários econômicos. A gente tem uma lista de pessoas desses grupos, no passado e no presente, que pediram, tentaram ou deram golpes de Estado.
E três grupos são radicais. Simplesmente não acham que a democracia resolve. São os Reacionários religiosos, os fascistas e os comunistas. Mas esses todos juntos dão 10% dos brasileiros e não se entendem.
Por que essa informação é importante? Bem, 30% da base de Bolsonaro são Conservadores estatistas e 20% são Libertários. Metade da base bolsonarista, em momentos de muita disputa de ideias, quando a coisa está pesada, vem de ideologias que têm um histórico de topar um ditador. O problema é que eles não se entendem, tá? Porque os conservadores estatistas aí querem Estado pesado na economia e os Libertários querem o contrário. Então a junção é impossível? Bem, no Chile Augusto Pinochet fez funcionar.
A gente só está começando a estudar isso. Vem muito mais aí.


