Trump, Lula e a eleição brasileira
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É um erro atribuir aos Estados Unidos a capacidade de produzir presidentes à vontade
A eleição presidencial brasileira de 2026 é geralmente apresentada como o próximo capítulo da onda conservadora que atravessa o continente americano sob a sombra de Donald Trump. A interpretação é plausível, mas incompleta. Ela exagera o peso da influência norte-americana, subestima a lógica tradicional de alternância entre esquerda e direita que caracteriza as democracias latino-americanas e ignora a principal singularidade do caso brasileiro: a presença de Lula, o maior líder político da história contemporânea da região.
É verdade que a direita avança. Depois da segunda onda rosa que marcou boa parte da década passada, o continente parece experimentar novo ciclo conservador. A Argentina elegeu Javier Milei. O Equador consolidou Daniel Noboa. A Colômbia acaba de retornar à direita depois da experiência inédita de Gustavo Petro. A Bolívia oferece exemplo ainda mais expressivo. Depois de duas décadas de hegemonia quase contínua do MAS, a crise econômica, o colapso das exportações de gás e o conflito entre Evo Morales e Luis Arce abriram caminho para a vitória de Rodrigo Paz em 2025, encerrando um dos mais duradouros ciclos políticos da América Latina contemporânea. Mais do que uma vitória da direita, trata-se do esgotamento de uma fórmula de poder que parecia destinada a durar indefinidamente.
Em Washington, Donald Trump não esconde sua satisfação. Ao contrário: procura apresentar-se como arquiteto dessa transformação continental.
Não faltam elementos para sustentar essa narrativa. Desde seu retorno à Casa Branca, Trump promoveu uma reorientação estratégica dos Estados Unidos para o hemisfério ocidental. Intensificou pressões diplomáticas, ampliou sanções, ameaçou parceiros comerciais e passou a apoiar de forma cada vez mais explícita candidatos alinhados à sua visão de mundo. A antiga doutrina Monroe reaparece sob nova roupagem. Não se trata mais apenas de impedir a presença de potências rivais no continente, mas de favorecer a formação de governos ideologicamente simpáticos a Washington.
Seria um erro, porém, atribuir aos Estados Unidos a capacidade de produzir presidentes à vontade.
Vista de perto, a política latino-americana continua obedecendo ao velho mecanismo da alternância democrática. Ondas rosas sucedem ondas azuis; ondas azuis sucedem ondas rosas. Naturalmente, alternâncias não ocorrem por geração espontânea. São produzidas por crises econômicas, conflitos sociais, escândalos políticos, divisões partidárias e fadiga governamental. A inflação argentina ajudou a eleger Milei; o colapso econômico boliviano contribuiu para a derrota do MAS; o desgaste de Petro favoreceu o retorno da direita colombiana. Mas é precisamente por meio dessas crises que a alternância democrática opera.
A novidade está em outro lugar. Está na tentativa americana de potencializar essa alternância, transformando vitórias eleitorais legítimas em peças de uma estratégia geopolítica mais ampla.
A questão decisiva, portanto, não é saber se Trump interfere. Interfere. A questão é medir o peso efetivo dessa interferência.
Quanto mais dependente economicamente um país for dos Estados Unidos, maior a eficácia das pressões comerciais
Esse peso varia conforme as circunstâncias nacionais. Quanto mais dependente economicamente um país for dos Estados Unidos, maior a eficácia das pressões comerciais. Quanto mais frágeis suas instituições, maior a influência da diplomacia americana. Quanto menor sua autoestima nacional, maior a disposição de suas elites para buscar tutela externa.
É aqui que surge a singularidade brasileira.
O Brasil responde sozinho por mais da metade da população e da economia da América do Sul. Possui instituições mais robustas do que a maioria dos seus vizinhos. Mantém tradição diplomática secular de autonomia relativa. Cultiva uma identidade nacional que se pensa historicamente como potência regional. Mesmo em seus momentos de maior alinhamento internacional, raramente aceitou a condição de satélite.
A diferença brasileira não decorre apenas da dimensão econômica do país. Decorre também de uma tradição nacional que, desde o Império, habituou suas elites a se pensarem como dirigentes naturais da América do Sul. Ao contrário de boa parte da América Hispânica, cuja história foi marcada por intervenções externas sucessivas, o Brasil construiu para si uma identidade de potência regional relativamente autônoma. Isso não elimina o alinhamento ocasional a Washington. Mas torna eleitoralmente custosa qualquer aparência de subordinação.
Os próprios dados de opinião pública apontam nessa direção. Pesquisa Datafolha divulgada em junho mostrou que 59% dos brasileiros apoiam a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Mas a mesma pesquisa revelou que 74% rejeitam qualquer intervenção americana no Brasil sem autorização do governo federal. Em outras palavras: a demanda por segurança pública é elevada, mas não se converte automaticamente em disposição para aceitar tutela estrangeira. O nacionalismo continua mais forte do que o alinhamento ideológico.
A principal limitação das analogias continentais reside, porém, numa variável frequentemente negligenciada: Lula.
A maioria dos presidentes progressistas latino-americanos representa coalizões ideológicas. Lula representa uma coalizão social. A diferença é decisiva.
Grande parte das análises comparativas trata Lula como se fosse equivalente a Petro, Boric, Arce ou qualquer outra liderança progressista latino-americana. Não é.
Lula venceu três eleições presidenciais em seu próprio nome. Elegeu duas vezes sua sucessora. Sobreviveu ao impeachment de Dilma, à Lava Jato, à prisão, à destruição política do PT e ao avanço da extrema-direita. Voltou ao poder derrotando um presidente incumbente apoiado simultaneamente pela máquina estatal, pelo Centrão, por setores militares, por parte significativa do empresariado e pela extrema-direita internacional.
Não existe figura comparável na América Latina contemporânea.
Ao contrário de outros líderes progressistas da região, Lula não governa apenas para uma base ideológica
Mais importante ainda: Lula jamais foi um líder de esquerda no sentido doutrinário do termo. Sua força sempre residiu numa combinação rara de carisma popular, pragmatismo político, flexibilidade ideológica e capacidade de coalizão. Ao contrário de outros líderes progressistas da região, ele não governa apenas para uma base ideológica. Constrói maiorias sociais.
Petro, Boric e outros líderes da nova esquerda governam apoiados sobretudo por setores progressistas urbanos. Lula governa apoiado por uma aliança muito mais ampla, que inclui sindicatos, funcionários públicos, trabalhadores informais, setores empresariais, lideranças regionais e parcelas expressivas de um eleitorado conservador, religioso e avesso às pautas identitárias. Seu eleitorado não coincide com a esquerda; ultrapassa-a.
A imagem de Lula como candidato exclusivamente da esquerda é desmentida por sua própria trajetória. Desde 2002, ele incorpora parcelas significativas do eleitorado conservador, especialmente no Nordeste. Muitos de seus eleitores possuem valores religiosos tradicionais, posições conservadoras em matéria de costumes e preocupações típicas do eleitorado de direita em temas como segurança pública. O vínculo deles não é com a esquerda. É com Lula.
É por isso que Lula não pode ser analisado apenas como líder da esquerda brasileira. Ele se tornou, ao longo de duas décadas, o principal articulador de uma coalizão social nacional. Muitos de seus eleitores não votam no PT em eleições locais, não se identificam com o progressismo contemporâneo e mantêm posições conservadoras em matéria de religião, costumes e segurança pública. O que os liga ao presidente não é uma identidade ideológica, mas uma relação política construída ao longo do tempo.
Essa é uma diferença decisiva em relação aos demais líderes progressistas latino-americanos.
Por isso, as variáveis estruturais da eleição continuam favorecendo sua reeleição.
As pesquisas divulgadas ao longo de junho convergem para uma vantagem consistente do presidente. Dependendo do levantamento, Lula aparece entre cinco e dez pontos percentuais à frente de Flávio Bolsonaro. Mais importante do que isso, os indicadores econômicos começam a produzir os efeitos eleitorais habituais observados em governos incumbentes.
Pesquisa recente mostrou que 36% dos brasileiros acreditam que a economia melhorará nos próximos meses. A percepção de melhora continua longe de ser esmagadora, mas representa um ambiente muito mais favorável ao governo do que aquele existente há um ano. Como ocorre em praticamente todas as democracias, expectativas positivas costumam beneficiar quem está no poder.
Outro dado relevante foi produzido pela Quaest. Quando perguntados sobre qual seria o melhor resultado para o Brasil, 31% dos entrevistados apontaram a reeleição de Lula. Apenas 24% preferiram o retorno da família Bolsonaro. Outros 23% declararam preferir a vitória de um outsider, enquanto 16% optaram por um candidato moderado fora da polarização. O dado sugere que Lula voltou a ocupar posição central no sistema político, aparecendo como a alternativa preferida de uma pluralidade relativa do eleitorado.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades evidentes. Carece do carisma do pai. Não conseguiu unificar plenamente a direita. Convive com potenciais rivais internos. Carrega passivos políticos próprios e tem sido atingido por sucessivas controvérsias ligadas ao caso Master, às rachadinhas e a outros episódios que reduzem sua capacidade de ocupar o terreno moralista explorado pelo bolsonarismo em 2018.
É nesse contexto que surge a variável Trump.
Trump costuma associar-se a candidaturas competitivas, evitando investir capital político significativo em projetos evidentemente inviáveis. Seu apoio não cria candidatos do nada; procura reforçar aqueles que já possuem condições reais de disputa. A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia sugere precisamente isso: a influência americana pode ampliar tendências já existentes, mas dificilmente é capaz de produzi-las sozinha.
O apoio de Trump pode ser um ativo em parte do eleitorado, mas está longe de constituir uma vantagem líquida
Daí a ambiguidade da situação brasileira. A aproximação com Trump pode reforçar a identidade ideológica do núcleo duro bolsonarista, mas também corre o risco de alimentar reações nacionalistas em setores mais amplos do eleitorado. A experiência recente aponta nesta direção. As ameaças tarifárias contra produtos brasileiros, a mobilização de lideranças bolsonaristas em Washington e os sucessivos apelos por pressão americana sobre instituições nacionais produziram desconforto muito além da esquerda. O apoio de Trump pode ser um ativo em parte do eleitorado, mas está longe de constituir uma vantagem líquida.
No fundo, o erro mais comum das análises atuais consiste em imaginar a eleição brasileira como simples reprodução do que acontece no restante do continente.
Ela não é.
A eleição de 2026 será travada no contexto de uma onda conservadora continental. Sofrerá influência da ofensiva geopolítica americana. Sentirá os efeitos do trumpismo internacional. Mas continuará sendo decidida fundamentalmente por fatores brasileiros: economia, governabilidade, segurança pública, rejeições partidárias, qualidade dos candidatos e capacidade de mobilização eleitoral.
Entre esses fatores, nenhum parece mais importante do que a presença de uma liderança cuja força ultrapassa as fronteiras da esquerda e alcança parcelas significativas do eleitorado conservador. É essa singularidade que distingue o Brasil do restante da América Latina. E é ela que torna a reeleição de Lula, hoje, o desfecho mais provável.






























