Edição de Sábado: A tibieza de Hugo Motta

“Quem manda aqui é o presidente, respeitando o regimento. Eu não aceito desrespeito. Eu não aceito desrespeito. Eu não aceito desrespeito”, berrou triplamente o deputado Hugo Motta (à época no então PMDB, hoje no Republicanos). “Vossa excelência me respeite. Cabelo branco não é sinônimo de respeito!” Chamado de “moleque” pelo parlamentar Edmilson Rodrigues (PSOL), Motta retrucou, já com a voz falhando, no mais alto tom que sua garganta suportava. “Eu quero dizer a vossas excelências que não serei nenhum fantoche para me submeter à pressão de quem quer que seja. Um deputado aqui se levantou e me desrespeitou. Não tenho medo de grito e, da terra de que venho, homem não me grita.” Vem de João Pessoa, cria de uma família tradicional na política de Patos e do sertão da Paraíba.
Edição de Sábado: Um Brasil que já não dói

Um aceno com a mão direita, estática, um pouco abaixo do ombro, e todos os dedos unidos. Acompanhado dos lábios apertados em um sorriso discreto, embora largo. Assim a ministra Cármen Lúcia permaneceu por algumas dezenas de segundos após proferir seu voto (vídeo) condenando o ex-presidente Jair Bolsonaro e os outros sete réus acusados de dar corpo à tentativa de golpe de Estado. Aliás, mais do que sentenciando. Após usar o verbo para cicatrizar as úlceras d’uma República afligida repetidas vezes por aqueles que a sequestraram. São oito os golpes militares bem sucedidos até aqui. Os que não vingaram é praticamente impossível contabilizar. Ninguém, nunca, foi sequer processado pelas intentonas concretizadas ou fracassadas. Até agora.
Edição de Sábado: O crime sem autor

Filho de um general quatro estrelas, é tenente-coronel com mais de trinta anos de Exército. Serviu na Brigada de Infantaria Paraquedista e nas Operações Especiais do Exército Brasileiro, foi instrutor na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), observador militar e oficial de ligação das Operações das Nações Unidas no Chile, e comandante do curso de artilharia da Aman. Ainda participou do planejamento e envio de militares brasileiros para a Força Interina das Nações Unidas do Líbano, pós-graduou-se em Relações Internacionais, tornou-se doutor em Ciências Políticas Militares, mestre em Operações Militares, e bacharel em Ciências Militares, especialista em Guerra Irregular e Ações de Comando, escreveu livros, recebeu mais de 15 medalhas de honra. “E, por último, foi ajudante de ordens do ex-presidente da República Jair Bolsonaro”.
Edição de Sábado: Três golpes em um

O dia 7 de setembro de 2021 acabou entrando para a crônica política brasileira como o dia em que o então presidente Jair Bolsonaro, diante de uma multidão verde-amarela na Avenida Paulista, desafiou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá”, bafejou. “Dizer aos canalhas: nunca serei preso.”
Edição de Sábado: Um cérebro entre a Amazônia e as estrelas
Em uma sala de roteiro, alguém poderia apresentar a ideia de um “plot” em que, confrontado com o alzheimer do pai de sua mãe quando ainda criança, um inteligente jovem se torna geneticista e passa a se interessar pela manifestação da capacidade social no cérebro humano, na intenção de entender a doença que levou embora o avô ainda em vida. Então, cria minicérebros humanos em laboratório e descobre que a invenção pode ajudar o filho, autista. Mas, para isso, o cientista precisará ir ao espaço. E, para tornar o estudo mais completo, vai botar na bagagem espacial plantas amazônicas.
Edição de Sábado: A indignação de Jason Stanley
Jason Stanley está revoltado. Indignado. Furioso mesmo. Mas não está sozinho. Sua voz sintoniza o que uma parte da esquerda americana, aquela que está bem à esquerda dos liberais de lá, vem sentindo e manifestando desde as eleições de 2024, quando Donald Trump foi escolhido mais uma vez para ocupar a Casa Branca. A cada nova sandice que Trump empreende, mais esse pedaço dos progressistas, representados na política em boa medida por figuras como a deputada Alexandria Ocasio-Cortéz e pelo senador Bernie Sanders, se insurge, se radicaliza. É um efeito natural provocado por um extremista. E, convenhamos, sandices não faltam.
Edição de Sábado: Política movediça

Os ventos do Norte podem não mover muitos moinhos. Mas a intervenção operada por Donald Trump na política brasileira, via tarifaço, Magnitsky e ameaças, produziu pelo menos um vendaval: Jair Bolsonaro está preso. Na jovem democracia brasileira, com todas as suas conquistas e falhas, testemunhar a prisão de um ex-presidente pode ser um momento histórico, mas não é inédito. E a comparação com as anteriores — e com suas consequências políticas — torna-se exercício quase imediato.
Edição de sábado: Traição a Magnitsky

“O ministro Alexandre de Moraes não é um violador grave de direitos humanos, não é acusado de sê-lo, tampouco é um grande cleptocrata que ganhou bilhões em corrupção.” A frase é de Sir William Browder, 61 anos, americano naturalizado inglês, financista e, a um tempo entre finais de anos 1990 e princípios deste século, o maior investidor estrangeiro na Rússia. Browder é, também, o pai da Lei Magnitsky, aquela utilizada pelo governo de Donald Trump contra o relator do processo de tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal. “Essas são as únicas categorias pelas quais alguém deve ser sancionado pela lei.”
Edição de sábado: Negócios à parte
A partir da próxima sexta-feira, 1º de agosto, a menos que aconteça uma grande reviravolta, todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos sofrerão uma sobretaxa de 50%, anunciada no último dia 9 pelo presidente Donald Trump. Na carta em que justificava a tarifa, ele atacou o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe, chamando a ação de “caça às bruxas”, e a regulamentação também pela Corte da atuação das redes sociais, pertencentes a big techs americanas. A única justificativa econômica, a de que os EUA eram prejudicados no comércio com o Brasil, é falsa, já que a balança comercial entre os dois países é superavitária para o lado americano.
Edição de sábado: As ideologias do Vale do Silício
Você está caminhando próximo a um lago. Veste, nesse dia, sapatos bastante caros. Especiais. Aí percebe, no meio da água, um menino bem pequeno que se debate. Ele vai morrer afogado e você é o único que pode salvá-lo. Mas perderá seus sapatos e chegará em más condições à reunião de trabalho que lhe espera. Por outro lado, como você é alto, o laguinho bate nos seus joelhos. Para você, o risco é zero. O que faz? Em 1972, o filósofo americano Peter Singer propôs esta parábola, esse experimento mental, no artigo Famine, Affluence, and Morality. Fome, afluência e moralidade.