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Sequestraram a sua política

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Metade do Brasil sequestrou nossa política. É isso. Este é o tamanho real da nossa polarização. Se, uma pesquisa após a outra, você abre e vê sempre os mesmos dois sujeitos disputando a corrida lá em cima e quaisquer outros candidatos estão na batalha pra botar o pescoço acima dos 5%, a razão é essa. Metade do Brasil sequestrou nossa política. E a outra metade não consegue fugir disso. Existe uma polarização? Claro que existe. Mas ela não é uma coisa tipo metade dos brasileiros vestem amarelo, a outra metade veste vermelho. Não. Os polarizados são 52%. É o que a pesquisa diz: 26% de lulistas convictos, Luiz Inácio é nosso líder e não enxergo outro para liderar a nação. Assim como são 26% os que retrucam, Jair Bolsonaro é nosso líder, jamais houve presidente como ele, jamais haverá, eu sou é Flávio. E a outra banda do Brasil, os 48% que não têm este apego? Bem, estão divididos demais e não conseguem reagir a este xeque-mate.

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De novo, pesquisa de hoje, Nexus. Que mediu a polarização de um jeito que as outras pesquisas não vinham fazendo. Estes 48% que não fazem o jogo do líder com o qual não se rompe jamais, no fim das contas, estão divididos de muitas formas diferentes. Tem, por exemplo, os que preferiam não, mas topam Lula, ou topam Flávio. 7% dizem que, se chegar ao fim ali da corrida e a escolha for entre esses dois, então eles vão de Flávio. Preferiam não, mas se só tem esses dois, então é Flávio. 7%. E os que preferiam Lula? 6%. Não se iludam achando que 7, aqui, é maior que 6. Estatisticamente os números são iguais, estão inteiramente na margem de erro. Este grupo, que topa um dos dois por rejeitar demais o outro, amarra a polarização.

É só fazer a conta, gente. 26 pra Flávio, 26 pra Lula. Nenhum outro tem voto pra chegar ao segundo turno. Vão os dois. Imediatamente ambos ganham mais seis, mais sete. Vão a 32, 33 pontos percentuais ambos. Esse é o piso firme da polarização. Travou o jogo. Não entra mais ninguém na disputa. Não tem mais espaço pra Caiado ou Zema, pra Renan ou Aécio, pra Joaquim ou qualquer outro. A gente vai nas pesquisas, testa outros nomes. Dá 3 pontos. 4. Não passa. Ah, mas o meu vai crescer. Não vai, gente. O jogo está travado por metade do Brasil e pelo fato de que a esta metade se junta uma turma que desiste rápido perante a inevitabilidade que percebe.

Bem, vamos seguir. Quem sobra, né? A Nexus nos entrega outros dois grupos. Um é pequenino. O pessoal que rejeita aos dois igualmente, não quer nenhum e está irritado como o diabo. 8 pontos percentuais. Aí, cara, não tem jeito. Este é um público sofisticado, preocupado com política, e no entanto de braços atados. Ele simplesmente não tem número o bastante para mover o país.

E vem o segundo grupo. 21%. Grandinho. São os não polarizados. Simplesmente não estão envolvidos emocionalmente na briga. Nem contra, nem a favor, nem pelo contrário. Aí, sem trauma ou sem dor, fazem sua escolha também não muito motivados por quem estão vendo na briga. Vai esse mesmo, nem tem diferença. Este é o jogo das eleições presidenciais brasileiras.

52% de nós estão divididos ao meio entre o lulismo e o bolsonarismo, e de lá não se levantam. 13% preferiam outro, mas se juntam a eles sem piscar ou ter dor. 21% olham pro lado, não estão nem aí. E sobram os 8% pulando pra cima e pra baixo porque não têm alternativa ou plano de ação. É um grupo muito sofisticado, estão entre os brasileiros mais bem educados. Mas sentir que se está preso é uma coisa; ter o mapa da armadilha é outra. E esse mapa ninguém deu a eles. Sabem que o jogo travou — não sabem por que travou, nem por onde se sai. Estamos nessa desde 2018, e não tem cara de que a gente sai sozinho. Então é hora de entender. De ver a jaula inteira — e achar a porta.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Você acabou de ver o jogo travado — metade do Brasil de um lado, metade refém do outro. Mas falta a pergunta que destranca: por que travou? Por que, em quase duzentos anos, o brasileiro nunca construiu um partido em que confiasse — a ponto de, na falta dele, sobrar só sobrenome e camisa de time?

Essa resposta eu dei num filme. Chama Os Partidos, o segundo episódio de Nós, Brasileiros, a série do streaming do Meio sobre quem é esse povo de 213 milhões. Começa em 1954 e desemboca exatamente no impasse que você acabou de ouvir. É feito em qualidade de cinema. E quem entende como esse jogo foi montado lê a eleição de outubro de um lugar que quase ninguém lê.

Em outubro você vota — vale entrar sabendo. Assine o Meio Premium e comece por Os Partidos.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

A polarização brasileira não é de classe — é de fé e de lugar na vida. Se você acha que ela tem a ver com renda, não tem. Se você vai no corte do eleitorado por renda, vai encontrar bolsonaristas e lulistas nos dois cantos. Sim, às vezes tem alguma diferença. Nenhuma relevante.

Mas vai procurar em religião. Olha, no público sem religião alguma, 33% é Lula. 10% é Bolsonaro. Nenhuma surpresa aí, não é? Quase intuitivo. Só um detalhe: o brasileiro é um povo religioso. Este grupo é minúsculo. Pega então os católicos. 28% lulistas, 27% bolsonaristas. O outro terço está fora. Quer dizer, católico se divide e não decide nada. E vocês, claro, já sabem onde quero chegar. 18% dos evangélicos são Lula e não largam por nada. 31% são bolsonaristas. Não é que Lula e o PT não cheguem lá, eles chegam. Mas, se você é evangélico, no Brasil, você traz consigo uma visão conservadora de família, de laços em comunidade, que esse eleitorado simplesmente não consegue enxergar no PT como representante. Então, entre evangélicos, Lula perde de lavada.

O outro lugar em que a diferença grita é por trabalho. Se você tem carteira assinada, a divisão é apertada. 29% bolsonarista, 24% lulista. É isso mesmo, mais Bolsonaro do que Lula. Se trabalha informalmente, é ainda mais apertada. 27 Lula, 28 Bolsonaro. Onde está a diferença? Cara, nos desocupados, que são enormemente bolsonaristas. O cara desempregado, ferrado de não ter jeito. 27 a 16. Uma surra. O sistema falhou com ele e não está o ajudando. E quem já saiu da força de trabalho, os aposentados, os pensionistas. 29 a 20 pró-Lula.

Aí vem a escolaridade. Quem tem ensino superior é o mais lulista dos brasileiros. 31%. E 25% são bolsonaristas. Quem tem só ensino fundamental tende a Lula, mas a coisa é mais apertada. 28 a 25. Onde vai ter diferença? Ensino médio. A maior parte do Brasil. Ali, é 27 Bolsonaro, 21 Lula. Soma nesse jogo idade. Se você tem mais de 60, tende a ser pró-Lula. 30 a 24. Se tem menos de 40, pró-Bolsonaro. 23 a 28%.

Então qual é a história aqui? O evangélico não vê, no flanco esquerdo, espaço pra sua visão de mundo. E este é um grupo bastante grande. O outro problema com a esquerda é que não é um bom prognóstico de futuro conseguir falar com velhos e não atingir os jovens. Parte dessa turma com ensino médio que tende a Bolsonaro, aliás, está lá porque ainda não fez ensino superior. São jovens. A força do bolsonarismo está com os evangélicos e está com os jovens.

Então vem comigo, que agora a coisa fecha. Olha o que a gente descobriu sobre os dois exércitos que sequestraram a política. Eles não são feitos do mesmo barro — e não é o barro que todo mundo imagina. Não é renda. O pobre está dos dois lados, o rico está dos dois lados; renda quase não separa essa gente.

O que separa é outra coisa: é a fé e é o lugar que você ocupa na vida. De um lado, o evangélico, o que tem carteira assinada, o desempregado que ainda sonha em subir. Do outro, o sem-religião, o aposentado, o diplomado. Quer dizer: a nossa polarização é religiosa e existencial — não é de classe. E é por isso que ela é tão dura de quebrar. Você não negocia a sua fé, nem quem você é, numa pesquisa eleitoral.

E a outra metade, a refém — por que ela não reage? Por um motivo simples, e é o coração de tudo: ela não é uma coisa só. São dois Brasis, e eles são opostos. Tem o sujeito que recusa os dois. Em geral tem ensino superior, renda alta, tende a mais jovem. Meio a meio entre mulheres e homens. E tem o que simplesmente não se abala. Pouca escola, em geral não aparece pra votar no domingo, e quando vai, vota sem vontade nenhuma. Um recusa. O outro desiste. E como não são a mesma gente, eles não conseguem se juntar. Neste sentido, não é um centro político. Existem dois pedaços que nem se reconhecem na rua.

Aí eu te devolvo a pergunta do começo. Você, que não aguenta nenhum dos dois e se sente sozinho: você não é impotente porque é pouco. Você é impotente porque ninguém te organizou. A jaula tem porta — e a chave não está com quem desistiu. Está com quem recusa.

Porque, veja, essa conta também funciona ao contrário. Tem 7% que vota no Bolsonaro se não houver escolha e 6% que votam no Lula se for só isso que sobra, eles podem se inclinar para outro canto. Só que, pra atrair os dois, tem de ser um discurso ao Centro. Aqueles 21% não polarizados, não são impossíveis de conquistar. Só que é preciso conquistar.

Existe uma razão para um Renan Santos sair do zero e disputar ali de igual para igual com Caiado e Zema. Ele entendeu que, para se destacar, tem de bater nos dois. Só que raiva e um discurso de direita demais não avança muito. Caiado e Zema poderiam fazer o papel moderado, mas um tomou a decisão de não bater em Bolsonaro jamais e o outro, quando bate, apanha do próprio partido. Fazer o quê.

Não tem candidato ao centro nesta eleição. Houve uma rendição coletiva aos polarizados. Mas, olha, aqueles 8% estão lá. Estão vivos. Têm nomes diferentes em cada pesquisa mas é sempre a mesma turma. A quebra da polarização começa ali.

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