Edição de Sábado: Eu, tu, eles

Nada mais brasileiro que a suruba. Afinal, o termo vem do tupi e, dependendo do etimologista, significava originariamente “forte, bom” ou “tronco desgastado pelo uso”. Entrou no português como gíria equivalente ao “porreta” ou “ponta-firme”. Jânio Quadros, por exemplo, foi um candidato suruba. Quando e por que suruba virou sinônimo de sexo grupal é um mistério.

Vuco-vuco coletivo não é um esporte eminentemente nacional nem foi inventado pelos nossos indígenas. Há relatos homéricos mostrando que gregos e sumérios aprovavam e incentivavam a prática e não faltam antropólogos defendendo que a monogamia é uma moda recente — talvez passageira — na história da humanidade. Nos tempos do homo sapiens caçador-coletor a coisa era diferente, dizem.

Se a libertinagem existe há tanto tempo, qual a novidade das tais “festas liberais”? O termo, olha só, também é coisa nossa. Se você procurar por “festa liberal” em inglês no Google, a coisa mais sexy que vai encontrar é o Justin Trudeau. Aqui, abaixo do equador, por falta de uma denominação melhor, ele vem sendo utilizado para definir festas onde todo mundo dança, beija, se pega e, se organizar direitinho, transa.

Até aí, nada de novo no back ou no front. Casas de swing abrem suas portas há mais de cinquenta anos para casais interessados em dar um up acima e um plus a mais em suas folias conjugais. Mas as atuais festinhas liberais, que podem juntar mais de 200 pessoas em uma noite (ou tarde de domingo), não têm nada a ver com o público swingueiro tradicional e conservador, apesar de volta e meia ocuparem o mesmo espaço.

Pode parecer estranho unir sexo grupal e conservadorismo na mesma frase, mas os tempos mudam e está tudo bem. “As festas não-monogâmicas ou liberais, nesse formato mais inclusivo, começaram a pegar em meados da década passada”, diz Tuy Potasso, que criou a festa Libbe com seu ex-marido Biel Vaz em 2019 e hoje ajuda na organização da Festa dos Deuses. Ele conta que antes era só o swing tradicional, homem e mulher hétero, troca de casais, ménage ou cuckold (homem que curte ver a mulher transando com outro). “Entrei nesse meio por volta de 2012. Nessa época, as pessoas tinham muita vergonha de dizer que gostavam de suruba. Eu e Biel começamos a falar disso no YouTube, em 2015. Hoje, a aceitação aumentou, o povo se declara publicamente no Instagram, não tem mais só aquela coisa de casal de máscara, festas sigilosas. E isso é ótimo.”

Camila, que organiza a festa Voluptas, reforça a ideia de que no swing a coisa é mais anônima, com salas escuras em que “as pessoas tentam realizar suas fantasias quase sem se enxergar direito”. Só que isso é muito frustrante. Um casal demora para se entender, para um saber o que o outro gosta, como o outro goza, ela diz. “Daí você chega em uma casa de swing, encosta em uma pessoa e imediatamente vai tentar levar ela ao orgasmo, sem saber nada dela. Gosta de levar tapa? Tem trauma com tapa? Era preciso ter umas dez experiências para desfrutar de uma realmente positiva. As pessoas começaram a se cansar. E concluíram que isso só se resolve com diálogo.”

Senta que lá vem história

Conversas, debates e informação sobre não-monogamia e relacionamentos abertos é o que não falta nas redes. Todas as festas do gênero nasceram ou foram impulsionadas por canais no YouTube e perfis no Instagram. Alguns canais acumulam centenas de horas de vídeos sobre o assunto. Cada festa tem seu grupo de WhatsApp, em que os participantes trocam dicas, opiniões, nudes e biscoitos. A participação é mandatória em algumas. E alguns grupos já implodiram por conta de debates mais acalorados.

O próprio termo “festa liberal” é questionado. Ninguém gosta, porque o pessoal do swing old school também se apropriou dele. Mas ainda não apareceu algo melhor para substituir e estabelecer a diferença entre os velhos liberais e os neoliberais (no bom sentido). Balada não-monogâmica, festa de sexo livre, festa de positividade sexual até agora não pegaram. Então, vamos de festa liberal mesmo.

Tem gente que vai em festa liberal só para bater papo? Há espaço para os monogâmicos? “Tem casais que vão na minha balada há anos e nunca transaram com outros”, diz Camila. A festa é muito mais sobre ter a liberdade de poder fazer o que quiser, se tiver vontade, do que ir só em busca de sexo. “As pessoas vão porque querem estar com pessoas que não vão julgá-las, não estão preocupadas com seu peso nem em objetificá-las. Elas querem poder exercer sua sensualidade, colocar uma roupa mais ousada. ‘Onde que eu vou usar isso?’ Ai, nossa, eu tô com 45 anos e as únicas baladas que me aparecem são quando as minhas primas resolvem ir naquela festa de flashback retrô.”

Tudo junto e misturado

Outro grande diferencial das festas liberais para o swing ortodoxo e castiço: a diversidade. Quando começou a Orgasticah em 2019, Lulu Lovelight queria juntar o mundo clubber, do qual fazia parte, com uma festa que tivesse liberdade sexual e fosse um lugar queer. “Queria um espaço onde as pessoas entendessem que o afeto tem uma centralidade e fossem para conhecer pessoas, para criar comunidade.” A Orgasticah tem uma dinâmica diferente de outras festas. Ela começa com uma parte teórica, o SexLab, que aborda temas como consentimento e assexualidade. “Quem participa da vivência do SexLab tem uma experiência totalmente diferente na festa”, diz Lovelight. A aceitação também é requisito central na Libbe. “Nossa festa é um lugar onde você vê um homem heterosexual tratando uma pessoa trans pelo gênero correto e achando isso normal. Onde as pessoas entendem e respeitam a diversidade sem criar uma questão, sem agressões”, acrescenta Biel Vaz.

Quando as festas de sexo livre prometiam explodir, por volta de 2019, 2020, veio a pandemia. Isso impactou o movimento negativamente durante o lockdown, mas depois fez as festas bombarem. A Orgasticah, que costumava fazer festas com quarenta pessoas, atingiu o pico de 330 pessoas em uma festa em 2022 . “As pessoas compreenderam que a vida é muito frágil e decidiram viver o que queriam viver. “A dificuldade que a gente passou, muitos sozinhos, fez surgir esse questionamento. A não-monogamia não é algo novo, a diferença é que as pessoas ficaram mais corajosas”, acredita Camila, da Voluptas.

No swing, a homogeneidade normativa é a regra. São majoritariamente casais heterossexuais brancos, de bom poder aquisitivo, acima de 35 anos. Em alguns clubes restritos, existe até uma avaliação da beleza dos candidatos a participar. Já os encontros da turma liberal não-monogâmica são a verdadeira festa da democracia, não só nos quesitos gênero e opção sexual, mas também em relação à raça, forma física, classe social e idade. Claro, algumas festas são frequentadas apenas pela moçada dos vinte ou trinta anos. Mas nas maiores, como a Libbe, o público vai dos 20 aos 60, e ninguém se importa muito com a sua idade. “Ri muito quando, no meio de uma pegação, uma menina me disse que queria muito que os pais dela fossem como nós”, disse Hilda (os nomes citados foram substituídos por autores de livros eróticos para preservar a privacidade dos participantes), 53, que já participou várias vezes com o marido de festas liberais.

Não existem muitas opções de espaço para uma festa onde seja possível dançar pelado, se exibir ou observar outros exibidos. Elas ocorrem predominantemente em motéis ou nas próprias casas de swing. Em São Paulo, a mais conhecida é a Spicy, que vem consolidando seu rebranding como balada liberal há alguns anos, trazendo dias e festas específicos para cada nicho liberal, como a Let’s Play, para fetichistas. A maioria das festas citadas nesta matéria já realizaram pelo menos um evento na Spicy. “Foi preciso fazer todo um trabalho de letramento do staff da casa. Explicar como lidar com pessoas trans, a questão do consentimento, é um grande movimento de adaptação. Em motel é mais fácil, mas o lado ruim é que é muito caro”, diz Lovelight.

Volta e meia, o público tradicional da casa de swing encavala com o finalzinho de uma balada liberal e rolam atritos (no mau sentido). “Já houve casos de cliente reclamando porque viu dois homens se beijando e outro onde dois garotos foram advertidos pelos seguranças porque estavam sentados muito perto um do outro. O público do swing tradicional é machista, sexista, racista e preconceituoso. São os liberais de vitrine”, acusa Biel.

A Festa dos Deuses acontece em São Paulo, mas nem em motel nem em casa de swing. Rola num estabelecimento que já foi local para festas adolescentes na década de 1990. O Open Bar Club (antigo Extravaganza) abriga a festa, que se identifica como balada não-monogâmica, mas onde o sexo é permitido no escurinho da pista. “Batizamos nossa balada com um duplo sentido: o primeiro é lembrar de Baco; o segundo é ironizar o pessoal que acha que quem consegue levar relacionamentos não-monogâmicos sem morrer ou matar de ciúmes é praticamente um deus", diz Tuy.

Vamos ao que importa

E como entrar em uma festa dessas (um amigo quer saber)?

Depende da festa. Em algumas, como a Libbe, basta comprar o ingresso, que fica ao redor de R$ 150, com descontos progressivos para casais e trisais. Em festas como a Orgasticah e a Positiv, é preciso preencher um cadastro, quase uma anamnese, ser entrevistado pelos organizadores, participar do grupo do Zap, para só então ser aceito na balada. Se tiver sorte.

“Nosso principal valor é a segurança”, diz Angelo, da Positiv. “Nós somos chatos mesmo e o pessoal reclama muito que temos muitas regras. Para a gente, isso é marketing. Quem reclama que nosso processo é burocrático é porque nunca esteve do outro lado, do lado de quem é assediado.” O objetivo desse processo é basicamente filtrar predadores sexuais ou pessoas que não compartilham com a filosofia da festa, de inclusão e consensualidade. “Pelas respostas do formulário, a gente já saca quando a pessoa não tem muito a ver com o tipo de evento que a gente promove.” Mesmo com todo esse cuidado, a Positiv já teve uma denúncia de um caso onde um participante retirou a camisinha durante o ato e a Libbe já teve uma denúncia de estupro, prontamente registrada pela organização, mas onde a vítima decidiu não seguir com o processo.

Pois bem, resolvidos os trâmites burocráticos, você (perdão, seu amigo) finalmente recebe um convite para uma festa liberal. Com que roupa você (ele) vai se despir? Imbuído do verdadeiro espírito jornalístico, este repórter pendurou seus preconceitos no cabide e frequentou algumas festas para ver qual é a real do rolê.

A primeira coisa é se despir das expectativas. Acredite, essas festas são muito mais normais do que o filme pornô que sua imaginação está rodando em sua cabeça desde que você começou a ler este texto. Quando contei aos amigos que ia a uma festa de gente pelada vi vários olhos brilhando, piscadelas e sorrisos de canto de boca. No final das contas, o que fica é ter conhecido muita gente legal e, principalmente, ter conhecido melhor você mesmo, seus desejos e seus limites.

A festa no motel começou como um picnic, onde cada um leva uma comida (um prato, no caso) e o que vai beber, porque esses itens em motéis são absurdamente caros e a ideia é ser inclusivo não só quanto ao LGBTQIA+, mas também ao dimdim. Eu quis impressionar e fiz um cheesecake de frutas vermelhas (receita deste livro), que foi devorado assim que colocado na mesa. A festa rola na suíte presidencial, onde cabem até 50 pessoas confortavelmente, mas nesse dia era praticamente um petit comité, com apenas 19 participantes. Dois andares, em cima o salão de festa e a piscina; embaixo uma pista, uma alcova com uma cama pequena na penumbra, alguns sofás e três quartos sem porta com camas generosas. Privacidade zero, mas muito fácil de encontrar um cantinho isolado. Logo na chegada, os mais desinibidos já caíram imediatamente pelados na piscina. Um participante queimou a largada e caiu dormindo sozinho em uma cama (mas depois acordou e recuperou o prejuízo). Os mais pudicos vestiram o robe da casa e ficaram dançando na pista ou sentados conversando. Aliás, posso dizer que a proporção foi de 80% conversa e 20% sexo, incluindo aí beijos, amassos e tudo aquilo que Bill Clinton não considerava transa. Conversa-se sobre tudo, mas o tema predominante são as experiências e preferências de cada um, quase uma terapia de grupo. “Já fui em festas liberais, mas acabei cansando. Prefiro rolês mais intimistas como este”, disse Anaïs, 25.

Existem dois comportamentos extremos muito comuns, segundo Angelo, da Positiv. “O primeiro é a pessoa que fala na entrevista ‘ah, eu quero só olhar, não vou nem tirar a roupa, posso?’ Claro que pode. Corta para a festa e ela está lá, quicando em um canavial de rolas. O segundo extremo é a pessoa que vai super a fim, com aquela vontade toda, chega na festa e recebe um soco de diferenças sociais, de interações, e trava. Passa dez horas da festa tímida e só nas últimas duas horas se solta e transa com alguém. Pra gente, é tudo positivo, porque a pessoa foi aberta à possibilidade. Ninguém é obrigado a nada, você não precisa transar, não precisa tirar sua roupa, não precisa fazer nada.” Fica a dica.

Já nas festas em casas de swing, o movimento é mais fácil, porque os ambientes são separados. Cheguei, deixei o celular na chapelaria e fui para a pista de dança, onde o funk rolou solto a noite inteira e é permitido ficar pelado, mas, pelo menos no período em que passei lá, todos estavam comportados. Nada diferente de uma balada convencional. Mesmo sendo não-fumante, fui para o fumódromo, lugar obrigatório, pois é lá que rola o social, a paquera e mais terapia de grupo. Lá pelas tantas, percebi que a pista começou a se esvaziar e o povo se dirigia lenta e agarradamente ao segundo andar, onde ficavam as cabines, os labirintos, as camas gigantes coletivas, as masmorras (!) e os quartos com paredes de vidro, portas secretas e janelinhas. Subi também para o paraíso dos voyeurs. O ponto central do labirinto era uma cama onde algo entre três a seis pessoas se alternavam em uma performance coletiva, finalmente a suruba de fato. Ao redor da cama, uma plateia com mais meia dúzia de participantes observava o ato. “Eu acho estranho o pessoal que fica só olhando, sem entrar na brincadeira”, reclamou Henry, 62. “Parece que a qualquer momento eles vão subir uma nota com uma plaquinha, como em uma olimpíada.” Já François, 34, que estava na plateia, discorda. “Acho muito educativo ficar observando. Tem sempre alguma coisa que você consegue aprender.”

A conclusão é que suruba não é bagunça. Nada pode ser feito sem antes pedir consentimento. Não pode sair de uma posição para outra, digamos, mais avançada, sem perguntar para a pessoa envolvida. No meio da plateia, tem sempre uma mulher da equipe de segurança de olho para identificar se alguma participante está incomodada. A própria rede de surubeiros demonstra preocupação, principalmente os frequentadores mais veteranos. As frases mais comuns em uma festa de sexo livre é “tá tudo bem?” e “posso fazer…?”. É comum as mulheres dizerem que são bem mais respeitadas numa festa dessas do que em uma balada convencional.

É recomendável se informar a respeito do tipo de som que toca na balada, afinal, mesmo que você vá com o foco na orgia, poderá passar algumas horas ouvindo funk, o que pode afetar sua performance se você não curte “som de preto, de favelado”. Mas existem festas específicas de música eletrônica, como a Orgasticah, rock, piseiro e até sertanejo e forró, para quem curter dar suas sanfonadas.

A política em relação ao consumo de substâncias psicoativas varia de acordo com a festa, mas os organizadores costumam ser rígidos quando percebem que alguém passou da conta, principalmente com álcool. “Avisamos que, se a pessoa estiver bêbada, ela vai ser retirada da festa. A gente sabe que as pessoas vão tomar uma cervejinha para se soltar, mas não é para encher a cara”, diz Angelo. Até o uso de remédios de performance como Viagra não é bem visto. “Tive uma conversa muito interessante com um cara em uma festa, preocupadíssimo porque brochou. Aí, eu falei: você tem que entender que você vai brochar uma, duas, dez vezes e as pessoas que estão com você não vão ficar chateadas. No fim da festa, ele veio me agradecer, dizendo que eu tinha tirado um peso da cabeça dele e que, quando ele voltou mais tarde, todo mundo estava lá e foi ótimo.”

A revolucionária família brasileira

É curioso o termo que os frequentadores utilizam muito para se referir aos afetos e amizades que se formam nessas festas de gente pelada: família. Alguns organizadores sustentam que as pessoas têm muita carência de amizade, porque, não raro, as relações sociais são sustentadas na base da hipocrisia. Você tem aquele parente de quem não gosta, mas que encontra no churrasco de família e vai tem de fingir que está feliz; aquela tia que vai te olhar e dizer que você engordou. “Eu me sinto mais constrangida num churrasco de família do que ficando pelada numa balada. As pessoas estão entendendo que não é preciso manter essas relações sociais, que podem procurar amigos que pensam do mesmo jeito e não as julgam. Eu acho que formei muitas famílias , grupos que saíram da Voluptas e que hoje têm grupo no WhatsApp, fazem suas festinhas, vão viajar juntas”, conta Camila.

Em uma época em que a ameaça de virarmos uma teocracia não pode ser atribuída à mera paranoia e em que jovens se orgulham de ser conservadores, chega a ser reconfortante saber que existe gente chutando o balde dos preconceitos e vivendo como quer. Será que vem aí um novo ciclo de liberalismo nos costumes que vai deixar a atual onda caretista que assola a humanidade para trás? “No futuro, vai ser tudo igual”, prevê Camila. “Os ultraconservadores vão continuar defendendo a família tradicional com o pessoal super livre puxando a corda pro outro lado. O que eu acho que vai acontecer são pessoas tendo mais facilidade de viver aquilo que as faz feliz e menos pessoas irão morrer tristes.”

Tensão e letargia em Brasília

O Congresso Nacional estava vazio de deputados, senadores e votações, só que repleto de tensão, quando o mineiro Rodrigo Pacheco (PSD-MG) convocou uma entrevista coletiva. Na primeira frase, ele já se preocupou em vacinar contra notícias de má vontade com o chefe da economia do Executivo. “Queria fazer um esclarecimento sobre o nosso bom alinhamento com o governo, em especial com o Ministério da Fazenda, com o ministro Fernando Haddad”, reverenciou o presidente do Congresso, na terça-feira. Pacheco também negou ter tomado conhecimento da cobrança feita pelo ministro poucas horas antes.

Haddad havia amanhecido no Palácio do Planalto onde, fora da agenda oficial, falou com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e com o de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), sobre dividendos da Petrobras. Silveira é correligionário e aliado de primeira hora de Pacheco. O titular da Fazenda também foi ao encontro de governadores do Nordeste para tratar das dívidas dos estados com a União, encontro que contou também com Rui Costa e o ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Alexandre Padilha.

Ao retornar ao ministério da Fazenda, já havia formado uma posição em relação ao desacordo com Pacheco. Foi aí que fez a cobrança de mais responsabilidade dos congressistas no cumprimento da meta fiscal e se disse chateado por não ter sido avisado sobre a decisão tomada no dia anterior pelo presidente do Senado, de deixar o trecho específico sobre a reoneração da folha dos municípios de fora da medida provisória que teve seu prazo renovado. Quando voltou ao seu gabinete, Haddad também já sabia que uma opção seria levar a decisão de Pacheco para ser resolvida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), uma atitude radical, que só poderá ser tomada se autorizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Há um clima de impasse no ar que justifica, em parte, a sensação de letargia do Congresso neste ano, que começa, para eles, no primeiro dia útil de fevereiro. Quase nada digno das manchetes andou em votações. Os parlamentares federais entraram num acordo para emendar a Páscoa com a janela de troca partidária de vereadores e estão em recesso informal até dia 8. Mas não são só os eventuais feriadões e as folgas estendidas que vêm paralisando as coisas.

Os movimentos políticos tanto do Executivo quanto dos chefes do Legislativo não deixam dúvidas de que está sendo travado um duelo. Até agora, não há no Palácio do Planalto uma só voz que admita publicamente que Pacheco não seja um aliado político do governo e um problema menor diante das dificuldades enfrentadas com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Mas sabe-se que a aliança é frágil.

Não que a relação tivesse sido tranquila até aqui, diga-se. Embora as peças do tabuleiro são as mesmas entre os salões Verde e Azul, já que as eleições para a sucessão na Câmara e no Senado só ocorrerão em fevereiro do próximo ano, o humor é bem diferente do que o que imperou no ano passado. O azedume ficou evidente logo no início do ano legislativo. Alguns gestos de Lula e do governo, no apagar das luzes de 2023, como os vetos do presidente ao projeto de desoneração e às emendas parlamentares ao sancionar o Orçamento 2024, não foram superados. Também claramente não se esqueceu a Medida Provisória da reoneração, editada entre o Natal e o Ano Novo, quando o Congresso estava em recesso, anulando uma decisão tomada pelo Senado dias antes. “Essas ações tornaram o ambiente muito tenso. O segundo ano não começou naquele clima de lua-de-mel que costuma vir com um governo que acaba de tomar posse. Não chega a ser uma crise institucional, mas o ambiente está muito contaminado. Não por acaso Lira abriu o ano legislativo com um discurso duro, de deixar todo mundo de cabelo em pé”, observou Raquel Alves, consultora em análise política da BMJ Consultores Associados, em conversa com o Meio.

Some-se a isso a capacidade que a oposição teve de se organizar e conquistar postos importantes na Câmara. “A eleição das comissões foi um fato político muito importante, que deixou claro que temos em 2024 uma oposição mais bem organizada que em 2023. E uma oposição que conseguiu se posicionar apesar do impacto que representaram os eventos do 8 de janeiro.”

Se em 2023 o governo conseguia dividir com Lira e Pacheco o ritmo das votações, mesmo tendo de empregar o velho método de liberação de emendas, em 2024 tem sido diferente. Até o momento, a pauta econômica de interesse do governo está truncada e a previsão de deputados e analistas é de que, quando ela começar a ser discutida, estará em um congestionamento de matérias a serem apreciadas nas duas últimas semanas de abril e no mês de maio. Já estão programadas pausas longas nos trabalhos no mês de junho, quando os parlamentares se dedicam às festas juninas em suas bases eleitorais, seguidas pela temporada de convenções partidárias, em julho, para as eleições municipais que ocorrerão em outubro. Um tempo corrido.

Lira até tenta apressar a entrega pelo governo da proposta de regulamentação da reforma nos tributos. Ele quer que essa matéria seja um legado seu. Mas a proposta só deve chegar à Câmara em meados de abril, quando também serão enviados ao Congresso os parâmetros para a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2025. Uma discussão pode acabar contaminando a outra, porque, com a LDO, o governo precisará tratar de temas nada consensuais, como a manutenção ou não da meta de déficit zero e o enxugamento das despesas prometido por Haddad no ano passado, quando se aprovou o arcabouço fiscal.

No ritmo do Congresso, algumas votações até ocorreram, mas não conduzidas pelo governo. Um exemplo é a aprovação pela Câmara dos projetos de Biocombustíveis e o que cria o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten). As propostas não eram especificamente do governo, mas foram abraçadas por Lira e contam com a simpatia do Planalto.

Também houve a votação da Lei de Falências, que faz parte da agenda microeconômica que Haddad pediu para Lira acelerar. Nesse caso, Lira aproveitou para mandar mais um recado ao governo, colocando a deputada Daniella Cunha (UB-RJ), filha do ex-presidente da Câmara cassado Eduardo Cunha, para relatar. A mensagem foi: “Eu posso ajudar a atrapalhar”. E não deu outra. A matéria foi aprovada com um texto que em nada agradou o governo.

Todos têm em mente que esse é um ano mais curto por conta das eleições municipais de outubro. Por isso, não é de se esperar aprovações de grandes propostas no Congresso. E o Planalto tratou de enxugar a pauta. Na reunião ministerial que Lula chamou depois de perceber nas pesquisas uma queda de sua popularidade, a pauta apresentada pelo ministro Padilha foi sucinta, listando as discussões já acaloradas sobre a reoneração da folha de pagamento, a criação de carreiras, a isenção de imposto de renda de pessoas físicas, além das discussões orçamentárias, que ocorrem todo ano. Além disso, só o recado para não se envolver nas provocações da extrema direita, que ganhou mais destaque que todas as outras orientações.

Tempo curto ou não, esse é o ano menos atípico de eleições municipais dos últimos nove anos. Isso porque as duas últimas eleições municipais, em 2020 e em 2016, foram marcadas por fatos políticos bastante importantes. Em 2020, a pandemia da covid-19 assolava o país. O Congresso precisou adotar sessões remotas para votar propostas mais voltadas a liberar recursos para que estados e municípios pudessem lidar com a pandemia. Em abril, esse era o assunto nas Casas legislativas e as eleições tiveram que ser adiadas para novembro. Já em 2016, em abril, as duas casas se sacudiam em torno do impeachment de Dilma, cujo pedido havia sido aceito em dezembro de 2015 por Eduardo Cunha. O processo do impeachment só foi concluído no Congresso em 12 de maio daquele ano, quando o Senado aprovou o impedimento da petista. O último ciclo “normal” de eleições municipais se deu em 2012, antes das Jornadas de Junho, da sacudida política do país. O de 2024 pode testar o nível de paralisia que um governo consegue tolerar num ano eleitoral.

Canções de um amor eternizado

“A mulher do Francis Hime gravou um disco!” Nos idos de 1981, a frase indicava que a pessoa gostava de MPB, mas não se aprofundava em seus bastidores, onde Olívia Hime era uma produtora respeitada, além de parceira do marido em composições. E muito rapidamente ela se consolidou como uma das grandes intérpretes de uma música brasileira de alta qualidade, que continua a render álbuns brilhantes e sem concessões à fórmula fácil e massificada das paradas.

É o caso de seu mais recente trabalho, Se Eu Te Eternizar (Spotify e YouTube), dedicado inteiramente à obra de Francis, mas voltado para canções que não eram revisitadas há tempos ou mesmo inéditas. Esse material é a base do show que ela apresenta (com ele) ao Rio no próximo dia 11 no Teatro Rival, segunda parada de uma turnê que começou em São Paulo, no Sesc, cujo selo produziu o disco.

Trabalhos voltados para um autor específico vêm sendo uma constante na carreira de Olívia, com álbuns dedicados à obra de Fernando Pessoa, Chiquinha Gonzaga e Rui Guerra, entre outros. “Como já disseram Rui e Geraldo Carneiro, eu tenho uma cabeça de roteirista”, diz a cantora, em entrevista exclusiva ao Meio. “Gosto de roteirizar meus trabalhos, de entregar às pessoas alguma coisa que você ouve e que tem uma sequência, um ambiente em que o ouvinte possa ficar embalado”, completa.

A escolha do marido como tema foi razoavelmente óbvia – “Francis é um dos meus compositores favoritos”, emenda Olívia –, mas a seleção do repertório contou com uma “ajuda” inusitada: a covid-19. “Durante a pandemia eu fiquei mexendo na papelada e encontrei, por exemplo, a inédita Círculo Fechado, que ele compôs com Paulo César Pinheiro quando ambos eram muito jovens, mas que já era madura musical e poeticamente”, conta. Da mesma forma foram resgatadas Anunciação, dos mesmos autores, defendida pelo MPB4 no 4º Festival Internacional da Canção, em 1969, e Pássara, parceria de Francis e Chico Buarque que fez sucesso na voz dos autores em 1980.

Inicialmente, o álbum se chamaria As Canções do Meu Melhor Amigo, uma referência à primeira música composta pelo casal, mas algo incomodava Olívia, sensação confirmada por uma passada de olhos na internet. “Comecei a ver ‘Jesus, meu melhor amigo’, ‘Meu pai, meu melhor amigo’ etc. Foi me dando um enjoo, não ia fazer isso com o Francis”, brinca. A solução veio já no estúdio, quando gravava a inédita Valsa Sedutora com a coautora Zélia Duncan. “Comecei a cantar: ‘Se eu te eternizar numa canção’. Me deu um estalo e disse ‘Zélia, acabei de batizar o disco!’”.

As 12 faixas são a base do show, mas a apresentação não se resume a elas. “Se eu não cantar Trocando em Miúdos, me matam”, diz a cantora. Além disso, Francis, responsável pelo piano e pelos arranjos, canta algumas de suas canções, e há ainda um set instrumental, uma das grandes paixões de Olívia. “Tanto que, no disco, pedi ao Francis para arranjar a música Mar Enfim toda instrumental, e depois eu entro cantando. No show será a mesma coisa”, explica.

E ainda bem que entra cantando, pois sua voz é o ponto mais alto de um álbum sem pontos baixos. Em comparação com o começo de sua carreira, Olívia soa mais profunda, mais aveludada, ou, em suas próprias palavras, mais encorpada. “Eu não perdi os agudos, eu ganhei os graves e ganhei um corpo. Claro que exercito muito o canto, mas gosto mais da minha voz hoje em dia”, afirma a cantora, que, aos 80 anos, demonstra como talento e evolução são incessantes enquanto há amor pela arte.

Uma DR do nosso editor-chefe, Pedro Doria, com os leitores/espectadores sobre o papel da imprensa. Confira os mais clicados da semana:

1. Meio: Ponto de Partida — Essa imprensa não me serve mais.

2. Meio: Ponto de Partida — Janja cruzou a linha feio.

3. Panelinha: Tartine de queijo grelhado com pera cozida.

4. TechTudo: Os memes da queda do WhatsApp e do Instagram.

5. UOL: Rui Costa é investigado por contrato de respiradores.

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