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Edição de Sábado: Três golpes em um

Foto: Evaristo Sá/Mateus Bonomi/Cristina Szucinski/Agif e Anadolu Agency via AFP/AFP
Foto: Evaristo Sá/Mateus Bonomi/Cristina Szucinski/Agif e Anadolu Agency via AFP/AFP

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O dia 7 de setembro de 2021 acabou entrando para a crônica política brasileira como o dia em que o então presidente Jair Bolsonaro, diante de uma multidão verde-amarela na Avenida Paulista, desafiou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá”, bafejou. “Dizer aos canalhas: nunca serei preso.”

Bolsonaro está preso desde o dia 4 de agosto de 2025. Sua prisão domiciliar foi decretada por Moraes no âmbito de uma das muitas investigações que correm contra o ex-presidente, especificamente a que apura a atuação dele e de seu filho Eduardo para constranger a Justiça e interromper o julgamento da tentativa de golpe de Estado em que é réu — e que começa na próxima terça-feira, dia 2. Foram quase 1.500 dias entre a bravata e a prisão. E ela sequer inaugura o que pode vir a ser a punição de Bolsonaro por coordenar, segundo a investigação da Polícia Federal e a denúncia da Procuradoria-Geral da República, uma organização criminosa que agiu para destruir a democracia brasileira. Se condenado nesse processo, a pena do ex-presidente pode chegar a 40 anos de cadeia.

Bolsonaro não está sozinho nesse banco de acusados. Carrega com ele a casta de militares que sempre o apoiou. Condenar presidentes, e até prendê-los, não é incomum na nossa história. Julgar generais golpistas é inédito. E foi esse passo civilizatório fundamental que o escritor Sérgio Rodrigues escolheu como espinha para o roteiro do documentário O Julgamento do Século, o segundo episódio da trilogia Democracia - Uma História sem Fim, original do Meio e exclusiva para nossos assinantes premium. O filme é dirigido por Ricardo Rangel — e ambos repetem a parceria do primeiro episódio, A Democracia não Descansa Jamais. Desta vez, em vez de Pedro Doria, quem apresenta a narrativa sou eu. E o filme estreia também no dia 2.

Sérgio, Ricardo e eu tivemos a íngreme tarefa de produzir um documento histórico de uma história que ainda não acabou. Que tem novos — e inacreditáveis — lances todos os dias. O vulto de um júri civil enquadrando, finalmente, militares que tentam tomar o poder à força nos pareceu a dimensão mais perene e basilar do julgamento do século.

Acontece que uma das maravilhas do jornalismo é que, quando o repórter vai a campo, os fatos se revelam e as fontes oferecem perspectivas que não param de nos surpreender e, afinal, informar. Editar é fazer escolhas. Algumas das descobertas de nossa produção foram integralmente incorporadas ao filme; outras, parcialmente; umas bem poucas ficaram de fora. Para conduzir você, assinante premium do Meio, pelos bastidores do que tem sido fazer esse documentário, escolhi narrar três dessas descobertas e o que elas revelam da trama golpista e da conduta de Bolsonaro.

A verdadeira ameaça

Abrir este texto com o 7 de setembro de 2021 não foi randômico. A agressividade do discurso de Bolsonaro na Paulista foi tamanha que o horizonte de um impeachment pareceu real pela primeira vez, mesmo depois de todos os desmandos de sua gestão na pandemia. Foi tamanha que parecia começar ali aquela sensação permanente de assombro diante dos arroubos golpistas do ex-presidente. Se ele era capaz de falar aquilo publicamente, daquela maneira, o que estaria dizendo e tramando nas sombras? Como o Brasil resistiria àquele ataque virulento e explícito?

Pois alguns envolvidos nos mais variados graus de poder da República asseveram que quem acredita que o 8 de janeiro de 2023 foi o dia em que nossa democracia correu mais risco não imagina a gravidade do que aconteceu no dia 7 de setembro de 2021. E mais: que a verdadeira ameaça não esteve só no dia 7 e nem só na Paulista, mas começou na véspera e se estendeu para a manifestação daquela manhã em Brasília, em que Bolsonaro também discursou — mas cujas palavras acabaram abafadas pelas daquela tarde, em São Paulo.

“Foi o dia mais perigoso para nossa democracia", eu ouvi de três fontes diferentes. Àquela altura, a retórica bolsonarista contra o sistema eleitoral brasileiro já estava em altos decibéis. O Supremo também já havia instaurado o inquérito das fake news, aquele grande guarda-chuva jurídico que acabou concentrando, para crítica de muitos juristas, todo tipo de investigação sobre a extrema direita.

Na noite do dia 6, caminhoneiros e apoiadores de Bolsonaro derrubaram bloqueios feitos pela Polícia Militar do Distrito Federal na Esplanada dos Ministérios. Em vídeos nas redes sociais, eles prometiam invadir o STF no dia seguinte.

Sete tentativas. Houve sete tentativas de invasão ao prédio do Supremo no fatídico dia. Diante do risco, foi elaborado um plano de proteção para Luiz Fux, então presidente da Corte, e para os demais magistrados que envolvia embarcações e helicópteros para retirá-los do STF e de suas casas. Snipers foram posicionados nos telhados próximos. Ainda na noite do dia 6, Fux cogitou o uso do Exército para proteger o prédio do STF. A tão temida invocação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) do dia 8 de janeiro quase aconteceu ali. “A minha responsabilidade foi muito grande. Já haviam me avisado que as Forças Armadas estariam de plantão para o caso de haver um conflito social”, Fux declarou em entrevista depois.

O ministro mantinha reuniões periódicas, fora da agenda, com Bolsonaro. Alegava a interlocutores que trabalhava para distensionar as relações do Executivo com o Judiciário. Aparentemente, sem sucesso. Naqueles gramados secos de Brasília, Bolsonaro discursou, com um general Braga Netto vestido com uma camiseta de caveira ao seu lado, para estimados 400 mil apoiadores no dia 7. Depois de falar de “uma pessoa específica da região dos três poderes (sic)” que seguia “barbarizando a nossa população”, o ex-presidente mandou uma direta: “Ou o chefe desse Poder enquadra os seus ou esse poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”. Horas depois, soletrou o nome de Alexandre de Moraes e dos demais “canalhas” que pretendia atravessar no outro Poder.

A partir daquele ataque, o protocolo de segurança do STF mudou. Sempre que há manifestações agendadas, os documentos sensíveis da Corte são levados para outra locação. E para que a magnitude do 8 de janeiro não se perca no que foi essa prévia, todo material de defesa comprado pela Corte em dois anos, como munição e bombas, foi gasto naquelas horas em que a invasão dos golpistas de fato se deu.

Quem se recorda de, como eu, ouvir estupefato o que Bolsonaro berrava no microfone, seja em Brasília ou em São Paulo, talvez entenda, agora, o que estava em jogo. E o quão cedo o ataque concreto à democracia começou.

Com todas as letras

Estudar a denúncia da PGR que amarra os fatos para contar a história da trama golpista é um exercício que todo cidadão interessado deveria fazer. Especialmente se tiver a paciência de procurar no noticiário o que Bolsonaro e os demais réus vinham falando publicamente. O documentário do Meio se propõe a fazer isso com vários desses momentos.

O que me salta mais aos olhos e ouvidos é o do dia 9 de dezembro de 2022 — e o abordei também na minha coluna semanal em vídeo, o Cá entre Nós.

Fazia 37 dias que Bolsonaro não se manifestava publicamente. Estava recluso no Palácio da Alvorada. Seus interlocutores fiéis reportavam que era depressão. Seus seguidores fanáticos lamentavam o silêncio seletivo do líder, enquanto lá estavam tomando chuva e sol orando para pneus, bloqueando estradas, nos acampamentos em frente aos quartéis. Agora sabemos que a agenda de Bolsonaro estava repleta de reuniões para discutir “saídas jurídicas” para reverter o resultado das eleições — o nome disso é golpe.

Mas naquela tarde o presidente decidiu falar. E escolheu com esmero o recado que queria passar — não aos incautos de verde-amarelo ali aboletados. Mas aos militares que tentava converter para o golpe. Os bolsonaristas no gramado gritavam “Eu autorizo”, como já haviam feito tantas vezes clamando por intervenção militar.

Bolsonaro disse o seguinte: “Entre as minhas funções garantidas na Constituição uma é ser o chefe das Forças Armadas. As Forças Armadas são essenciais em qualquer país do mundo. Eu sempre disse, ao longo desses quatro anos, que as Forças Armadas são o último obstáculo para o socialismo. As Forças Armadas, tenho certeza, estão unidas. As Forças Armadas devem, assim como eu, lealdade ao nosso povo. Respeitam a Constituição e são as grandes responsáveis pela nossa liberdade”.

Misturar “chefe”, “o último obstáculo” e “lealdade” no mesmo fôlego não foi, também, aleatório. No dia 6 de dezembro, três dias antes, havia sido apresentada a Bolsonaro, pela primeira vez, a minuta do golpe. É aquele documento que descreve uma situação inverídica de desordem no Judiciário que justificaria a interrupção da democracia, a convocação de novas eleições e a prisão de Alexandre de Moraes, Lula e Geraldo Alckmin, além de Gilmar Mendes e Rodrigo Pacheco.

Bolsonaro recebeu no Alvorada no dia seguinte os comandantes do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, além do ministro da Defesa, para apresentar o texto. Diante da resistência do general Freire Gomes e do brigadeiro Batista Júnior, Bolsonaro desconversou. Disse que o documento estava em estudo e reportaria qualquer novo avanço para os comandantes. Paralelamente, segundo áudio do general Mario Fernandes, outro réu, enviado ao ajudante de ordens, Mauro Cid, Bolsonaro teria dado aval para o golpe. “Durante a conversa que eu tive com o presidente, ele citou que o dia 12, pela diplomação do v***, não seria uma restrição, que isso pode, que qualquer ação nossa pode acontecer até 31 de dezembro e tudo”, disse Fernandes a Cid.

O ex-presidente passou a manhã do dia 9 de dezembro reunido com seus auxiliares golpistas, mudando trechos do decreto, e ali eles decidiram acionar outros membros do alto escalão do Exército pra buscar apoio para o golpe. Foi nesse contexto que ele foi ao gramado do Alvorada falar das responsabilidades das Forças Armadas.

Naquela noite, o general Estevam Theophilo, do Coter, foi à residência oficial de Bolsonaro. Em seu depoimento à Polícia Federal, o general Freire Gomes declarou ter ficado “desconfortável” quando soube do encontro de Theophilo com o presidente. A denúncia da PGR diz que isso se deu porque Theophilo tinha “grande prestígio no meio militar. O seu apoio ao plano de ruptura institucional significava, àquela altura, a possibilidade de consumação do golpe de Estado”.

Em uma troca de mensagens com o coronel Correa Netto, Mauro Cid reportou que Theophilo embarcaria no golpe se Bolsonaro assinasse o decreto de Estado de Sítio. O comparsa perguntou como estava indo a reunião. Cid respondeu que as coisas “estavam sendo construídas” dia a dia. Correa Netto respondeu: “dia a dia vai chegar dia 12 kkkkk". Era o dia da diplomação de Lula e Alckmin. Foi o dia em que os golpistas tacaram fogo em Brasília em busca, novamente, de uma decretação de GLO.

Um outro crime

O caos não prosperou. O Alto Comando do Exército não aderiu. Bolsonaro fugiu.

Mas a máquina golpista não foi desmobilizada. Ao contrário, a cada nova manifestação do ex-presidente ou de seus aliados era dado algum sinal de que havia algo sendo tramado para reverter a vitória do presidente Lula e devolver Bolsonaro ao poder.

Há quem critique a denúncia por não apresentar provas concretas da ligação de Bolsonaro com os atos golpistas de 8 de janeiro. A ausência desse vulgar “batom na cueca” retroalimenta boa parte da retórica bolsonarista nas redes e acaba transbordando para quem não é apoiador cego de Bolsonaro, mas também não enxerga claramente essa conexão.

Uma das fontes do documentário que lançaremos no dia 2 de setembro é o jurista Rafael Mafei, professor da USP e da ESPM. Na longa entrevista que generosamente nos concedeu, Mafei emoldurou a atuação de Bolsonaro pós-eleições de 2022 de uma maneira original.

Ele lembrou que, muito mais do que uma cortesia, facilitar a transição de poder é um dever jurídico do derrotado numa eleição. Previsto na Constituição. “O período de transição de governo é regulamentado por lei. Quem está no cargo tem o dever jurídico de promover uma transição pacífica para o próximo governo”, diz Mafei. Na sua avaliação, se é verdade que havia uma autoridade nomeada para interagir com os emissários do governo eleito, também havia uma panela de pressão na porta de muitos quartéis que teria sido facilmente desmobilizada por Bolsonaro ou por Braga Netto, por exemplo.

“No Direito, existe um dever de agir. A omissão em face do dever pode caracterizar o ato ilícito. É defensável que um presidente da República, no momento de transição, tenha o dever de agir para que a transição aconteça da forma mais efetiva e pacífica possível. E Bolsonaro violou esse dever.”

Diante dos casos esdrúxulos de bloqueio de rodovias, que culminaram em pacientes perdendo cirurgias, em famílias com idosos e crianças presos por horas nos congestionamentos e até em casos de violência, Bolsonaro levou 72 horas para pedir a apoiadores que liberassem os caminhos — mas incentivou que os protestos seguissem de outras formas: “O pedido é rodovias”. Não houve qualquer ação para desmontar os acampamentos diante dos quartéis pelo Brasil, de onde saiu até o planejamento de um atentado ao aeroporto de Brasília na véspera de Natal. Ao contrário. “Bolsonaro tinha o dever de usar o poder que tinha como presidente, como liderança política, na desmobilização da violência. Não é que a gente nem imaginava o que pudesse acontecer no 8 de janeiro. Já estava acontecendo em dezembro. Houve vários atos de violência em Brasília, com Bolsonaro ainda presidente, em relação aos quais ele não fez nenhum tipo de pronunciamento de desmobilização”, acrescenta Mafei.

E seus aliados iam além, incentivando que a mobilização permanecesse, que os apoiadores não perdessem a fé.

No dia 30 de dezembro, véspera de ir embora do país, o quase ex-presidente fez uma live, a primeira desde antes do segundo turno das eleições. Em um momento, explicou-se. “Ninguém quer uma aventura. Agora, muitas vezes, dentro até das quatro linhas, você tem que ter apoios. Alguns acham que é ‘pega a bic e faz isso, faz aquilo’. Está tudo resolvido. Certas medidas têm de ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos, e de outras instituições”. Os apoios para a ruptura democrática não estavam vindo. O que não quer dizer que ele não tenha tentado insistentemente. “O Brasil não sucumbirá. Acredito em vocês. Como foi difícil ficar dois meses calado, trabalhando para buscar alternativas”, ele confessou no fim do discurso. E veio, então, o deplorável 8 de janeiro. O arco do crime se completa, de 2021 a 2023, numa tentativa contínua de assalto às instituições democráticas brasileiras.

Epílogo

Produzir esse documentário no calor dos acontecimentos ao lado de uma equipe tão dedicada e brilhante quanto essa do Meio é um privilégio. Mas o trabalho só acaba quando termina. Estamos todos empenhados em acompanhar cada momento do julgamento e preparar, ato contínuo, um epílogo, a ser acrescentado ao final do documentário, com os fatos novos. Não só isso. Em breve, vamos oferecer aos assinantes premium a íntegra das entrevistas que realizamos com as fontes do documentário para que vocês tenham acesso a todo esse riquíssimo material. E, claro, vamos seguir acompanhando e analisando o noticiário nas nossas newsletters, no YouTube, nos podcasts e nas nossas redes sociais. O julgamento do século vai começar.

Linux, uma história

Era um morno dia de verão finlandês no final de agosto de 1991 quando o jovem estudante de programação Linus Torvalds fez uma postagem num grupo de discussão da Usenet. A internet de então era basicamente texto em telas pretas com letras verdes, mas estava em ebulição. A web havia sido anunciada publicamente por Tim Berners Lee havia menos de um mês. Não era a primeira postagem de Torvalds nesses grupos: semanas antes ele andava fazendo posts com perguntas e dúvidas para aprender mais sobre arquitetura de sistemas operacionais. Mas naquele 25 de agosto ele tinha finalmente algo para começar a mostrar.

Escreveu Torvalds: “Olá a todos aí fora que usam minix — Estou fazendo um sistema operacional (gratuito) (apenas um hobby, não será grande e profissional como o gnu) para clones AT 386(486). Venho trabalhando nisso desde abril, e está começando a ficar pronto. Gostaria de qualquer feedback sobre coisas de que as pessoas gostam/não gostam no minix, já que meu SO se assemelha a ele em certa medida. No momento já portei o bash e o gcc, e as coisas parecem funcionar. Isso significa que terei algo funcional dentro de alguns meses, e eu gostaria de saber quais recursos a maioria das pessoas gostaria. Quaisquer sugestões são bem-vindas, mas não prometo que vou implementá-las :-)”.

A referência ao Minix e ao GNU deixavam claro que o sistema que Torvalds estava desenvolvendo seguia na linha do Unix, o sistema operacional que rodava na maioria dos servidores que se conectavam naquela nascente internet. Mas o Unix era um sistema que rodava apenas em estações de trabalho caras e sofisticadas, que existiam em laboratórios de universidades e grandes empresas. Além disso, havia uma imensa guerra sobre a marca Unix, que na época era de propriedade da AT&T. Outras empresas comercializavam suas versões de Unix com nomes levemente diferentes, como o Xenix, originalmente da Microsoft e que rodava nos PCs que começavam a se popularizar. Mas mesmo assim era algo longe do alcance de um estudante, que tinha acesso à Unix na universidade, mas não conseguia rodar em seu computador de casa. A única versão acessível na época era o Minix, desenvolvido por um professor de sistemas operacionais chamado Andrew Tanenbaum, mas cuja licença era muito restrita para quem queria usar para além da sala de aula.

Mais que um sistema operacional, o Unix é uma filosofia. Começou como um projeto pessoal de dois engenheiros do Bell Labs depois que o laboratório deixou o projeto do Multics. Desiludidos com a complexidade do Multics, Ken Thompson e Dennis Ritchie resolveram desenvolver um sistema o mais simples possível, que fizesse bem as coisas essenciais que um sistema operacional deveria fazer, e deixar as outras coisas para outros aplicativos. O paper publicado por Ritchie e Thompson em 1974, descrevendo o Unix, é considerado um clássico da ciência da computação.

No início dos anos 1980, Richard Stallman, do MIT, havia começado sua cruzada a favor do que ele começou a chamar de software livre e anunciou que iria desenvolver uma versão gratuita do Unix. Batizou seu projeto de GNU, um acrônimo brincalhão cujo significado era: Gnu’s Not Unix (Gnu Não é Unix). O projeto GNU cresceu e atraiu muitos desenvolvedores, que começaram a escrever versões para ele da maioria das ferramentas existentes nos diversos sabores de Unix. Mas era um projeto grandioso e o kernel (o núcleo que cuida das funções mais básicas de um computador) do sistema nunca ficou pronto em definitivo.

Diferente do Minix e do GNU, Torvalds decidiu por uma arquitetura monolítica para seu kernel. Essa decisão rendeu uma longa treta com Tanenbaum, que defendia uma arquitetura chamada de microkernel, supostamente mais moderna, e que também era usada pelo GNU. Essa decisão permitiu que Torvalds finalizasse e lançasse o Linux com mais agilidade e aos poucos todas as ferramentas feitas para o GNU começaram a ser adaptadas para o Linux, garantindo que aquele sistema feito por um jovem estudante estivesse pronto e funcional no exato instante que a internet explodia mundo afora.

O resto é história. Enquanto o kernel do GNU nunca chegou a ser finalizado, o Linux herdou as ferramentas originais dele e se tornou o principal motor da internet. Hoje mais da metade dos servidores da rede rodam Linux. E, se somarmos outros sabores de Unix, chega a quase 90% dos sites, com o Windows rodando no pouco mais de 10% restantes. Podemos dizer que da mesma forma como o excesso de complexidade afetou o projeto do Multics dando origem ao Unix, vimos a história se repetir com o GNU e o Linux. Como dizem por aí, a história não se repete, mas rima, mesmo quando falamos de tecnologia.

Aposta na liberdade radical

Ava Rocha é uma das artistas mais radicais em atividade, principalmente quando pisa no palco. Começo esse texto ainda sob o impacto de ver há algumas horas o show Bodas de Cristal, no Bona, em São Paulo, em que ela divide a cena com Negro Leo, seu companheiro há 16 anos. Juntos, com violão, piano e eletrônica, os dois passam em revista canções compostas por ambos, que estão em versões diferentes das que aparecem em suas discografias, e desafiam os próprios limites da canção numa performance visceral.

O segredo da arte de Ava é justamente a presença, a performance. Seus últimos discos solo, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), Trança (2018) e Nektar (2023) são excepcionais em canalizar uma energia poética, mas também política. Mas quando ganham vida ao vivo, como vai acontecer com Nektar no próximo dia 7 de setembro no Teatro Oficina, a experiência extrapola a mera reprodução de canções. E, no caso do Oficina, lugar em que Ava se descobriu cantora, certamente a magia será especial.

Filha de dois grandes cineastas, Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava mistura vida e arte, tendo um passado no teatro, mantendo uma atuação no cinema – no momento ela está montando o mais novo filme de seu irmão, Eryk Rocha –, e deixando acesa a usina de criação de canções. Isso sem falar no seu lado de artista visual. Neste ano, ela levou a performance dentro de fora de dentro à galeria Millan, em São Paulo. Falamos sobre a volta ao Oficina, a influência dos pais, a ligação com a Colômbia, mas sobretudo a respeito de duas coisas que alimentam sua obra: liberdade e radicalidade. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Queria começar pelo show no Oficina, que na verdade é uma volta. Como é levar o Nektar para o teatro?

Eu comecei no Teatro Oficina pelo Os Sertões [parte 2]. Entrei lá em 2006, a convite do Zé Celso [Martinez Corrêa] para ser assistente de direção geral da filmagem. Depois eu também trabalhei em outras peças com ele, mas foi em Os Sertões que comecei a cantar. Ele me perguntou se eu queria cantar e disse que sim. Daí eu saí do Oficina e, desde o meu primeiro disco, faço shows lá. Tive o prazer de ter o Zé Celso lá comigo, vendo os meus shows. E é sempre muito emocionante esse retorno, porque é o palco onde nasci como cantora. Toda vez que canto lá é um renascimento. Esse lado performer, os meus ensinamentos, as minhas ancestralidades, é como se tudo brotasse com muita força. São muitas camadas do meu ser, da minha história e também da minha concepção do que é a política, das minhas conexões espirituais. Obviamente, tudo é ligado à minha história com teatro, à memória do Zé, dos ensinamentos dele, enfim, do meu próprio pai e de outras influências. Espero que no show do Nektar tudo isso venha à tona.

Nektar talvez seja o seu disco mais acessível, tanto do ponto de vista sonoro como das letras. Agora o show é uma performance muito elaborada, totalmente dionisíaca. Isso também é uma conexão clara com esse espírito do Zé Celso e do Oficina, não?

Ao vivo, o Nektar tem esse sentido de ser uma narrativa de libertação, de você se soltar. Essa felicidade ébria, esse líquido que a gente vai bebendo. No disco, tem essa simplicidade proposital, de ir na fonte mesmo, de buscar a fonte e de transbordar para outros sentidos, para outras conexões. Venho de uma trajetória performática, e o caminho é cada vez mais transbordante e radical. O show talvez seja mais difícil, entre aspas, né? O disco é mais fácil. Mas é isso, nada é tão fácil e nada é tão difícil. Eu não acho nada estranho. Para mim o estranho é normal e o normal é estranho.

Em seus discos anteriores, tanto no Ava Patrya Yndia Yracema e depois no Trança, vejo um investigação sua como pessoa no mundo. Trança tem muito das suas raízes e o Ava Patrya leva o seu nome. Com que mulher você se debate quando olha para si mesma?

Pergunta difícil. Procuro me debater com todas as mulheres que sou e que não sou. E também com os bichos que sou e que não sou, com o homem que sou e que não sou. A minha arte, em primeiro lugar, não está tão ligada comigo, com a minha biografia. Não é uma obra que parte de uma crise existencial, mas nasce de uma necessidade de me relacionar com o mundo, através do meu olhar, das minhas questões. A minha música fala muito pouco sobre mim. Eu estou misturada em tudo, mas não há narrativas pessoais verídicas. Eu reflito muito sobre qual é o gesto poético, a palavra no mundo, o gesto no palco, a performance. Para mim, nada é demonstrativo. É como se cada disco ou cada show fosse uma espécie de um ebó, de uma oferenda. Por isso que os meus shows também são diferentes do disco, porque uma vez aquilo feito, jamais deverá ser repetido na minha concepção. É como se a arte fosse o meu alimento diário, a minha oferenda diária. E então não é sobre demonstração, sobre produção, é sobre o acontecimento, experiências, vida. Agora, tem um caráter subliminar em todos os discos que é um olhar político para o mundo.

Imagino que a questão política venha muito do seu pai e da sua mãe, já que ambos sempre trabalharam numa perspectiva da arte com um olhar político e poético para o mundo. Como funciona a influência deles?

Sou muito filha deles. Sou muito pestinha deles. Eles conseguiram me deixar bem parecidinha com eles. Às vezes eu tenho ideias, faço procedimentos artísticos que, para além da racionalidade, são algumas coisas que eles fariam. E com minha mãe, que está viva, que foi realmente quem me criou, isso é muito forte. Ela me inspira e aconselha muito. E meu pai de uma forma mais espiritual, né? Uma vez me perguntaram: “Ava, como é estar à sombra do teu pai?”. Eu falei: “Eu estou debaixo da luz de meu pai”. Não tenho nenhuma expectativa de superá-los no sentido artístico. O grande legado deles, para mim, é a coragem e o rigor artístico. É o que a minha mãe me traz sempre. Com muita força, porque minha mãe é uma das pessoas que podem falar sobre o meu pai para mim, uma vez que ele morreu quando eu tinha dois anos de idade. De certa forma, demorei muito tempo para cantar. Comecei aos 29 anos porque me perguntava o que eu faria com a minha voz, o que eu faria com a minha arte?

Está vindo coisa nova depois do Nektar

Estou num processo criativo intenso. Cheguei num ponto em que a novidade é viva, não depende do lançamento de nada. Porque é muito chato e muito insignificante viver a sua arte em função de lançamentos protocolares a serviço de uma indústria que nem sequer te remunera. Nem sequer devolve nada à altura do que a sua entrega artística promove. Estou com milhões de músicas, de obras, disso e daquilo, isso já existe. O meu disco novo já está em mim. Então, me acesse. Venham aos shows, venham às performances. As coisas estão vivas para além do plástico, do digital. Estou fazendo show com o Chicão de voz de piano, estou fazendo o Bodas de Cristal com o Leo, o Nektar, as performances. Estou num processo de organizar o cronograma de todos esses lançamentos. Não tenho patrocínios que invistam num planejamento mais burocrático. E me aproveito disso, sabe? Para mim, é uma bendição você realmente poder se aproveitar da sua liberdade e operar no mundo da arte com mais radicalidade. Existe uma insatisfação coletiva dentro desse sistema. Os artistas precisam se aproveitar disso para se movimentar artisticamente, culturalmente, politicamente e se radicalizar, porque esses processos são muito opressores. Não falam ao coração do artista. Eles deprimem, acabam com a força criativa. Então, minha onda é essa. Agora, se os patrocinadores quiserem, a gente pode conversar também. Porque eu não sou boba e a gente está num mundo capitalista.

 

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