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Edição de Sábado: Quem vigia o mercado?

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Em uma única mordida, ele devorava uma fatia inteira de pizza marguerita. Deixava a borda. Entre uma fatia e outra, na noite de quarta-feira, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, era questionado sobre a crise em seu colo. No jantar com jornalistas, promovido pela Frente Parlamentar do Livre Mercado, Accioly buscava explicar os ruídos entre a CVM e o Banco Central e a atuação de sua autarquia no que pode ser a maior fraude financeira da história do país.

Dois dias antes, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, havia defendido publicamente a ampliação das atribuições do Banco Central para que ele passasse a fiscalizar fundos de investimento, competência hoje concentrada na CVM. A declaração, feita ao vivo em entrevista ao UOL News, reacendeu o embate sobre quem vigia o quê no sistema financeiro brasileiro, no momento em que os dois órgãos operam sob pressão máxima enquanto o escândalo envolvendo o Banco Master parece não ter fim.

Antes, vale um pouco de contexto. Hoje, o sistema financeiro brasileiro é regulado por um modelo de competências distribuídas entre diferentes órgãos. A supervisão de bancos e instituições financeiras está a cargo do Banco Central. A fiscalização dos fundos de investimento é atribuição da Comissão de Valores Mobiliários. A separação de atribuições busca evitar conflitos de interesse e garantir que diferentes riscos sejam tratados com o foco adequado. Nos bastidores, as duas autarquias mantêm convênios de cooperação e trocam informações de forma contínua. O Banco Central tem acesso a todos os dados da CVM, por exemplo. No entanto, casos como o do Master expõem limites práticos desse modelo. A chamada zona cinzenta entre o que é bancário e o que é mercado é que se torna campo fértil para as fraudes financeiras.

Para compreender esses limites e o que o caso Master revela da vigilância aos mercados, o Meio ouviu alguns dos principais especialistas do país no tema. Os economistas Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e o advogado Marcelo Trindade, ex-presidente da CVM, analisam o que o caso Master desnuda sobre os limites, as tensões e os riscos do atual modelo de regulação financeira. 

Mas vamos primeiro conhecer o argumento de Accioly. À mesa, com pizza na mão, ele se opôs à “transposição” das atribuições da CVM para o Banco Central, mas afirmou haver espaço para discutir um novo arranjo institucional. Disse fazer sentido que o BC organizasse, em sua própria estrutura, uma instância que atuasse em conjunto com a CVM na supervisão de fundos com características e potencial de impacto semelhantes aos da atividade bancária, como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

Esses fundos integram o chamado shadow banking: oferecem crédito e serviços similares aos dos bancos tradicionais, mas operam fora da regulação bancária convencional. Daí, segundo Accioly, a necessidade de um braço de caráter prudencial, voltado a acompanhar riscos sistêmicos e a preservar a solidez do sistema, a estabilidade e a liquidez dos fundos. “Seria criar algo que não está em nenhum lugar”, disse. Na avaliação do presidente interino, a solução soaria até mais “natural”. O Banco Central já exerce esse papel sobre o sistema financeiro tradicional. À CVM, caberia permanecer onde sempre esteve: na análise de conduta, no olhar sobre os processos no micro, na detecção de fraudes e outras irregularidades.

Mas as perguntas reapareciam. A CVM demorou a intervir? Que lição já é possível extrair do escândalo do Banco Master? Accioly pediu cautela. “Ainda é cedo”, avaliou, já que muitos procedimentos seguem em curso. Segundo ele, antes mesmo de o Banco Central anunciar a liquidação da instituição, a CVM já havia instaurado investigações por suspeitas de fraude. As primeiras, ainda em 2020. Hoje, entre 28 e 30 processos seguem abertos.

Os casos, reconheceu, poderiam avançar mais rápido. Não avançaram. Faltam braços na área técnica, falta gente para dar celeridade às apurações e sustentar acusações robustas. A explicação soava mais como sintoma: no centro de um sistema bilionário, a vigilância seguia operando no limite.

A cautela invocada por Accioly tampouco encontrava eco fora daquela mesa. Na semana anterior, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da operação Compliance Zero, aprofundando as investigações sobre o uso de fundos de investimento em fraudes associadas ao Banco Master. A ofensiva teve como alvo estruturas ligadas à Reag Investimentos, desaguou em sua liquidação, e recolocou no centro do debate um tema sensível: até onde vai a responsabilidade de cada órgão de fiscalização quando o dinheiro circula por instrumentos sofisticados do mercado financeiro? O episódio consolidou a percepção de que o problema não se limitava a uma instituição isolada, mas expunha falhas, sobreposições e zonas cinzentas na arquitetura regulatória do sistema financeiro brasileiro.

Vamos a elas e às possíveis soluções com quem conhece o sistema por dentro.

O ritmo e a função de cada um

Uma das primeiras dúvidas que surgiram no mercado e na opinião pública foi sobre se houve demora ou açodamento do Banco Central na decisão de liquidar o Master. Os rumores sobre como o banco atuava, inflando números e usando o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para operar além dos limites, eram antigos. “O Banco Master deveria ter sido liquidado há muito tempo. Os problemas eram conhecidos”, diz Marcos Lisboa. “É preciso ter o cuidado de não fragilizar a intervenção correta que o Banco Central fez. Mas também avaliar por que o BC não atuou antes. Essa é uma dúvida relevante.”

Ao mesmo tempo, a decisão sobre a liquidação veio quase simultânea à primeira fase da Operação Compliance Zero, com a prisão de Vorcaro. Esse movimento, por sua vez, levantou questionamentos sobre se o BC se apressou. “Muito provavelmente aconteceu o contrário. Já havia sinais abundantes e relativamente antigos sugerindo que ali [no Master] a coisa merecia muito mais cuidado. Foi o oposto, o que confirma a visão de que aquele ataque inicial estava interessado em, de alguma maneira, transferir a culpa para o Banco Central e, quem sabe, eventualmente até produzir uma indenização, que claramente seria indevida”, explica Arminio Fraga, que presidiu a instituição entre 1999 e 2002. Ele defende que o BC tem imensa seriedade institucional e aprende com eventuais erros, além de estar capacitado com as ferramentas adequadas. “A parte do trabalho de regulação e fiscalização, em nível de risco do sistema, está na mão do Banco Central e está bem lá.”

O advogado Marcelo Trindade presidiu a CVM entre 2004 e 2007. E tem uma postura mais crítica com relação ao BC. “O Banco Central está sem meios para fiscalizar. A fiscalização está sendo feita por um modelo antiquado e hoje os bancos são todos eletrônicos, usam fundos e compram bitcoins e coisas desse tipo. É um exemplo de coisas que a gente deve fazer para melhorar o sistema. Olhar se a gente não pensou demais em competição e se preocupou de menos com a qualidade dos ativos”, ele alerta. “E se o ministro Haddad é a favor de um regulador prudencial e de um regulador de condutas, eu concordo 100% com ele. Eu sou a favor do modelo Twin Peaks. Talvez o Banco Master possa ser o gatilho dessa conversa.”

O modelo conhecido como “twin peaks” propõe separar a regulação financeira em dois eixos distintos, em vez de organizá-la por tipo de produto ou instituição, como é feito hoje no Brasil. Um regulador ficaria responsável pela solidez e estabilidade do sistema, fiscalizando riscos, capital, liquidez e a capacidade das instituições de honrar compromissos. O outro cuidaria da conduta de mercado, da transparência, da informação ao investidor e da proteção do consumidor. A lógica seria reduzir brechas regulatórias em um mercado em que bancos, fundos, seguros e investimentos podem se misturar cada vez mais, evitando que agentes escolham o fiscal mais frouxo e permitindo que cada autoridade se especialize em funções diferentes.

Fraga também defende esse modelo. “Mesmo acreditando que nós estamos vivendo um processo de inovação financeira enorme, que está ainda aos 30 do primeiro tempo, acredito que o Banco Central tenha as ferramentas e possa exercer a sua função. A CVM tem as ferramentas, mas tem ficado bastante desequipada. Daí, a defesa que vários de nós fazemos desse modelo dos Twin Peaks, que não é muito diferente do que já está aí, mas requer alguns ajustes. Por exemplo, fazer a parte da CVM funcionar.” E Lisboa ecoa as críticas à CVM. “Olha, eu não sei muito bem o que faz a CVM atualmente. Basta ver a quantidade de casos graves que têm ocorrido no mercado de capitais, a quantidade de fundos operando no mercado, de papéis sem lastro ou contrapartida vendidos para consumidores. Então, eu fico na dúvida: será que a CVM deve existir mesmo? Será que suas atribuições não deveriam ser transferidas ao Banco Central?", questiona. Mas ele acredita que o Brasil não precise de uma grande reforma na regulação. “Se as instituições voltarem a cumprir o seu papel já previsto em lei e por jurisprudência, seria ótimo!”

O custo da politização

Nem que o mais desavisado dos brasileiros tente vai conseguir separar a análise técnica do caso Master das implicações políticas que ele já demonstrou ter. De Ciro Nogueira, do PP, tentando mudar o limite da cobertura do FGC, no que ficou conhecida como “emenda Master”, a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, financiando campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, a governadores entregando a previdência de seus servidores, como Cláudio Castro, à ligação de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, com o PT da Bahia, o que não falta é gente da política citada no escândalo. Isso sem mencionar o braço no Judiciário, com o ministro Dias Toffoli, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, no centro das denúncias.

Mas recalibrando o foco aos órgãos fiscalizadores, a CVM também não escapou dessa influência. A autarquia hoje está realmente desfalcada e isso inclui sua diretoria. Das cinco cadeiras, só duas estão ocupadas. Uma delas está vazia há um ano e meio. “A CVM nunca, que eu me lembre, esteve com menos da maioria dos membros do colegiado nomeados. Hoje tem dois diretores, João Accioly e Marina Copola. E três cargos vagos. Por quê? O governo foi capaz de nomear dois, mas não uma terceira pessoa que possa ser diretor da CVM? É tudo muito estranho”, questiona Trindade. Accioly está interino na presidência porque a indicação do presidente Lula para o cargo está travada no Senado. Lula indicou Otto Lobo. Ele foi nomeado para a CVM em 2022, por Bolsonaro. É apontado, em Brasília, como afilhado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que nega. O senador, então, avisou a aliados que pretendia segurar o nome de Lobo para esclarecer os verdadeiros padrinhos de sua indicação. Nos bastidores, o nome de Lobo é associado a um consórcio informal de parlamentares próximos ao banqueiro Daniel Vorcaro — sim, ele — e ao empresário Wesley Batista.

“Políticos são eleitos por nós para exercerem o poder e mandarem, comandarem. Comandar inclui nomear, nos momentos em que isso seja determinado pela lei, dirigentes de instituições que são de Estado e não de governo. Então, quando alguém é eleito, tem todo o direito, aliás, tem o dever de mandar, de escolher. O que acontece é que você não pode, ao tomar essa decisão, se deixar levar por razões que não sejam de Estado”, defende Trindade. Ele explica que no fim de 2001, foram criados os mandatos de diretores da CVM. Não só mandatos durante os quais a pessoa não pode ser demitida, mas mandatos alternados. Isto é, um ano sai um, no ano seguinte sai outro – são cinco na CVM. Ou seja, só no final do terceiro ano, o presidente da República da vez terá conseguido nomear a maioria do colegiado. Se ele não for reeleito, já não consegue nomear o quarto.

E foi desenhado assim de propósito, para evitar o aparelhamento. “A lei foi mudada em 2001, e eu digo que essa lei deveria se chamar Lei Fraga Osório. José Luiz Osório era o presidente da CVM e Arminio Fraga, do Banco Central. Os dois gastaram muito capital político, principalmente o Arminio, para aprovar isso no Congresso, para blindar a CVM. E não é blindar da decisão política, claro que quem nomeia o presidente da CVM vai escolher alguém com uma visão de mundo alinhada, isso faz parte.” Mas é garantir alguma lisura e estabilidade.

“A politização, definitivamente, não é saudável. No mundo ideal, essas posições não seriam politizadas”, acrescenta o Fraga que daria nome à lei. “E nós temos várias, agora, acontecendo. Tem a presidência da CVM, duas diretorias do Banco Central, tem ministros do Supremo. O que está acontecendo nesse caso do Master, da Reag, de certa maneira, espelha algo maior que vem acontecendo no Brasil em várias áreas. Tem focos de problemas no Supremo, no Congresso.” Fraga lembra que o mercado financeiro encontrou maneiras de se blindar ao longo dos anos, com a criação do Novo Mercado e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), uma organização da sociedade civil. Ele destaca também o próprio FGC, que é privado, e que fez vários alertas no caso Master. “Mas no final das contas, mesmo com as melhores intenções e uma boa dose de autorregulação, a regulação pelo Estado é indispensável e ela tem que ser de qualidade.”

Lições e paralelos históricos

Diante de um escândalo dessa magnitude, quem preza pelas instituições e deseja sua resiliência tende a buscar, além de culpados, lições. Mas é difícil extrair o que se pode aprender de algo que ainda está se revelando. “Uma fraude dessa dimensão”, diz Trindade, “é como um grande acidente de avião. A gente vai descobrindo, conforme se investiga, as causas e tentando evitar que isso aconteça de novo”.

Algumas coisas, porém, já estão bastante claras. A primeira é a venda de títulos, de CDBs pelo Banco Master, no limite da garantia do FGC de R$ 250 mil, nas plataformas de distribuição. Essa combinação do uso do limite do CDB garantido como “produto sem risco”, “produto garantido”, apesar de ser garantido como outros depósitos, com taxa mais alta, é um vetor com o qual o mercado e o Estado vão precisar lidar. “Um prejuízo no FGC é, indiretamente, um prejuízo para todos nós, que temos depósitos em bancos, porque pagamos os custos dos bancos e recebemos remuneração pelos depósitos. Certamente, as regras do FGC deverão ser alteradas para inibir essa especulação fácil. Pode ser que elas sejam alteradas para, em vez de o fundo garantidor garantir o investimento, ele passe a garantir só o investimento com uma taxa de inflação ou uma taxa de juros baixa, o CDI”, defende o advogado.

Aliás, ele lembra que a própria criação do FGC vem de uma lição que o país levou em outros tempos, em que bancos quebravam com mais frequência. “Toda quebra de banco é traumática. O Banco Nacional quebrou. Foi comprado no fim de semana pelo Unibanco e não teve corrida. Era um banco grande, ligado à família da nora do presidente da República na época — quebrou. O Banco Econômico quebrou, um banco grande baiano de tradição enorme. O Bamerindus quebrou e foi comprado pelo HSBC. E, sem falar nos bancos estaduais.” O governo cobriu rombos, emprestou recursos para quem comprou os bancos ou criou fontes para pagar depósitos. Com o FGC, em vez de o governo botar dinheiro diretamente, o próprio sistema arca com as consequências.

Para Arminio Fraga, a lição sai diretamente da dimensão do caso. “Do ponto de vista dos reguladores, tem que ser visto como um problema sério, que precisa ser bem entendido e as falhas prováveis corrigidas. O Brasil teve muitas crises bancárias ao longo da sua história. Elas precedem a existência dos bancos centrais, que nasceram basicamente para lidar com elas. No Brasil, a crise da década de 90, depois do Plano Real, foi enorme. Muito maior do que essa. Mas agora tem esse lado de fraude, de conexões políticas. Isso é uma crise financeira acoplada a situações escandalosas.” E a maturidade regulatória, econômica e política do Brasil está sendo posta à prova.

O que foi dito e lido em Davos

Com o mundo marcado por guerras persistentes, ameaças de novos conflitos, incertezas econômicas e avanços tecnológicos cada vez mais vertiginosos, as principais autoridades nacionais e econômicas do mundo se reuniram em Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial de 2026. Esta edição foi marcada por um tom mais realista, diante da dificuldade crescente de alinhar interesses globais em torno de pautas comuns. Entre os temas mais citados estiveram a fragmentação geopolítica e a reação da Europa às ameaças trumpistas, o papel da inteligência artificial nas democracias, a retomada desigual da economia e os principais riscos e desafios de equilibrar crescimento sustentável com inflação moderada.

A geopolítica

No que talvez tenha sido o discurso mais marcante de Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou o fim da ordem internacional baseada em regras e defendeu um novo papel para as potências médias. Segundo ele, o mundo vive uma era de rivalidade entre grandes potências, em que a integração econômica passou a ser usada como ferramenta de coerção, e instituições multilaterais como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização das Nações Unidas (ONU) já não protegem como antes. Diante desse cenário, Carney propôs uma resposta assentada em “realismo baseado em valores”. Isto seria uma autonomia estratégica combinada com coalizões flexíveis para lidar com temas como defesa, comércio, transição energética e inteligência artificial. Carney sugeriu que potências médias colaborem entre si para reconstruir, com pragmatismo e princípios, uma nova arquitetura internacional. (We Forum)

Mais chefes de Estado. Donald Trump chamou para si as atenções em Davos. Em seu discurso, defendeu a aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos e vinculou a negociação à lealdade dos países da OTAN. “Vocês podem dizer sim e nós ficaremos agradecidos. Ou dizer não, e nós nos lembraremos”, afirmou. Já Volodymyr Zelensky fez um dos discursos mais contundentes da cúpula, expressando frustração com o que chamou de paralisia europeia diante das ameaças à Ucrânia. “A Europa parece mais uma geografia do que uma potência”, decretou. O presidente francês, Emmanuel Macron, fez também um discurso forte, no qual afirmou que o mundo caminha para um cenário onde “o direito internacional é pisoteado” e “a única lei que parece importar é a do mais forte”. Macron defendeu que a Europa fortaleça seus mecanismos de defesa. “Preferimos o respeito aos valentões… e preferimos o Estado de Direito à brutalidade”, resumiu. (Euro News)

A economia

Gillian Tett: “As elites de Davos são geralmente hábeis na medição de riscos econômicos e financeiros. Alguns conseguem modelar também os riscos ambientais, como condições climáticas extremas. Mas poucos se sentem preparados para a atual incerteza interna e geopolítica, que está sendo exacerbada por uma mudança tecnológica sem precedentes. (...) Então, como os executivos e investidores podem analisar toda essa instabilidade? A julgar pela conversa em Davos — que muitas vezes parecia uma sessão de terapia de alto nível — há quatro lições principais a serem absorvidas”. O artigo da editorialista do Financial Times enumera que a primeira é reconhecer que vivemos uma ruptura geopolítica. Populismo, protecionismo e nacionalismo voltaram com força, em um movimento que lembra o período entre guerras. A segunda lição é se preparar para um aumento da intervenção estatal, sob a lógica de um “capitalismo patriótico e populista”. A terceira é abandonar bolhas e câmaras de eco. Discursos e ideias que parecem marginais ou absurdos podem ganhar centralidade rapidamente. Por fim, não não sucumbir ao pessimismo. Em ambientes de incerteza, ignorar cenários positivos pode ser tão perigoso quanto subestimar riscos negativos. (Financial Times)

As discussões no fórum apontaram para um cenário de crescimento global frágil, inflação em queda e riscos elevados. A previsão para 2026 é de uma expansão de 3,1% no PIB mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou a queda nos preços de energia como fator de alívio, mas alertou para a possibilidade de reprecificação de ativos, volatilidade financeira e impactos inesperados da inteligência artificial. A grande preocupação do ano foi a dúvida de como uma ordem global baseada em cooperação trocada por instrumentos geoeconômicos, como tarifas, sanções e controles de exportação, impactarão a economia. Com isso, pela primeira vez, o confronto geoeconômico apareceu como o maior risco global no relatório do Fórum. (Gazeta Mercantil e Meio)

Outro tema inescapável em Davos foi a inteligência artificial. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, fez uma previsão ousada: segundo ele, em seis a doze meses, modelos de IA poderão executar sozinhos quase todas as tarefas de engenharia de software. Os avanços recentes em ferramentas como o Claude 4.5 corroboram essa visão, com IAs resolvendo mais de 70% dos bugs em repositórios reais. A Microsoft, o Google e o GitHub apontam ganhos de produtividade de até 55%. Já o CEO da TSMC, CC Wei, afirmou que a demanda por IA é real e duradoura, justificando um investimento recorde de US$ 52 bilhões para expansão. “Quando olho para a IA, parece que ela veio para ficar — por muitos anos”, disse. Demis Hassabis, CEO da DeepMind, previu que uma IA com capacidades humanas pode surgir entre 2031 e 2036, mais tarde do que os prazos estimados pela OpenAI e pela própria Anthropic. (Quasa e Reuters)

Mas o clima não foi só de entusiasmo. Amodei alertou para as perdas de emprego que o avanço da IA pode trazer. Um relatório com 181 líderes de tecnologia mostrou que dois terços das grandes empresas esperam cortes seletivos de até 25% em seus quadros nos próximos três anos, à medida que agentes de IA ganhem espaço. Ainda assim, só 30% dos CEOs relatam aumento de receita com IA até agora, e mais da metade afirma não ter visto impacto em custo nem faturamento. A PwC destacou que empresas que reagiram rápido às transformações tecnológicas vêm superando os concorrentes. O Fórum Econômico Mundial também mapeou quatro cenários possíveis para o futuro do trabalho, que vão de uma transição gradual com IA como copiloto até uma ruptura com desemprego em massa e redes de proteção social defasadas. (Reuters, Meio e PWC)

Gosta de poesia?

“Ser poeta é uma condição, não uma profissão”. Essa era a definição de Robert Frost para uma das mais antigas formas de arte. Entre a possessão descrita pelo modernista norte-americano e o caricato poeta que, brochuras embaixo do braço, aborda as pessoas nos bares da Vila Madalena perguntando se elas gostam de poesia, há todo um mundo. Afinal, estamos falando de uma tradição iniciada na civilização suméria com a Epopeia de Gilgamesh, poema épico escrito cerca de dois mil anos antes de Cristo, e que segue viva até hoje.

Não por acaso, poesia é uma arte cercada de paixões, disputas, rixas e debates sobre os seus caminhos. Talvez isso se dê pela natureza que o romântico inglês Percy Byshe Shelley defende no ensaio Uma Defesa da Poesia, ao dizer que, mesmo sem que se perceba, os poetas são os legisladores do mundo.

Acredito profundamente que esse ainda é papel dos poetas, embora esse trabalho seja cada vez menos evidente. Na era do excesso de informação e de uma certa educação para o imediato, entrar no universo da poesia, que demanda atenção, imaginação e sensibilidade do leitor, não é das tarefas mais fáceis. E conhecer quais são os autores mais interessantes que publicam hoje se prova ainda mais difícil.

É por isso que um projeto como o Círculo de Poemas, criado pelas editoras Fósforo e Luna Parque, se mostra um caminho bastante rico para navegar esse universo cada vez menos visível para o leitor que não tem um interesse específico nele. Essencialmente, ele é um clube do livro que entrega ao assinante um volume de poemas e uma plaquete encomendada pela editora. Mas os livros, obviamente, não ficam restritos às assinaturas e podem ser encontrados nas livrarias.

Para falar sobre esse projeto que, em 2024, ganhou o Aficionado Award, prêmio concedido pelo Salão Internacional do Livro de Turim e pela Feira do Livro de Frankfurt, conversei com sua idealizadora, Rita Mattar,  uma das sócias da Fósforo. Leia abaixo os principais trechos da entrevista e, no final, uma lista de dez lançamentos brasileiros que recomendo.

Como nasce a ideia do Círculo de Poemas?

Nasceu antes do lançamento da Fósforo. Os dois primeiros anos do Círculo de Poemas foram feitos em coedição com a Luna Parque, que é uma editora independente, tocada pelos dois fundadores, Marília Garcia e Leonardo Gandolfi. Conversando com eles, havia esse desejo mútuo de publicar poesia, que não era algo que eu me sentia apta a fazer na época, porque eu nunca tinha trabalhado como editora de poemas. A gente se inspirou num modelo que eles já tinham visto de fazer essa espécie de pré-venda continuada. A ideia do clube de assinatura é isso, tentar fazer um modelo em que a gente consiga ter o compromisso de alguns leitores fiéis para conseguir mesclar isso com vendas em livraria e viabilizar o projeto. Um dos motivos pelos quais tinha menos poesia sendo publicada é porque é muito desafiador comercialmente.

E já era essa mistura de um livro com uma plaquete por mês?

Em algum momento a gente entrou com essa brincadeira da plaquete, que era uma coisa que eles já vinham fazendo na própria Luna Parque, de convidar poetas com um comando. No primeiro ano, a ideia das plaquetes era que eles escolhessem uma imagem e fizessem uma poesia a partir dela. E aí virou um espaço um pouco de brincar, de experimentar, de poetas que estão começando ou já são mais consagrados, mas que justamente porque têm pouco espaço para publicar poesia, falavam “Ah, não é o meu projeto principal, não vou publicar isso na minha editora”. Daí vinham para cá e faziam uma experimentação. Um espaço um pouco mais lúdico.

A plaquete da Ana Martins Marques é um caso desses?

A da Ana, a da Angélica Freitas, Mostra Monstra. A da Angélica é um bom exemplo porque ela tinha esses experimentos de escrever e desenhar. Eram desenhos que ela fazia sem os óculos e sem olhar para o papel e aí a poesia caminhava junto. Não era alguma coisa que ela publicaria na Companhia das Letras. A Bruna Beber também, que fez um um poema para cada fruta no mesmo ano em que ela lançou o Veludo Rouco, o livro que ela estava publicando pela Companhia das Letras. Então, é um pouco também essa ideia de que oferecer canais para os poetas explorarem mais as vozes deles.

Como você avalia o potencial da poesia brasileira hoje? Porque a gente chegou num momento em que são várias correntes trabalhando em paralelo. A gente já não tem mais as brigas clássicas por conta da estética como via antes dos anos 2000.

Acho difícil responder por sentir que a gente está ainda muito colados nela, mas eu acho que tem muita pluralidade de vozes. A gente vê isso muito claramente na coleção, como tem pessoas indo por caminhos e explorações muito diferentes. Tem uma coisa de performance acontecendo muito legal. Tem poetas para quem o livro é só uma plataforma para a pessoa ir fazer a performance. E eu concordo com você, não vejo mais essas brigas também.

Como vocês selecionam os poetas?

Quem faz a seleção é o Tarso de Melo, que é o editor. Que chegou depois desses dois anos de parceria com a Luna Parque. Ele está entrando no terceiro ano editando os livros. A gente tem alguns critérios. Na verdade, a poesia brasileira contemporânea é um dos braços, mas também tem as obras reunidas. São poetas já com mais trajetória que estão publicados de maneira esparramada, coisas que você não encontra mais, e a gente reúne. A gente fez isso agora com o Sebastião Nunes, fez com o Capinam. Depois tem resgates de obras que foram publicadas, às vezes há mais de um século, e nunca mais voltaram. Como a Maria Firmina dos Reis, a Julieta Barbara, que é uma poeta modernista que também só tinha sido lançada em 1939, depois nunca mais. Aí tem clássicos modernos, que são esses livros estrangeiros que nunca foram publicados no Brasil e que a gente traz pela primeira vez, como o Paterson, do William Carlos Williams. E tem um pouco também de poesia contemporânea estrangeira. Quando você junta tudo isso, no fim das contas, acaba que você tem pouco espaço para tudo, né?

Na época em que os jornais tinham suplementos literários era comum a publicação de poemas para um público que não era especialista. Como você vê hoje esse espaço de discussão da poesia sem quase crítica nem esse acesso mais amplo?

Esse é um belo assunto e um baita desafio. Na verdade, eu acho que tem muita coisa sendo feita fora dessa grande imprensa. Tem revistas de poesia. É o lado bom da situação ruim em que muitas vezes a poesia se produz. As edições dessas revistas independentes não se abalam porque elas sempre fizeram desse jeito e está tudo certo. Tem a Peixe-Boi, a Oriço, que são revistas muito legais. Para os convertidos, tem bastante coisa muito boa sendo feita, mas de fato é um problema que a gente esteja chegando em menos pessoas novas. Aí é uma coisa meio ambígua de falar, mas bem ou mal as redes sociais acabam fazendo um pouco um papel de oferecer essa descoberta mediada, só que é mediada por um algoritmo que a gente não sabe como funciona. Você tem alguns canais que só postam poesia que vão muito bem, atraem muitas pessoas, como O Poema Ensina a Cair. No próprio perfil do Círculo no Instagram, a gente praticamente só posta poesia. Porque tem alguma coisa no formato do poema que vai bem com a rede social. Você pega um poema curto e ele impacta a pessoa na hora, na velocidade da rede social e tal. É um efeito colateral positivo de um cenário completamente novo.

Para terminar, trago uma seleção de dez títulos de poesia contemporânea publicados pelo Círculo de Poemas:

Baxília: Não-Lugar, Nicolas Behr
As Cidades, Caetano W. Galindo
De uma a Outra Ilha, Ana Martins Marques
Dendorí: Dar Corpo ao Poema – E Vice-versa, Ricardo Aleixo
É Perigoso Deixar as Mãos Livres, Isabela Bosi
História das Crianças, Rafael Zacca
Inferninho, Natasha Felix
Mostra Monstra, Angélica Freitas
Sal de Fruta, Bruna Beber
São Sebastião das Três Orelhas, Fabrício Corsaletti

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A pesquisa Meio/Ideia que mapeou a ideologia dos brasileiros seguiu sendo objeto de profundo interesse dos nossos leitores, que intercalaram política com gastronomia, urbanismo e cultura:

1. Meio: Ponto de Partida — A ideologia de Lula e de Bolsonaro.

2. DW: O projeto que simplifica a construção civil com “blocos de lego”.

3. Meio: Ponto de Partida — O premiê canadense está certo.

4. Panelinha: Vamos de maionese de azeitona caseira?

5. Spotify: Chega de Saudade na voz de Nara Leão e Roberto Menescal.

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