Edição de Sábado: Rumo ao desconhecido
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“Pense em fevereiro de 2020”, começa um texto que viralizou no X nas últimas semanas, com mais de 80 milhões de visualizações.
Matt Shumer, o autor, diz que se sente como uma das poucas pessoas que conseguiu ver o tsunami que viria com a pandemia semanas antes do resto da população. Quem entende de curvas exponenciais era capaz de extrapolar a trajetória daqueles primeiros casos — e ficar desconfortável com quão diferente seria o mundo que estava por vir se o ritmo de contágio se mantivesse. Shumer deveria ser uma daquelas pessoas fazendo estoques de máscara enquanto os outros pulavam o carnaval.
O paralelo que ele faz é, obviamente, com o avanço da inteligência artificial, que está em um ritmo alucinante (para quem presta atenção), especialmente nos últimos três meses. Shumer, que é CEO de uma startup de IA e investidor do setor há seis anos, diz que quando a família pergunta “e esse lance de IA?”, ele dá sempre a versão educada, de conversa mole. “Porque a versão honesta faz parecer que eu perdi o juízo.”
Quem trabalha com programação está acompanhando essa evolução, desnorteante, na primeira fila. Andrej Karpathy, uma das maiores autoridades em modelos de linguagem e ex-diretor de IA da Tesla, disse esta semana: “É difícil comunicar o quanto a programação mudou por causa da IA nos últimos dois meses.” Em janeiro, ele já tinha contado que passou de 80% de código escrito à mão em novembro para 80% delegado a agentes de IA em dezembro. Ele, que já foi símbolo dos céticos por ainda programar à mão, agora diz que essa foi “a maior mudança no meu fluxo de trabalho em duas décadas de programação”.
É difícil comunicar, de fato, para quem é de fora. Claude Code e Codex, os agentes de IA que escrevem código, respectivamente da Anthropic e da OpenAI, são capazes não apenas de programar com qualidade, mas de implementar, testar e capturar erros. Essa capacidade chamada “agêntica” se traduz em outras tarefas, de outros domínios. Veja por exemplo como um modelo de ponta (ChatGPT 5.2 Pro) reconstitui a linha do tempo de pesquisas sobre polilaminina, depois de pesquisar por 16 minutos, fazer referência cruzada e conferir informações incompletas em sites jornalísticos.
A ideia de que há uma aceleração sem precedentes não é só na capacidade do produto final, capaz agora de ser coautor de descobertas na física ou ser parceiro de quem está na vanguarda da matemática. A OpenAI declarou que o GPT-5.3 Codex é “o primeiro modelo que foi instrumental na criação de si mesmo”; e a Anthropic revelou que 90% do código do próprio Claude Code já é escrito por Claude Code. Ou seja: o próprio aumento da capacidade dessas coisas garante a evolução constante — um cenário descrito no relatório AI 2027, de “IA autoaperfeiçoante”.
Há tanta confiança no mercado da capacidade atual e futura dessas ferramentas que, quando a Anthropic publica um post de blog falando sobre a capacidade do Claude Code de traduzir código legado — COBOL, linguagem dos anos 1950 que roda nos caixas eletrônicos dos bancos e nos mainframes de hospitais —, isso faz com que as ações da IBM tenham a maior queda em um dia em mais de 25 anos. Treze por cento.
Não foi o único post que balançou a bolsa. No domingo à noite, a Citrini Research — uma pequena firma de análise financeira — publicou no Substack um cenário ficcional de como estaria o mundo em 2028: desemprego de mais de 10% nos EUA, recessão, o mercado imobiliário americano sob pressão e um colapso no mercado de crédito privado de US$ 2,5 trilhões. A premissa: a IA substitui trabalhadores de escritório em massa, os lucros das empresas disparam enquanto a base consumidora encolhe.
O ensaio tinha vários furos do ponto de vista lógico, mas o conceito de “PIB Fantasma” — a noção de que as IAs vão começar a produzir riqueza para empresas listadas em bolsa, “crescendo o PIB e a produtividade” nas estatísticas, mas diminuindo a capacidade de a população comprar esses produtos, ao desempregar pessoas — parece ter pegado.
Na quinta à noite, para continuar nos posts e declarações que abalaram mercados, Jack Dorsey, cofundador do Twitter e hoje CEO da Block (uma fintech), anunciou a demissão de mais de 4 mil funcionários — quase metade da força de trabalho da empresa. O faturamento estava em alta recorde, e Dorsey foi explícito: “Ferramentas de inteligência mudaram o que significa construir e operar uma empresa. Uma equipe significativamente menor, usando as ferramentas que estamos criando, pode fazer mais e fazer melhor.” As ações subiram mais de 20% no aftermarket.
Os dados, por enquanto
É importante não tomar a palavra de CEOs e a “inteligência do mercado” ao pé da letra. A noção de que a IA dá conta, hoje, de substituir um monte de gente em larga escala ainda tem pouco lastro nos dados.
Analistas do Deutsche Bank cunharam um termo para empresas que justificam demissões com IA sem ter os dados para provar: “AI redundancy washing.” O Nobel de Economia Daren Acemoglu disse esta semana que “a IA não está aumentando a produtividade”.
Mas outros economistas podem chegar a outras conclusões com os mesmos dados. Erik Brynjolfsson, de Stanford, apontou no Financial Times que a produtividade americana cresceu 2,7% em 2025, quase o dobro da média da última década, e que parte disso já pode ser atribuída ao uso de IA.
E enquanto os dados macro seguem ambíguos, na microeconomia as coisas parecem claras. Estudos com atendentes de call center mostram ganhos de 14% em produtividade; ambientes de desenvolvimento de software, 21% de economia de tempo; no ecossistema de startups, a Y Combinator já sinaliza abertamente que equipes minúsculas usando IA podem competir com empresas de dezenas de pessoas. Não é coincidência que cada vez mais solo founders — empreendedores individuais — apareçam nas últimas turmas de aceleradoras.
O que quero dizer aqui é que afirmar que a capacidade da IA hoje é puro (ou primordialmente) hype é uma posição parecida com quem chamou a Covid de “gripezinha”. Pode até ser que a escala e a velocidade do impacto sejam menores do que os profetas do apocalipse preveem. Mas a direção do movimento é inegável, e quem não está prestando atenção vai ser pego de surpresa.
E, veja, pode ser que a sua experiência com essas coisas seja muito diferente da minha. Que, usando um ChatGPT gratuito ou o resumo das pesquisas do Google (ferramentas pouquíssimo confiáveis), você tenha dificuldade em entender de onde vem tamanha confiança na tecnologia. Talvez essa seja a experiência da maioria, mas é algo cada vez mais alienígena pra mim. Eu me sinto cada vez mais em fevereiro de 2020, como Shumer.
Esta semana, em uma aula, um aluno observou que eu “vivia no futuro” depois de ver todas as ferramentas de IA que uso diariamente. As coisas que me dão superpoderes cognitivos, transformam trabalho de semanas em poucos comandos para o chatbot executar em minutos ou horas. Coisas que me fazem ser mais produtivo que muitas equipes, mesmo trabalhando sozinho.
O ganho é mais óbvio em programação, mas começa a valer também para texto. Pegue o processo criativo e de pesquisa para este artigo. Minha semana foi assim: depois de discutir a ideia do tema com Flávia Tavares, editora-chefe do Meio, rascunhei dois parágrafos do argumento e da estrutura, e fui caçar coisas que eu lembrava de ter lido. Passei uma manhã marcando e relendo posts e artigos interessantes — no X, Substack, nos jornais — e favoritando.
Sempre que apertava um favorito, ou um atalho no teclado, isso ia pro “PedroBot”, meu agente pessoal. Minutos depois chegava uma mensagem dele no WhatsApp dizendo que o que eu tinha favoritado cabia (ou não) em uma das minhas ideias de artigo que estava trabalhando — não necessariamente este.
O papel dele é fazer triagem: depois de ler tanto o que favoritei quanto todas as ideias que estou ruminando, ele sugere que dá pra aproveitar uma declaração, um dado, ou uma anedota ilustrativa daquele pedaço ali. Basta eu responder “ok” que ele coloca em uma base de dados. Visualmente, organizei — ou melhor: pedi para uma IA programar isso — como uma espécie de mural digital, com o argumento central e os fragmentos de favoritos como se fossem post-its em volta.
Todos os dias da semana, às 9h, o agente repassa as minhas ideias mais adiantadas e grava um áudio longo dando sugestões de estrutura. O que falta de contraponto, como pode ser a abertura, fragilidades em argumentos. Para deixar a coisa um pouco mais assustadora, ele usa uma variação da minha voz, clonada em um serviço de IA.
Na hora de sentar para escrever, minhas ideias, normalmente bastante caóticas, já estão significativamente mais ordenadas — e eu não preciso gastar tempo com “onde eu li aquilo mesmo?” O texto em si eu escrevi. Mas Claude sugeriu o título, ele e ChatGPT revisaram e fizeram algumas críticas que acatei. Se você jogar em um “detector de IA”, vai dar “100% humano”.
Do mesmo jeito que estou produzindo muito mais páginas, aplicativos, treinamentos e consultorias mesmo trabalhando sozinho, estou usando o PedroBot e outras IAs como pauteiro, revisor e para substituir aquela editora minuciosa que já tive certa vez. O Gemini faz umas ilustrações de vez em quando; Claude cuida de gráficos e fluxogramas.
Escrevo sobre tecnologia há mais de 20 anos, desde os tempos de Superinteressante, e nunca vi qualquer coisa remotamente parecida impactar tão rapidamente não apenas o mundo à minha volta, mas o meu trabalho. Eu sou apenas um early adopter não representativo ou o paciente zero dessa transformação?
Ninguém sabe de nada
Vamos voltar aos posts proféticos por um segundo. Um ensaio de ficção científica no Substack — não um relatório de banco, não um dado econômico, uma história especulativa sobre 2028 — derrubou mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado em um dia. Ações de empresas reais caíram 9%, 13%, porque foram citadas num cenário imaginário. O Wall Street Journal cobriu o estrago com a manchete “Relatório viral de apocalipse expõe a ansiedade profunda de Wall Street sobre o futuro da IA.”
Derek Thompson, dos meus substackers favoritos, fez nesta semana uma observação que me parece a mais honesta que li sobre esse momento. Ele lembrou de uma frase do roteirista William Goldman sobre Hollywood: “Ninguém sabe de nada.” Goldman estava falando sobre a incapacidade de a indústria do cinema prever o próximo hit. Thompson diz que a frase se aplica perfeitamente à IA. Ele conversou com executivos de laboratórios, economistas, investidores, gente nas salas fechadas onde supostamente se discutem verdades importantes. E sua síntese, em quatro palavras: ninguém sabe de nada.
Não é que essa gente seja burra. Não é que a especulação, que eu faço aqui ou que os céticos fazem em podcasts, seja inútil. É que os próprios responsáveis pelo ChatGPT e Claude não sabem exatamente o que estão construindo, e os economistas não sabem modelar a coisa que as empresas dizem estar construindo. O resultado é uma incerteza genuína — um vácuo no qual narrativas se instalam. Quem tem uma boa história preenche o espaço. Shumer preencheu com a parábola da pandemia. Citrini, com ficção econômica. Dorsey, com a demonstração de que já está demitindo. Karpathy, com o relato de quem vive a mudança no dia a dia. Todas são histórias persuasivas.
Eu me incluo nisso. Quando descrevo meu fluxo de trabalho com IAs e o ganho absurdo de produtividade, também estou contando uma história — a minha. É verdadeira, mas é a de alguém que passa o dia inteiro testando essas ferramentas. Não é a história de quem trabalha no RH de uma construtora em Ribeirão Preto, nem a de um jornalista de cidades num veículo de médio porte. E, se os dados macro dizem alguma coisa por enquanto, é que a experiência de quem está na ponta não se generalizou. Ainda.
Esse “ainda” é o que incomoda. Porque a cada mês as ferramentas ficam melhores. E a distância entre quem está usando e quem não está se alarga. Dois meses atrás, agentes de código não funcionavam direito. Agora funcionam. Daqui a dois meses, vão funcionar para mais coisas. A velocidade com que isso melhora é o dado mais concreto que temos, e ele aponta numa direção só.
O medo que muita gente está sentindo faz sentido. É uma resposta racional a uma situação em que ninguém — nem os CEOs dos laboratórios, nem os economistas premiados, nem os investidores bilionários — consegue dizer com confiança o que vai acontecer. É ok não saber. É ok ter medo. O que não dá é pra fingir que não está acontecendo.
A única coisa que posso dizer, depois de mais de 20 anos cobrindo tecnologia e quatro anos testando essas coisas todos os dias, é que vale a pena experimentar. Não por obrigação nem por pânico, mas porque a ferramenta melhora tão rápido que a opinião que você formou há seis meses provavelmente não vale mais. E a melhor forma de saber se o alarme é exagerado ou não é testando você mesmo.
São Paulo decodificada
São Paulo é uma cidade em que passado, presente e futuro convivem — nem sempre de forma harmoniosa — o tempo todo. Dessa mistura é natural nascerem projetos curiosos, como o livro São Paulo em Códigos, lançado hoje pela escritora Mei Hua Soares e o artista e arquiteto Nivaldo Godoy Jr. no Centro Cultural São Paulo. O trabalho, que pode ser baixado gratuitamente, investiga a cidade a partir do cruzamento entre crônica literária e experimentações com inteligências artificiais generativas, reunindo textos e imagens que abordam a metrópole como um território atravessado por códigos, ruídos e camadas de memória. Junto com o livro, eles exibem o curta-metragem SPITI, roteirizado por Mei e dirigido por Nivaldo e Márcio Miranda Peres, que é a gênese da publicação.
Entre o lúdico, a crônica e o ensaio, os textos dialogam com imagens que ora recriam a cidade e seus personagens, ora propõem intervenções artísticas sobre paisagens facilmente reconhecidas. Tudo com a coautoria de uma série de ferramentas de IA generativa. Conversei com Nivaldo Godoy Jr. sobre o processo do livro, o uso de IAs e o impacto na estética. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
O livro é uma mescla de textos e imagens. Como nasce o projeto?
Eu tinha a ideia de fazer um curta-metragem experimental e bem autobiográfico. Como ia falar muito sobre essa pesquisa da infância, de como foi ter morado na Freguesia do Ó, de onde nós dois somos, eu convidei a Mei para me ajudar a roteirizar o filme. E esse filme foi uma investigação muito profunda sobre uma história trágica da minha família. Meu avô se suicidou* ainda nos anos 1950. A ideia do filme foi tentar investigar o que teria motivado esse suicídio, mas acabou virando um filme sobre mim. Sobre o que eu estava fazendo ali de volta naquela casa em que eu nasci. E a Mei me ajudou muito a entender o lugar de cada coisa e a criar um texto bem poético para esse curta. O primeiro capítulo do SPITI começa em VHS, com uma cena de uma festa em família que eu tinha gravado e que no final eu acabei não podendo usar porque os meus familiares não entenderam muito bem qual era o propósito do filme e não estavam tão à vontade para conversar sobre essas coisas na pandemia. Então eu fui obrigado a usar o registro em que eu aparecia e comecei a ter contato com as IAs naquele momento, porque tinha que melhorar a qualidade das fotos e do vídeo.
E o que usava nesse começo?
Era uma época em que começaram a aparecer aquelas primeiras propagandas de IA, falando “melhore suas fotos, corrija suas fotos”. E eu não tinha entendido ainda onde que ele ia chegar. Eu só sabia que era uma ferramenta que estava disponível online e comecei a retocar as fotos com aquilo. E o último capítulo do filme se passa nos anos 1950, durante o Quarto Centenário, e percebi que era muito difícil conseguir imagens para poder contar o que eu queria. E essas ferramentas estavam começando a criar imagens. Então a gente criou uma São Paulo dos anos 1950 toda feita com IA. Sem querer, acabei entrando dentro de um universo e fiquei muito fascinado. Como assim? Eu descrevo algo e essa imagem é construída? Eu já venho de uma história com arte eletrônica desde muito cedo, já em 2004 fui trabalhar com o pessoal do File, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica. E como o livro surgiu muito por causa da experiência do filme, resolvi convidar a Mei novamente.
E você chama a Mei para dialogar com essas imagens?
Exatamente. Ela não usa IAs ativamente. Não usa o ChatGPT, por exemplo, ela nem corrige texto online, faz tudo ela mesma. Então eu percebi que seria interessante ter um contraponto de alguém que poderia fazer uma mediação entre a realidade e aquilo que eu estava trazendo, a imagética. Porque eu fui fundo mesmo, falei: “Olha, Mei, eu vou colocar o escafandro, vou mergulhar, vou pesquisar de fato o que é isso, o que está por trás, como é criado. E eu vou trazendo essas imagens e a partir daí você sinta-se à vontade para propor ideias.” O que eu achei muito interessante foi que ela começou com alguns textos que são um pouco mais teóricos, mas ela também trouxe uma leveza humana mesmo, de fazer uma coisa que vai para um lugar da crônica. E a crônica tem a ver com Cronos, com o tempo. Foi uma ideia muito feliz de tentar também abordar com uma certa leveza que as máquinas não têm, que a gente consegue ter pois não somos robotizados ainda.
Como que você entende a questão da autoria no trabalho com IA?
Essa é uma das perguntas mais complexas de se responder, porque sempre é uma coautoria. Vou fazer um paralelo. A fotografia é do fotógrafo ou é da máquina? A máquina fotográfica não pensa ainda, mas ela já tem alguns recursos que são muito automatizados, ela já calcula distância, a emissão da luz, como que ela vai reconhecer isso. Então, parte da fotografia é uma cocriação com a máquina. A mesma coisa é o sintetizador. Quando você está modulando um timbre do sintetizador, o quanto aquilo ali é o Moog ou o Casio ou a Yamaha e o quanto aquilo é você, a sua habilidade de manipulação da máquina? O passo que se deu agora é que a IA faz uma coisa que não é exatamente uma colagem. Mas você, a partir de comandos e de um entendimento de como aquilo funciona, consegue extrair dela aquilo que você quer e fazer com que ela se aproxime mais daquilo que você tinha em mente. Obviamente ela não lê sua mente. Então você tem uma ideia, uma pesquisa, sabe aonde você quer chegar e você coparticipa da busca por esse lugar que a gente chama de espaço latente. E a cocriação com a máquina acaba passando por uma coisa que são os direitos autorais, porque a partir do momento que você usou uma ferramenta para criar, como é que você paga por isso? O que eu fiz para garantir que o livro fosse publicado foi assinar algumas IAs.
O que você usou?
No processo do livro eu descobri uma última que não é paga, é a que eu tenho mais usado agora, que é uma open source, que chama Perchance. Para animar, a que eu mais uso é a chinesa Kling. Para gerar as imagens, eu usei muito Midjourney e usei o Ideogram.
Em algumas imagens do livro você brinca com ícones da cidade, como o Monumento às Bandeiras, do Victor Brecheret. Como você pensa a questão estética?
No caso do Brecheret, o que eu tive que fazer foi entrar no Google Maps, tirar vários prints, achar fotos de vários pontos de vistas diferentes e alimentar. E aquilo foi feito com a Gemini, então já é uma coisa bem mais recente, com uma inteligência bem mais avançada em relação à criação de imagens. Então, tanto essas como a do Conjunto Nacional, eu tive que alimentar mesmo com imagens reais. E por causa disso eu fugi de coisas muito óbvias, que seria pegar fotos de arquitetura de fotógrafos brasileiros. Não quis cair nessa cilada porque é realmente usar o trabalho de outra pessoa. Então eu tive na verdade que criar um espelhamento com a IA e ela reconstruiu para mim como seria o Brecheret amarrado.
E como é que você pensa a questão da regulação das IAS?
A primeira coisa é que a gente precisa entender que nós somos os cocriadores da IA. Grande parte do conteúdo que foi parar na internet foi compartilhado por nós durante a pandemia. Já tinha muita coisa, mas a gente compartilhou tudo, todas as reuniões de Zoom, todas as trocas de e-mail, todas as conversas, todas as fotografias. Foi uma enxurrada, uma avalanche de conteúdo produzido por nós. Sobre a regulamentação, a primeira coisa é que eu acho que temos sim que ter cada vez mais IAs gratuitas, porque a gente continua alimentando esse ferramental. Então, tudo que é open source me interessa por esse caráter mesmo colaborativo e de compartilhamento. Uma coisa que eu acho que é importante, especialmente para nós do Sul Global e latino-americanos, é o viés político. A gente precisa ficar muito atento ao tipo de conteúdo que vai ser divulgado nas redes quando está alinhado com ideologias. Eu acho que o maior perigo está exatamente nessa ilusão de pessoas que veem no celular e não sabem mais dizer o que é real e o que não é. Então, se pudesse existir um selo mesmo de que aquilo foi feito com IA, eu acho que seria mais saudável. Eu não acho que quem criou tem que pôr. Eu acho que a rede tem que colocar o selo na hora, ela tem que filtrar.
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A nova tirania da magreza
“Magras, magras”. Um grupo de jovens entoa, em um coro divertido, valorizando situações de privação de comida ou de fome voluntária na rotina — uma febre que toma o TikTok desde 2024. As principais semanas de moda mundiais (Nova York, Londres, Milão e Paris), que há alguns anos se abriram à diversidade corporal, recuaram nas últimas coleções. Silhuetas longilíneas e corpos estreitos dominaram as passarelas para mostrar, mais uma vez, que o exaustivo ideal de magreza é o horizonte a ser perseguido. Não é achismo. O relatório Vogue Business 2026 atesta que dos 9.038 looks apresentados em 198 desfiles, 97,1% eram dos tamanhos 32 e 36 europeus (34/PP e 36/P no Brasil) para a primavera/verão de 2026.
“A sociedade voltou a valorizar um corpo muito magro como saudável. E muitas vezes há uma distorção dessa imagem”, explica a nutricionista Heloísa Theodoro, membro do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). O corpo que vemos na passarela é, muitas vezes, fruto de dietas rigorosas, prática de atividade física constante, além de cirurgias plásticas e tratamentos. O Brasil já surfa perigosamente na onda das canetas emagrecedoras. A compra desses medicamentos cresceu 88% em 2025 em comparação a 2024, e superou os valores de importações de produtos como azeite, salmão e mesmo celulares, segundo dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Apesar de originalmente desenvolvidos para tratar diabetes e como reguladores do apetite e da saciedade, os fármacos com princípio GLP-1 têm sido adquiridos por motivações puramente estéticas, o que levou a Anvisa a determinar, ainda em 2025, a venda com retenção de receita na farmácia. Meses depois, o sistema de farmacovigilância da própria Anvisa, o Vigimed, divulgou o recebimento de 65 notificações de mortes suspeitas associadas ao uso de canetas emagrecedoras entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025.
O uso estético indiscriminado esbarra na ética dentro dos consultórios. Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta para o assédio impulsionado por essa tendência. “O médico muitas vezes se sente pressionado a ultrapassar um limite ético do que é certo, do que é uma indicação correta, por conta de pacientes que chegam ao consultório com uma urgência de emagrecer, sendo que muitos já têm um peso normal.”
A generosa fatia de R$9 bilhões que esse mercado das canetas emagrecedoras já movimentou em importações só em 2025, segundo o CFF, fez com que pesquisadores da USP se debruçassem sobre esse fenômeno e, em artigo para a revista Obesity, o nomeassem como a Economia Moral da Magreza. Um conceito que traduz os nossos tempos na medida em que o emagrecimento ou o corpo magro são frutos de uma jornada virtuosa.
Mas essa caminhada, frequentemente camuflada sob o pretexto de “cuidar de si”, cobra um preço. Heloísa Theodoro aponta como essa “virtude” mascara comportamentos patológicos: “Muitas vezes em busca de um corpo tido como saudável, a pessoa coloca em risco a sua saúde mental ou utiliza métodos não tão adequados para atingir um determinado peso, restringindo muito a sua alimentação, passando longos períodos em jejum ou fazendo atividade física de forma demasiada”.
Se formos além, chegamos à nova fronteira: o Protein Chic, em que, mais do que magros, os corpos devem ser disciplinadamente definidos, visivelmente musculosos, mas não muito, entende? Quando as roupas não nos embalam a vácuo para evidenciar a magreza e a força, há peças de marcas fitness e de performance com estampas ou texturas que imitam “tanquinhos”. Vestir é pouco, o negócio agora é moldar.
Mesmo agora, no Carnaval 2026, em que corpos mais desnudos livremente tomam as ruas e passarelas do samba, influenciadores de diversos nichos reclamaram nas redes sobre o refluxo da tirania da magreza, com marcas brasileiras apresentando menos modelos mid e plus size e peças de roupas e adereços mínimos ou em “tamanho único” irreal para a maioria dos corpos brasileiros.
Para a empreendedora de moda, multiartista e fundadora e diretora criativa da IZCA, Lis Vidal, o recado é o de abandono e inadequação para as mulheres com corpos reais que deixam de se ver representadas. “A sensação que dá é a de que o mercado quis nos empoderar um pouco, dentro da sua própria lógica, mas que de alguma forma achou mais lucrativo fazer com que a gente continue se sentindo inadequada”, avalia. Ela lembra a pergunta central do livro Mito da Beleza: “quantas indústrias iriam falir se amanhã as mulheres acordassem se amando?” Com isso, diz ela, a pessoa se questiona se faz sentido continuar na luta ou se adequar. “Quando eu emagreço, um pouco que seja, escuto um monte de elogio, quando eu engordo, nada. E aí, você quer se sentir bem, querida, incluída. É difícil”.
Nem sempre foi assim
O repúdio à gordura não é uma regra inerente à humanidade. O historiador Georges Vigarello, em As Metamorfoses do Gordo: História da Obesidade no Ocidente, evidencia a ascensão e a queda do corpo gordo ao longo do tempo. No século 16, o imaginário social associava os volumes e as gorduras corporais ao prestígio, à saúde plena e ao vigor, já que o acesso à alimentação era escasso para a maior parte das pessoas. A partir do século 18, com os avanços da medicina e da fisiologia, e no século 19, com a popularização dos banhos de mar que exigiam maior exposição física, o corpo gordo foi progressivamente empurrado para as margens da sociedade, chegando a ser exposto como aberração e “monstruosidade” em circos e feiras, os chamados freak shows.
Já no século 20, a gordura se transformou em um caso clínico e estigmatizado, em que o fracasso nas tentativas de emagrecer passou a ser lido como uma identidade desfeita, uma marca de incompetência pessoal e falta de controle.
Mas foi exatamente para combater esse estigma histórico que o movimento Plus Size ganhou força, estruturando-se de forma mais visível no Brasil a partir do ano de 2009. Segundo um estudo da pesquisadora Patricia Assuf Nechar, o grande objetivo dessa mobilização social e estética era tirar o corpo gordo de sua invisibilidade imposta, mostrando que possui autonomia, é capaz de exercer qualquer função e, acima de tudo, é tão belo quanto qualquer outro.
Mas há limites para o movimento body positive quando a pauta esbarra em questões fisiológicas e no diagnóstico médico do excesso de peso?
“É muito importante aceitar seu corpo como ele é. Mas a gente tem que entender que a obesidade, apesar de tudo, está relacionada com outras condições de saúde e que existem fatores de risco para outras doenças associados com a gordura”, como pontua Flávia Coimbra.
A reflexão sobre os limites do body positive também tem nascido do próprio movimento, que em alguns de seus recortes mais radicais passou a demonizar o desejo de emagrecimento. Da mesma forma que o combate à gordofobia não deve anular o cuidado médico necessário, o contraponto que emerge agora versa sobre o entendimento de que amar a si mesma em qualquer tamanho não anula os riscos clínicos do excesso de peso, e que a verdadeira positividade corporal deve garantir à mulher a liberdade e a autonomia para mudar e cuidar da sua saúde sem ser hostilizada.
Ignorar os riscos do excesso de peso em prol de um discurso de aceitação cega, na verdade, é tão perigoso quanto a obsessão pela magreza irreal. Para a empresária fitness, bailarina, e educadora física Ana Calderón, que gere uma plataforma virtual para a prática de exercícios físicos, promessas de emagrecimento embasadas em imediatismos não se sustentam no longo prazo — e o cuidado ético mora no equilíbrio.
“Quando se foca muito na estética e quer resultado imediato, a frustração costuma vir”, diz ela. Nas conversas com alunos, Ana inverte essa lógica ao pensar primeiro na saúde, identificando o que pode estar impedindo o aluno de criar o hábito de se exercitar. “Tudo dentro de uma rotina sustentável, da vida real daquele aluno”, orienta.
Se a medicalização desenfreada e a estética performática do protein chic atuam como engrenagens de um sistema que lucra na casa dos bilhões com a fragilidade e inadequação feminina, onde mora, então, a trincheira possível?
Para Lis Vidal, o caminho passa longe de apontar o dedo ou culpar a mulher que decide emagrecer. O mesmo vale para a sobrecarga em pequenos negócios mid e plus size que tentam sobreviver em meio a um turbilhão de tendências ditadas pelo fast fashion. Lis aposta na coletividade, na empatia diária e, sobretudo, no poder de ocupar os espaços.
“A pressão estética sempre vai existir, o que não podemos fazer é continuar cobrando umas às outras, e sim criarmos espaços de acolhimento para sermos como quisermos”, conclui.

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5. Estadão: Lula dá carta branca à Polícia Federal, STF reage e crise do Master vai esquentar após carnaval.






























