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Mulheres: o pesadelo de Flávio e Lula

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Procura-se. Mulher. Moradora das grandes cidades do Sudeste, Rio, São Paulo e Minas. Está de mal com política. Acha que a economia está ruim — custo de vida aumentou, endividamento também. Votou em Jair Bolsonaro em 2022, agora anda por aí dizendo que vai votar em Flávio mas, olha, se você pergunta se esse voto é firme ela logo te diz, não é, não. Acredita que o STF é a principal ameaça à democracia brasileira. Acredita, igualmente, que a violência contra mulheres aumentou, sabe perfeitamente bem o que é feminicídio e está bem preocupada com isso.

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Elas vão decidir esta eleição. Na quarta rodada da pesquisa Meio/Ideia, teve um número que nos saltou aos olhos. Em janeiro, quando a gente perguntava pras pessoas que já tinham escolhido candidato se aquele voto ainda podia mudar, só 35% delas dizia sim. Em fevereiro, 38%. Aí 42%. Agora em abril? 52%. Quer dizer, o que elas estavam falando, na verdade, era o seguinte. Claro, claro, vou votar no fulano. Mas a coisa é a seguinte. Conforme a dança dos candidatos começou a ocorrer, conforme eles começaram a se definir, essas mesmas pessoas então olharam de novo e se tocaram de que, não, elas não têm tanta certeza assim. Hoje, mais da metade dos eleitores que dizem ter escolhido candidato estão perfeitamente abertos a mudar.

Então que turma é essa? Bem, primeiro, não está na ponta esquerda. Só 27% dos que pretendem votar em Lula dizem que pode mudar. Um quarto. Agora, 56% dos que falam em Flávio Bolsonaro podem mudar seu voto, 59% de Caiado e, vejam, só, 75% dos eleitores de Romeu Zema estão em dúvida.

Isso é natural, tá? Esta eleição é diferente de todas. Não tem nenhum candidato liberal, só tem um candidato de esquerda. Todo o resto está no espectro conservador. Isso quer dizer o seguinte. Se você quer votar em alguém de esquerda, não há escolha por fazer. É ou Lula ou ninguém. Se você é liberal, não tem ninguém muito próximo do perfil que você busca. Então pro liberal vira um pouco uma decisão de quem você está menos de saco cheio. Agora, se você é de direita, aí o quê?

Tem uma pergunta que a gente faz na pesquisa, que nos ajuda a mapear a ideologia das pessoas, e mostra bem qual é a diferença, na cabeça dos eleitores, de Flávio, Caiado, Zema e mesmo Renan Santos. Mas, antes, a corrida dos cavalinhos. Não falei dela, né? Lula, 40,4%, Flávio Bolsonaro 37%. Aí Ronaldo Caiado, 6,5%, ele cresceu um ponto desde a última. Romeu Zema e Renan Santos com 3%, Aldo Rebelo com 0,6%. Esses três últimos estão todos com o mesmo tamanho na margem de erro.

Pois é. A gente pergunta para o eleitor o que ele considera que é necessário para mudar o país. Perguntamos também sobre responsabilidade fiscal, sabe, se o governo deve gastar menos, se deve só controlar os custos e ficar no zero a zero, ou se deve gastar mais, investir. O eleitor do Lula responde que tem de investir mais e, para mudar o país, precisa de um projeto claro. O eleitor do Flávio se distribui meio que por igual na questão da responsabilidade fiscal. Mas, pra mudar o país, ele acredita que é preciso uma liderança forte. É, eu sei, logo o Flávio. A turma está pensando mesmo no pai dele, não é? Porque por liderança forte o querem dizer, na verdade, é que acreditam que autoridade, pulso firme, resolve as coisas.

O eleitor do Caiado é outra parada. Ele realmente atraiu um perfil que é mais liberal. Acredita em diminuir os gastos do governo, bem fiscalista. O dobro da média nacional. Agora, para mudar o país, só com pressão popular. Enquanto o eleitor bolsonarista acha que vem de cima para baixo, o eleitor do Caiado acha que a mudança vem de baixo pra cima.

O Zema e o Renan são mais complicados porque é muito pouco voto, então é muito pouca gente na pesquisa, a chance de erro no diagnóstico aumenta muito. Mas o cheiro que fica é o seguinte: projeto claro, controlar sem cortar gastos. Parece que o eleitor do Zema quer um gerente. O do Renan quer ordem e mercado livre. Uma mistura de Bukele com Milei. É o cheiro, mas com grande margem de erro. A leitura pode estar perdendo muita sutileza.

Agora, percebam, tem umas trocas aí que são difíceis para estes eleitores todos. Quem está olhando para Caiado é um fiscalista liberal. Se vai pra Flávio, perde o fiscalismo e ganha um Cesar. Não da Match de perfil de eleitor. Pelos números, o eleitor do Lula, hoje, é mais preocupado com responsabilidade fiscal do que o eleitor típico de Flávio Bolsonaro. É difícil o jogo. Agora, quem tem menos chance de atrair o eleitorado em disputa é o Renan Santos, tá? Quase 70% do eleitorado dele é masculino. Homem, de meia idade, periferia urbana do Sudeste, ensino médio. De novo, sempre lembrando, com 3% da amostra, a chance de erro é grande.

Porque, aí, voltamos pro início. Quando você olha para os eleitores voláteis, o que descobre? Altissimamente concentrado no Sudeste, nas grandes cidades, 40% homens, 60% mulheres. 56% dessas mulheres, da periferia urbana, 20% delas da classe média tradicional. E o que pensam essas mulheres? Vamos lá.

Eu Pedro Doria, editor do Meio.

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E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

São mulheres diferentes, tá, nas suas preocupações. E isso tem a ver com seus perfis. As 20% delas que pertencem à classe média urbana, ensino superior completo bate em 98%. As 56% da periferia, não chega a 10%. Mas olha que interessante: 26% das de classe média têm carteira assinada, 19% das da periferia. Elas já vivem numa realidade de Brasil pós-Getúlio. Então coisas como abate de imposto de renda, na vida delas, não faz diferença. Têm, também, um perfil religioso bastante similar. 70% das mulheres de classe média que não definiram de todo o voto são católicas e 60% das da periferia. Um quarto delas são evangélicas. Em ambos os grupos.

Elas têm outros pontos de acordo. 30% dessas mulheres de classe média sentem que o custo de vida está pegando e 45% sentem o endividamento maior. 40% das de periferia sentem o custo, 50% delas, as dívidas. Nos dois grupos, 60% reprovam Lula, 50% veem o STF como a principal ameaça à democracia.

Ao mesmo tempo, veja só. 40% dessas mulheres de classe média são a favor da anistia para Bolsonaro e os generais. Das da periferia, 30%. Você soma todos os eleitores que votam em candidatos da direita, 64% defendem anistia plena. Então essas mulheres, elas são diferentes. E, hoje, quase todos os eleitores que defendem anistia plena estão com Flávio. Dentre os eleitores de Caiado, só 8% querem anistia para todos, entre os de Zeman, 4%. Os eleitores de Renan, quase 15%.

A gente tem umas conversas sobre política, muitas vezes, que tentam botar todo mundo em caixinhas. Menina veste vermelho, menino veste amarelo. Se é de direita, quer anistia, se é de esquerda, quer cadeia neles. Se está preocupado com feminicídio é de esquerda, se é misógino, direita.

E quem vai decidir esta eleição, quem tem o voto que pode ser conquistado por aí, são essas mulheres que não cabem em nenhuma caixinha. Aliás, sabe aquele um quarto de eleitores de Lula que ainda não têm firmeza do voto? Mulheres, sudeste, periferia urbana, católicas. Estão aí nesse bojo.

É o perfil que ficou profundamente irritado com Erika Hilton na presidência da Comissão das Mulheres na Câmara e ouviu da deputada que são ImbeCIS. Tudo certo. Não defendem anistia pra Bolsonaro, mas não confiam mais no Supremo. Não querem carteira assinada. Estão preocupadíssimas com violência para mulher.

Então, vem cá, por que é que elas têm um voto volátil? Em sua maioria, estão dizendo que votarão em Flávio. Mas, sabe o quê? Podem mudar. Não estão convencidas. E o que acontece é muito simples de explicar. Nenhum candidato está falando com elas, nenhum faz um desenho de país que é o que desejam ouvir. Não tem quem diga estou preocupado com direitos de mulheres e estou preocupado com rigor fiscal, estou preocupado com feminicídio e não vou dar anistia para Bolsonaro.

Ah, e tem outra. Elas não acham que um líder forte resolva o país. Na verdade, são bem moderadas politicamente neste sentido. Acreditam em mudanças que nasçam da sociedade para cima. Este ano, de 2026, todos os candidatos são homens e todo mundo precisará falar com mulheres. Mulheres mais à direita do que à esquerda. Terão de falar sobre questões que interessam a elas, mas sem cair nas várias armadilhas criadas pelo identitarismo. Vai ser interessante ver.

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