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As perguntas aos principais candidatos

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Num ambiente político marcado pela temperatura alta e pela escassez de análise fria, há uma pergunta que o eleitor indeciso raramente se faz com rigor: o que, exatamente, preciso saber antes de decidir? Não o que meu campo prefere que eu saiba — o que eu preciso saber? A diferença entre as duas perguntas é a distância entre o voto como expressão de pertencimento e o voto como exercício de soberania. E exercício de soberania exige que as perguntas difíceis sejam feitas a todos os candidatos relevantes — não apenas ao adversário preferido de cada leitor.

O ponto de partida é factual: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é, neste momento, o principal candidato da oposição e disputa palmo a palmo a preferência do eleitorado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A pesquisa Quaest de abril de 2026 marcou a primeira vez na série histórica do instituto em que Flávio Bolsonaro apresentou vantagem numérica sobre Lula num cenário de segundo turno — 42% a 40%. Em dezembro do ano anterior, o presidente tinha dez pontos de vantagem. Esse número caiu para sete em janeiro, cinco em fevereiro e se inverteu em abril.

A AtlasIntel de 28 de abril trouxe um sinal de freio nessa tendência: Lula voltou à liderança no primeiro turno com 46,6%, enquanto Flávio recuou para 39,7%, interrompendo meses de aproximação consistente. Oscilação conjuntural ou correção estrutural? Ainda é cedo para saber. O que não é cedo para saber é que ambos os candidatos registram taxas de rejeição próximas a 55% entre eleitores que afirmam não votar neles de jeito nenhum — o que transforma a disputa num jogo de contenção de perdas tanto quanto de conquista de apoios.

Outros 16% afirmaram intenção de votar em branco, anular ou não comparecer às urnas. Esse contingente é numericamente superior à diferença entre os dois candidatos no segundo turno. Quem ainda não decidiu tem, portanto, mais poder sobre o resultado do que qualquer núcleo militante de qualquer dos lados.

Herbert Simon chamou de bounded rationality — racionalidade limitada — a condição de quem decide com informação incompleta e sob pressão cognitiva. Nenhum eleitor escapa dessa condição. Mas há uma diferença fundamental entre decidir com informação limitada e recusar-se a ampliar essa informação antes de decidir. O texto que segue tenta contribuir para a segunda opção — escrutinando os dois principais pré-candidatos: o atual presidente e o senador da república.

O crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas tem causas identificáveis. A primeira é o antipetismo como força motriz autônoma — uma energia política que precede o bolsonarismo e que, previsivelmente, sobreviveu à inelegibilidade de Jair Bolsonaro. A segunda é estratégica: a pré-campanha de Flávio opera com a inteligência de quem sabe que o sobrenome é ativo de mobilização na base e que a persona moderada é garantia de palatabilidade para o eleitor de centro que não quer Lula, mas tem reservas em relação ao bolsonarismo mais agressivo.

A terceira causa é sistêmica e diz respeito ao comportamento do Congresso. Instituições de sobrevivência — e o Congresso é, antes de tudo, isso — tendem a se alinhar ao que percebem como poder vindouro. As derrotas recentes do governo Lula no Legislativo — rejeição ao nome de Jorge Messias para o STF e derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria — não devem ser lidas apenas como desgaste do Executivo: são sintoma de que o pêndulo institucional, via percepção dos atores, começa a ser calibrado por outro meridiano.

Favoritismo em pesquisa não é capital político permanente. É crédito com taxa variável

Mas o momento favorável tem teto. O antipetismo mobiliza base, mas não amplia fronteira sozinho. A persona moderada tem custos de manutenção que crescem na proporção direta da pressão da base mais radical. E o Congresso que hoje se alinha ao favorito é o mesmo Congresso que se realinhará, mantidas as condições de temperatura e pressão, ao próximo favorito — seja ele quem for. Favoritismo em pesquisa não é capital político permanente. É crédito com taxa variável.

No jogo de manutenção desse crédito na menor cotação possível de risco, entra em cena um elemento que John Mearsheimer identificou como estrutural na política: líderes não mentem por patologia moral, mas por racionalidade estratégica. A ocultação calculada de posições que podem custar votos é comportamento esperado de qualquer candidato competitivo. O problema não é o ato em si — é quando o eleitor deixa de exigi-la de quem pretende governá-lo.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro é notavelmente vaga em agendas concretas. Economia, segurança pública, política externa, relação com o STF — os contornos permanecem nebulosos. Isso é estrategicamente inteligente e eleitoralmente irresponsável. As perguntas que o eleitor indeciso tem o direito de fazer são precisas: qual será a política econômica? Quem comandará o Banco Central? Como se dará a relação com um Supremo que indiciou seu pai? E, a mais importante de todas: se perder, reconhecerá o resultado?

Esta última não é retórica. O 8 de janeiro de 2023 foi o produto de um candidato que não reconheceu a derrota e de um movimento que o seguiu. O custo institucional daquele evento ainda não foi completamente contabilizado. Num sistema onde a desconfiança nas instituições já é estrutural, a resposta a essa pergunta não é detalhe — é fundamento.

Há ainda o risco interno: o núcleo familiar. A relação entre Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro — à qual se soma a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, com projeto e base próprios — não é um arranjo harmônico. São projetos com agendas distintas e bases que nem sempre se ajustam suavemente. A narrativa da unidade familiar serve ao marketing. A realidade das rivalidades internas é uma variável de risco que pode se materializar nos momentos mais inconvenientes de uma campanha.

A mesma lógica se aplica ao outro lado do tabuleiro — e com o mesmo rigor.

O governo Lula 3 chegou ao seu terceiro ano com aprovação declinante, desgaste fiscal acumulado e uma coalizão que opera de maneira disfuncional. As perguntas ao presidente são igualmente precisas: qual é o projeto econômico para um eventual quarto mandato — e em que difere do que já foi testado? Qual é o plano de sucessão caso sua saúde não permita completar o mandato? Como pretende reconstruir a relação com um Congresso que sistematicamente derrota sua agenda? E, por fim, uma pergunta que o campo petista raramente tolera: o que o PT faria diferente desta vez?

A ausência de respostas claras a essas questões não é privilégio da oposição. É o estado geral de uma eleição que ainda não começou oficialmente, mas que já definiu seus protagonistas — e suas omissões simétricas.

A crise do Banco Master é o exemplo mais preciso dessa simetria de omissões. O escândalo ganhou proporções que extrapolam o financeiro — a eventual liquidação da instituição poderia obrigar o FGC a desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir correntistas, no que seria o maior resgate da história do mecanismo de proteção.

O caso tem ramificações nos dois campos. No oposicionista, Alessandro Carracena, ex-secretário indicado ao cargo pelo senador Flávio Bolsonaro, é citado nas investigações com suspeitas de ligação com o Comando Vermelho e possível uso de estruturas financeiras do Master para movimentar capitais de origem suspeita. No governista, o ex-ministro Guido Mantega prestou consultoria ao Banco Master em 2024 e parte de 2025, e o escritório de familiares do ex-ministro Ricardo Lewandowski teria prestado serviços jurídicos ao banco. As defesas de todos os citados negam irregularidades.

Do ponto de vista econômico, os efeitos já são sentidos: o escândalo eleva a incerteza, pressiona os juros e restringe o crédito, num momento em que o Banco Mundial já reduziu a previsão de crescimento do Brasil de 2,3% para 2% em 2026.

A pergunta relevante para o eleitor indeciso não é jurídica — é política: como cada candidato reagirá a uma crise financeira sistêmica dessa magnitude? Quem escolherá para os postos de decisão econômica? Qual será o critério — técnica ou lealdade? Nenhum dos dois campos respondeu isso com clareza. E a ausência de resposta, nos dois casos, é informação.

Examinar o candidato de que se gosta com o mesmo rigor com que se examina o adversário não é traição

Voltaire, no Tratado sobre a Tolerância, propunha o exame crítico não como ausência de convicção, mas como método para evitar que a convicção se transforme em fanatismo. Aplicado à escolha eleitoral, o princípio é o mesmo: examinar o candidato de que se gosta com o mesmo rigor com que se examina o adversário não é traição — é o mínimo que a soberania popular exige de si mesma.

Emoções têm lugar legítimo na política. Raiva, esperança, pertencimento — são forças reais que nenhuma análise séria ignora. Mas emoção sem pergunta é mobilização sem direção. E o eleitor que recusa fazer perguntas difíceis ao candidato de sua preferência não está sendo leal — está abdicando de um direito fundamental e de uma responsabilidade para com o todo.

Flávio Bolsonaro pode ser presidente em 2027. Lula pode ser reeleito. As pesquisas não resolvem essa questão — e não é função delas resolvê-la. É função do eleitor. Especificamente do eleitor que ainda não decidiu e que, numericamente, tem mais poder sobre o resultado do que qualquer militância organizada. Esse eleitor merece perguntas de qualidade — sobre todos os candidatos, sem exceção. O que este texto tentou fazer, com os limites que qualquer análise tem, é exatamente isso.

Você já viu o resultado da nova Pesquisa Meio/Ideia? A rodada de maio revela não apenas a intenção de voto para presidente, mas a avaliação do governo Lula e a opinião dos eleitores sobre fatos da atualidade para você sentir a temperatura nessas eleições de 2026. Se o Meio Político organiza as peças, é aqui que você vê o tabuleiro. Vale ler com calma e compartilhar com seus amigos e família.

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