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O advogado do diabo

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Na quinta semana de seu julgamento por ter comprado o silêncio de uma ex-atriz pornô e declarado o investimento como gastos legais, Donald J. Trump, entre uma soneca e outra, assistiu ao seu ex-advogado abrir o bico. Ex-advogado é seu título oficial. O nome de guerra do que Michael Cohen fazia é “fixer” — misto de faz-tudo com capanga, que costuma limpar a sujeirada de homens poderosos.

Tudo em torno de Trump ganha um caráter burlesco. Então, naturalmente, Cohen decidiu produzir no TikTok, como prólogo de sua aparição na Corte de Manhattan, uma série de lives bizarras sobre o caso. De monólogos sérios a divagações com filtro de tromba de elefante ou chapéu de cowboy, passando por papos com convidados em que não há qualquer estrutura de pensamento. “Trump 2024? Mais para Trump, de 20 a 24 anos”, Cohen arriscou numa live o trocadilho que funciona melhor em inglês.

O ex-advogado depôs como testemunha. Ele foi o “homem da mala” que pagou os US$ 130 mil a Stormy Daniels. Por violar as leis de campanha eleitoral e mentir sob juramento, pegou três anos de cadeia, de 2018 a 2021. No depoimento, resgatou a memória de que, em 2015, quando Trump anunciou que seria candidato à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, avisou ao assessor que se preparasse, porque “muitas mulheres” apareceriam para denunciá-lo de algo.

Cohen lembrou também que, quando veio à tona aquela requintada gravação do ex-presidente afirmando que podia agarrar mulheres por suas genitálias (“grab’em by the pussy”), Trump teria dito ao fixer: “As mulheres vão me odiar. Os caras acham legal, mas isso vai ser desastroso para a campanha”.

A linha de defesa de Trump embute uma contradição em si: ele alega nunca ter transado com Stormy Daniels e garante que jamais pagou para abafar o caso — quem teria pago Daniels seria Cohen. Trump, diz a defesa, foi enganado pelo advogado, que teria lhe dito que o dinheiro era referente a honorários advocatícios. Mas, veja bem, se Trump pagou a amante foi apenas para proteger sua mulher, Melania. Ela estava grávida na época da transa de Trump, em 2006.

No dia seguinte, foi a vez de a defesa de Trump interrogar Cohen. Os atuais advogados do ex-presidente, em especial Todd Blanche, buscaram mostrar que Cohen é um mentiroso contumaz, desejoso de vingança. Não ajuda muito o ex-fixer ter publicado um livro chamado Revenge. A mágoa de Cohen com Trump teria, entre outras razões, a de ele não ter conseguido um convite para a posse do ex-presidente, em 2017. E provas desse rancor teriam sido exibidas no podcast de Cohen, Mea Culpa, em que ele chamou Trump de “um cartoon misógino e grosseiro” e, na mesma linha, “um vilão de desenho animado coberto de Cheetos” — uma elegante alusão à cor alaranjada do republicano.

Então, o incrível diálogo se desenrolou na Corte (a tradução é livre da autora):

Blanche: You called him “Dumbass Donald”, is that right? (Você o chamou de “Donald Cretino”, procede?)

Cohen: Sounds correct. (Opa, chamei, sim.)

Mas antes Blanche confrontou Cohen com o fato de que, até ser preso, o ex-assessor era obcecado pelo chefe, declarando publicamente que Trump era um “homem bom”, que falava “com o coração”. “Naquela época, eu estava atolado no culto a Trump”, rebateu Cohen.

Por falar em culto, confederados de Trump aproveitaram o palco montado no julgamento para prestar solidariedade ao líder. Em parte para garantir um carguinho caso ele se eleja novamente, em parte para ficar bem com suas bases eleitorais trumpistas. Entre os bajuladores, figuras como Matt Gaetz, deputado republicano da Flórida, pegaram a estrada rumo a Nova York. Como não basta adular, tem que insultar, Gaetz postou no X, onde mais?, uma foto atrás de Trump, com os dizeres “recuando e aguardando, sr. presidente”. A frase é uma referência ao que Trump respondeu, em um debate, quanto ao que pensava sobre a atuação do grupo supremacista branco Proud Boys: “Recuem e aguardem”.

O julgamento está caminhando para seu fim e o júri pode decidir o caso antes do fim de semana do Memorial Day, que cai no dia 27 de maio. Mas o que está bastante claro até aqui é que a demora em punir Donald J. Trump, por qualquer dos 88 crimes de que ele é acusado, ofereceu a ele e a seus minions um tremendo e permanente palanque eleitoral — e as pesquisas mostram uma eleição muito apertada. Teve paradinha para levar pizza a bombeiros. Teve apoiador soltando balões em forma de pênis para ridicularizar os promotores e juízes do caso. E, mesmo cochilando bastante, Trump já mostrou que não é de dormir em serviço diante desse tipo de oportunidade.

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