Edição de Sábado: A encruzilhada do PT
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O anúncio do que já se especulava desde o fim do ano passado veio na quinta-feira, durante a abertura da 17ª Caravana Federativa, em São Paulo. “Hoje, para mim, é um dia especial, um dia em que estou deixando o Ministério da Fazenda”, disse brevemente Fernando Haddad (PT). Foi o suficiente para movimentar as manchetes. Outra fala, no entanto, capturou o protagonismo, a do vice-presidente Geraldo Alckmin. “Quero, Haddad, ao abraçá-lo quando você encerra esta jornada, que é só transitória, dizer que você tem uma das raras virtudes da vida pública: a coragem da moderação. É um exemplo a todos nós que nos dedicamos a servir a população.” O antigo adversário histórico do PT colocava, ali, sobre os ombros do ex-ministro a mesma missão para a qual foi chamado ao governo há quatro anos: transformar a moderação, já marca de sua trajetória, em ativo eleitoral.
Não é um movimento ao acaso. São Paulo, berço da legenda, vem se tornando território inóspito ao petismo. Nas últimas eleições municipais, a sigla teve ali seu pior desempenho histórico. Na Grande São Paulo, tradicional reduto petista, o chamado “cinturão vermelho” conquistou apenas uma prefeitura, em Mauá, entre 39 cidades. Nem mesmo o ABC Paulista, reduto político do partido, escapou ao revés. Municípios como Santo André e São Bernardo do Campo ficaram fora do alcance petista. No interior, esse sim tradicionalmente afastado do PT e afeito aos tucanos, agora partidos de centro e direita, como PSD, MDB e PL, dominam o mapa.
Diante desse quadro, a escolha de um dos nomes mais centristas do partido para enfrentar Tarcísio de Freitas (Republicanos), o favorito, deixa uma dúvida no ar: trata-se de um movimento pontual, calibrado para o maior colégio eleitoral do país, ou de um sinal mais amplo sobre os caminhos que o PT pretende seguir? A dúvida ganha força diante de uma sequência recente de sinais contraditórios dentro do próprio partido.
Cenas de um descompasso
“Temos que intensificar a estratégia de comunicação para que a sociedade entenda o que o governo Lula está fazendo. E não entrar na linha que eles estão propondo, de pancadaria, ataque, ‘fake news’.” A declaração foi dada pelo presidente do PT, Edinho Silva, em entrevista ao Valor Econômico, no último dia 9. Em paralelo, alas do partido se inclinavam em outra direção. A própria ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, publicou uma série de vídeos nas redes sociais com ataques direcionados ao senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL).
A dissonância entre os discursos conciliadores e o tom cada vez mais combativo passou a incomodar a bancada petista no Legislativo, que parecia sem direção. Na tentativa de arrefecer o imbróglio, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), foi recrutado para alinhar a comunicação. Em reunião no Congresso Nacional, informou aos parlamentares que a estratégia havia mudado, era hora de “virar a chave”.
A orientação, segundo relatos, era partir para o ataque, inclusive com a organização de núcleos de campanha para “não deixar o Flávio correr solto”. O novo discurso passaria a enfatizar acusações como o caso das rachadinhas, a homenagem a Adriano da Nóbrega, a compra de uma mansão com pagamento em dinheiro vivo financiada pelo BRB e até seus dois batismos no Rio Jordão.
A última semana se desenrolou já sob as novas ordens, no mesmo tom de sobressalto. Na terça-feira, o ex-ministro José Dirceu comemorou seus 80 anos em um tradicional restaurante nordestino no Lago Sul, em Brasília, cercado por familiares, ministros do governo, nomes históricos do PT, expoentes do centrão e até figuras já relegadas ao ostracismo. De Alckmin a Renan Calheiros (MDB), que precisou sair mais cedo para chegar a tempo de uma reunião do PP. De Lurian, filha de Lula, a Edinho, passando ainda por Gleisi Hoffmann e Rodrigo Maia.
Entre 20h e 22h30, Dirceu posou ininterruptamente para fotos, tocou trompete a convite do trompetista do PT, recebeu presentes que iam de garrafas de uísque a uma miniatura de estandarte com seu rosto estampado. Depois, como esperado, discursou. “Nós temos que dizer claramente para o povo brasileiro, essa não é uma campanha de Lulinha paz e amor. Essa é uma campanha que nós temos que ganhar a maioria do povo brasileiro. Eu tenho dito e repetido: uma revolução política e social”, disparou. O octogenário que orquestrou a virada do PT ao centro em 2002, articulando um candidato a vice do PL de Valdemar Costa Neto, convoca a militância a encerrar a era que inaugurou.
Enquanto celebrava sua volta ao centro do jogo político, ensaiando a pré-candidatura à Câmara, a DJ entoava na caixa de som: “És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo”. Depois, a MPB deu lugar ao samba. Zé do Caroço avisou que “está nascendo um novo líder popular” enquanto os pratos de frutos do mar e garrafas de vinho circulavam pelas mesas, tudo por conta dos convidados em comandas individuais.
A sequência de cenas sintetiza um partido dividido entre o pragmatismo eleitoral e a reafirmação de sua identidade histórica, traço que não é de hoje, lembra o cientista político Creomar de Souza. “Falando um pouco de história recente, na primeira eleição da Nova República, em 1989, o Lula concorre contra Fernando Collor e perde. Em 1994, enfrenta Fernando Henrique Cardoso e perde de novo. Em 1998, tenta mais uma vez e perde. Quando chega 2002, a contragosto do partido, Lula diz: ‘é o seguinte, eu só vou se for para ganhar. E minhas condições envolvem trazer um cara chamado Duda Mendonça e dar um recado claro à sociedade brasileira de que o PT não vai colocar fogo no parquinho. Para garantir isso, ele faz com que todo o partido fale a mesma língua, com a Carta ao Povo Brasileiro’.”
Segundo Creomar, essa trajetória deixou lições sobre o funcionamento interno do PT. “Quando Dilma ganha a primeira eleição, creio que havia uma compreensão do Lula e daqueles que eram mais próximos a ele de que essas correntes menos pragmáticas entendem o risco de forçar uma agenda além do compasso da política do dia a dia.”
Consensos, no entanto, não se estruturam facilmente em meio ao jogo vivo do poder. Sintoma disso foi o cabo de guerra pela sucessão do comando da sigla no último ano. Edinho Silva, apoiado por Lula e representante da ala mais centrista, enfrentou resistência das alas mais “raiz”, que se opõem ao governo constantemente. “Tentaram colocar o Lula contra a parede e tiveram uma amostra desse Lula mais combativo. Então, ele conseguiu fazer Edinho ser eleito presidente. Esse movimento veio no sentido de dizer: ‘Olha, eu respeito a divergência, mas na eleição eu quero sintonia do partido com o governo’. Essa sintonia está vindo, mas de forma lenta. Todos esses elementos mostram que a relação é oscilante e talvez reflita na própria dinâmica de pensar o PT pós-Lula, enquanto ele ainda está no comando.”
Um dos rivais de Edinho na corrida pela Presidência do PT foi o deputado federal Rui Falcão. Quadro histórico da legenda, ele se filiou em 1982, ajudando o partido a se estruturar enquanto partido. Já em 1993 chegou a comandá-lo, retornando ao posto de presidente de 2011 a 2017 — quando, entre Operação Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff e ameaça de prisão de Lula, a sigla mergulhava em sua pior crise.
Mesmo agora, diante da eleição que se aproxima, Falcão mantém suas divergências sobre os rumos do PT. Depois de uma grande digressão aos anos iniciais do partido — nos quais até mesmo um plebiscito foi conduzido por Bete Mendes no Café Piu-Piu, um expoente da boemia roqueira de São Paulo — e ao passado sindical sobre o qual o PT se consolidou, Falcão lamentou a perda de conexão com as bases sociais e a omissão diante de pautas tradicionalmente defendidas.
“Hoje nós somos um partido que se profissionalizou e burocratizou. Tem uma inação enorme. É dirigido pelo senso comum. O que eu quero dizer com isso? Você faz uma pesquisa, e, com o que o povo concorda, você cede por ocasião. Além disso, principalmente, a presença no território foi vital para o crescimento do PT, porque a política se faz no cotidiano. Agora fazemos disputa política a cada dois anos, quando as eleições se dão. Acaba a eleição, o PT se recolhe”, ponderou.
Ele defende que o partido “volte a fazer o que era seu ideário principal: um pé na institucionalidade, outro na luta social”. “‘Ser governo para, então, ser poder’, a gente dizia. O parlamento, os governos, são instrumentos de transformação, não fins. A eleição é um meio para radicalizar a democracia”. Agora, com a guinada do discurso, Falcão concorda. Sustenta que é preciso “botar sangue nos olhos do pessoal”. “O Lula até pode ser paz e amor, mas a campanha vai ser de guerra.”
Interlocutores próximos a Edinho ainda pregam cautela. “Edinho quer uma renovação no PT e também quer o partido mais conectado com as bases. Por isso mesmo, ele defende muito a secretaria de nucleação, onde o partido organiza o contato com as bases. Ele também convocou um Congresso do partido para discutir uma reforma estatutária em abril. Essa reforma é para modernizar o partido, em linhas gerais. Mas sobre ser combativo, é só olhar os discursos do Edinho. Governo tem que governar. A oposição está fazendo a parte dela de tentar adiantar o processo eleitoral e não tem porquê fazermos isso. O presidente ainda tem muita coisa para entregar. Governo governa.”
O futuro em xeque
Crise de identidade. É assim que Creomar define o dilema que atravessa as diferentes vertentes do partido. “Hoje, talvez o único elemento capaz de dar coesão ao petismo, inclusive entre suas correntes, seja a ideia de Lula. Querendo ou não, ele é a autoridade moral que se sobrepõe às disputas internas”, afirma. Em sua leitura, os movimentos recentes revelam essa dinâmica. A decisão de iniciar uma ofensiva contra Flávio Bolsonaro, por exemplo, mesmo em desacordo com a posição de Edinho, carrega um recado implícito: “gente, eu sei que não estou com vocês em todas, mas, nessa, estou”. É assim, diz ele, que Lula tem conduzido o jogo interno.
Não por acaso, descreve o método quase como um processo de depuração. “A turma se digladia e, com os sobreviventes, vai se construindo o governo”, observa. O custo, porém, se acumula. “As feridas abertas no caminho alimentam uma dificuldade de sustentação. Esse talvez seja o grande dilema do pós-Lula.”
Dilema que se impõe, também, devido ao próprio espírito do tempo. Esta tese é colocada na mesa pelo ex-ministro Ricardo Berzoini (PT), que atravessou diferentes fases dos governos petistas. “Nos anos 1980 e 1990, ainda que houvesse planejamento, havia também muita luta espontânea. Lideranças surgiam nos movimentos locais, no trabalho, na luta por terra, educação, creche, saúde. Eram formadas na base.” Com o tempo, esse ciclo alimentava a renovação partidária. “Depois de dez anos de militância, essas pessoas chegavam à direção ou disputavam mandatos. Era um processo muito intenso de renovação”, lembra. Hoje, segundo ele, a engrenagem mudou. “Essa dinâmica já não é a mesma. Inclusive porque a própria classe trabalhadora é outra.”
Se, para Berzoini, a transformação passa pela base social, para o cientista político Cesar Zucco, professor da Universidade Columbia, o fenômeno é ainda mais profundo e anterior. Ele questiona, inclusive, a própria ideia de “lulismo” como uma categoria estável.
“A gente tem claramente um voto no Lula, que sempre foi mais forte do que o voto no PT”, afirma. “Mas lulismo, entendido como um apoio incondicional, é mais difícil de identificar.” Na sua leitura, até mesmo o auge de popularidade do petista, com índices superiores a 80% de aprovação no fim dos anos 2000, não pode ser explicado apenas por esse conceito. “Aquilo era uma combinação de carisma, habilidade política e um contexto econômico muito favorável. Não era exatamente o lulismo.”
Ainda assim, há elementos de continuidade. “O que permanece é que o Lula, e o PT, dominam o campo da esquerda. Há muito pouco espaço para um candidato competitivo fora desse eixo sem o seu endosso.” Enquanto, de um lado, esse domínio se mantém, do outro o cenário mudou. “A direita, que antes não era organizada, hoje tem um polo claro. O bolsonarismo não criou o antipetismo, ele organizou algo que já existia.”
Essa reorganização ajuda a explicar também as ambiguidades na relação entre o PT e a sua base social. Para Zucco, a ideia de que o partido simplesmente perdeu contato com a classe trabalhadora é insuficiente. “Esse público sempre foi mais dividido do que parece. Pessoas muito parecidas, do ponto de vista social, podem interpretar o papel do Estado de maneiras completamente diferentes.” Entre visões de mérito, esforço e assistência, abre-se um campo em disputa permanente no qual esquerda e direita, agora mais nítidas, competem com narrativas próprias.
É nesse ponto que a análise volta ao terreno mais concreto da organização partidária. Para Berzoini, todas essas transformações se traduzem em um desafio imediato: renovar seus quadros. “Muitas das lideranças reconhecidas hoje já têm idade avançada. Costumo brincar que, dessa turma mais antiga, sou um dos mais jovens. Tenho 66 anos. O Rui está com mais de 80, o Zé tá com 80. A idade não impede, mas é óbvio que você pensa em qual será a capacidade de saúde que teremos daqui quatro anos.”
Ele aposta que a renovação pode começar a ganhar forma nas eleições municipais, com a emergência de novos nomes. Mas, quando o assunto é a sucessão de Lula, evita fechar suas apostas. “Haddad entrou na disputa de 2018 no meio do caminho, se saiu bem, teve uma votação expressiva. É uma possibilidade. Carrega uma imagem forte de lealdade a Lula, especialmente depois da prisão — tanto que foi escolhido como vice já prevendo a substituição.” Já Guilherme Boulos, avalia, remete a outro momento histórico. “Ele lembra mais o Lula dos anos 1980. São perfis bem diferentes.”
Berzoini também ressalta que o PT não pode, nem deve, se colocar como o único formador de lideranças do campo progressista. Ainda assim, a política real insiste em embaralhar fronteiras. Na quinta-feira à noite, uma corrente do PSOL ligada a Boulos afirmou, em carta, que o ministro estaria de saída para o PT — e a passarela teria sido pavimentada pela recusa de parte do PSOL de aceitar se federar com o PT. O ministro nega, mas abdicou de se lançar candidato a qualquer novo cargo em 2026 para estar no Palácio do Planalto, ao lado esquerdo de Lula, articulando com a base. Em meio às incertezas, uma resposta já foi dada, mesmo que carregada de simbolismo. Em dezembro, ao ser questionado sobre quem sucederia Lula, Edinho foi direto: “é o partido”.
Mas quem é o partido sem Lula? Para tentar responder, Creomar recorre ao passado recente. “Em 2018, o PT sem Lula chegou ao segundo turno, mas não ganhou a eleição. Em 2022, o PT com Lula chegou e venceu, mesmo contra um adversário com a máquina na mão.” A leitura do desempenho eleitoral, no entanto, não se esgota na força das lideranças. Há um elemento mais estrutural que segue organizando o comportamento do eleitor, aponta Cesar Zucco. “Essa dinâmica eleitoral é muito interessante, mas, estruturalmente, a melhor maneira de pensar quem vai ganhar a eleição ainda é olhar para a economia. A economia da vida vivida, cujos efeitos às vezes demoram um pouco a serem sentidos pelas pessoas.”
Bem, a resposta ensaiada pela direção, de que o sucessor é o próprio partido, na prática, esbarra em um terreno mais incerto. “Dizer que o sucessor de Lula é o petismo é quase trabalhar com uma bola de cristal”, afirma. A analogia, sugere, lembra o peronismo argentino: uma identidade difusa, disputada por diferentes atores. “Quando Lula não estiver mais no jogo, a imagem dele fica na história. E todo mundo vai tentar se apropriar, como aconteceu com Vargas, com JK. Ninguém vai ter monopólio desse legado.”
Se o capital político é disputável, a construção de um sucessor é ainda mais delicada. “Para forjar uma liderança, você precisa de duas coisas: a vontade de quem sai e o acolhimento de quem fica.” Em outras palavras, não basta que Lula aponte um nome — é preciso que o partido e sua base reconheçam essa escolha como legítima. “Hoje, sinceramente, ainda tem muita água para passar debaixo da ponte.”
O tempo também pesa contra. A crise iniciada em 2013, aprofundada pela prisão de Lula, interrompeu um processo que poderia ter amadurecido antes. “A narrativa que se impôs depois foi a do retorno dele, não a da substituição.” O resultado é um vácuo: a sucessão começa a ser discutida apenas quando já se tornou urgente.
Mais do que nomes, o impasse é de época. “Lula é também fruto de um momento histórico”, diz Creomar. “E esse momento mudou.” Transformações no mundo do trabalho, na forma de organização coletiva e nos próprios valores sociais colocam em xeque pilares tradicionais do campo progressista. “A ideia de organização dos trabalhadores, por exemplo, está sob pressão. Ao mesmo tempo, cresce uma lógica mais individualista, de que cada um resolve sua vida sozinho.”
Nesse cenário, qualquer nova liderança à esquerda tende a surgir sob outras bases. “Vai precisar construir um perfil capaz de agregar o maior número possível de votos. No fim, é disso que se trata.” A dificuldade não é apenas ideológica, mas também prática: como reconstruir vínculos em uma sociedade menos organizada coletivamente. E a disputa pelo legado de Lula já está em curso, ainda que de forma difusa. “Tem vários atores tentando capturar esse espaço”, observa. Mas a transferência não é automática. “Depende de duas coisas: de Lula oferecer esse lugar e do eleitor comprar a ideia.” Sem essa convergência, o lulismo tende a se fragmentar em versões concorrentes.
Dentro do próprio partido, o risco é conhecido. Para o deputado federal Rui Falcão, a força de Lula sempre foi também sua ambiguidade. “Ele dá força ao PT pelo carisma, pela referência popular. Mas, ao mesmo tempo, enfraquece, porque sua figura é tão dominante que dificulta o crescimento de outras lideranças.” Aponta a metáfora: “é como uma árvore frondosa, sua sombra não deixa com que nada cresça embaixo.”
O desfecho, portanto, não está dado. Para o cientista político Cesar Zucco, o histórico do PT sugere resiliência, mas não resolve a incógnita central. “O partido sobreviveu a crises gravíssimas, eleitorais e judiciais. O que ele ainda não enfrentou foi a ausência do Lula. Esse cenário simplesmente não existe ainda.”
Se há uma certeza, é a de que o pós-Lula não será uma transição linear. “O partido deve continuar relevante, tem estrutura, tem quadros, tem capilaridade”, afirma Zucco. “Mas o que acontece sem Lula é, hoje, uma incógnita real.” E, pela primeira vez em décadas, é uma incógnita que o próprio PT se vê obrigado a encarar e para a qual precisa se preparar.
Os efeitos do Pé-de-Meia
“Sonhava em ser doutor, até jogador
Por falta de condições a gente se limitou
Passando necessidades por consequência da vida
A única opção foi a vida bandida”
A estrofe acima é parte do funk História de vida, de MC Pitico. As dificuldades expostas em muitas das letras desse gênero musical são a antessala de um problema brasileiro: a evasão escolar. O Ensino Médio brasileiro, de acordo com dados do Censo Escolar divulgados em fevereiro de 2026, tem 7,3 milhões de alunos matriculados. Para muitos destes, ficar na escola tem um custo: deixar de garantir a sobrevivência mínima.
Numa tentativa de atacar o problema, o governo Lula lançou, em novembro de 2023, o Pé-de-Meia, um programa de incentivo financeiro-educacional para fazer com que os alunos do Ensino Médio não abandonassem os estudos e concluíssem o ciclo escolar. Segundo o Censo, 17% dos jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola ou acumulam um atraso relevante no percurso escolar. O programa funciona como uma poupança: os estudantes recebem incentivos mensais de R$ 200 ao comprovar a matrícula e mais R$225 pela frequência, e ambos estão disponíveis para saque. Ao final de cada ano concluído, os beneficiários do programa recebem R$1 mil, que só podem ser retirados da poupança na formatura do Ensino Médio.
Há também outro incentivo: um adicional de R$200 pela participação no Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Ao todo, os valores chegam a R$9,2 mil por aluno, totalizando para o governo um investimento de R$ 12 bilhões. O programa beneficia jovens que atendam alguns pré-requisitos: ter entre 14 e 24 anos, estar matriculado na rede pública de ensino, com família inscrita no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal) com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Os estudantes que cumprem esses critérios são automaticamente incluídos. O Ministério da Educação (MEC) cruza as informações de matrícula com os dados do CadÚnico para identificar quem pode receber o Pé-de-Meia.
A economista Laura Muller Machado, colunista da Folha e professora do Insper, é coautora do livro Bolsas de Estudo e Evasão: Avaliação de Impacto Ex-ante, juntamente com Ricardo Paes de Barros, um dos formuladores do programa Bolsa Família, Samuel Franco e Laura de Abreu. Trata-se de um estudo inédito, disponível para download gratuito, que avalia se o programa Pé-de-Meia é eficaz no combate à evasão escolar. A pesquisa foi feita pelo Centro de Evidências da Educação Integral, parceria do Insper com o Instituto Sonho Grande e com o Instituto Natura. Os resultados mostram que bolsas de estudo têm grande potencial de ser uma política eficaz para reduzir o problema. Os efeitos dependem tanto de valores em dinheiro no bolso do aluno quanto da maneira como esses recursos são distribuídos.
Como funciona o mecanismo de redução da evasão escolar?
O estudo nasce de uma pergunta muito concreta: qual é, de fato, a capacidade de programas de bolsa de estudos de reduzir a evasão no Ensino Médio brasileiro e em que condições eles funcionam melhor? Essa pergunta foi trazida ao Insper pelo Instituto Natura e pelo Instituto Sonho Grande, e chamou nossa atenção porque o Brasil ainda convive com um problema muito grande de evasão: cerca de um em cada quatro jovens que ingressam no Ensino Médio não conclui. Ao mesmo tempo, vimos uma expansão de diferentes programas de incentivo financeiro em alguns estados brasileiros, mas não havia clareza sobre qual seria o melhor desenho de programa para cada contexto. Essas bolsas de estudo se fundamentam em dois mecanismos principais. Em primeiro lugar, a transferência de renda e alívio da pobreza fazem com que o jovem permaneça na escola. O segundo mecanismo aumenta a percepção do jovem sobre o benefício de frequentar a escola durante todos os anos do Ensino Médio, pois a permanência na escola é condição para o recebimento da bolsa, cujo valor aumenta à medida que o estudante é promovido até o último ano. Mas é importante destacar: a evasão não depende somente desses dois mecanismos para ser resolvida. A bolsa atua sobre dimensões importantes, mas não resolve sozinha causas que estão relacionadas à baixa qualidade da escola, por exemplo.
Quais são as principais conclusões do estudo e o que podemos esperar a partir dos primeiros anos do programa?
A taxa de evasão composta no Ensino Médio que utilizamos como referência é de 23,4%, e isso é anterior à implementação do Pé-de-Meia. A principal conclusão do estudo é que o programa tem impacto positivo, relevante e custo-efetivo, mas não resolve sozinho o problema da evasão. Nossos resultados mostram que o Pé-de-Meia reduz a evasão em 6,3 pontos percentuais. Em termos práticos, isso significa que um em cada quatro jovens que iriam abandonar a escola passam a permanecer graças ao programa. O estudo vai além dessa média e mostra nuances importantes. Outro impacto significativo seria o adiamento da evasão. Por exemplo, um jovem que sem o programa deixaria a escola no início do ano letivo da 1ª série do EM, com o programa pode decidir adiar a saída, ganhando um ano de escolarização, ainda que não venha a concluir o EM. Outros resultados importantes mostram que o programa também tem potencial de reduzir desigualdades, e que é mais eficaz em contextos em que há uma maior população de jovens vulneráveis.
Quanto custa para o estado manter um aluno no Ensino Médio por três anos? Qual é o benefício de reter um jovem no EM?
O custo do Ensino Médio por jovem matriculado é de R$37,5 mil, para as três séries. O retorno ao longo da vida desse estudante, de acordo com estudo Consequências da Violação do Direito a Educação, de 2021, chega a R$ 374 mil. Ou seja, uma relação custo-benefício muito positiva, de quase dez vezes o investimento.
O estudo conclui que o impacto do programa tende a ser maior onde a vulnerabilidade das famílias é mais crítica. Em quais estados isso acontece? O programa é implantado de maneira igualitária em todas as regiões do país?
O estudo mostra que o impacto do programa tende a ser maior onde há mais vulnerabilidade social e não onde a evasão é mais alta. Estados com maior proporção de jovens em situação de pobreza, especialmente no Norte e Nordeste, como Ceará, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Amazonas, acabam se beneficiando mais do Pé-de-Meia. Isso acontece porque, nesses contextos, a evasão está mais ligada a restrições econômicas, que é exatamente o tipo de barreira que o programa consegue enfrentar. Como o Pé-de-Meia é focado em estudantes de famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único, ele chega justamente a quem mais responde a esse tipo de incentivo, o que também torna a política mais custo-efetiva.
Um rastro de silêncios
Em fevereiro de 1986, o mundo olhava para o céu à espera da passagem do cometa Halley. No Brasil, havia outro trânsito em curso. Estávamos no começo da transição para a democracia, após os 21 anos de ditadura militar. Abrindo a lente para o mundo, foi o ano da explosão da usina nuclear de Chernobyl e do ônibus espacial Challenger. Cá por estas praias, para muitos nenhuma tragédia se compara ao pênalti perdido por Zico contra a França, resultando em mais uma melancólica eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo.
É neste cenário de incertezas e instabilidades, marcado por euforias e frustrações, que Maria Brant ambienta seu romance de estreia, O Ano do Cometa (Fósforo). O livro, no entanto, não nasceu apenas de um resgate nostálgico de sua infância nos anos 1980, mas de ter de, adulta, ver reacender no Brasil um sentimento que parecia ter sido sepultado com o fim do regime dos generais.
A ideia do romance surgiu durante as eleições presidenciais de 2018. Maria enxerga um paralelo nítido entre a expectativa frustrada da passagem do cometa e a derrocada do projeto democrático brasileiro. “Esse livro começou a existir como uma história na minha cabeça justamente quando Bolsonaro ganhou. Lembro de tanta gente tão engajada na democracia, tão cheia de esperanças naquela época da redemocratização”, diz ao recordar como o desencanto com o flop da democracia ecoou na sua memória infantil. “Foi tipo o cometa, que gerou uma grande expectativa e no fim foi uma decepção. Eu tinha 10 anos, estava super empolgada de ver o cometa e não deu para ver nada, né?”
Como é seu primeiro romance, foram feitas algumas experiências até Maria conseguir encontrar a estrutura narrativa do livro. Inicialmente, o projeto previa capítulos focados em diferentes histórias, quase como se fossem pequenos contos, com personagens que se interligavam ao atravessar aquele ano. Amadurecendo, chegou à forma que torna a narrativa tão especial: revisitar o ano mês a mês, a partir da ótica de três garotas com idades que vão da entrada ao meio da adolescência.
Enquanto as primas-irmãs Íris e Rosa têm narrativas na terceira pessoa, Violeta encerra cada capítulo na primeira pessoa. Um recurso que contribui para acentuar o entendimento ainda fragmentário do mundo nessa transição da infância para a idade adulta. As três personagens atravessam 1986 com questões bem particulares. Íris, a menor delas, tem de lidar com a perda traumática de seu tio Peu, com quem tinha uma relação especial, e passa o ano buscando sinais de que ele ainda pudesse estar vivo. Rosa, já no meio da adolescência, regressa de um exílio cuja dimensão mal compreendia e experimenta um doloroso sentimento de não pertencimento em um país desconhecido, tendo de lidar com a adaptação ao português, à escola e aos insetos. E Violeta, uma amiga muito próxima, quase uma prima, observa o ano a partir de uma perspectiva mais distante, tentando decifrar o impacto daqueles dias sobre os adultos e as crianças ao seu redor.
A narrativa revela os segredos dos mais velhos de forma parcimoniosa, da mesma maneira como as crianças absorvem o mundo — pescando conversas pela metade e unindo pistas aparentemente desconexas. A escolha estética, no entanto, carrega um peso íntimo inegável. “Eu me sentia mais confortável escrevendo do ponto de vista infantil, porque era o ponto de vista que eu estava vivendo na época e eu me sentia mais segura”, explica Maria. “Mas também tinha uma coisa do silêncio. De não me sentir autorizada a falar em nome de pessoas. Eu sei que é ficção, mas era difícil para mim falar em nome de pessoas, sendo que eu vivi sob esse imperativo do silêncio.”
Esse imperativo a que se refere é uma herança palpável na vida de Maria, que lidou com as fraturas da ditadura dentro de casa. “Eu vivi nessas várias camadas de silêncio. Tanto o silêncio sobre coisas que aconteceram com as pessoas da família, quanto o silêncio sobre outros, por medo de expor as pessoas, sem falar desse silêncio que todo mundo vive aqui no Brasil, institucional e político”, reflete.
Seu pai, Vinicius Caldeira Brant, foi presidente da UNE antes do golpe de 1964, estava na França quando os militares tomaram o poder e só em 1968 retornou ao Brasil de forma clandestina para lutar contra o regime. Seu avô, o jornalista Cláudio Abramo, além de ter sido preso, perdeu seu cargo à frente da Folha de S. Paulo. O preço pago pela família pela resistência foi alto: “Meu pai foi preso e foi muito torturado. Eu descobri isso depois que a Dilma abriu os arquivos da ditadura, porque ele nunca falava sobre isso. Eu perguntava e ele não queria falar a respeito, mas aí eu fiquei sabendo que ele foi torturado por nove dias seguidos, quase morreu”.
A ausência de palavras no ambiente doméstico encontra um espelho direto no silêncio do Estado brasileiro, muito presente nas entrelinhas do livro. Um tema que Maria conhece bem, pois, além de ter atuado como jornalista, há anos trabalha em projetos ligados aos direitos humanos e hoje é diretora-presidente do Instituto Iandê. Em 1986, ainda ecoava a forma como o Brasil decidiu lidar com a questão da anistia, que Maria enxerga como um erro estrutural, já que o país, diferentemente de vizinhos como a Argentina e o Chile, deixou de fazer um acerto de contas. “Acho que a anistia talvez tenha sido completa demais. Ela perdoou até quem não deveria ter perdoado.” O resultado desse apagamento oficial, para ela, é um perigoso vácuo histórico: “Esse silêncio institucional sobre o que aconteceu é muito perigoso, porque justamente cria um terreno para que essas coisas se repitam”.
Maria entende seu livro como um romance de formação, mas também o insere dentro da “literatura dos filhos” da ditadura — fenômeno latino-americano bem representado por autoras como Laura Alcoba na Argentina e Lina Meruane no Chile, além de brasileiros como Marcelo Rubens Paiva, Julia Codo e Chico Mattoso. “É meio inevitável que essas questões que ficam sendo empurradas para baixo do tapete, elas saiam justamente por meio da literatura, da arte, do cinema.”
Mas como estamos justamente tratando de arte, O Ano do Cometa alcança sua maior densidade quando trata do luto, tanto no plano pessoal como coletivo. Na trama, a morte trágica de Peu — o tio aventureiro que surfava, escalava montanhas e ensinou Íris a dar nós inquebráveis e a andar de bicicleta — atua como o epicentro da dor na família. A sobrinha, incapaz de aceitar a ausência, agarra-se ao pensamento mágico, negociando desesperadamente com a realidade: ela pensa que o tio Carlos, gêmeo idêntico de Peu que chega dos Estados Unidos para o enterro, é apenas uma versão “branco e preta” do morto, e aposta com o destino que, se a água do mar cobrir rapidamente um buraquinho de siri na areia, significará que Peu ainda vive.
Esse luto profundo e intrincado da criança pelas promessas quebradas do adulto reflete, em última instância, o luto não processado de uma geração inteira de brasileiros. O vazio deixado pelas violências não nomeadas da ditadura assombra os personagens de Maria na exata medida em que tentam, a todo custo, projetar um futuro. “Como a gente está pensando, como sociedade, ao passar de uma ditadura onde aconteceram tantas atrocidades para uma época de redemocratização? Como é que você supera, como é que você consegue ter ânimo e ímpeto, energia, vontade? Ou ter o desejo de criar um novo mundo enquanto você processa um luto por uma época em que muitas pessoas sofreram muito?”
Como a frustração com o Halley, é inegável que tanto em 1986 quanto hoje há mais pontos escuros do que luminosos nesse céu. Delicadamente, contudo, O Ano do Cometa, principalmente por tratar de um período tão efervescente quanto a adolescência, acende algumas lanternas que, se forem bem alinhadas, podem vencer o breu.
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Um pouco de Oscar e salada, um pouco de golpe e escândalo. Os leitores do Meio souberam equilibrar suas escolhas nesta semana. Confira os mais clicados:
1. Metrópoles: Os momentos de descontração de políticos no celular de Vorcaro.
2. Meio: Ponto de Partida — Como foi o golpe de Bolsonaro?
3. The Hollywood Reporter: Os looks do tapete vermelho do Oscar.
4. Meio: Ponto de Partida — O plano de Trump funcionou.
5. Panelinha: Delícia de torta de batata e sardinha.































