Alianças por um fio
Lula assumiu seu terceiro mandato com um espírito restaurador, ensaiando retorno às rotinas de 2010. Uma delas, que combina com a ideia da frente ampla, foi a de montar no Congresso uma coalizão baleia, ou arca de Noé, oferecendo espaço no ministério e preferências no atendimento de pedidos a todos os bichos que nela embarcarem. Ocorre que as condições do Brasil mudaram. Ainda no esforço da frente ampla, mas de forma inédita, Lula abarcou o apoio do “partido liberal” - e sobre ele falamos mais adiante. Ambas as alianças apresentam fragilidades que podem definir o futuro eleitoral de Lula.
O sonho da regulamentação
Andrea Gallassi fez parte do primeiro grupo de pesquisadores que conseguiu autorização para importar produtos e estudar a cannabis medicinal no Brasil. Mestre e doutora em medicina pela USP, é professora associada da Universidade de Brasília e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas. Hoje ela está à frente do grupo de trabalho sobre cannabis medicinal no Conselho Nacional de Política sobre Drogas (Conad), buscando estudar modelos de regulamentação do uso da planta que possam influenciar a política de drogas brasileira. Nesta conversa com o Meio, ela falou das nova composição do Conad, do cabo-de-força entre Supremo Tribunal Federal e o Legislativo na questão do porte de maconha e também sobre os horizontes de pesquisa no país. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
A surpreendente resiliência da democracia
A democracia tem se mostrado surpreendentemente resiliente no século 21. Ao fim da extraordinária expansão democrática global do final do século 20, várias democracias proeminentes, incluindo as das Filipinas, Hungria, Índia, Tailândia, Turquia e Venezuela, sofreram retrocesso ou colapso. Mas a grande maioria das democracias da “terceira onda” — regimes que se tornaram democracias entre 1975 e 2000 — persiste. Apesar de um ambiente internacional cada vez mais desfavorável, os temores de uma “onda reversa” ou de um “renascimento do autoritarismo” global ainda não se concretizaram. E o último quarto de século continua sendo, de longe, o mais democrático da história.
A agitação reacionária e os desafios de uma frente democrática
A eleição de Lula em 2022 se processou em um momento crítico da democracia brasileira, que teria desaparecido debaixo do eventual segundo mandato do populismo reacionário de Jair Bolsonaro. Por isso mesmo, recorreu à formação de uma frente ampla que contou com a apoio de antigos adversários, formada desde a esquerda até segmentos da centro-direita, unidos pelo reconhecimento da ameaça comum. Ainda assim, sua vitória foi contestada pelos derrotados, que tentaram dois golpes de Estado — o primeiro, gorado ainda ovo, para ficar no poder; o segundo, tentado, para a ele retornar. Mas a derrota de Bolsonaro, seguida da perda de seus direitos políticos, não pôs um paradeiro em um populismo extremista, que luta por obstruir politicamente a ação da Justiça que pode condená-lo à pena de prisão e mantê-lo politicamente vivo. Ameaça de dupla face, interna e externa.
‘Mapa de apoios está desfavorável ao Irã e sua visão de futuro’, diz Abbas Milani
O professor Abbas Milani nasceu no Irã. Foi preso pelo regime do xá Reza Pahlavi. Depois, perseguido pelo regime islâmico do aiatolá Khomeini. Buscou abrigo nos Estados Unidos na década de 1980, de onde nunca deixou de lutar por uma democracia em seu país de origem. Chegou a prestar consultoria a George W. Bush e Barack Obama, numa louvável disposição de colaboração bipartidária. Seu conselho sempre foi o mesmo: o Irã deve se reencontrar com um regime democrático, secular, por sua própria conta. Sem interferências externas.
Um duelo no nosso crepúsculo político
O confronto público entre Elon Musk, o todo-poderoso dono de uma das mais importantes plataformas digitais, e Alexandre de Moraes, autor das sentenças mais temíveis do faroeste político brasileiro, é ainda uma obra aberta enquanto escrevo estas mal traçadas linhas. Quando você, querido leitor, abrir esta missiva novos atos podem já se ter desenrolado.
O fantasma do poder moderador
A construção do Estado nos países europeus se deu em torno da figura o rei, que concentrava em sua pessoa a soberania monárquica. Nas repúblicas americanas, aquela tarefa foi mais difícil porque a lógica autoritária, que impunha concentrar o poder em torno do presidente na capital do país, era desmentida por constituições liberais que preconizavam sua dispersão em benefício do legislativo, do judiciário e das províncias. Agravava a tarefa sua insuficiente legitimidade em um mundo como o da América ibérica do século 19, no qual já não podia haver a legitimação tradicional do monarca absoluto, mas ainda não se desenvolvera a legitimidade puramente racional-legal do presidente. Dessa tensão decorreu a constante instabilidade política e constitucional do século 19 nas repúblicas vizinhas. O Brasil discrepou nesse contexto por ter construído seu Estado sob o regime de uma monarquia constitucional que, reconhecendo a soberania da nação, manteve como seu primeiro representante o herdeiro tradicional da Coroa. A conciliação tornou comparativamente menos traumática a transição para o Estado independente.
