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A régua dupla de Lula

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Ontem, um presidente de esquerda fez o que Bolsonaro fez em 2022. Gustavo Petro, da Colômbia. Iván Cepeda, seu candidato, chegou ao final do primeiro turno com 40,91% dos votos. Abelardo de la Espriella, o candidato da direita, teve 43,73%. Menos de três pontos percentuais, uma eleição apertadíssima. O que o Petro diz? “Não aceito os resultados da contagem preliminar.” Ele vem com a história de que o algoritmo foi alterado três vezes na última semana. É exatamente a gramática de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Fraude nas urnas diz o brasileiro, stop the steal, diz o americano, o algoritmo diz o colombiano. A diferença? Do ponto de vista da democracia? Nenhuma. Mas, claro, Petro é de esquerda.

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Agora, vem cá. Se amanhã o Flávio Bolsonaro se virar e disser, “se o Petro pode, por que é antidemocrático a gente fazer?”, o Palácio do Planalto diz o quê? Até a gravação deste vídeo, não tinha nada oficial. Mas vamos passar pelo histórico do Lula?

29 de maio, 2023. Estava há meses na presidência. “O Maduro sabe qual foi a narrativa que construíram contra a Venezuela.” Naquela época, o presidente falava que nosso vizinho era vítima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo. Numa entrevista à Rádio Gaúcha, quando perguntaram sobre isso para ele, mandou a seguinte. “O conceito de democracia é relativo, a Venezuela tem mais eleições do que no Brasi.”

Quando o Maduro já havia roubado a eleição de 24, a primeira reação do presidente foi “não há nada de grave ou de anormal”. Ele demorou dias até reconhecer que havia um problema. E nunca, em momento algum, falou com todas as letras: Maduro fraudou escancaradamente a eleição.

Nicarágua. Em 2022, Lula em campanha, deu uma entrevista ao El País. Cobraram dele a situação do presidente Daniel Ortega. “Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Qual é a lógica?” Àquela altura, já havia ocorrido um massacre com 300 mortos num protesto público no país, em 2018. Em 21, a candidata Cristiana Chamorro, que estava com cara de que ia vencer a eleição presidencial, foi presa. Tirada do jogo. Não foi só ela, não, tá? O regime Ortega prendeu sete candidatos de oposição. Prendeu e deixou apodrecendo na cadeia líderes estudantis, jornalistas, padres, freiras e um bispo. A ONU documentou, na cadeia, com os presos políticos, tortura física e psicológica. E estupro.

Em março de 2023, quando o Conselho de Direitos Humanos da ONU quis fazer passar uma declaração denunciando a barbárie da ditadura nicaraguense, adivinha quem saiu da sua pra não assinar? A diplomacia da República Federativa do Brasil.

Bem, está tudo certo. O Itamaraty tem um argumento na ponta da língua para responder a isso tudo. Não cabe ao Brasil dar lição. Nosso papel é manter relações diplomáticas com todo mundo. Conversar com todo mundo. Podemos ir além nesse argumento. A vantagem de você não ser quem denuncia é que você pode ser ponte. Até pra tirar as pessoas da cadeia, pra ajudar a negociar salvar vidas, é bom uma cautela.

Bem, cautela é uma coisa. Comparar Daniel Ortega com Angela Merkel e dizer que um ditador como Maduro é vítima de narrativas, como diria o Bruno Henrique, é outro patamar.

O Lula está certo e barulhento sobre a ameaça golpista da direita aqui dentro. Mas fica mudo quando a ameaça idêntica vem da esquerda do lado: Maduro rouba a urna, Ortega prende sete candidatos, Petro não aceita o resultado. Mesmo crime, dois pesos, duas medidas. Grita com o golpista de direita, “o conceito de democracia é relativo” com os de esquerda.

Gente, não vamos nos enganar. O pai de um dos candidatos à presidência do Brasil tentou convencer os generais a darem um golpe militar para ele. Fez isso depois de dizer que a eleição tinha sido fraudada. É o principal adversário de Lula. O fato de que Lula passou a mão na cabeça de tantos golpistas vizinhos faz diferença? Faz. E muita. Deixa eu explicar.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Eu acabei de prometer que vou explicar por que o Lula passar a mão na cabeça dos golpistas vizinhos é problema meu, seu, e de todo brasileiro. Já volto pra isso. Mas, antes, uma pergunta que fica no meio de tudo isso: e o brasileiro, afinal, quem é?

Hoje estreou o segundo episódio de Nós, Brasileiros, a reportagem em vídeo que faz parte do Ponto de Partida, a série. Ele começa com um poema — o Severino, do João Cabral, o homem que é tão parecido com tantos que deixou de ser alguém. Esse programa é sobre reconhecimento. É o que os gregos chamavam de thymos — o desejo de ser visto como alguém que vale a pena. Sobre o desejo que cada ser humano tem de ser percebido como alguém que vale a pena. É disso que a política brasileira é feita — gente querendo ser vista. Gente achando que um líder, ou outro, a vê. O primeiro episódio mostrou os cinco tipos de brasileiros que dividem o país. O segundo mostra o que move cada um deles por dentro. É uma história de como nascem, e como morrem, os partidos políticos do Brasil, é também uma história de quem somos, de quem desejamos ser.

Estreou hoje, no streaming do Meio — e é pra quem é assinante. Assine o Meio Premium.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Olha, a esquerda são muitas. Tem a turma que é democrata no talo. Intolerante com qualquer desmando. O ex-presidente chileno, Gabriel Boric, era assim. Muita gente no Brasil é assim. Mas não todo mundo e, principalmente no governo, tem muita gente que relativiza bem a coisa. Alguns vão argumentar que o problema de cada país é seu, e cada qual na sua. O presidente Lula às vezes se sai com essa. Outros, mais radicais, vão dizer que a esquerda é a favor do povo, a direita é a favor das elites, então umas doses de autoritarismo de esquerda são pro bem, são pra forçar que mudanças importantes aconteçam enquanto os reaças no Congresso não deixam. Tem inclusive, claro, a turma que pensa isso, mas não diz porque, você sabe, certas coisas a gente pensa mas não fala.

Tudo certo, o argumento da diplomacia, a gente já conversou sobre isso, é que se você é ameno no tom, consegue falar com todo mundo, pode até interceder em caso de crise humanitária. Pode ser. A capacidade do Brasil interceder em crises pra poupar gente tem se mostrado bem rala, tá? Mas tudo bem, vai quê?

O problema desse argumento é que ele ignora algo de muito, muito importante que a ciência política conhece faz décadas. Democracia nunca é uma história dum país só. Democracia é a história de regiões inteiras. Se uma região tende a democrática, cada país naquela vizinhança tende a democrático. Se num canto do mundo pipoca uma ditadura aqui, uma ali, a coisa vai degringolando toda.

Então a pergunta certa não é se você é de esquerda ou se é de direita. A pergunta certa é se você é democrata ou se não é. E, nesta chave, o governo brasileiro falha miseravelmente. Gente, vem cá. Olha o que está acontecendo. Jair Bolsonaro diz que não aceita o resultado na eleição. Aí vai aos generais e diz: me ajuda a impedir o Lula de tomar posse. Aquela semente foi plantada. Não foi plantada só no Brasil. Foi fincada. É o jeito de fazer. Nasce do nada? Não. Já tinha acontecido na Venezuela. Lá, o apoio militar tem sido fundamental pra fraudar eleições desde, por baixo, 2012. Claro, o Bolsonaro vai dizer: é pra ter venezualização do Brasil. Ele vai fingir que o problema é esquerda contra direita. E o que estará fazendo é justamente venezualizar o Brasil. Porque não se trata de esquerda contra direita. Se trata de instalar uma cultura na qual um grupo político chega à conclusão de que a vitória do outro é uma ameaça tão grande que respeitar a democracia é um luxo ao qual o país não pode se dar.

Olha o que aconteceu na Bolívia, semana passada. A esquerda está na rua de uma forma super violenta. São centrais sindicais, movimentos camponeses, indígenas, mineiros e produtores de coca, todo mundo respondendo ao chamado ex-presidente de esquerda Evo Morales. O atual presidente está há seis meses no poder. Estradas fechadas, produção parada, o objetivo é claramente desestabilizar o país para derrubar o presidente. Qual a resposta do governo brasileiro? “Pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”, pediu que o “governo e movimentos sociais evitem a violência e privilegiem o diálogo.”

Se os caminhoneiros, a pedido de Bolsonaro, parassem o país hoje. O que a militância de esquerda diria sobre isso? Os caminhoneiros, o agro, o setor financeiro. Não queremos mais Lula, vamos parar tudo enquanto Lula estiver no governo. E, olha, Evo Morales está foragido, tá? Acusado de estupro de menor.

O ponto é que não é acidente que Gustavo Petro está dizendo que não aceita o resultado da eleição. Nicolas Maduro, Jair Bolsonaro, Evo Morales, o custo de não aceitar uma derrota eleitoral vai baixando quando vai ficando mais e mais comum. O que o governo brasileiro não entende é isso. Não dá pra olhar pro mundo como se o problema fosse esquerda contra direita. Não dá pra olhar pro mundo achando que neutralidade salva tudo, até porque neutro de fato nem esse, nem nenhum governo, é.

A régua que importa para os brasileiros, para nós, é outra. Quem é democrata, quem não é. Pode ter relação comercial com países não democráticos? Claro que pode. Pode ter embaixador em países não democráticos? Mas é evidente. O que não pode é vacilar no discurso, porque a linha tem de ser clara. Na vizinhança brasileira é fundamental que a democracia seja regra. Porque, no dia que deixar de ser, a fronteira será atravessada.

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