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Quem foi o Duque de Caxias?

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Entre o final da tarde do dia 7 de abril, e a madrugada do dia 8, em 1831, uma tensa negociação foi travada entre o imperador dom Pedro I e o brigadeiro Francisco de Lima e Silva. O clima político do país estava virado contra seu mandatário, visto como cada vez mais autoritário. Lima e Silva estivera entre os comandantes do grupo que lutou contra os portugueses na Bahia, em 1822, na curta Guerra da Independência. Depois levou à derrota a rebelião republicana liderada por Frei Caneca, em Pernambuco. E agora, já senador, tentava convencer o imperador a fazer as malas e voltar para Portugal. Mas Pedro resistia. Temia que, ausente, o Império caísse, uma República fosse proclamada, seu projeto de país se perdesse. Foi Lima e Silva quem lhe ofereceu garantias de que o menino de 5 anos seu filho assumiria o trono. Foi com esta promessa e o vai e vem dos recados entre o Palácio e o Parlamento, intermediado pelo brigadeiro-senador, que Pedro I assentiu. A palavra do militar foi cumprida. Nos dias seguintes, acompanhado de um senador liberal, e outro conservador, ele próprio integraria a Regência Trina Provisória. Assim como faria parte da Regência Trina Permanente. E dom Pedro II seria imperador.

Perdidos ali pelos livros de história escolares, Francisco de Lima e Silva e as duas Regências que integrou são apenas parte daqueles nomes e períodos que em algum momento foram importantes, mas aí passaram e deles esquecemos tão fácil. Francisco foi também pai do Duque de Caxias. O Duque patrono do Exército Brasileiro é filho do homem que negociou a abdicação do primeiro imperador. Do primeiro homem a mandar no Brasil que não se chamava Bragança.

Pois o Duque de Caxias virou, este sim, um personagem emblemático e inesquecível. Vilão no desfile da Mangueira deste Carnaval de 2019, logo homenageado pelos militares em desagravo. No maniqueísmo em que o Brasil se meteu, Caxias terminou resumido a um daqueles símbolos básicos como questões relacionadas a gênero, porte de armas ou aborto. Diga se é contra ou a favor e é fácil dizer se a pessoa cai à direita ou à esquerda.

Mas não deixa de ser irônico. Porque quando a República enfim veio, em 1889, o Duque era celebrado como um político contemporizador que foi, porém, visto com desconfiança dentro do próprio Exército.

A história de Caxias é uma de ascensão social, inteligência e sorte. E de mérito. Foi o único brasileiro fora da família imperial a receber o título de Duque, tamanho o status que alcançou. Mas a história frequentemente contada foi costurada para fazer dele um símbolo de um lado ou do outro. Por isso, o Caxias político foi esquecido em detrimento do militar, mesmo ele tendo chegado a Presidente do Conselho de Ministros três vezes — o equivalente atual a primeiro-ministro, o mais alto cargo político do Brasil imperial. Embora fosse membro de longa data do Partido Conservador, teve sempre bom trânsito entre os Liberais.

Quando dom João VI chegou, em 1808, Luís Alves de Lima e Silva tinha 5 anos e já era cadete. Seu pai Francisco, por estes tempos, era capitão do 1º Regimento de Infantaria do Rio e, o avô, coronel. Um cargo militar no Reino Português era algo parecido com título de nobreza. Quem fosse filho de militar com média patente podia ser cadete desde bem criança, embora só seria efetivado aos 15. Um direito hereditário que autorizava estes rapazes bem-nascidos a partir já do posto de alferes, atual segundo-tenente. Tinha, portanto, boa posição. Mas viera toda do esforço pessoal do avô, que nasceu pobre e precisou construir um espaço na sociedade. Àquela altura, os Lima e Silva já haviam aprendido algumas lições importantes. Uma delas, talvez a mais valiosa, é que saber se posicionar nos momentos de crise política faria toda diferença para uma carreira de sucesso. A outra é que a disposição de se mexer pelo território do reino, indo às vezes para cantos longínquos, era quase sempre um atalho para alçar patentes altas mais rápido. Havia sido este raciocínio que trouxera o avô de Luiz Alves ao Brasil, em 1767. E a crise que terminou por fazer dom João desembarcar no Rio, em 1808, era um golpe de sorte inigualável.

Foi de crise em crise que o futuro duque galgou degraus, junto com avô, pai e tios. Estavam à disposição da família real em 1808, subiram. Quando estourou a independência, se posicionaram ao lado de dom Pedro. Quando o novo imperador precisou formar um Batalhão para dobrar a resistência portuguesa na Bahia, os Lima e Silva se apresentaram. Um tio de Caxias comandou a operação, e o jovem tenente seguiu como ajudante de ordens do tio. Voltou capitão. Não foi, este período conflituoso da independência, uma operação simples pois misturava tanto política quanto guerra, um exercício contínuo de luta e convencimento das lideranças locais. É desta experiência que Luiz Alves compreendeu que o seu seria, sempre, um trabalho no qual guerra e política estariam interligados. Se ele se tornou importante, claro, foi porque o Brasil passou o século 19 em guerra continuada. Guerras, como sempre, essencialmente políticas.

Na crise da abdicação, os Lima e Silva estavam no lado vencedor — fazendo política — e Luiz Alves terminou no comando da Guarnição do Rio. Já era oficial veterano de duas missões militares, na Bahia e na Cisplatina, quando teve o primeiro comando importante: o coronel Luiz Alves de Lima e Silva foi dissipar a Revolta da Balaiada no Maranhão, Piauí e Ceará. Para isto, recebeu tanto o comando das tropas como o do governo, tornando-se o equivalente a governador. Os revoltosos lutavam em guerrilha, atingindo povoados onde não havia presença militar. Caxias então distribuiu seus soldados, poucos em cada canto, mas sempre próximos. Quando vinha um ataque, havia sempre alguma resistência e reforços chegavam rápido para sufoca-lo. Aprendera estratégia militar lutando de fato, acompanhando pai e tios, ali na prática, como se fazia no tempo. Se mostrara um legítimo membro da família. Aceitava postos longe e a cada crise política se posicionava rápido. Voltou para o Rio com o apelido de Pacificador.

O ano era 1840 e o adolescente Pedro II, 14, tinha sido alçado ao trono. Luiz Alves estava com 37. Pelo feito, virou Barão de Caxias, nome de uma das cidades que havia dominado. E foi elevado a brigadeiro, equivalente ao general de brigada, aquele com uma estrela. O apelido, ele tinha, mas o Brasil não estava pacificado. Quando outra revolta estourou em São Paulo, a mesma fórmula se aplicou, dando ao barão suas tropas e também o governo da província. Daí fez o mesmo em Minas. Àquela altura, já havia sido deputado, as duas carreiras, política e militar, caminhando lado a lado.

Tendo comandado as tropas imperiais em quatro revoltas, entregaram-lhe a missão mais difícil do país: o Rio Grande do Sul. Não tinha 40. A Guerra dos Farrapos se arrastava fazia sete anos caminhando para oito. Ninguém a resolvia. Foi lá que o Barão conheceu um major gaúcho que permanecera leal ao imperador, tinha quase sua idade, e que se tornaria amigo por toda vida: Manoel Luís Osório. Foi a missão mais difícil da vida de Caxias até ali. Saiu conde, marechal de campo — duas estrelas —, e senador. O futuro general Osório também cresceria a partir dali.

A Guerra do Prata fez de Caxias marquês e tenente-general, três estrelas, o atual general de divisão. Marquês era o título mais alto que alguém de fora da família real poderia almejar. Não vinha de graça: foi responsável por encerrar todas as grandes revoltas contra a coroa e, quando chegou à presidência do Conselho de Ministros pela primeira vez, o caminho político parecia natural.

Luiz Alves de Lima e Silva tinha pouco menos que 1m75, alto para a época. Os ombros eram largos, os olhos castanhos, o cabelo também castanho, mas quase louro. Desde jovem manteve bigode e mosca, sem cavanhaque, já mais velho permitiu também que a barba crescesse emoldurando o rosto. O queixo, sempre o raspou. Permitiu-se fotografar uma única vez, quando já tinha 75. Mas bem antes disso, com o Brasil agora pacificado, Caxias parecia ter a vida arranjada para disputar espaço no altíssimo nível político da nação. Só que aí veio a Guerra do Paraguai, que tinha tudo para ser simples, e terminou não sendo. O marquês de Caxias deixou o comando do governo para assumir o da Tríplice Aliança. Quando voltou vitorioso, não bastava só virar marechal. Dom Pedro II teve também de fazê-lo Duque.

Sempre foi um militar. Competente estrategista, hábil político, militar de seu tempo, do tipo que aprende o ofício em campo. Seu avô construiu um caminho sobre o qual os filhos pudessem crescer. E cresceram. Caxias o teve mais fácil, talvez. Mas foi o maior militar brasileiro do violento século 19, chegou ao ponto mais alto da carreira política por três vezes, e os feitos foram tantos que virou Duque. É sorte. Como é mérito. Leal à coroa até o fim. Membro do Partido Conservador, não à toa: prezava por ordem. Disciplina. E obediência à lei. Um monarquista convicto.

O Exército de Deodoro, que proclamou a República, não era o Exército de Caxias. O historiador Arno Wehling puxa uma frase de Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza, um ferrenho abolicionista que servira sob Caxias no Paraguai, e que ainda não havia chegado a general quando o duque morreu. “Lá se foi Caxias”, ele escreveu. “Serviu setenta anos à Monarquia e só conseguiu ilustrar-se à sombra do trono. Compreendeu perfeitamente o princípio da ordem e nunca logrou transformar-se em fator de progresso. Foi um grande homem, mas só tinha uma aptidão — cego respeito pela ordem estabelecida.”

Caxias fazia cumprir a ordem, mas não trabalhou pelo progresso, afirmou Tibúrcio. O progresso seria a República, seguindo seu lema positivista. Ordem e progresso. O outro grande militar de sua geração, seu amigo Osório, foi também político, mas do Partido Liberal. Durante a Primeira República, seria Osório, não Caxias, que o Exército celebraria. Mudou, mas apenas bem depois.

Não é possível, a um historiador marxista, enxergar Luiz Alves de Lima e Silva como herói. Se a história se escreve pela luta de classes e o marxista está do lado de quem se ergue contra o poder, Caxias estava numa posição diametralmente oposta. Para um liberal, o cenário é mais turvo. Se chegou onde chegou, foi porque o Duque soube percorrer os caminhos de uma sociedade oligárquica, nada igualitária. Mas também porque tinha talentos e méritos próprios. Outros tiveram berço igual ou até bem melhor. Caxias é quem foi além. Como político, transitava, negociava, e até fazia amizade com gente que pensava muito diferente. Estava ali a sugestão de uma aptidão democrática. Para o conservador, o caminho é simples como para o marxista. Caxias se dispôs a manter ordem num país em caos. Conseguiu. Do ponto de vista conservador, um herói.

Ao fim e ao cabo, está entre aquelas personagens que tiveram impacto real e longevo. Pacificou de fato o Brasil, manteve o Império de pé e, o território, íntegro.

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