Edição de Sábado: Ormuz, a arma do Irã

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Nas águas turquesas e estreitas que separam as montanhas escarpadas do Irã das planícies áridas de Omã, o mundo assiste ao que analistas já chamam de a maior ”armamentização da geografia” da história moderna. O Estreito de Ormuz, uma artéria vital por onde flui um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do planeta, tornou-se o epicentro de um conflito que ameaça mergulhar a economia global em uma recessão profunda e imprevisível. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o regime de Teerã respondeu com o fechamento efetivo deste canal de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. O que tem se seguido é um choque de oferta de energia sem precedentes e mais de três vezes maior do que o embargo petrolífero árabe de 1973, forçando o mundo a enfrentar uma volatilidade que muitos economistas acreditavam ter ficado no passado, em uma escala que desafia tanto a supremacia militar americana quanto a estabilidade das prateleiras de supermercados em São Paulo , das bombas de gasolina em Nova York e de farmácias em Nova Déli.
Ormuz tem sido um elemento estratégico nas campanhas militares iranianas desde que aquela região do mundo era conhecida como Império Persa. Ele funciona como a jugular nesta que talvez seja a rota marítima mais importante da economia mundial. Ao ameaçar “incendiar” qualquer embarcação que desafie suas ordens, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reduziu o tráfego marítimo entre 70% e 90%, mergulhando a frota mercante global em uma paralisia nervosa. Em seu primeiro pronunciamento, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, voltou a reforçar a estratégia de manter o estreito fechado. Hoje, cerca de 200 navios estão presos no Golfo Pérsico, 150 deles superpetroleiros, estão sob ameaça de serem atacados caso tentem fazer a travessia. Navios com destino à China e a outros países parceiros do Irã, no entanto, têm sido autorizados a cruzar o estreito.
O estreito é palco de todo tipo de disputa há séculos. Uma das mais longevas aconteceu exatamente entre potências ocidentais e orientais. Portugal e o Império Otomano lutaram por quase um século por este que era um ponto estratégico pelo controle das rotas comerciais do Oceano Índico. Após conquistar Goa em 1510, os portugueses passaram a ocupar portos-chave da região e consolidaram o domínio sobre Ormuz em 1515, buscando monopolizar o comércio que percorria o Golfo Pérsico. Em 1552, o almirante otomano Piri Reis lançou uma ofensiva contra posições portuguesas, capturando Mascate e atacando Ormuz, mas acabou recuando para Basra, no atual Iraque, após saquear a região. Sua retirada foi considerada um fracasso em Istambul, e ele acabou executado. Nos anos seguintes, os otomanos tentaram reforçar sua presença naval no Golfo, mas derrotas sucessivas às forças portuguesas impediram a conquista definitiva do estreito. Apesar de novos confrontos esporádicos, o controle de Ormuz permaneceu nas mãos portuguesas, consolidando um equilíbrio de poder que limitou a presença naval otomana no Oceano Índico.
Agora, o combate não é em mar aberto, entre caravelas, galeões e galés. A eficácia do bloqueio iraniano reside em uma estratégia de guerra de assimetria brutal que Washington parece ter subestimado. Enquanto o governo de Donald Trump assegurava que a guerra seria “facilmente vencida”, os estrategistas militares americanos se depararam com uma realidade tecnológica desconcertante. O Irã assimilou as lições do conflito na Ucrânia e passou a usar enxames de drones Shahed-136 — aparelhos movidos por motores de motocicleta, muitas vezes feitos de isopor e custando cerca de 30 mil dólares — para saturar e cegar os sistemas de defesa aérea mais sofisticados do planeta. Radares americanos THAAD e Patriot, projetados para interceptar mísseis balísticos de milhões de dólares, lutam para distinguir essas pequenas aeronaves lentas de pássaros ou de voos civis. Em ataques coordenados, drones iranianos já atingiram centros de comando da Quinta Frota no Bahrein e radares de alerta precoce na Arábia Saudita, criando verdadeiros pontos cegos na vigilância aliada.
As dificuldades militares americanas são agravadas por uma lacuna logística crítica: a escassez de navios caça-minas. Ironicamente, os Estados Unidos desativaram seus últimos navios especializados na remoção de minas na região pouco antes do conflito, e a capacidade britânica — outrora essencial — encolheu drasticamente. Com o Irã dispondo de um arsenal estimado em até 6 mil minas marítimas, a tarefa de limpar o estreito sob constante ameaça de mísseis antinavio tornou-se, para muitos especialistas, um pesadelo tático que pode levar semanas, talvez meses, para ser resolvido. Há, ainda, o desafio de operar em águas tão próximas da costa iraniana e de extrema vulnerabilidade. Entre os americanos, ganha força a ideia de que, para controlar Ormuz, os EUA terão que enviar soldados para garantir uma espécie de “buffer zone” costeira (ou “zona-tampão”, uma área neutra estabelecida entre dois exércitos para evitar confrontos diretos). Acontece que, para estabelecer uma zona-tampão os Estados Unidos precisariam mobilizar milhares de soldados para ocupar um pedaço do território iraniano extremamente hostil. Com as eleições de meio termo se aproximando, essa não parece uma estratégia com apoio político doméstico, porque pode ampliar significativamente as baixas, hoje contabilizadas em 11 soldados mortos.
Águas turbulentas
As ondas de choque desse impasse já atravessaram os oceanos. O mundo enfrenta agora o que analistas classificam como o maior choque de oferta de energia da história. Os preços do petróleo Brent dispararam, rompendo a barreira psicológica de US$ 100 e alcançando picos próximos de US$ 120 no final de semana passado. Para a Europa, que apostou no gás natural liquefeito como alternativa ao gás russo, o fechamento de Ormuz tornou-se um desastre. Com a produção no Catar suspensa após ataques de drones, os preços do gás no continente subiram 75%, levando os governos a cogitar racionamentos e pacotes emergenciais de subsídios. Para os Estados Unidos os preços são sentidos nas bombas e nas cadeias de distribuição, mas não da mesma maneira que na década de 1970.
Hoje os EUA são os maiores produtores de petróleo do mundo. Desde que os americanos passaram a produzir petróleo a partir do fracking, uma tecnologia que retira óleo e gás presos nas rochas, o país passou a ser autossuficiente. Foi uma virada importante no jogo. A partir dos anos 2010, o petróleo do Oriente Médio deixou de ser vital para a economia americana, apesar de ela ainda flutuar ao sabor das cotações internacionais, como agora. Na Europa, o jogo se inverteu. Extremamente dependente do gás russo após a adoção da política de reaproximação com a União Soviética nos anos 1970, os europeus passaram a buscar opções novas depois da invasão da Ucrânia por Moscou. Estava se tornando crescentemente dependente do gás natural vindo do Catar, que agora se mostra uma fonte tão instável quanto a russa.
A dor econômica, porém, é profunda e desigual. No Brasil, seus efeitos se manifestam em múltiplas frentes. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco concreto de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. A logística indiana — responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição e de manutenção da chamada “cadeia de frio”. Com o porto de Jebel Ali e o aeroporto de Dubai danificados por ataques iranianos, o transporte de remédios essenciais para o mercado brasileiro tornou-se um percurso caro e imprevisível.
No campo, a agricultura brasileira, motor fundamental do PIB nacional, acompanha com apreensão o aumento dos preços dos fertilizantes. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado um terço do suprimento mundial desses insumos, justamente quando a China, maior exportadora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para proteger o mercado interno. O salto nos preços, em alguns casos de mais de 35% em apenas uma semana, antecipa um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas brasileiras em um prazo de 1 a 3 meses. Para conter o impacto imediato nos transportes, o governo brasileiro decidiu zerar os impostos sobre o diesel — uma tentativa de estabilizar a economia antes que o choque petrolífero comprometa o crescimento. No entanto, a Petrobras ampliou o preço do combustível em R$ 0,38 nas distribuidoras a partir de hoje. No Ministério da Fazenda, a expectativa de inflação para esse ano já mudou de 3,6% para 3,7%.
Enquanto isso, a geopolítica das matérias-primas passa por uma transformação acelerada. Os Estados Unidos, pressionados a reduzir a dependência da China e da instabilidade do Oriente Médio, dão sinais de que pretendem ampliar a ofensiva bilionária para garantir acesso aos minerais críticos do Brasil. Metais como cobre e níquel, essenciais para a transição energética e para a indústria de semicondutores, tornaram-se ativos de segurança nacional, especialmente diante da escassez de enxofre — subproduto do refino de petróleo do Golfo necessário para o processamento desses minerais — que já paralisa indústrias da Indonésia à África.
As próximas semanas prometem volatilidade e incerteza. O mercado de energia permanece em alerta permanente, reagindo a cada sinal vindo da Casa Branca ou de Teerã. A liberação coordenada de 400 milhões de barris das reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia foi recebida com alívio, mas também com inquietação: trata-se de uma medida de alcance limitado, incapaz de compensar os cerca de 20 milhões de barris diários que deixaram de circular. Nesta sexta-feira, o preço do petróleo seguia em alta, superando a casa dos US$ 100 o barril do Brent e a US$ 99 o barril do WTI.
Analistas trabalham com dois cenários principais. Em um cenário de bloqueio prolongado, o barril de petróleo poderia alcançar entre US$ 150 e US$ 200, empurrando o mundo para uma recessão global marcada pela estagflação — um fantasma dos anos 1970 que muitos acreditavam superado. Países mais pobres da Ásia, como Paquistão e Bangladesh, já enfrentam os primeiros sinais dessa crise, fechando escolas e lidando com protestos por combustível. Em um cenário de abertura parcial do estreito, possivelmente sob escolta naval americana, a estabilidade ainda seria frágil, com custos de seguro elevados e o risco permanente de derramamentos ambientais mantendo os preços altos e a inflação persistente.
O que emerge desse conflito é a percepção de que a infraestrutura que sustenta a prosperidade global é muito mais vulnerável do que se imaginava. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um corredor geográfico para se tornar o ponto de ruptura de uma ordem internacional que, por décadas, dependeu do fluxo livre de energia e de mercadorias. Hoje, cada navio parado ao largo das costas de Omã é um lembrete de que, em um mundo profundamente interconectado, um choque em uma estreita faixa de água no Oriente Médio pode redesenhar o destino econômico de países a milhares de quilômetros de distância — do agronegócio do Mato Grosso às indústrias de tecnologia de Seul. E o Irã, ao que tudo indica, parece disposto a ditar o ritmo desse abalo, consciente de que mantém nas mãos o termômetro da estabilidade global e de sua própria sobrevivência como uma república islâmica que insiste em se contrapor aos desejos coloniais das potências ocidentais. Não é, como se sabe, uma história nova.
O Oscar é isso tudo?
Programa obrigatório para cinéfilos, a cerimônia de entrega do Oscar, que acontece neste domingo, tem mais uma vez uma expectativa adicional para os brasileiros. Ainda celebrando o prêmio de melhor filme internacional conquistado no ano passado por Ainda Estou Aqui, estamos agora na torcida por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que concorre em quatro categorias, e pelo diretor de fotografia Adolpho Veloso, disputando por Sonhos de Trem.
Claro que não acompanharemos a cerimônia sozinhos. A festa no Teatro Dolby, em Los Angeles, vai ser assistida na TV ou pela internet por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, embora a audiência tenha registrado uma queda acentuada ao longo das últimas décadas — com uma recuperação no ano passado impulsionada pela transmissão via streaming.
A comoção provocada pelo Oscar é compreensível. Trata-se da maior celebração da indústria cinematográfica dos Estados Unidos, a de maior faturamento global. A China tem o maior faturamento doméstico; enquanto Bollywood, o cinema indiano, tem o maior volume de produção. Mas nenhuma das duas se compara a Hollywood, mais importante símbolo do soft power americano, em impacto cultural.
Agora, em sua 97ª edição, o Oscar continua a ser a meta máxima de profissionais do cinema? O carequinha dourado ainda é capaz de impulsionar ou destruir carreiras e dar o norte da indústria cinematográfica em tempos de plataformas digitais?
Prêmio não é festival
É comum pessoas que amam cinema, mas são leigas, indagarem qual a conquista mais relevante: o Oscar ou a Palma de Ouro do Festival de Cannes? Primeiramente, é como comparar laranjas e maçãs. A lógica dos dois tipos de evento — premiações e festivais — é muito distinta. Festivais como Cannes, Berlim, Veneza ou o Sundance, nos EUA, são espaços onde filmes pré-selecionados são apresentados, muitas vezes pela primeira vez, competem entre si e são avaliados por um júri restrito e altamente especializado.
O Oscar, pelo contrário, é exclusivo para obras que já estrearam obrigatoriamente em salas de cinema — produções de plataformas de streaming costumam fazer uma passagem-relâmpago pelas telonas apenas para cumprir essa obrigação. O universo de votantes abarca os mais de 10 mil integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não há obrigação para quem vota de ter visto todos os concorrentes. Mais importante, o prêmio tende a ser influenciado por fatores como a resposta do público e um lobby mais intenso dos estúdios.
Por conta disso, cristalizou-se a ideia de que Cannes é para “filmes de arte” e o Oscar para “filmes comerciais”, o que nem sempre é verdade. Em 2025, Anora levou o prêmio principal nos dois eventos, repetindo o feito de Parasita em 2020 e Marty em 1956. Outros 14 ganhadores da Palma de Ouro receberam Oscars, embora em categorias diferentes, especialmente melhor filme internacional, como Orfeu do Carnaval, em 1960, Um Homem, Uma Mulher, em 1966, e O Tambor, em 1979.
Em resumo, prêmios em festivais são importantes para criar um burburinho em torno de filmes que ainda vão entrar em cartaz e cacifá-los para os prêmios da indústria, como o Oscar e o Bafta inglês. Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho chegam ao Dolby cada um com um prêmio em Cannes. Vamos torcer para que funcionem como patuás da sorte.
O peso do lobby
Isso significa que o Oscar é a última palavra em termos que qualidade cinematográfica? Nem de longe. Seja pelo amplo universo de votantes, pelas simpatias e antipatias dentro da classe ou pelo pesado lobby, os nomes que saem dos envelopes nem sempre merecem estar ali — Anora, por exemplo, é altamente discutível.
Mas há um caso que se tornou símbolo da força do lobby, convertendo-se quase numa piada com o passar dos anos: Shakespeare Apaixonado. Em 1999, o romance mediano dirigido por John Madden recebeu 13 indicações e abiscoitou sete Oscars, dos quais melhor figurino era o único defensável.
Três deles, parafraseando Franklin Roosevelt, viverão na infâmia: melhor filme, melhor atriz coadjuvante para Judi Dench e melhor atriz para Gwyneth Paltrow. O Resgate do Soldado Ryan, um dos filmes de guerra mais arrebatadores já feitos, perdeu para um romance açucarado. Judi Dench é uma deusa, claro, mas sua rainha Elisabeth ficou em cena por menos de oito minutos. Já Gwyneth, que está longe de ser brilhante, derrotou Meryl Streep, Cate Blanchett, Emily Watson e, last but not least, Fernanda Montenegro, indicada por sua sublime atuação em Central do Brasil.
Hoje é plenamente sabido que o sucesso de Shakespeare Apaixonado no Oscar teve a influência pesada do produtor Harvey Weinstein, hoje cumprindo pena por diversas condenações por abuso sexual — a própria Gwyneth foi uma de suas vítimas. À época principal executivo da Miramax, Weinstein usou todos os recursos a seu dispor para alavancar o longa, de presentes caros a membros-chave da Academia a matérias plantadas difamando Steven Spielberg, diretor do Soldado Ryan. Os sete prêmios foram o momento de glória do lobby.
Desconexão com o público
Mas o lobby não foi a única coisa a atingir a credibilidade e a popularidade do Oscar neste século. Salvo um ou outro desvio como o caso citado acima, premiar longas de grande valor artístico era uma regra, e eles frequentemente eram grandes sucessos comerciais, como os dois primeiros Poderoso Chefão, entre tantos outros. O problema é que o cinema americano passou, nos últimos 30 anos, por um processo de juvenilização, com longas de ação, digamos, pouco cerebral e filmes de super-heróis, alvos de uma crítica ácida por parte do cineasta Martin Scorsese.
Com exceção de casos muito especiais como Pantera Negra e os Coringas de Heath Ledger e Joaquin Phoenix ou categorias técnicas, a Academia jamais deu atenção para esse gênero, o que não foi problema até ele se tornar dominante nas bilheterias. Com seus filmes favoritos fora da disputa, o público jovem foi perdendo o interesse pelo Oscar, o que se refletiu na audiência da cerimônia. A Academia bem que tentou reagir, anunciando em 2018 uma categoria de “performance notável em filme popular”, que, com uma tecla SAP, seria algo como “filme ruim que mais faturou”. A iniciativa foi bombardeada generalizadamente e engavetada.
Outro momento complicado aconteceu em 2015, com a campanha #OscarSoWhite (#OscarTãoBranco), deflagrada após dois anos sem atores e atrizes negros em qualquer categoria de interpretação. A Academia sentiu o baque e prometeu investir mais em diversidade, e as 16 merecidas indicações de Pecadores este ano são também um tributo àquele movimento.
Mas, a despeito de suas imperfeições e surpresas nem sempre agradáveis, os Oscars ainda são a consagração de profissionais do cinema, e esperamos ver várias estatuetas douradas desembarcando por aqui na semana que vem.
Aliás, a cerimônia será transmitida na noite de domingo pela TV Globo, pela TNT e pela HBO Max — estas desde as 18h30, com a pré-cerimônia.
Palco em tela cheia
Rafael Gomes diz que é, antes de tudo, espectador profissional. Sua trajetória artística nasceu de uma curiosidade voraz, que consumia mostras de cinema, teatro e música com a mesma intensidade. Embora tenha iniciado sua formação no cinema — por ser a arte mais acessível em seus tempos de juventude em Santos —, o teatro sempre caminhou em paralelo, retroalimentando sua visão criativa. Foi essa vida dupla, dividida entre os sets de filmagem e os palcos, que permitiu a Rafael estruturar uma carreira onde as linguagens se fundem de forma orgânica, transformando o diretor em um artesão capaz de transitar entre a escrita de roteiros para séries e a direção de espetáculos emblemáticos como Música para Cortar os Pulsos.
E é essa mescla de artes que ele traz para a montagem de Hamlet, Sonhos que Virão, em cartaz em um CineCopan despido de seu passado como sala de cinema e igreja neopentecostal. O cinema é quase um canteiro de obras em que as estruturas de Oscar Niemeyer se mostram em formas cruas e, na realidade, acaba funcionando como um teatro de arena às avessas em que o lugar da plateia, com sua verticalidade, é transformado em palco.
Na montagem dessa adaptação do texto de William Shakespeare, a fusão de repertórios atinge um novo patamar de sofisticação. Rafael evita o caminho óbvio de projetar vídeos no palco para preservar a “materialidade do teatro”. Em vez de usar câmeras, o diretor utiliza ferramentas narrativas do cinema para esculpir a cena: aplica montagens paralelas para desconstruir a ordem cronológica, cria travelings com a iluminação no lugar da câmera, utiliza a profundidade de campo para hierarquizar as ações e traz a ilusão de “closes” através da aproximação física dos atores com o público.
O resultado é uma experiência cinematográfica puramente teatral, onde equipamentos e lógicas de corte operam para criar uma ilusão de ótica e ritmo que eleva a dramaturgia clássica sem abrir mão da presença física e palpável do ator. E o ator que vive o príncipe da Dinamarca é Gabriel Leone, neste fim de semana talvez mais lembrado como o matador de aluguel de O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho que concorre ao Oscar amanhã. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Você tem uma colaboração com Gabriel Leone desde o filme Meu Álbum de Amores. Como essa relação se materializa em Hamlet?
A gente se conheceu quando ele viu uma peça minha em 2016. A peça acabou, ele foi a primeira pessoa que veio falar comigo: “pô, tomara que um dia a gente trabalhe junto”. Ele era realmente um jovem ator que não tinha nem feito os grandes papéis que viria a fazer depois. Dois anos mais tarde, em 2018, eu o convidei para fazer Meu Álbum de Amores, porque já tinha a coisa com a música e eu já o achava muito talentoso. Quando a gente se sentou para conversar sobre o filme, ele me disse que sabia que eu tinha um projeto de fazer um Hamlet num cinema abandonado e perguntou se eu já tinha o protagonista. Ele tinha 25 anos e disse que era o sonho fazer o papel na idade do Hamlet. Bom, não aconteceu tão rápido, demorou oito anos. Quando a gente fez o filme, ficou amigo de verdade. Acho que essa relação se materializa no caso dessa peça numa absoluta confiança, numa lógica de realmente, um pouco cafona até, de dar a mão e ir junto.
E é uma peça que traz muitos desafios, não?
É uma peça arriscada em termos práticos. Tudo ali pode dar errado. Estruturalmente, esteticamente. Ele faz uma peça numa escadaria, e as propostas cenográficas que eu trago ali, de subir em trilho, descer, subir na mesa. Tem uma coisa que é bastante desconfortável do ponto de vista do teatro. O Gabriel é um ator que poderia fazer uma peça de uma maneira muito acomodada. Teria público e provavelmente aclamação, mas topou um risco enorme. Além de fazer um personagem desafiador do ponto de vista da atuação, ele faz em condições desafiadoras em todos os sentidos, porque você entra ali atrás, não tem camarim, é tudo improvisado. Então, você fala: “cara, esse ator, no momento que ele está na carreira dele, tem todos os motivos para não estar aqui e achar tudo isso experimental demais”. Mas, ao contrário, ele está totalmente entregue, apaixonado e querendo.
A tradução que você usa do Aderbal Freire Filho com o Wagner Moura tem uma desconstrução da solenidade do Shakespeare. Como você chegou nesse texto e por que escolheu essa versão de Hamlet?
Também por intermédio do Gabriel. Eu estava lendo todas as traduções publicadas, tem algumas recentes até, como a da Bruna Beber. O próprio Geraldo Carneiro, que é um cara que eu acho bom tradutor de Shakespeare, tem uma tradução razoavelmente recente também. Eu estava lendo todas e relendo as clássicas, a do Millôr, a da Bárbara Heliodora. O Gabriel lembrou da tradução do Wagner porque eles fizeram juntos O Agente Secreto, são amigos, e o Wagner deu para ele o livro, que é uma edição restrita. No processo de adaptação, eu e o Bernardo Marinho estávamos trabalhando em cima do inglês mesmo ou de outras traduções. E aí eu li essa. Eu tinha visto a montagem do Wagner, mas não me lembrava tão bem assim. E realmente é impressionante porque é uma das traduções mais literais. Ao mesmo tempo tem uma coisa de “dessolenizar” por completo. Eu queira fazer um Hamlet popular, sem afastar, que qualquer pessoa pudesse entender sem pré-requisitos, sem erudição.
Hamlet é um texto que tem uma profundidade política enorme. O que você vê de conexão dessa montagem com a situação política que a gente vive hoje?
Embora a gente tenha feito uma redução enorme da peça, conseguimos cravar uma adaptação em duas horas. E a peça lida na íntegra tem mais de quatro horas. Você sabe que o Fortimbrás ficou ali até o último minuto. Mas a gente tirou as tramas políticas mais evidentes. Fizemos uma adaptação que se propõe a tratar mais sobre o fluxo das paixões humanas do que propriamente das tramas políticas, mas é evidente que existe uma trama política latente, querendo ou não. Entre tantas que a peça pode ser, tem uma coisa desse homem sem espaço no mundo de tirania. Se a gente pensa no Hamlet como um jovem do saber, do sentimento, do humanismo, apaixonado por teatro, pelas artes, pela própria consciência, pela reflexão, pelo intelecto, nota que é uma pessoa com pulsão de vida sendo convocada à brutalidade. No fundo, é isso que acontece, um fantasma que diz como um jovem símbolo de um novo mundo, de um renascimento do ponto de vista histórico, não é o pai dele. O pai dele é da heráldica, é o homem da guerra, da armadura. Mas em vez de ser esse novo, de ser esse diferente, ele é instado a honrar as tradições da violência, da brutalidade, da vingança, do assassinato, do sangue. Mesmo tirando na literalidade a trama política, a gente está falando da ascensão da extrema direita, do contemporâneo, de polarizações, a gente está falando disso tudo.
Está no ar no YouTube do Meio a segunda entrevista do Conversas com o Meio — Eleições 2026. Pedro Doria conversa com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), que disputa dentro do partido a indicação para a corrida presidencial ao lado de Ratinho Jr. e Ronaldo Caiado. O que pensa Eduardo Leite? Mesmo partido, visões diferentes? Assista e compartilhe.
Esta semana não houve refresco. Os assinantes do Meio mergulharam em temas densos como guerra, política e escândalos. Confira os links mais clicados:
1. YouTube: Ex-programador do Google monta uma reconstrução detalhada de como foram os primeiros ataques ao Irã.
2. Meio: A terceira pesquisa Meio/Ideia mostra a opinião dos brasileiros sobre o caso Master e o STF.
3. Folha: Banco Master foi obra de muitas mãos, diz Marcos Lisboa.
4. Meio: Pedro Doria avalia no Ponto de Partida que a eventual aposentadoria antecipada do ministro Dias Toffoli é a melhor forma de resguardar a imagem do STF.
5. Globo: Ex-ministro de Lula é detido em aeroporto e deportado do Panamá após perguntas sobre prisão na ditadura.






























