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Pedro Doria

Diretor de jornalismo do Meio. É também figura fácil no Twitter e Instagram. Colunista de O Globo, O Estado de S. Paulo e da CBN. Foi editor-executivo do Globo e editor-chefe de digitais do Estadão, além de colunista da Folha de S. Paulo. Knight Fellow pela Universidade de Stanford. É autor de oito livros, a maioria sobre história do Brasil.

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Bolsonarismo fraco, democracia forte

No Ponto de Partida React desta sexta-feira (28), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre um momento decisivo e sem precedentes na política brasileira, marcado não apenas pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de altos oficiais condenados pela trama golpista, mas também pelo esvaziamento do bolsonarismo. Estamos falando da encruzilhada histórica enfrentada pelo Superior Tribunal Militar (STM), que vai julgar a perda de posto e patente desses militares. As Forças Armadas vão decidir se tentar derrubar a República é algo "normal" ou a "desonra máxima" para quem veste o uniforme — um processo que pode revelar o amadurecimento da nossa democracia. Yasmim Restum e Pedro Doria te guiam nessa jornada com uma seleção dos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta. Assista em vídeo no Youtube, e acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido.

Explicando o projeto que prova que você é humano

No Pedro+Cora do dia 27 de novembro de 2025, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai recebem Juliana Felippe, Diretora Geral da Tools for Humanity, para uma conversa sobre o projeto que escaneia e fotografa a íris de seres humanos em troca de criptoativos. No papo, falam sobre o caos instalado na internet que dividiu opiniões sobre vender imagens da íris, qual a ideia global do projeto da World ID e desmistificam a polêmica do roubo e vazamento de dados.

O que os militares acham do golpe?

O julgamento dos golpistas não acabou. Eu sei, eu sei. Todo mundo está mexido com a declaração, pelo governador paulista Tarcísio de Freitas, de que vai conceder a graça presidencial a Bolsonaro, caso seja eleito. Gente, essa aí está muito longe. Até finais de março do ano que vem, ou seja, ainda antes de sabermos se Tarcísio vai ser candidato a presidente ou não, uma decisão muito mais importante será tomada. É o futuro dos generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, além do almirante Almir Garnier dos Santos. Quem vai tomar a decisão? O Superior Tribunal Militar.

Pedro Doria conta sobre a cirurgia que fez em seu ombro

No Pedro+Cora do dia 25 de novembro de 2025, Pedro Doria e Cora Rónai conversam sobre saúde e histórias passadas. No papo, Pedro conta em especial sobre a sua cirurgia e seu novo "ombro biônico", e ambos comentam sobre a admiração mútua pela medicina e pela saúde pública. No quadro O Livro da Cora de hoje, são duas recomendações: "A formação da terra vegetal pela ação das minhocas, com observações sobre seus hábitos", de Charlie Darwin, e uma edição especial de "Incidente em Antares", de Erico Verissimo.

Acabou, Bolsonaro

Aconteceram muitas coisas interessantes nesse fim de semana, não é? E vocês bem imaginam que não estou falando só da prisão de Jair Bolsonaro, né? Porque é mais do que isso. As coisas que aconteceram nos últimos três dias abrem uma janela imensa para compreendermos o fenômeno do bolsonarismo. E, dessa compreensão, põe no centro do palco a pergunta mais importante que temos para fazer. Tudo leva a crer que esta prisão preventiva se tornará permanente ainda esta semana. O bolsonarismo está acabando de vez? A pergunta importa, tá? Ela é mais premente do que nunca. Pelo seguinte: na quinta-feira, o senador Flávio Bolsonaro foi para as redes e convocou uma vigília quase na porta da casa do pai. Uma grande oração coletiva, uma grande muvuca, para aguardar a prisão que todos sabem estava por vir. Só que aí o ex-presidente tomou a decisão de meter um ferro de solda na tornozeleira eletrônica, que é a condição fundamental para a prisão ser domiciliar. Gente, do ponto de vista jurídico não faz diferença se ele surtou ou se fez consciente. No momento em que ele se mostra inconfiável para usar uma tornozeleira, não pode ficar em casa. Porque ele é um homem em risco de fuga. E esse é um dos assuntos nos quais a gente vai entrar hoje. O fato é que antecipou-se a prisão. Convocou-se a vigília, o presidente foi preso e aí foram meia dúzia de gatos pingados. Não tem multidões acampadas, não tem multidão na paulista. Não tem milhares. Está entre as dezenas e centenas. A prisão não está mobilizando os bolsonaristas. Por quê? O que isso quer dizer? E tem dois pontos aos quais quero me ater aqui, pra gente fazer o mergulho que precisamos fazer. O bolsonarismo tem duas características. Uma é que ele é paranoide. Ele se sustenta por paranoia. Por um pensamento conspiratória. Quando os advogados dizem que o ex-presidente entrou num surto achando que a tornozeleira estava gravando, olha, ele é um paranoico sim. Se houve surto, é médico que pode afirmar. Mas ele tem uma mentalidade paranoide, sempre teve. Tudo tem uma grande teoria para explicar qualquer coisa. Desde o tempo em que ele queria espalhar umas bombas, lá atrás, ainda capitão do Exército, paranoia já era um traço importante dele. E isso ajuda a compreender o bolsonarismo demais. O segundo traço, a segunda característica, é a covardia. Vamos lá. Do Mensalão para cá, a gente prendeu um monte de políticos. José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, o próprio Lula. Todos se entregaram à polícia. Tem mais. Se entregaram perante as câmeras e erguendo a mão direita fechada. Estavam na luta, mobilizando a militância. Mas não ficou nisso, né? Foram presos também Michel Temer, Moreira Franco, Eduardo Cunha, Rodrigo Rocha Loures. Caramba, acho que quase todo governador do Rio dos últimos 25 anos. Sobra quem? A Benedita? Sergio Cabral Filho ficou seis anos na cadeia. E em penitenciária, tá? Eles não ergueram braço, não fizeram campanha, mas quando a polícia bateu à porta, foram. Ora, são políticos, são ex-parlamentares, trabalham dentro de uma máquina que é um Estado de leis e quando o Estado decide pelo cerceamento de liberdade, você joga dentro. E no bolsonarismo? Allan dos Santos, Zé Trovão, Carla Zambelli, Alexandre Ramagem. A lista é longa, viu? Bolsonarista rejeita a Justiça brasileira. Acha que não se aplica a ele. Bolsonarista acha que as regras valem pros outros mas não para eles próprios. Pra não falar do Jair, né? Carta pros argentinos pedindo asilo, noite dormida na embaixada húngara. É tal coisa, né? Sobe o carro de som e fala que nem macho. Ou me reelejo, ou me prendem, ou vão me ver morto. E prisão não é alternativa. Pura bravata, não acredita em nada disso. Como essas duas peças se encaixam? A paranoia e o achar que as regras são para os outros, não para si? E o que entender essa chave do bolsonarismo ajuda a desvendar se o bicho está vivo ou moribundo? Vem comigo, vamos contar. Vou lançar mão de dois cientistas políticos aqui, tá? O primeiro é o birtânico Michael Freeden. Ele é, possivelmente, a maior autoridade viva no estudo de ideologias políticas. E, mais do que explicar o que diz cada uma, ele tenta compreender a visão de mundo que as pessoas que abraçam cada ideologia emanam. E a mete conservadora, ela é bem diferente da mente socialista e da liberal. É que o conservador parte de uma maneira bem particular de compreender o jeito que a sociedade se organiza. Para ele, a organização social, as hierarquias, o chefe e o funcionário, o marido, a mulher, os filhos, a escola, o quartel, a firma, tudo está organizado de um jeito que veio de muito tempo atrás, foi construído muito lentamente, e que isso promove um equilíbrio sólido mas delicado. Se mexe demais, gera desordem, gera caos, gera uma ameaça a todos. O incômodo do conservador com liberais e socialistas vem principalmente disso. Os dois querem mexer com políticas públicas. De jeitos diferentes, claro, mas querem mexer. O conservador acha isso um risco tremendo. Agora olha pros últimos 35 anos. De 1990 para cá. Fim da União Soviética, globalização, abertura das nações ao comércio de todos com todos, formação da União Europeia, Internet, comunicação rápida de todos com todos, consolidação de direitos LGBTQIA+, de direitos femininos, ampliação da classe média, urbanização rápida, mudança radical do perfil religioso brasileiro com ampliação dos evangélicos por um lado e dos ateus, principalmente entre os mais educados. Líderes políticos perdem poder para plataformas digitais globais. O perfil do trabalho operário muda para trabalho mediado por plataformas. O desenho da família tradicional entra em colapso, os casais param de ter filhos. E IA já entrando. Olha, se você parte de um olhar que qualquer coisa distinta do que sempre foi é desordem, se conta com lentos movimentos, estamos no caos. Estamos no surto. O mundo colapsou. Agora pensa o seguinte. Se você acha que a organização da sociedade é um processo de muito séculos, muito lento, isso quer dizer também que, quando as mudanças são rápidas, na sua cabeça, isso não pode ser natural. Não é porque houve uma transformação de base tecnológica que levou a contatos que antes não haviam e isso altera economia e comportamento e valores. Não é porque multidões mudaram de tal forma seu jeito de ser que, coletivamente, isso levou a um rearranjo ainda em curso. Não pode. O conservador, no ambiente que ele entende como a mais pura desordem, acha que tem de ter um culpado. Aí entra outro cientista político, o americano Richard Hofstadter. Ele propõe a ideia de um “estilo paranoico de fazer política”. Puro Bolsonaro. Bolsonaro sempre foi um camarada conspirador. Por que ele não tinha público grande em 1990? Por que não tinha em 2010? Por que começou a crescer em 2016 e explodiu em 18? Porque os conservadores não estavam assustados antes. Mas conforme compreenderam que o mundo estava acelerando sua transformação, panicaram. E, ao entrar em pânico, foram buscar um culpado. Alguém que explicasse quem, ou que pequeno grupo de pessoas, havia tomado a decisão de mudar tudo secretamente. O Foro de São Paulo, o Marxismo Cultural, as ONGs a serviço de estrangeiros. Jair Bolsonaro soa cada vez menos atraente para este público. O conservador, gente, gosta de ordem. Não gosta de caos. E talvez, fora do núcleo principal bolsonarista, aqueles 12 a 13%, muitos estejam começando a ver Bolsonaro ele próprio como um agente do caos e da desordem. Será? É uma tese na mesa. Mas isto não quer dizer que outro que apresente outra teoria conspiratória não ganhe espaço. Ou pode querer dizer que exista sede por uma direita que traga tranquilidade, paz, que prometa um governo chato. Sabe chato? Presidente que chega no Palácio to dia 9 horas, saia à 5, faça suas viagenzinhas, cumprimente outros presidentes e não grite, e não faça marola com pouco. O estilo paranoide de política sempre tem ali seus 10% da sociedade, na direita, que vive mergulhado nele. Ele se amplia por um tempo, em momentos como o atual. De muita transformação. A ironia é que ele não evita a transformação, ela vai continuar acontecendo. Ele só aumenta a dor, o esforço coletivo para lidar com as mudanças, ele só cria mais atrito, faz com que o custo de se adaptar à nova realidade fique maior. Tem uma hora que as pessoas percebem isso. Sabe o que os cientistas políticos não sabem dizer? Quanto tempo demora pra ficha cair? Oito anos, dez? Vinte? Será que, no Brasil, já caiu? Eu acho que temos indícios de que sim. Depende de alguém na direita comprar a ideia da tranquilidade como plataforma. Depende de alguém, na direita, vestir a camisa do conservador de verdade e rejeitar o tumulto reacionário.

Paranoia e surto: as reações à justificativa de Bolsonaro para soldar tornozeleira

No Central Meio de hoje, Pedro Doria, Flávia Tavares e Yasmim Restum recebem o cientista político Claudio Couto e advogado criminalista Thiago Bottino.

Lei Antifacção e a liberdade de sonhar

A Câmara dos Deputados aprovou recentemente Lei Antifacção, em um texto que gerou críticas do governo federal - que viu sobreposição de legislações e alteração no destino de verbas da Polícia Federal. Entre outros pontos, a lei cria novos tipos penais e amplia o poder da justiça para bloquear e confiscar bens de origem ilícita já na fase de inquérito. No Ponto de Partida React, desta sexta-feira (21), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre a lei não resolver o problema da criminalidade urbana, e levantam falhas sistêmicas em áreas como educação, saúde e outros serviços públicos. A conversa passa também pelo poder das máfias como fator limitante ao direito de "sonhar" durante a infância em territórios dominados. Yasmim Restum e Pedro Doria te guiam nessa jornada com uma seleção dos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta. Assista em vídeo no Youtube, e acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido.

Gemini 3.0: o que muda no mundo da inteligência artificial?

No Pedro+Cora do dia 20 de novembro de 2025, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai conversam sobre o lançamento do Gemini 3.0. No papo, discutem as diferenças entre as grandes empresas de inteligência artificial, como GPT, Gemini e Claude, destacando como cada modelo tem suas próprias especificidades, capacidades únicas e limitações. Além disso, debatem acerca do uso cotidiano de cada um deles e apontam caminhos para o futuro da tecnologia.

A Lei Antifacção é boa

A Lei Antifacção, que a Câmara dos Deputados aprovou ontem e o Senado vai encarar, não é ruim. Ela também não vai resolver o problema da criminalidade urbana, tá? Mas, olha, a que o Planalto mandou também não iria. Só que o ponto é o seguinte: a lei é melhor do que o que tínhamos antes. E, pra entender bem essa lei, para entender seus efeitos, a gente tem uma felicidade. Saiu também essa semana a pesquisa do DataFavela, organizada pelo Preto Zezé, que apresenta um panorama dos brasileiros que vivem do crime nas comunidades do país como jamais tivemos. Tem um monte de lição ali se quisermos ouvi-las. Vamos começar pelo básico. O que a lei diz. Ela começa criando um tipo penal novo, o “domínio social estruturado”. Ou seja, ele acontece quando três ou mais pessoas, ligadas a uma organização criminosa ou a uma milícia, usam de violência para controlar um território. Ou para impor controle sobre determinadas atividades econômicas. Vocês entendem: Gatonet, luz, distribuição de gás, vans. Ou então usam violência para atacar alguma infraestrutura essencial. Ônibus, metrô, energia, mesmo prisões. Em essência, a lei reconhece que formar uma máfia, como as da Itália ou dos Estados Unidos, como acontece hoje no Brasil com Comando Vermelho, com PCC ou as milícias, é um crime próprio. Ter este reconhecimento, por si, já é um grande ganho. Aí a lei cria outro tipo penal. O do favorecimento do domínio social. Quer dizer, quem ajuda. Presta serviços, dá abrigo, fornece informação, guarda armas ou explosivos. Não tem esse nome, mas é o crime de associação mafiosa, que todos os países que venceram máfias tiveram de formalizar em seus códigos. Vai além nos agravantes. Se você exerce comando nesta associação, aumenta a pena. Se é sua função obter recursos para a associação, aumenta a pena. Se você é um funcionário público, um PM, um bombeiro, e participa, sua pena é maior. Se constrói ligações com outras organizações criminosas, no Brasil ou no exterior, também aumenta a pena. E, olha só, também aumenta a pena se você buscar vantagem econômica com garimpo ilegal ou exploração ilegal de florestas. Nada disso, a penetração na estrutura do Estado, o intercâmbio com o ataque à Amazônia, nada disso estava claramente numa lei. Agora, está. E é bom que esteja. Mas vamos seguir. Um juiz passa a poder bloquear, já no inquérito, ou seja, antes de uma condenação, antes mesmo de começar o julgamento, qualquer bem ligado aos crimes que estão sendo investigados. Imóveis, veículos, contas em banco, criptomoedas, participação em empresas. Até empresas inteiras. Então se um fundo na Faria Lima estiver limpando dinheiro, o juiz pode simplesmente bloqueá-lo. Pode bloquear acesso a crédito e a pagamentos, a quaisquer plataformas digitais. O confisco é antecipado. É um bocado de poder na mão da Justiça. E, olha só, mesmo que não aconteça uma condenação da pessoa, o juiz pode apreender quaisquer bens se for comprovada a origem ilícita. O confisco pode ser feito de quaisquer bens incompatíveis com a renda declarada do condenado nos cinco anos anteriores ao crime. Inclusive se estiver em nome de terceiros. E inclui na conta responsabilidade solidária de sócios e herdeiros. Não é uma lei ruim. É bom que a gente a tenha. Mas, então, por que não resolve o problema? Olha, o mundo é mais complicado do que isso, então vamos lá. Vem comigo. O problema da lei é que ela parte do seguinte princípio: se a pena for dura o suficiente, as pessoas não vão cometer o crime. Basta ter medo de ficar tempo demais na cadeia, de ferrar com a vida de filhos e netos. Só que não é assim que funciona na vida real. A pesquisa do Datafavela conversou com quase quatro mil pessoas que trabalham no crime em favelas de 23 estados do país. Gente do PCC, do Comando Vermelho, dos grupos menores. Por que as pessoas entram no crime? Para fazer dinheiro. A maioria é soldado, é olheiro, avião. São jovens, estão armados e bem mais que a metade ganha até três mil e quinhentos por mês. Mais da metade já passou pela cadeia. E, hoje, como está hoje, o Brasil precisa de 200 mil vagas nas cadeias. Vamos prender mais gente e por mais tempo? Bem, começa assim. Precisamos construir muito mais presídios. Veja, esses jovens já passaram pela cadeia. Na cabeça deles, o destino é um de dois. Ou morte cedo ou prisão novamente. Eles não acham que terão um destino diferente. Na cabeça deles, a pena aumentar não muda nada. Porque, veja, não é só que mais da metade dos entrevistados já foi presa. Mais da metade têm parentes presos ou que foram presos também. Percebe o ciclo? E, olha, eles passam uma boa parte dos dias drogados. Metade não completou o Fundamental. 7% não têm qualquer instrução formal. Só 13% têm ensino médio completo. Vivem drogados, têm pouca instrução, a vida que conhecem inclui violência e morte e cadeia. Não quero dar uma de gente de esquerda que passa a mão na cabeça de facínora, não, tá? Mas isso aqui que a gente tem é um problema social. Podemos prender mais. Devemos prender quem comete crimes. É só que a lei parte do princípio de que, se prender e prender por tempo o suficiente, resolve. Não resolve. Não resolve porque o medo de ser preso e ser morto já existe e não impede ninguém de estar nisso hoje. E tem outra coisa que a gente sabe, tá? É nas prisões que PCC e Comando Vermelho se estruturam. As prisões fazem parte da mecânica de poder destas organizações criminosas. Seria ótimo se fosse fácil resolver prendendo, é só que o tipo de cadeia que temos fortalece as facções. Não as enfraquece. Então como resolve? Bem, vamos lá. 68% dizem que não têm qualquer orgulho do que fazem. 84% dizem que não querem os filhos seguindo o mesmo caminho. Insônia, ansiedade, depressão. Se queixam de tudo e é fácil imaginar que é assim mesmo, né? É uma vida desgraçada e é como um vício. O sujeito entra e não sabe como sair. Entra no ciclo. E ele ganha muito mal. Quem acha que é uma vida de namoradas, tênis da moda e ser celebridade no morro, para a maioria deles não é nada disso. Que tipo de profissão tira seu futuro, põe a chance de você morrer jovem lá em cima, te mantem em estresse absoluto 100% do tempo e te paga dois salários mínimos por mês? A maioria diz que o dinheiro acaba antes do fim do mês, tá? 58% dizem que deixariam o crime se tivessem oportunidade econômica. É só que eles não acreditam que vão conseguir emprego. E, se conseguirem, não acreditam que vão manter o emprego. Vocês perceberam a armadilha da lei? O deputado Guilherme Derrite veio de São Paulo com um projeto ruim debaixo do braço. O governo pressionou, o Parlamento trabalhou, no final saiu um projeto direito. Ele entende as falhas que a legislação tem hoje. Ele não chama nosso problema de máfia, mas tipifica o crime, ataca a organização e vai no dinheiro. O problema que fica é o seguinte. Ele não resolve a base. Enquanto as favelas do Brasil não tiverem economias saudáveis, capazes de gerar oportunidades reais, de criar negócios capazes de pagar dois salários para quem mora lá, não vai ter resolvido. E isso acontece de duas maneiras principalmente. Uma é o Estado reocupando o território. Não adianta subir e matar. Os soldados são repostos, gente. Também não adianta subir e prender só. Os soldados são repostos. A polícia não tem de subir o morro. A polícia tem de estar no morro. Todo dia. Como está em Ipanema, como está em Higienópolis ou no Plano Piloto. A polícia tem de estar lá, o posto de saúde tem de ter médico, precisa agência do Itaú, do Bradesco e do Banco do Brasil. A concessionária pública de luz precisa poder cobrar uma conta. A banda larga tem de ser de uma empresa normal, com CNPJ. As pessoas precisam ter título das suas casas e precisam pagar IPTU. E, olha, a escola pública vai precisar começar a educar direito, tá? A gente universalizou acesso ao ensino, toda criança na escola, nos anos 1990. O passo seguinte era melhorar educação. Melhorou traço. Não pode. Muitos países resolveram seu problema de educação em menos de vinte anos. Estamos há quase trinta desde a universalização do acesso e ainda não conseguimos ensinar direito as crianças pobres do país. Ah, mas é complicado. Claro que é. O problema do Brasil é que resolver é complicado. Mas, enquanto a favela estiver à parte da cidade, será complicado. Cidades têm bairros pobres. Isso é normal em qualquer lugar do mundo. Mas favelas não são bairros pobres, são pedaços à parte das cidades. Tem de integrar a favela à cidade, tem de integrar as pessoas da favela ao pedaço da sociedade que tem direito a sonhar. Enquanto não fizermos isso, vai ter violência, vai ter barbárie. Porque, como sociedade, não conseguimos criar um ambiente em que um grupo de jovens olhem para o futuro e achem que tem uma chance de haver uma vida melhor. O diabo dessa frase, “ter direito a sonhar”, é que ela parece poesia barata. Não é isso. Se você acha que você não tem qualquer chance de ser médico ou engenheiro ou astronauta, quando tem cinco anos, a vida é ladeira abaixo. Se tudo o que você tem é tio preso, pai ausente, primo trabalhando de vapor. Esse é o tamanho do mundo para você. O que a pesquisa do Datafavela está dizendo é isso. Esses rapazes trabalham por muito pouco arriscando tudo. Eles não acreditam que vão manter qualquer emprego. E periga ser verdade. Aos 16 anos, eles já sequer se veem como parte com qualquer chance no mundo. Eles não entendem a possibilidade de outra vida. O Preto Zezé está falando isso pra gente faz quanto tempo? Dez anos? Quinze? Vinte? A gente vai parar pra ouvir quando? A lei Antifacção não é ruim. Ela está bem direita. Ela é necessária. Mas ela não é nem próximo do suficiente para resolver o problema.

Como pesquisar melhor e não cair em armadilhas de falsos descontos na Black Friday

No Pedro+Cora do dia 18 de novembro de 2025, Pedro Doria e Cora Rónai dão dicas sobre a Black Friday: como pesquisar os preços antes e criar sua lista de favoritos, em quais ofertas prestar mais atenção em produtos de tecnologia e como não cair nas armadilhas de falsos descontos.