Edição de sábado: Traição a Magnitsky

“O ministro Alexandre de Moraes não é um violador grave de direitos humanos, não é acusado de sê-lo, tampouco é um grande cleptocrata que ganhou bilhões em corrupção.” A frase é de Sir William Browder, 61 anos, americano naturalizado inglês, financista e, a um tempo entre finais de anos 1990 e princípios deste século, o maior investidor estrangeiro na Rússia. Browder é, também, o pai da Lei Magnitsky, aquela utilizada pelo governo de Donald Trump contra o relator do processo de tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal. “Essas são as únicas categorias pelas quais alguém deve ser sancionado pela lei.”
Edição de sábado: Negócios à parte
A partir da próxima sexta-feira, 1º de agosto, a menos que aconteça uma grande reviravolta, todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos sofrerão uma sobretaxa de 50%, anunciada no último dia 9 pelo presidente Donald Trump. Na carta em que justificava a tarifa, ele atacou o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe, chamando a ação de “caça às bruxas”, e a regulamentação também pela Corte da atuação das redes sociais, pertencentes a big techs americanas. A única justificativa econômica, a de que os EUA eram prejudicados no comércio com o Brasil, é falsa, já que a balança comercial entre os dois países é superavitária para o lado americano.
Edição de sábado: As ideologias do Vale do Silício
Você está caminhando próximo a um lago. Veste, nesse dia, sapatos bastante caros. Especiais. Aí percebe, no meio da água, um menino bem pequeno que se debate. Ele vai morrer afogado e você é o único que pode salvá-lo. Mas perderá seus sapatos e chegará em más condições à reunião de trabalho que lhe espera. Por outro lado, como você é alto, o laguinho bate nos seus joelhos. Para você, o risco é zero. O que faz? Em 1972, o filósofo americano Peter Singer propôs esta parábola, esse experimento mental, no artigo Famine, Affluence, and Morality. Fome, afluência e moralidade.
Edição de sábado: Promessas em pó
Ao menor sinal de uma mudança de hábitos, uma enxurrada de novos anúncios. Você se matriculou na academia ou em outra aula qualquer de atividade física. De repente, num passe de mágica, ou no registro do seu e-mail no aplicativo daquele estabelecimento, lá vêm as mensagens. Bem, é verdade que talvez isso já tivesse acontecido quando você começou a pesquisar a escola ou a academia. Mas ali, entre tudo o que o algoritmo jura que você vai precisar na sua nova vida fitness, as roupas, os calçados e equipamentos para a sua prática, estão os suplementos alimentares. As promessas são sedutoras e bem pouco modestas. Vão de aumento da cognição e da memória a um abdômen sequinho e um cabelo volumoso. Os produtos podem ser consumidos em pó, em gel, ou em formatos mais modernos, como gominhas e caramelos.
Tanta novidade significa duas coisas: uma é que o mercado está indo bem. E outra é que há uma expectativa que melhore ainda mais. Um relatório da consultoria Grand View Research mostra que, no ano passado, o mercado de suplementos alimentares movimentou cerca de US$ 192,7 bilhões. A previsão até 2030 é de um crescimento de 9,2% ao ano, chegando a uma movimentação de US$ 327,4 bilhões.
Edição de sábado: A corrida dos datacenters
Três anos, estourando. Esse é o prazo que o Brasil tem para entrar de vez na corrida global dos data centers ou ver a janela se fechar diante do avanço da inteligência artificial (IA). O alerta veio sem rodeios de Luis Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), durante um seminário promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em São Paulo.
Edição de sábado: Três mil anos de Irã
Há 46 anos o Irã invadiu os assuntos do cotidiano, quando a Revolução Islâmica de 1979 substituiu a brutal monarquia pró-americana do xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980) pela brutal teocracia antiamericana do aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989). O impacto dessa mudança atingiu em todo o mundo a geopolítica, a economia e até a cultura popular. Xiita, corrente muçulmana do novo regime, virou sinônimo de radical, e até a MPB entrou na onda — “tem sempre um aiatolá pra atolar”, escreveu Rita Lee e cantou Elis Regina.
Edição de sábado: A solidão do homem de meia-idade

Ainda é um mistério como eu, um intelectual de esquerda, me tornei um viciado em artes marciais mistas (MMA, na sigla em inglês) nos últimos anos. O relato do escritor Sam Graham-Felsen, publicado na New York Times Magazine em 25 de maio, me ajudou a refletir sobre isso e entender melhor o que está acontecendo comigo – um homem heterossexual de 54 anos – e com o planeta, que se entrincheira principalmente no campo dos costumes e no afastamento ideológico entre homens e mulheres.
Edição de sábado: A cabeça militar
“Nunca na história deste país” já virou um clichê, quase uma anedota, na política. Mas o que o Brasil testemunhou no início desta semana foi, de fato, tão histórico quanto inédito. Diante do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, um magistrado civil, oficiais da mais alta patente das Forças Armadas depuseram, vários na condição de réus, no processo sobre o plano de golpe de Estado após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022. E a semana terminou com o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do então presidente e delator no processo, tendo de explicar à Justiça o motivo para sua família deixar o país.
Edição de sábado: Anatomia da fé
Quando o Brasil ainda era Império, em 1872, o primeiro recenseamento geral perguntou aos habitantes não apenas idade, cor e profissão, mas também sobre sua religião.
Edição de sábado: Marina e a arte do incômodo

Marina Silva incomoda. E incomoda muita gente. Não apenas os deputados da bancada ruralista, nem só os senadores do Amazonas e de Rondônia, que pressionam há anos pela pavimentação da BR-319. Incomoda também a ala desenvolvimentista do governo, ansiosa por destravar projetos ambientalmente polêmicos, como a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas. Incomoda até mesmo quem a colocou mais uma vez à frente do Ministério do Meio Ambiente, sobretudo quando se recusa a silenciar diante do isolamento político, como aconteceu terça-feira, durante a tumultuada e constrangedora sessão da Comissão de Infraestrutura do Senado. Com o tempo, Marina parece ter entendido que sua força em Brasília está justamente no desconforto que provoca. Tornou-se um obstáculo para quem pretende “passar a boiada” em nome do progresso ou das próximas eleições. E, ao contrário do que fez há quase 20 anos, quando deixou o governo por bem menos, agora ela fica. Sabe que, em certos momentos, exercitar a arte do incômodo também é fazer política.