Kassab e Valdemar não querem presidente, querem bancada no Congresso
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Gilberto Kassab não quer eleger um presidente da República.
Valdemar Costa Neto também não quer eleger um presidente da República.
Quer dizer, eles até querem, se vier de brinde. Mas o objetivo de ambos em 2026 é outro: eles querem, cada um com seu partido, fazer a maior bancada possível de deputados federais.
A verdadeira disputa eleitoral de outubro não é entre Lula e Flávio Bolsonaro ou Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. A briga está mesmo entre o PL de Valdemar e o PSD de Kassab.
Os dois estão se posicionando para lavar a égua na eleição legislativa. E, com isso, para mudar definitivamente o jeito de fazer política no Brasil.
Na segunda-feira, eu estive em um evento pela manhã com Valdemar, um almoço do Lide, aquela associação de empresários liderada pelo ex-governador João Doria. Aliás, ele estava lá também, todo sorridente, de volta ao seu papel natural, de lobista do empresariado.
À tarde, eu fui ao evento de lançamento da pré-campanha de Caiado, na sede do PSD. Vou contar um pouco de cada pra vocês entenderem por que estou dizendo que a briga é entre esses dois gigantes aí.
No almoço, Valdemar foi absolutamente incapaz de formular uma frase completa sobre o que Flávio Bolsonaro quer oferecer ao país. Apesar do público bastante simpático ao bolsonarismo, o presidente do PL foi cobrado disso. Afinal, o que Flávio representa, oferece, planeja? “Ele está se preparando muito pra isso, com certeza”, respondia Valdemar, sem qualquer firmeza.
As respostas giravam sempre em torno de encerrar o ciclo de Lula e do PT no poder. Valdemar também enalteceu Michelle Bolsonaro, presidente do PL mulher, e só faltou implorar pra que a família pare de brigar entre si. Agora, sabe o que Valdemar tinha na ponta da língua? O número de deputados e senadores que quer fazer em 2026. Essa conta está pronta.
Ele não fala muito pra que quer tanto deputado e senador, já que até de impeachment de ministro do STF ele já parece ter aberto mão. Mas sabe que quer e precisa dessas bancadas.
Bom, corri de lá pro PSD, achando que o anúncio de uma candidatura presidencial estaria disputadíssima, com muitos correligionários querendo apertar a mão do presidenciável, com muita militância partidária pra fazer barulho e cena pro Jornal Nacional, essas coisas.
Chegando lá, uma meia dúzia de jornalistas se perguntava se não ia ter nem um cafezinho e uma água pros operários da notícia. Kassab e Caiado chegaram e foram cumprimentados por algumas poucas lideranças do partido. As grandes mesmo não estavam lá. Mesmo as de São Paulo. Guilherme Afif Domingos não estava. Heráclito Fortes não estava. Jorge Bornhausen não estava. Felício Ramuth não estava.
Gilberto Kassab não é um orador particularmente carismático. Ainda assim, a apatia com que introduziu Caiado como o escolhido do partido chamou a atenção. Foi uma apresentação protocolar, pouco entusiasmada, insossa. Caiado, a seu modo, fez um discurso mais vibrante — mas a plateia não era lá tão amigável, sendo muito mais de jornalistas do que de correligionários que torcem por ele.
Então, por que Kassab fechou com Caiado, se havia uma turma bem mais efervescente, ainda que pequena, advogando por Eduardo Leite?
Porque Caiado, com seu discurso claro de direita linha dura com o crime e pró-agronegócio e propriedade é capaz de conquistar votos para a Câmara e dividi-los com o bolsonarismo. Leite, com seu discurso liberal e moderado, ainda que de centro-direita, não mobiliza o palanque dos deputados.
Mas a pergunta real a ser feita é: por que, afinal, Valdemar e Kassab querem tanto ter a maior bancada no Congresso?
Eu já te respondo, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Estreou no streaming do Meio uma série que tem tudo a ver com o que a gente conversa aqui: Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros. Sinopse rápida: você vai descobrir por que o Brasil não está dividido em dois, como a gente costuma repetir. Está dividido em cinco. Cinco grupos com vidas diferentes, ideias e sonhos diversos. E quando você entende isso, as conversas que a gente tem aqui toda semana ganham outra camada. O link para ser Premium e assistir está na descrição do vídeo. Assine o Meio!
Bom, a primeira razão pra querer fazer muito deputado é a mais óbvia. É grana, dindim. A professora Lara Mesquita, da FGV, explica o mecanismo que está por trás de cada decisão partidária em 2026. No Brasil, cerca de 80% dos recursos de campanha tiveram origem estatal em 2022, e vêm do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o fundo eleitoral, que neste ano vai distribuir R$ 4,9 bilhões.
A maior parte desse dinheiro é dividida com base no desempenho de cada partido na eleição para a Câmara dos Deputados, assim como o fundo partidário. Quanto mais deputados federais uma legenda faz, mais rica ela fica no ciclo seguinte.
A consequência é direta: partidos têm incentivo para maximizar deputados federais, não presidências. Uma candidatura presidencial que mobilize eleitorado e arraste voto proporcional vale ouro — mesmo que ela perca em outubro.
O número de candidatos presidenciais já conta essa história. Em 1989, 22 candidatos concorreram. Em 2022, 11. Está deixando de ser interessante lançar candidato a presidente se não houver chance clara de vitória — a menos que a candidatura sirva a outro propósito.
O número de partidos também está diminuindo desde a cláusula de barreira e isso, claro, também afeta o número de candidaturas presidenciais. Há menos estruturas partidárias capazes de bancar uma campanha majoritária. Mas, com as transformações de como o dinheiro público é distribuído no país, precisa mesmo de presidente?
O orçamento já está nas mãos do Legislativo, a partir das emendas impositivas. Os recursos para os partidos e as campanhas vão para os partidos via Legislativo. O presidente da República tem cada vez menos poder de decisão e poder de oferecer algo aos partidos para montar sua coalizão.
Acontece que com esse desenho os caciques dos partidos também perderam um pouco de poder, porque os parlamentares ganharam autonomia com as emendas. Eles mesmos recebem os recursos, mandam para suas bases eleitorais e garantem, com isso, o caminho para sua reeleição.
Então, qual o próximo passo que Kassab, Valdemar, Arthur Lira, Baleia Rossi, Hugo Motta e outros caciques estão orquestrando? Mudar o sistema político e o sistema eleitoral, buscando emplacar o semipresidencialismo e o voto distrital misto.
Kassab está em campanha pelo voto distrital misto já faz tempo, o relator do projeto que tramita na Câmara é de seu partido e ele vem percorrendo redações e associações com essa bandeira. Nesse modelo, além de votar num candidato que represente aquele distrito, aquele pedacinho de Brasil, os eleitores votam em um de uma lista que os partidos oferecem.
Isso preserva em boa medida o voto ideológico e, em tese, dá mais responsabilidade aos parlamentares, que serão cobrados mais diretamente por seus eleitores. E volta a fortalecer bastante as lideranças partidárias.
O passo seguinte, conforme diminui o número de legendas e aumenta a força das remanescentes, é instituir o semipresidencialismo, em que o nome de quem governa de fato vem do Congresso, ainda que indicado pelo presidente eleito. É a transição quase completa de poder para o Parlamento.
O problema não está tanto em advogar por isso, em defender isso tudo. São modelos que podem perfeitamente funcionar. Ou não. Cada um tem vantagens e desvantagens.
O problema é que isso não fica claro em nenhum discurso, em nenhuma agenda de campanha. Não existe um debate real sobre isso com a sociedade. PL e PSD podem ser as maiores bancadas do Congresso e decidirem o futuro do nosso sistema político sem que o programa de governo, a visão de país, os planos para o Brasil estejam descritos, claros, uníssonos. As campanhas pra deputados federais costumam ser hiperlocalizadas, e os eleitores normalmente dedidem na véspera em quem vão votar. Seria mais honesto abrir o jogo sobre o que se trata.


