Flávio cai; tubarão chega
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Olha essa do Valdemar: foi hoje à tarde na Globo News. A Andreia Sadi estava o pressionando sobre Flávio Bolsonaro ter ido visitar pessoalmente Daniel Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro do Master. “Foi visitar depois para ver se conseguia o restante do dinheiro.” Às vezes a gente precisa se perguntar se Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, quer mesmo que Flávio Bolsonaro, do PL, seja eleito presidente da República.
Porque, tipo… Jura? Assim, na lata? Flávio havia pedido a Vorcaro 137 milhões de reais. Só recebeu 61 milhões. Vorcaro foi preso, finalzinho do ano passado. Aí foi solto. Flávio estava a dois dias de se lançar candidato à presidência. Foi visitar Vorcaro pra pedir o resto do dinheiro? E quem diz isso é o presidente do partido de Flávio? A Sadi cobrou. “Estava investigado mas não foi condenado a nada”, respondeu o Valdemar.
Bem, tudo certo. Vorcaro segue apenas investigado e não tendo sido condenado a nada. Tecnicamente, nada mudou. Mas em algum momento a campanha vai precisar parar de tomar tiro ou dar tiro no pé, não é mesmo? Hoje saiu mais uma pesquisa, a Pesquisa Nexus. E eu vou, francamente, falar uma coisa pra vocês. Como queria ter a nossa pesquisa Meio/Ideia nas mãos. Só quinta-feira. Porque tem um monte de cruzamentos que eu gostaria muito de fazer para entender o movimento que aconteceu. Mas são aqueles cruzamentos que a gente só consegue fazer quando tem os microdados da pesquisa.
A gente está numa situação que, em ciências sociais, chamamos de tipping point. Ponto de ruptura. Pensa uma avalanche. Você joga uma bola de neve em cima da montanha de neve fofa. Aí joga uma segunda bola. Cada uma delas tem um micro impacto, faz uma pressãozinha, move uns centimetrinhos. Joga a terceira bola, a quarta, a quinta, a sexta, e de repente avalanche. Cai a montanha toda de neve no vale. O ponto de ruptura é aquele em que o micromovimento foi demais e provoca um desmoronamento.
Qual é a pergunta que todo analista político está se fazendo nesse momento: qual é o tipping point de Flávio Bolsonaro. Perde um porcento, perde dois, perde cinco. Nada disso mexe demais. Tudo é, tecnicamente, recuperável. Até que tem um momento em que desmorona a candidatura. O eleitor em manada abandona o candidato. O tipping point pode ser muito longe ou muito perto. O candidato pode ser muito resiliente ou pouco resiliente.
A gente tem como fazer o cálculo a respeito da movimentação de Flávio? Bem. Vamos tentar nos virar com as informações que temos aqui. Na quinta-feira, quando sair a Meio/Ideia, vai dar pra fazer umas contas mais precisas.
Primeiro: temos três pesquisas de opinião que documentaram o cenário eleitoral desde que estourou o áudio que Flávio mandou pra Vorcaro. Aquele áudio afetuoso, do meu irmão. A Atlas foi a campo entre 13 e 18 de maio, Datafolha em 22 de maio, Nexus, que saiu hoje, entre 22 e 24 de maio. No primeiro turno, Flávio caiu 4 pontos pelo Datafolha, 5,4 pontos pela Atlas, 5 pontos pela Nexus. Quer dizer, todos estão contando a mesma história, não é? Todos viram uma perda no mesmo tamanho.
Isto é bem recuperável. O que não pode é continuar caindo. E precisa, daqui a um mês, voltar a recuperar. Então essa é a primeira informação a se ter. Flávio perdeu uns cinco pontos percentuais. Esse foi o preço da gravação. Michelle não ganhou, Zema não ganhou, Caiado não ganhou. Ninguém ganhou com esse jogo. Flávio perdeu, foi pra pilha de indecisos. Esse eleitor tanto pode voltar quanto pode ir pra outro.
A segunda informação que precisamos ter: a direita, quando você mede pelo Ideia, que é o nosso parceiro, ou pela Quaest, representa aí uns 40% da sociedade. O Flávio tem o maior naco desse pacote aí. Entre 12 e 13% desse conjunto é bolsonarista raiz. E uns 26, 27, 28%, é direita não bolsonarista. Então, claro, quando o Flávio perde voto num susto desses, é dessa pilha. Estamos falando de eleitores que são antipetistas. Votam em quem pode derrotar Lula. Não têm qualquer predileção pela família Bolsonaro, alguns até preferiam não. Mas, bem, se é o que temos para hoje, nele vai. Mas esse voto depende de uma condição fundamental: esse nome é o melhor para derrotar Lula? Enquanto acreditarem que sim, a tendência é de que o voto volte pra Flávio.
O que os faz acreditar que não? Vem comigo. A gente tem umas pistas pra resolver.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio. Bom, esse é exatamente o tipo de leitura que separa quem acompanha Brasília de manchete em manchete de quem entende o cálculo de risco por trás. E foi o que a gente fez em maio inteiro aqui no Meio — news diária pra contar o que aconteceu, Premium e Meio Político pra explicar por que aconteceu, e agora um curso pra quem quer aprender o método.
A aula inaugural de Desvendando Brasília, com Creomar de Souza, foi hoje, cinco da tarde. Acabou de terminar. Se você assistiu, sabe do que estou falando. Se não assistiu, a gravação já está no ar — no YouTube, assiste à noite, no fim de semana, quando der. Cerca de uma hora e meia.
Creomar é analista de risco político — atende cliente corporativo, não vai pra rede social comentar partido. O que ele ensina é exatamente isso que a gente acabou de fazer aqui: ler o tabuleiro, separar ruído de risco real, entender quando uma candidatura está sangrando e quando está desmoronando.
A aula é a porta de entrada do curso completo: quatro aulas gravadas com o Creomar, material em PDF por aula, um encontro ao vivo de dúvidas em junho e grupo de WhatsApp da turma — pra continuar conversando enquanto Brasília acontece. A inscrição fecha quarta-feira, 23h59. Depois disso, a turma fecha de verdade. Quem entrar até lá usa o cupom AULAINAUGURAL20 e ganha 20% de desconto.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
A parada é a seguinte: sabe essa direita não-bolsonarista? Segundo a Quaest, antes do escândalo, Flávio Bolsonaro tinha 74% desse voto. O resto estava lá com os outros. Ou seja, se no início do mês o Flávio tinha 33% de intenções de votos no primeiro turno, pela QUaest, desse total 20 era não-bolsonarista, antipetista.
Quem é o não-bolsonarista dentro da direita?? Muito concentrado na faixa de renda entre 2 e 5 salários mínimos. Muito concentrado entre católicos. Principalmente moradores da região Sudeste.
Então quem que nós precisamos acompanhar com uma lupa? 2 e 5 salários, católicos, Sudeste. É principalmente daí que Flávio perdeu aqueles cinco pontos, tá? Esse é o eleitor movediço. O que olha para Flávio mais desconfiado. Evidentemente, não é que nem a classe média. Está no corre, não tem a Globonews ligada no escritório. Mas esse corte do Valdemar, hoje, vai rolar. Vai bater nele?
A Atlas da semana passada viu tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin ganhando de Flávio, no segundo turno, pela primeira vez. Isso é sinal, muito discreto, de que essa vitória sobre a esquerda não é mais garantida. Mas muito discreto. Esse eleitor não percebeu isso ainda. Demora a perceber. Pode ser que as coisas se assentem antes.
Outra questão. Os candidatos de direita que sistematicamente pontuam melhor são, em ordem, Michelle, Zema, Caiado. Se você pega a maior parte das pesquisas, são eles que aparecem melhor. Mas todos aparecem pior do que Flávio no primeiro turno. Não é por preferência. É por conhecimento. As pessoas sabem um pouco melhor quem é Michelle, sabem menos quem é Zema, quase não conhecem Caiado.
O que faz um candidato de direita ser conhecido? Redes sociais. Não tem outra coisa. Caiado está muito tímido, nelas. Zema andou acertando uns gols. Michelle é craque. Ela tem uma questão ali, né? Ser mulher entre eleitores de direita não impossibilita nada, mas dificulta. E, bem, o Jair Bolsonaro não quer de jeito nenhum.
Essa queda de cinco pontos não move o ponteiro. Vai continuar caindo lentamente ao longo do mês, conforme mais gente vai sendo informada do problema? Vai. Se Flávio se encontrar com Trump ele posa de líder e traz uns votos de volta? Possível. Se essa frase do Valdemar circular muito, perde mais uns votos? Possível. Se Trump não se encontrar com Flávio ele pode parecer mais fraco? Possível. Se aparece vídeo do Flávio com Vorcaro, circula loucamente? Com certeza. Tira voto? Possível.
Qual é o ponto de desmoronamento? O eleitor que vinha dizendo que votaria em Flávio e parou de dizer está procurando saber dos outros. Comparar. De repente vai com a cara de algum. Se esse movimento faz com que Michelle, ou Zema, ou Caiado cresçam, se mostrem com mais potencial do que Flávio contra Lula no segundo turno, isso vira ponteiro. Ainda não aconteceu.
Mas se Flávio continua caindo no segundo mês. E no terceiro. Mesmo que seja dois pontos aqui, três pontos ali, lá por meio de julho toda a direita vai estar sentindo cheiro de sangue no mar. É hora de tubarão se apresentar. E o eleitor percebe isso.
Ou vocês acham que é coincidência que Aécio Neves já está pedindo para apresentar nas pesquisas, Joaquim Barbosa também? Estarão na nossa. E nas outras. Flávio está ferido. Onde é o ponto de desmoronamento? Pois é. Todo mundo está fazendo essa conta.


