Eduardo quer entregar o seu PIX
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Sabe o que a família Bolsonaro não entende? Ela não entende o que é ser da periferia urbana. Não me entendam mal. Um bom pedaço do governo Lula também não tem qualquer ideia sobre o que é ser periférico. Mas isso não quer dizer que, no mundo político, não tenha gente que entenda este universo bastante bem. Tem, sim. Nikolas Ferreira, o deputado mineiro, entende. Tabata Amaral, a deputada paulista, também entende. Eles são periféricos. E isso afeta profundamente a comunicação em tempo eleitoral.
Este Ponto de Partida é sobre o PIX, sobre fazer compras em lojas online chinesas, e como estes dois elementos são o núcleo principal, o núcleo definidor, da vida na periferia urbana brasileira. Muito da eleição vai se definir por isso. Parece pouco? Não é. É o centro da vida de 30% dos brasileiros.
Mas deixa eu explicar por que estou falando disso. As três últimas semanas foram uma montanha-russa. Primeiro descobrimos que Flávio Bolsonaro pegou 60 milhões de reais com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e aí o Eduardo Bolsonaro foi pros Estados Unidos receber e gerenciar essa dinheirama. Aí os caras entraram em parafuso, arranjaram cinco minutinhos para tirar umas fotos com o presidente americano Donald Trump, e saíram de lá dizendo que conseguiram fazer com que a Casa Branca declarasse terroristas o Comando Vermelho e o PCC. Opa. Marcou ponto na periferia. Será que recupera da perda com o Master? Na sequencia, a Casa Branca meteu uma pancada tarifária no Brasil e disse que o país precisa parar com esse negócio PIX pois ele atrapalha a Visa, a MasterCard, o American Express e todo o Vale do Silício. Ficou parecendo que era culpa dos Bolsonaro. Me surge então o Eduardo Bolsonaro dizendo que, de repente, o Brasil podia negociar o PIX com os americanos. Pois é, né? Quem sabe o Flávio presidente não faz isso? A gente para de usar o PIX, adota o sistema americano, e o Trump passa a gostar da gente. Mas é muita vontade de marcar gol contra, hein?
Eu sei, eu sei. A gente fica falando aqui de política, todo santo dia, e é uma conversa sobre ideologias, sobre políticas públicas, sobre riscos à democracia. Sobre o que é exagerado e o que não é. Sobre ser de direita e sobre ser de esquerda. Mas, pra boa parte do país, não é assim que se conversa sobre política. Não é isso que política quer dizer, sabe? Política é sobre quem você é, qual o lugar em que você vive na sociedade. Se você consegue ir para um lugar melhor, mas também sobre o medo de descer para um lugar pior. Política é muito mais do que ter comida e teto. Quando essas coisas estão saciadas, passa a ser a respeito do que o vizinho acha de você. O que o pastor acha. O que seus filhos podem sonhar em ser. Política, para a maior parte das pessoas, tem tudo a ver com o que faz você parecer diferente dos outros. Sim, com como você se destaca dos outros. O que faz de você único. Não por você, tá?
O governo Lula errou muito feio quando comunicou mal que ia acompanhar as transações que as pessoas fazem no PIX. Errou mais ainda quando anunciou a taxa das blusinhas. O governo Lula não entende o país que o governo Lula criou. Naquele momento, Nikolas Ferreira foi pra internet e explodiu. “Olha só, como ele entende de rede social.” Nada disso. Ele entende de ser periférico. É a mesma natureza de erro que a besta do Eduardo Bolsonaro cometeu quando tratou com displicência, na rádio TMT, o PIX. “Ah, a gente negocia com o Trump.” Na cabeça deslumbrada do Zero Três, ele fala “eu negocio com o Trump”, e os brasileiros de direita vão babar. Pro conservador periférico, e eles são por baixo 30% da sociedade, é gente pra caramba, uma comprazinha na Shoppee paga com PIX vale de tudo na vida. Dane-se Donald Trump.
Esse papo aqui é sobre símbolo de status. E o problema de a gente falar de símbolo de status é que, para a maioria das pessoas, essa ideia bate torta. Quem precisa de símbolo de status é de alguma forma menor.
E você concordou agora, né? Pode admitir. Mas antes de torcer o nariz pra comprinha da Shein, olha pra sua própria estante. Aquele livro que você deixou de propósito em cima da mesa pra visita ver. A cerveja artesanal. O vinho. O café orgânico. O esporte que você pratica. É a mesma coisa — exatamente a mesma coisa. Gente, eu estou nesse jogo também. Isso que a gente chama de status não é fraqueza de ninguém. É, talvez, a coisa mais humana que existe. Vem comigo.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio. Tudo isso que eu te contei aqui — o PIX, a comprinha na Shein, o medo de descer um degrau — é o que vai decidir a eleição de 2026. E quem entender isso primeiro vai assistir à campanha de um lugar diferente de todo mundo. Foi pra isso que eu fiz Os Partidos, o segundo episódio de Nós, Brasileiros, no streaming do Meio. Ele responde à pergunta que fica embaixo deste Ponto de Partida: por que nem o Lula nem o Bolsonaro falam de verdade com a periferia que quer subir pela própria conta. O Lula ofereceu um tênis. O Bolsonaro ofereceu um inimigo. E os dois erraram a mesma pergunta — quem é esse brasileiro? É feito em qualidade de cinema. Depois dele, você não lê uma pesquisa eleitoral do mesmo jeito. Assine o Meio Premium, comece por Os Partidos. Ajuda a entender muita coisa da política neste ano.
Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
O Will Storr, um jornalista britânico bem bacana que passou metade da carreira escrevendo pela África e América Latina sobre direitos humanos, escreveu recentemente um livro muito bacana. O Jogo do Status. É o terceiro livro dele. O primeiro foi sobre a ideia que o Ocidente criou sobre o eu, sobre individualismo. Depois, fez um sobre a arte de contar histórias. Aí veio este. Sobre status. O Storr, no fim das contas, escreve sobre um mesmo assunto. Como nós, humanos, construímos a percepção de nós mesmos a partir do olhar dos outros.
Status não é escolha. É instinto. A garantia da nossa sobrevivência sempre dependeu de sermos aceitos dentro dum grupo, primeiro, e depois de subirmos hierarquicamente dentro deste grupo. Status é a linguagem deste mecanismo humano. Esses símbolos servem para, primeiro, sinalizar a que tribo pertencemos e, depois, mostrar o nível que ocupamos ali.
O jogo do status é disputado com três linguagens distintas. Uma é a da dominância. É o status do tirano, o de quem demonstra força. É a linguagem que os Bolsonaro compreendem. Sou amigo do valentão no pátio do colégio. Mas há outras duas linguagens. A da virtude, o de manipular os símbolos que demonstram ser bom, até moralmente superior. Pode ser demonstrando mais diligência na igreja, mais fervor na reza. Pode ser fazendo reciclagem. Ou falando o tempo todo com artigo neutro. E, claro, tem o status do sucesso, da competência. Pode ser demonstrado com prêmios dos seus pares na carreira, mas também com o tênis de marca, com o título de doutor. E, claro, o livro daquele autor da moda, displicente em cima da mesa. Em toda sociedade humana, estes três tipos de status existem. Só muda a dosagem.
E tem uma coisa que a sociologia compreende muito bem a respeito de classes médias novas. Sempre que alguém ascende socialmente, o consumo alto é a primeira coisa que acontece. Isso é fartamente documentado e pesquisado. São pessoas que não têm ainda a linguagem daquele patamar da sociedade no qual acabaram de chegar. Então, sem o capital cultural para demonstrar que pertence àquele novo lugar, você consome. quem não tem diploma, cargo, sobrenome ou patrimônio para sinalizar status, sinaliza pelo que pode comprar. O consumo vira o único marcador disponível e é por isso é tão sensível mexer nele.
Se isso vale para uma única pessoa, ou uma família, imagina quando 30% de uma sociedade inteira, dezenas de milhões de pessoas, saem de um lugar no qual a comida é incerta e passam a poder consumir. Esta é a história central, no Brasil, nos últimos trinta anos. Este é um conjunto de brasileiros profundamente sensíveis a qualquer mudança nas suas possibilidades.
O PIX, gente, é a possibilidade de receber e transferir dinheiro imediatamente. É fazer o dinheiro circular, receber na hora, pagar a quem for. Você não precisa mais ser admitido por uma empresa que emite ou não cartão de crédito, você não precisa ser pago em dinheiro, ter troco. E como várias lojas internacionais grandes aceitam o PIX brasileiro, ele abre o mundo inteiro de possibilidades.
Você já entrou numa loja chinesa? Tênis bonitão a 150 reais. Camisa com brilho a 50. O Correio entrega na sua casa. O celular custa metade do valor pelo qual ele sai na loja. O PIX e as lojas chinesas são o centro do mundo. Não mexe com isso errado. Você vai ligar todos os pontos de alerta desse grupo. Em comunicação política, é um tiro no pé.
Quando falou em taxa das blusinhas, com o que o governo Lula acenou? Vocês estão comprando demais, a gente vai dar uma controlada nisso. Quando falou em vigiar o PIX das pessoas, novamente. Ameaça à âncora que posiciona as pessoas na sociedade. E agora foi o Eduardo Bolsonaro. Entrega o PIX pro Trump, a gente não precisa disso.
Os políticos que vêm da periferia sentem isso tudo profundamente. Eles falam a língua porque são de lá. Quem não é, com frequência demais não percebe o que está no centro da vida desses brasileiros.


