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A direita segue submissa a Bolsonaro e faz campanha para Flávio sem querer

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Jair Bolsonaro estava certo. Ai, chega a doer nos meus ossos dizer essa frase. Mas vamos lá. Não me deixem só — e vamos torcer pra alguém mudar esse meu diagnóstico até outubro.

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Bolsonaro estava certo não sobre o golpe, não sobre a pandemia, não sobre quase tudo que ele disse e fez ao longo de décadas. Mas sem querer, ou intuitivamente, ou aconselhado por alguém, ou numa surpreendente leitura estratégica, ele acertou: a direita brasileira está submissa a ele. Submetida aos seus desígnios.

O capital eleitoral e político de seu sobrenome era intransferível. Só alguém com seu sobrenome poderia carregar o capital político que ele construiu e, assim, assegurar seu lugar em um dos polos da política brasileira por mais algum tempo.

Pelo menos é assim que os atores políticos desse campo vêm se comportando. O colunista da Folha e do Foro de Teresina, Celso Rocha de Barros, vem dizendo algo nessas linhas. Pedro Doria, diretor de jornalismo do Meio e colunista do Globo, rebateu, afirmando que os políticos se adequam aos desejos da sociedade. Eu quero dar meu pitaco.

Quando escolheu o filho Flávio para ser o candidato da direita em 2026 — de dentro de uma cela, preso por tentativa de golpe de Estado, condenado a 27 anos — Bolsonaro não estava sendo passional. E os números estão dando razão a ele.

Flávio Bolsonaro saiu do zero em dezembro de 2025, quando foi apresentado à opinião pública como pré-candidato, e chegou até a dizer que poderia negociar sua saída do pleito, para um empate técnico com Lula no segundo turno em março deste ano. Nenhum nome da direita chegou perto. E a pergunta que me parece mais relevante não é “Flávio vai ganhar?” — é “por que a direita não conseguiu, ou não quis, oferecer outra coisa?”

Porque a direita tinha tudo para oferecer outra coisa, gente. Tinha tempo — quatro anos de oposição. Tinha motivos de sobra para se diferenciar: a pandemia, o 8 de janeiro, e, no final, uma condenação por tentativa de golpe de Estado com provas que a própria Polícia Federal documentou e a Procuradoria-Geral da República assinou.

As pesquisas mostravam que o bolsonarismo duro é uma fatia da direita, não o todo — algo em torno de 12%, ou extrapolando, 20% de capital eleitoral numa base conservadora bem maior. Havia demanda, né? Faltou oferta.

O nome que mais tinha condições de preencher essa lacuna era Tarcísio de Freitas. Tinha trânsito com o mercado financeiro, com o agronegócio, com o eleitorado conservador que não é necessariamente bolsonarista. Mas Tarcísio ficou preso num dilema que nunca resolveu: precisava do aval de Bolsonaro para consolidar a base e nunca conseguiu.

Quando tentou se aproximar, se ajoelhou de vez atacando o STF, foi alvo da máquina de destruição da família. Ele foi ao 7 de Setembro, pediu anistia, disse que a condenação não tinha provas. Pagou o pedágio sem embolsar o prêmio. Por lealdade extrema e, talvez, uma boa pitada de covardia política, não se desligou quando poderia ter se desligado. Vai ser cabo eleitoral do bolsonarismo em São Paulo e, possivelmente, tentar ser o sucessor de Flávio, caso ele se reeleja, em 2030. Mas o cavalo encilhado pode não passar diante dele novamente.

Os outros candidatos da direita fizeram escolhas parecidas. Ratinho Jr. hesitou o quanto pôde para lançar sua pré-campanha. Admitiu finalmente que quer ser o candidato do PSD com o discurso do “passar a régua” — em entrevista ao Meio — e do “virar a página”. Ou seja, de anistiar o golpismo e seguir adiante, como se isso não fosse alimentar um monstro com uma mão e acarinhá-lo com a outra.

Romeu Zema disse à Folha que chamar o regime militar de ditadura é “questão de interpretação” e que caberia aos historiadores debater isso. Caiado foi ao Roda Viva e recusou a responder se 1964 a 1985 foi uma ditadura. Ambos prometeram anistia a Bolsonaro caso eleitos. Nenhum apostou na diferenciação real como estratégia. E eles tiveram essa chance, é isso que eu quero muito sublinhar.

Fica aqui comigo pra gente analisar juntos esse sintoma político da direita brasileira. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Viu que eu falei ali no começo que o Pedro Doria, meu querido chefe, pensa de um jeito e eu ia dar meu pitaco em outro rumo? É isso que a gente faz por aqui. Nossa cobertura de eleições é factual, com reportagens e curadoria do noticiário. É analítica, com leituras de cenário desapaixonadas. E é de debate e diálogo, com as colunas de opinião trazendo variadas visões de mundo pra você formar a SUA própria ideia. Apoia esse tipo de jornalismo? Então, assine o Meio agora mesmo. São só 15 reais por mês.

Eu acredito que a direita brasileira teve uma chance preciosa de se livrar do bolsonarismo logo depois do julgamento do golpe e a desperdiçou. Agora, está refém dele.

As chances vieram até antes, no 8 de janeiro, naquela caminhada de governadores ao lado do presidente Lula, sobre os escombros deixados pelos golpistas. Mas em setembro de 2025, logo depois que o STF condenou Bolsonaro, 55% dos brasileiros reconheciam que havia acontecido uma tentativa de golpe, de acordo com a Quaest. Era o momento.

A maioria do eleitorado estava disposta a aceitar o resultado e, com isso, potencialmente aberta a uma direita que não dependesse do sobrenome Bolsonaro para existir. Esse momento foi desperdiçado.

Os candidatos que poderiam ter dito “o golpismo acabou, a direita pode ser outra coisa”, com exceção de Eduardo Leite, ficaram quietos, ou relativizaram, ou pediram anistia. Com isso, ajudaram a criar um ambiente de dúvida que corroeu a percepção pública. Em março de 2026, a Meio/Ideia registrava que apenas 39% dos brasileiros ainda reconhecem que houve tentativa de golpe. De maioria para minoria, em seis meses.

Você pode justificar que Leite, o que propõe uma centro direita não bolsonarista, não decola nas pesquisas justamente por se desligar do bolsonarismo. Eu acredito que se fosse um movimento maior, entre toda a direita não radicalizada, todos teriam mais chances. Mesmo por que o efeito prático de aderir ao bolsonarismo tende a ser o mesmo de quem se distancia: o de perder para Flávio. O efeito mais profundo é o de retroalimentar o ambiente em que uma tentativa de golpe é aceitável e em que boa parte da direita brasileira é cúmplice.

O Banco Master acelerou esse processo de descredibilização do STF. O escândalo não seria grave o suficiente para mudar sozinho o cenário, mas chegou no momento certo para quem precisava de munição. A credibilidade do STF, que já era nenhuma no campo bolsonarista, desabou mais. E o que é politicamente danoso é que não está rolando, na cabeça do eleitor médio, a separação entre “o STF errou no Master” e “o STF estava certo no julgamento de Bolsonaro”.

Um escândalo contamina o árbitro. A Meio/Ideia mostra isso com clareza: entre quem acha que a credibilidade do tribunal está abalada, Flávio vai a 60% no segundo turno contra Lula. O bolsonarismo se beneficia da confusão que ajudou a criar — e que o silêncio dos outros também ajudou a criar.

Flávio Bolsonaro não é o bolsonarismo moderado que ele mesmo quer fazer crer que é. Antes de qualquer outra coisa, porque bolsonarismo moderado não existe como produto político — o bolsonarismo é radical por construção. E segundo, porque Flávio ele mesmo não o é. Tem um registro longo de falas e posições que acompanham passo a passo o que o pai sempre disse: a defesa da ditadura militar na ALERJ, as declarações homofóbicas dos tempos de deputado estadual, a negação do golpe de 2022 como “perseguição suprema”, o “uso da força” contra o STF dito à Folha em junho do ano passado caso a anistia não venha, o convite ao secretário de Guerra dos EUA para vir bombardear a Baía de Guanabara.

O problema maior agora é que a janela para uma direita verdadeiramente moderada está se fechando. Os candidatos viáveis da direita — aqueles que teriam condições de disputar um espaço que não fosse o bolsonarismo — estão cada vez mais presos ao discurso anti-STF. Precisam dele para competir no campo conservador.

Mas quanto mais o reforçam, mais pavimentam o caminho de Flávio, que é quem encarna esse sentimento com mais credibilidade e mais radicalidade. Estão fazendo campanha para o adversário com quem deveriam estar disputando votos. É o dilema: para entrar no jogo, aceitam as regras do jogo de Flávio.

Seria muito bom para o Brasil que a direita encontrasse um caminho diferente. Não porque Flávio não possa ganhar — pode, os números mostram isso. Mas porque uma democracia funciona melhor quando as alternativas são reais, quando o eleitor de direita tem onde escolher sem precisar engolir o golpismo junto. Essa oferta ainda pode ser construída. O tempo está apertado, o terreno está mais difícil, e o bonde que deveria ter embarcado em setembro talvez já esteja longe. Mas a eleição ainda não aconteceu.

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