A Copa de 2026 e a SuperBowlização do Futebol
Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
A Copa de 2026 tem sido excelente até agora. Como haverá tempo para celebrar as belezas do torneio, achei que valia a pena discutir, desde já, um aspecto que considero desastroso: a transformação do futebol de um esporte de dois tempos em um esporte de quatro quartos, como consequência das obrigatórias pausas “para hidratação” que são na verdade pausas para comerciais.
No que se refere às regras do jogo, os boleiros somos, sobretudo, conservadores. Diferentes ideias de mudanças nas regras do futebol foram aventadas nestes 163 anos. Pouquíssimas prosperaram, entre elas apenas duas realmente importantes. Em 1925, uma alteração na regra do impedimento passou a exigir, no momento do passe, não mais dois, mas apenas um jogador de linha entre o gol e o atacante receptor do passe para que este estivesse habilitado a jogar. Foi um sucesso que aumentou o número de gols e a presença do público nos estádios. Segundo a regra antiga, as defesas podiam manter um zagueiro na sobra atrás da linha do impedimento. Os atacantes tinham que se alinhar com o penúltimo defensor de linha, não com o último, como é hoje. Com um zagueiro sempre na sobra atrás da linha do impedimento, fazer gols era dificílimo, e a nova regra foi imediatamente saudada por todos. A temporada de 1925-26 bateu recordes de público na Inglaterra.
Em 1992, aconteceu a outra grande mudança nas regras do futebol. A Copa do Mundo de 1990 e a Eurocopa de 1992 estiveram repletas de tediosas trocas de passes entre zagueiros e goleiros. Estes pegavam a bola, serviam os zagueiros e a recebiam de volta sem correr nenhum perigo, pois o seu privilégio de recolher a bola com as mãos eliminava qualquer possibilidade de pressão. A partir daí, veio a mudança também saudada por todos. Passou a ser proibido — ou seja, penalizável com um tiro livre indireto dentro da área — o toque do goleiro com as mãos em qualquer bola que lhe seja voluntariamente recuada com os pés por um companheiro. Os goleiros passaram a ter que saber jogar com os pés e o futebol ficou mais dinâmico e interessante.
Ao contrário dessas duas mudanças, que foram orgânicas, endógenas, geradas por necessidades do próprio jogo, está em curso agora uma alteração imposta por fatores externos. A Copa de 2026 muito provavelmente entrará para a história como o momento em que futebol deixou de ser um jogo em dois tempos e passou a ser um jogo em quatro quartos. A motivação é muito menos o calor do que a obsessiva necessidade da televisão americana de que não se transcorram 45 minutos sem um intervalo para comerciais.
Qualquer um que já tenha caminhado pelas ruas de Miami, Nova Orleans ou Houston durante o verão se compadecerá dos jogadores e entenderá que uma pausa para a hidratação pode ser necessária em determinadas circunstâncias. Em 2015, a MLS (Major Soccer League, a liga de futebol profissional dos EUA) aprovou uma pausa para hidratação de dois minutos em partidas disputadas em temperaturas superiores a 86? Fahrenheit (30? Celsius). No campeonato mundial interclubes da Fifa, realizado nos EUA em junho e julho de 2025, passou a haver pausas para hidratação em todos os jogos. E aí se preparou o salto dado em 2026, em que isso se oficializou.
Na Copa de 2006, estabeleceram-se pausas no meio de ambos os tempos, com duração obrigatória de três minutos, atividades de DJs nos estádios e apresentação de comerciais para quem vê pela televisão. Como se sabe, no futebol o cronômetro nunca para; as interrupções são calculadas e acrescidas ao final de cada tempo. Mas agora estamos diante de duas interrupções fixas, longas, que alteram completamente o ritmo do jogo. O cronômetro continua rodando, claro.
O futebol é um jogo em que o ritmo é essencial. Gols podem acontecer em jogadas isoladas e fortuitas, mas eles com frequência acontecem como resultado de um crescimento do volume de jogo, da imposição do ritmo de uma equipe sobre a outra. Essa acumulação de ritmo é essencial, e é uma das razões pelas quais nunca se cogitou adotar no futebol um cronômetro que para, como no basquete ou no futebol americano.
Esse ritmo, essa dinâmica de jogo, está sendo destruída pelas pausas para comerciais — não são “pausas para hidratação”, já que estão acontecendo até mesmo em estádios com ar condicionado. Esses cortes ameaçam a própria essência do futebol que se jogou nos últimos 163 anos. Para piorar, já ficou claro que não estão sendo repostos esses 110 segundos de bola rolando que se perdem nos 180 segundos de paralização (estou calculando 60% de bola rolando, que é uma média razoável para as ligas de ponta da Europa).
No segundo tempo do jogo Canadá x Bósnia, por exemplo, houve os três minutos de pausa para comerciais. Houve nove substituições em cinco janelas diferentes. Houve um longo atendimento ao goleiro bósnio depois de uma trombada com um atacante canadense. E, além dos laterais, escanteios e faltas de praxe, houve dois gols. Esse é o típico segundo tempo em que teríamos, sem a pausa comercial, seis minutos de acréscimo, nunca menos que isso. Qual foi o tempo de acréscimo dado pelo árbitro no segundo tempo de Canadá x Bósnia? Seis minutos. Ou seja, todo o tempo da pausa comercial foi roubado do jogo.
Em Brasil x Marrocos, a pausa comercial nos salvou. Aos 22 minutos do primeiro tempo, Marrocos já havia feito 1 a 0 e continuava trocando passes com desenvoltura. Casemiro e Bruno Guimarães, em inferioridade numérica, corriam desesperados atrás de até meia dúzia de marroquinos que passeavam em nosso campo. Veio a pausa para comerciais, Carlo Ancelotti pôde ajeitar o seu time e fazer mudanças de posicionamento, e saímos do sufoco. Logo depois, Vinícius Júnior empatou a partida.
Suponho que não seja necessário lembrar que, da mesma forma como a pausa para comerciais nos salvou neste sábado, ela nos prejudicará em breve. O que importa é o que está acontecendo com o jogo. Não se trata apenas dos 110 segundos de bola rolando que estão sendo roubados. Trata-se de todo um acúmulo, toda uma sintaxe que vai sendo quebrada e transformada em outra coisa. Já temos jogadores se referindo ao “primeiro quarto” ou ao “segundo quarto” da partida.
Há tempos os analistas do futebol avisam que a galinha dos ovos de ouro não tem vida infinita. Há uma razão pela qual esse esporte é o mais popular e amado da história da humanidade, e ela está diretamente relacionada a essa dinâmica específica, particular do futebol. Há uma relação com o tempo que é muito própria dele. É essa relação com o tempo que está sendo ferida de morte pela picotagem do jogo em quatro quartos. Já falam agora, inclusive, de alterar o intervalo também, que já não seria de quinze minutos, mas de meia hora, tempo suficiente para um show de música e mais propagandas.
Não creio que haja volta nessa degenerescência. Mas quero deixar registrado aos leitores do Meio que eu estive entre os que avisaram. Se continuarmos afundados na ganância, vamos matar o jogo.


