O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

54% não acham que teve golpe

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

Hoje mais cedo, no Central Meio, Maurício Moura lembrou da insurreição do 6 de janeiro, nos Estados Unidos. Nas semanas seguintes, Joe Biden já havia tomando posse como presidente, o Instituto Pew perguntou aos americanos o que achavam da investigação que o Congresso estava conduzindo. 87% dos americanos consideravam fundamental investigar. Em janeiro do ano seguinte, um ano depois, 54% dos americanos achavam que os parlamentares haviam sido injustos com a turma que fez a invasão. Em todas as pesquisas, a percepção de que aquele 6 de janeiro havia sido muito, muito grave, foi desandando. A mesma coisa está acontecendo por aqui. A Pesquisa Meio/Ideia, que nós publicamos hoje, registra que 54% dos brasileiros não acham que Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado.

PUBLICIDADE

Uma reação que tenho ouvido de várias pessoas, pelas redes, por Zap, é a seguinte: por que perguntar isso? Por que mexer nessa coisa? Por que chamar atenção? É uma pergunta que tem sido feita a respeito da cobertura da imprensa. Por que falar de Supremo?

Apenas 48% das pessoas ouviram falar do caso do Banco Master, segundo nossa pesquisa. Mais uns 30% que dizem, talvez, não têm certeza. É bem mais do que a Lava Jato, quando começou a estourar. É menos de metade da população. Dessa turma que ouviu falar, 70% diz que ficou com a imagem do Supremo abalada. 75% das pessoas que souberam do caso pretendem escolher candidatos ao Senado que votarão pelo impeachment de ministro do Supremo.

Hoje é 11 de março, 2026. Faltam sete meses para a eleição. Tem muita água pra rolar, muito tempo pra correr. Tudo pode mudar. O Supremo, por exemplo, pode dar mostras de que compreende que o problema existe e que é perfeitamente capaz de resolvê-lo. José Antonio Dias Toffoli foi designado relator na ação para implementar ou não uma CPI para investigar o Caso Master. Tipo: Jura? É isso mesmo?

Não vai acontecer. Deve ter sido um bocado pressionado internamente. Enfim. Se declarou suspeito. Agora, vem cá, só por curiosidade. É suspeito nesse caso, mas não foi suspeito para tocar inicialmente o processo do Master no Supremo por quê? O que mudou? Então temos de compreender que houve má fé do ministro quando ele sentou em cima do processo e fez de tudo para atrapalhar a Polícia Federal?

A leitura que ouço de muita gente é de que a culpa é da imprensa, porque fica denunciando corrupção. Tudo lava-jatismo, histeria. E essa ação prejudica o trabalho do Supremo. Devia botar o foco na direita mas, não, põe no STF.

Essa discussão é importante. Por que o foco no STF? Porque, para saber quem é responsável pelo quê, é preciso investigar. E o Supremo, através de Toffoli, trabalhou pesado para impedir que a Polícia Federal investigasse. Se o problema mais importante, no primeiro momento, é permitir que a investigação ocorra e, na sequência, dar o máximo de transparência à investigação, então é preciso apontar para quem impede um, o outro, ou ambos. O procurador-geral da República Paulo Gonet, tem de entrar nessa lista, tá? Porque ele também está trabalhando para atrapalhar.

No fundo, o que está por trás de muitos desses questionamentos são as seguintes ideias: um, a imprensa escolhe o que terá atenção. E, dois, quando uma pesquisa faz uma pergunta, leva as pessoas a pensarem naquilo e as provoca a fazerem as escolhas erradas.

Bem, os brasileiros de direita não se informam pela imprensa tradicional. Sinto muito. Aliás, sinto muito mesmo. A gente perde uma audiência imensa porque a direita não confia em jornalistas. A esquerda é diferente, ela tem uma relação de amor e ódio. Não gosta, mas se informa nos veículos tradicionais. E tem o Centro, claro. O Centro é pequeno, no Brasil. O Centro Liberal é pequeno no mundo, hoje. Mas, olha, brasileiros de direita não são orientados pelo jornalismo. Esquece. E os veículos criados especificamente pra esse pessoal, além dos muitos influenciadores, também não se pautam pela imprensa. Se, amanhã, a imprensa parar de falar de Supremo, de Master, e dizer todo dia que houve uma tentativa real de golpe, no Brasil, esse ponteiro não vai mexer. A revista Oeste, o Terça Livre e o Nikolas Ferreira vão seguir falando das mesmas coisas.

Os fatos não vão embora. Se as perguntas não forem feitas em pesquisas, a sociedade não pensará diferente. Só nós que não saberemos o que a sociedade pensa. Se toda imprensa olhar para o outro lado e fingir que nada de estranho se passa no Supremo, a sociedade não passará a, desinformada, confiar no que sai da Corte. O que este pedaço da esquerda está pedindo é o seguinte: fala só da turma que a gente não gosta, dichava aqueles de quem gostamos.

Hoje é 11 de março, 2026. Faltam sete meses para a eleição. Tem muita água pra rolar, muito tempo pra correr. Tudo pode mudar. Alguns acham que dá para mudar escondendo, mentindo. Não dá. E, sim, temos um problema grande. Porque, entre novembro e dezembro de 2022, Jair Messias Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Pois é, saiu hoje a edição de março da Pesquisa Meio/Ideia, que a gente faz em parceria com o Instituto Ideia. Essa pesquisa pautou boa parte do noticiário político. E quem assina o Meio Premium recebeu esse material antes. Isso porque ele faz parte do nosso Pacote Eleições 2026, que a gente montou para oferecer uma cobertura profunda e independente deste ano tão decisivo. Além da pesquisa, quem é Premium recebe duas newsletters especiais por semana sobre política, acompanha bastidores de Brasília e tem acesso ao nosso streaming, com entrevistas, séries e documentários originais. Então, se você quer entender a eleição com mais camadas e mais profundidade, vale assinar o Premium.

E este? Este é o Ponto de Partida.

Democracias são máquinas de criar consensos. O talento mais valioso, numa democracia, é o da capacidade de persuadir. E democratas demais largaram isso. Virou um esconde isso, não fala daquilo, tira fulano do ar. Existe uma razão para um número tão grande de brasileiros não ter compreendido que houve uma tentativa de golpe de Estado. É que não foram convencidos.

A gente pode gastar muito tempo nessa conversa, tá? Por que não foram convencidos. Mas há sete meses até a eleição. Precisamos começar explicando o que é um golpe de Estado. Uma quantidade imensa de brasileiros acham que golpe de Estado precisa de tanque na rua e que o planejamento feito pelo ex-presidente tinha por objetivo fazer a bagunça de 8 de janeiro. Brasileiros demais, quando falamos em golpe, acham que é sobre aquilo.

Ao mesmo tempo, precisamos parar com a ideia de heróis. Democracias não são construídas por heróis, são construídas por instituições funcionais. O Supremo deve explicações à sociedade. As pessoas cobram explicações. Perderam a confiança. Se a sociedade deixou de confiar em juízes e políticos, e ela deixou, é porque o país está funcionando mal. Fingir que o problema não está lá, de novo, é achar que dá para enganar a sociedade. Não dá.

Na última década e pouco, o Brasil cresceu mediocremente. A gente se contenta com pouco porque, por uns anos, a economia despencou. A gente não foi capaz de qualquer avanço relevante em educação básica nos últimos quinze, vinte anos. O país se tornou mais violento e a gente sabe disso. Para os brasileiros que vivem nas periferias e favelas das grandes cidades, a vida é tocada lado a lado com violência todo dia. E esta é uma sociedade com uma gana de crescer na vida, com uma energia incontida para a qual ninguém está conseguindo dar respostas.

Aí, junta a isso um Congresso muito corrupto e um topo de Judiciário que se tornou ator político. Some, agora, a suspeita real que ainda não havia aparecido mas que, agora, se impôs. A de que gente muito rica, com uísques muito caros, jatos particulares e contratos de milhões pode comprar até o apoio de ministros do Supremo. Isso tudo perante um poder Executivo fraco que entrega muito pouco, quase nada. O que de grande o governo fez? Este, o passado.

É nesse conjunto que chegamos para os brasileiros e dizemos: confia na democracia. Se você jamais tivesse lido um único livro de teoria política, você confiaria? 46% dos brasileiros dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum. 43%, que não votariam em Flávio Bolsonaro por nada. Quase metade do Brasil não quer saber de nenhum dos dois líderes das pesquisas. Isto também é uma democracia em crise.

Estamos em transe. Não queremos, coletivamente, estar onde estamos. No fim, o traço fundamental do brasileiro é desconfiança e desânimo. Não confiamos, não temos motivo para confiar, mas temos certeza de que a outra coisa é pior. E, num país em que o principal traço é não confiar, o que esperaríamos de políticos? Que tentassem se lançar àquele instinto fundamental dos democratas. Vou convencer as pessoas de que há um caminho, que o caminho é tal.

Mas, não. Nas redes sociais, todos, coletivamente, abrimos mão de tentar ampliar nosso grupo. O que desejamos é nos fecharmos todos com quem já está dentro e xingar quem está fora. Não vai dar certo se a gente continuar assim.

O pior é o seguinte, a pior democracia é melhor do que a melhor ditadura. As pessoas talvez não entendam isso, mas numa democracia você tem chance de mudar o que não funciona, na pior das hipóteses, de quatro em quatro anos. Numa ditadura, esquece. Ditadores, quando se instalam, demoram décadas até sair.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.