Edição de Sábado: Brasil, a conta!

Consignado é um termo técnico o bastante para esterilizar um ato de crueldade. “Somos cinco. Era seis com a minha filha que faleceu vai fazer dois anos. E meu marido faleceu também vai fazer seis meses. Domingo a gente tinha nem nada pra comer, porque eu estou desempregada. Tá muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá. E eu não tenho ajuda de muita gente, então, domingo a gente não tinha mesmo nada. Nada.” Janete tem 57 anos e chorou muito enquanto relatou a fome de sua família para a repórter que mostrava a fila do Prato Feito Carioca. Agarrado em Janete estava seu neto, Pedro, de 5 anos. Olhos graúdos e atentos. Janete encaixa-se perfeitamente no público alvo da maioria dos benefícios sociais que existem no Brasil — e dos que vêm sendo criados. Era junho deste ano quando ela concedeu a entrevista. Um mês depois, aprovou-se no Congresso Nacional a PEC Kamikaze, transformada em “PEC de Bondades”, para se buscar conceder algum alívio aos brasileiros mais pobres. Nessa brecha, a desfaçatez de incluir uma concessão de crédito consignado aos beneficiários do Auxílio Brasil. Uma medida impiedosa, eleitoreira e irresponsável.

Primeiro, vamos destrinchar as regras. Quem está apto a receber o Auxílio Brasil, o benefício que substituiu o Bolsa Família dos governos anteriores? São famílias em situação de extrema pobreza, com renda mensal per capita de até R$ 105; ou famílias em situação de pobreza, com renda mensal entre R$ 105,01 e R$ 210, com mães que amamentam, crianças, adolescentes e jovens entre 0 e 21 anos incompletos. Isso dá 21,1 milhões de famílias, sendo 500 mil incluídas no dia 2 de outubro, no primeiro turno. É gente muito pobre. Gente que precisa do Auxílio Brasil para comer. O crédito consignado é concedido também a quem recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que são os idosos com idade igual ou superior a 65 anos ou a pessoa com deficiência de qualquer idade. Pois bem. As pessoas que tomarem o empréstimo poderão comprometer até 40% do valor do benefício. O pagamento vai ser descontado mensalmente, direto no benefício da família. Ou seja, ela vai sacar um valor menor do benefício para pagar a dívida. Os juros são de até 3,5% ao mês. Taxa acima das praticadas por outros consignados. A taxa aprovada pela Caixa, por exemplo, é de 3,45% ao mês e 50,23% ao ano. Para os aposentados do BPC serão 28% ao ano. Quem tiver o crédito aprovado vai receber, em média, R$ 2.600. Com a descrição do perfil de quem recebe o Auxílio Brasil, dá para se imaginar com uma dose alta de certeza que esse empréstimo será usado para, com o perdão de não haver uma palavra melhor, retroalimentar uma situação de pobreza.

A medida faz parte do Programa de Renda e Oportunidade criado pelo governo para “alavancar a retomada do emprego e da economia do país". A realidade, no entanto, é que Bolsonaro colocou a população de baixa renda, e o Brasil, numa armadilha. O valor de R$ 600 para o Auxílio Brasil está garantido somente até dezembro deste ano. No Orçamento de 2023, está prevista a queda do Auxílio em janeiro para R$ 405. Mas o valor da dívida não muda. O empréstimo não é cancelado se o cidadão perder o benefício ou caso o benefício social que substituiu o Bolsa Família seja extinto ou tenha o valor mensal reduzido. E adivinha quem não faz a menor ideia disso tudo? As famílias que estão tomando o empréstimo. “A gente pega o dinheiro agora e depois vê como faz para pagar, né? O dinheiro já é tão pouco e ainda vai ter desconto, como é que pode? O governo dá e o governo tira? Pobre nasceu mesmo para sofrer, né?”, questionou a lavadeira Joana Francisca, na fila para pegar o consignado, no Rio. Essas famílias não sabem, mas pagarão caro pelas 24 parcelas para sobreviver.

Foi nesse ambiente de completa desinformação que cerca de 700 mil pessoas tomaram o crédito, até o momento, na Caixa Econômica Federal. Tão rápida quanto a adesão ao crédito foi a tramitação para seu lançamento. A Medida Provisória que autoriza o consignado é de julho. Faltando uma semana para o primeiro turno das eleições presidenciais, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) publicou no Diário Oficial da União (DOU) a portaria que regulamentou o consignado. A Caixa liberou os empréstimos no dia 11 de outubro, a pouco mais de 15 dias do segundo turno. Foram R$ 1,8 bilhão liberados até aqui. O consignado é só uma das medidas na tentativa desesperada de Bolsonaro de virar votos via gastança de dinheiro público. Por ser a mais perversa, é nela que vamos nos concentrar. Mas, somente no mês de outubro, o governo anunciou a antecipação dos pagamentos do Auxílio Brasil e do Vale Gás, além do auxílio para caminhoneiros e taxistas, um novo programa de refinanciamento de dívidas por meio da Caixa Econômica Federal e, mais recentemente, o FGTS futuro para financiamento de imóveis. A média, desde o dia 3 de outubro, tem sido de um anúncio a cada dois ou três dias — foram sete em 18 dias. Quatro têm relação com o Auxílio Brasil. Um estelionato eleitoral, mirando os que estão nos grupos que dão mais votos a Lula.

Quanto vale um voto

Mas, afinal, como chegamos até aqui? Em julho, o Congresso aprovou em dois turnos a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que deu ao governo o poder de turbinar uma série de benefícios sociais a menos de três meses das eleições. Entre outras medidas, o pacote de benefícios proposto pela PEC Kamikaze incluía o aumento do valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 por mês, além de conceder uma bolsa-caminhoneiro de R$ 1 mil e uma bolsa-taxista de R$ 200 mensais até dezembro deste ano. A PEC também inclui o Vale Gás a R$ 120. O valor total de aumento de despesas é de R$ 41,25 bilhões. Para driblar possíveis sanções da Lei Eleitoral, que proíbe a criação de novos benefícios sociais perto das eleições, foi incluída na proposta a determinação de um estado de emergência nacional. Com medo de ser acusada de votar contra medidas de alívio a quem estava em situação miserável, a oposição votou junto com o governo. E botou em suas mãos uma fonte (quase) inesgotável de dinheiro e espaço para manobrar eleitoralmente esses recursos.

O uso da máquina pública em ano eleitoral, evidentemente, não é novidade. Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, para tratar apenas de presidentes, fizeram isso, avalia Daniela Campello, doutora em Ciência Política pela UCLA, professora em Princeton e na FGV. “Mas, desta vez, o Congresso deu um ‘cheque em branco’ com a questão do estado de emergência. Bolsonaro pode fazer o que quiser. Ele não tem perspectiva de longo prazo para o Brasil e está preocupado apenas com a sua reeleição. Está gastando o que tem e o que não tem. O resultado disso é uma aceleração da atividade econômica no período pré-eleição, com geração de votos, seguida por uma crise econômica após o período eleitoral." Daniela faz um esclarecimento importante para tirar o tom condescendente e preconceituoso da análise desse tipo de ação: ela não coopta apenas os mais pobres. O poder do voto econômico é muito mais amplo. A percepção momentânea de melhora da economia acontece em todas as faixas de renda. “O voto econômico não é uma questão de vender o voto e nem exclusivo de pessoas mais pobres. A reação à melhora da economia acontece em todas as faixas de renda e não é completamente racional. Essa sensação de bem-estar aumentada é o que gera o voto. Existe uma visão elitista de dizer que o pobre vende voto. Na verdade, é uma reação favorável à melhora das condições de vida e que acontece em todas as classes.”

Ainda assim, na reta final da campanha, advogados de Lula dizem que não pretendem entrar com ações no sentido de coibir as destinações de recursos por parte do governo federal que podem caracterizar “compra de voto”. Não estão descartados questionamentos futuros. “Não temos como fazer isso agora” disse ao Meio o advogado Eugênio Aragão, que participou nesta quinta-feira (20/10) de um evento em Brasília no qual juristas e magistrados declararam apoio a Lula. “A campanha tem que continuar fazendo o que está sendo feito, que é mostrar as inconsistências. Mas impedir o governo de soltar dinheiro é muito difícil”, disse o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, coordenador do grupo Prerrogativas. Além deles, César Britto, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), disse que o abuso de poder econômico e político por parte da campanha de Bolsonaro conta, infelizmente, com um Tribunal Superior Eleitoral (TSE) “acuado” neste momento.

Mas o grau de uso da máquina por Bolsonaro está tão absolutamente fora do normal que ficou difícil ignorar. Com o risco de o consignado ‘interferir nas eleições presidenciais’, um parecer do Tribunal de Contas da União (TCU) recomendou a suspensão do empréstimo, para salvaguardar os interesses da Caixa, até que o tribunal julgue a medida em plenário. Além disso, recomenda que a direção da Caixa forneça informações como rentabilidade e risco de inadimplência do programa. A Caixa Econômica Federal, aliás, é o único entre os maiores bancos do país a participar do programa. Os outros 11 são instituições menores. Bradesco, Itaú ou Santander não aderiram ao consignado. O mercado prevê que a bomba-relógio pode estourar no próximo ano e afetar as contas públicas e o próprio crescimento econômico.

No caso específico do consignado, as consequências da irresponsabilidade fiscal ficam mais restritas à própria Caixa. Mas não só. “A partir de janeiro, a área fiscal pode ficar comprometida se a carteira de inadimplência subir muito”, aponta a economista Carla Beni, professora dos MBAs da FGV. Uma Caixa comprometida em resolver inadimplência do consignado não tem recursos para investir em outras coisas que seu patrão, o governo federal, mandar. Daí, convoca-se o Tesouro Nacional para compensar a Caixa Econômica. E o problema deixa de estar restrito e passa a ser nacional. Mas, além disso, o conjunto todo da obra, seja via PEC Kamikaze ou outros tipos de medidas como redução de tributos sobre combustíveis para controlar na marra a inflação desenfreada, vai cobrar seu preço.

Segundo cálculos dos economistas Manoel Pires e Bráulio Borges, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o rombo nas contas públicas pode chegar a R$ 430 bilhões, o equivalente a 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Os economistas dividem o passivo fiscal previsto para 2023 em quatro categorias. A primeira diz respeito às despesas não cobertas no Orçamento de 2023 e que pressionam o (aclamado por uns, questionado por outros) teto de gastos, aprovado no governo de Michel Temer. Entram aqui o Auxílio Brasil em R$ 600, um possível reajuste de servidores públicos federais e a revisão de despesas discricionárias. Só nessa coluna, a conta ultrapassa R$ 120 bilhões, cerca de 1,2% do PIB. No resto da composição desse estouro, entra, por exemplo, a sequência de desonerações sobre combustíveis. Para superar essa crise, Pires defende a adoção do chamado waiver, tese que vem ganhando força entre economistas. Waiver é uma suspensão temporária das regras fiscais para que se arrume a casa. Uma pedalada mais chique e combinada, já que é um gasto que vai ter de se pagar lá na frente de qualquer maneira.

O teto de gastos é a regra constitucional que limita os gastos públicos de um ano para outro. Lula fala abertamente em acabar com o teto para se retomar investimentos sociais e é criticado por alguns setores por isso. Paulo Guedes, por sua vez, quer “reformular” o teto — e contratou uma tremenda dor de cabeça para a campanha de Bolsonaro com o vazamento de seu plano. Para frear o crescimento de despesas que hoje pressionam o Orçamento, sua proposta passa por, entre outras coisas, desatrelar o salário mínimo e os benefícios previdenciários da “inflação passada”. A repercussão foi imediata e negativa. Daí, durante um evento da Confederação Nacional do Comércio, o ministro negou que o objetivo da PEC seja impedir o ganho real de trabalhadores e pensionistas. Disse que era só garantir a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600. Guedes criticou o teto de gastos, considerado pelo governo como excessivamente rígido. “O teto foi mal construído, não tinha chaminé. E se a casa estiver pegando fogo? Para onde sai a fumaça?”, questionou. Isso agora, que rolou o barata-voa. Nas discussões sobre gastos para enfrentar a pandemia, Guedes defendia o teto (YouTube). Chegou a dizer que furá-lo levaria ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Em agosto, ele admitiu que o governo furou o limite de gastos para implementar o aumento do valor do Auxílio Brasil. Para coroar a mudança, Bolsonaro gravou um vídeo em que promete, com todas as letras, aumento acima da inflação para aposentados, pensionistas, servidores públicos e no reajuste do salário mínimo. Haja waiver.

Sem saída

Dá para se imaginar um cenário em que o Brasil possa prosperar com esse nível de irresponsabilidade? Bolsonaro fala em “economia bombando” e alguns índices realmente apresentam melhora. As projeções do mercado financeiro para o PIB deste ano apontam um crescimento de 2,71%. “No entanto, é um crescimento não sustentável, feito a partir de políticas fiscais de expansão de benefícios sociais e redução da carga tributária de forma artificial. O reflexo disso é uma projeção de PIB para 2023 que não chega a 0,60%. Nós estamos empurrando para o ano que vem a redução do crescimento da economia brasileira”, explica Carla Beni. Um preço a ser pago por todas as famílias brasileiras.

Não que elas já não estejam endividadas. O último levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostrou que 80,3% das famílias com renda inferior a 10 salários mínimos, ou seja, classes média e pobre, têm dívidas. É o maior patamar da série histórica. O endividamento não é necessariamente algo ruim. Pelo menos 80% da população brasileira só consegue adquirir bens por meio de crédito. É o carnê de loja, a fatura do cartão de crédito. Mas, em condições ideais, eles são pagos em dia. O problema é a fase ruim desse endividamento, quando o consumidor deixa de pagar a fatura e a inadimplência começa a afetar negativamente a renda das famílias.

Com a concessão de empréstimos a toque de caixa, a alta no endividamento e na inadimplência já é dada como certa, prevê a CNC. Há mais de 64 milhões de pessoas inadimplentes no Brasil. O cenário ideal de um consignado seria o uso do dinheiro para o pagamento de dívidas mais caras, tal como o rotativo do cartão de crédito, por exemplo, ainda o principal vilão para o endividamento. Parece evidente que quem está tomando um empréstimo consignado em cima de seu Auxílio Brasil não usará o dinheiro para isso. “A população não tem esse nível de instrução e educação financeira para gerir o recurso”, aponta Izis Ferreira, economista da CNC. “Muito provavelmente as pessoas vão considerar o valor como renda disponível. Como o nível de renda já é muito baixo, o que importa é o dinheiro no bolso.”

Tratamentos de saúde, troca de eletrodomésticos e investimento para pequenos negócios podem até ser ser alguns dos destinos do dinheiro do consignado do Auxílio Brasil. Mas muita gente ainda vai pedir empréstimo para pagar contas básicas. E se o valor do benefício for realmente reduzido no início de 2023 a bomba é atômica. O panorama vai ser de “espiral sem saída”, como explica o economista Ricardo Henriques, um dos criadores do Bolsa Família e hoje superintendente-executivo do Instituto Unibanco. "O consignado tenta dar um suspiro de alívio da pobreza, mas compromete a vida futura de uma forma que pode ‘amarrar’ o beneficiário que já está em situação de socio-vulnerabilidade em uma espiral que não tem saída. É um risco derivado de um desenho equivocado da política de crédito do consignado.” O economista reforça que políticas de créditos são benéficas para a população mais vulnerável. Mas no caso do consignado, além de estar atrelado às falhas já existentes do Auxílio Brasil, o programa não fornece uma assistência a essa população sobre o uso potencial e os riscos de inadimplência do dinheiro. Com isso, o alívio imediato no curto prazo pode tornar a saída da pobreza muito mais difícil lá na frente. E essa conta tem data para chegar.

*Colaborou Luciana Lima

Enfim, a hipocrisia

Bolsonaro estava histérico. Seu governo já tinha um ano e quatro meses. A pandemia completara um mês sem qualquer sinal de que alguém ali fazia ideia de como conduzir o país, para além da oportunidade de aproveitar a “distração” mórbida para se passar a boiada. Aquele amontoado de homens brancos (e duas mulheres figurantes) estava reunido para ouvir os esculachos e desatinos do chefe. Teve sabão distribuído para todo lado — menos para Paulo Guedes, o fiador. Mas o alvo real da descompostura era um só: o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. “Acordem para a política e se exponham!”, o presidente da República dos bananas gritava. “Afinal de contas, o governo é um só e, se eu cair, cai todo mundo.” Moro estava a duas cadeiras de Bolsonaro, Hamilton Mourão no meio. “Eu tenho poder e vou interferir em todos os ministérios. Sem exceção. Eu não posso ser surpreendido com notícias. Eu tenho a PF que não me dá informações. Os serviços de informação nossos todos são uma vergonha, uma vergonha. Eu não sou informado. Não dá pra trabalhar assim. Por isso, vou interferir.“ Bolsonaro faz uma pausa dramática e, sem qualquer sutileza, dirige o olhar a Moro pela primeira vez naqueles 37 minutos de reunião. “E ponto final, pô."

No dia em que se comemoravam os 520 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, iniciava-se um processo de descoberta de que fibra era constituído o ex-juiz e ex-enxadrista da Lava Jato. Alguns podem argumentar que máscaras caíram bem antes, quando Moro aceitou ser ministro do candidato que teve sua eleição facilitada pela prisão do adversário. Ou quando a Vaza Jato revelou em que termos se deu a operação. Ou ainda quando Moro foi julgado parcial e Lula, solto e tornado inocente. Mas ali, na infame reunião ministerial, era o político Moro que ficava nu. Político que, registre-se, Moro jurara que sequer existia dentro de si. Logo depois do corretivo de Bolsonaro, foi-lhe passada a palavra. Moro parabenizou a apresentação prévia de um plano do colega Braga Netto para os meses seguintes. Pediu, humildemente, que houvesse alguma mençãozinha singela aos temas do controle da corrupção e da segurança pública, “centrais nas últimas eleições” e “para não parecer que estamos descurando desses aspectos”. E calou.

Dois dias depois da reunião, Moro pediu demissão. No pomposo discurso, distante do chilique de Bolsonaro, convidou o Brasil a um exercício de imaginação: “Imaginem se, durante a Lava Jato, o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma ficassem ligando para a Polícia Federal em Curitiba para colher informações”. E revelou que Bolsonaro queria ter na Polícia Federal “uma pessoa da confiança pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Seja diretor , seja superintendente. E não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação”. Não que na reunião ministerial já não tivesse ficado bem claro que, mais que colher relatórios, o que o presidente queria mesmo era não esperar sua “família se foder”. Mas, ao se desligar de Bolsonaro com essa narrativa, Moro buscou se cacifar politicamente como o defensor de algo que já deixara de existir. E, por um tempo, conseguiu.

Foram dois anos e meio de discurso antibolsonarista, anticorrupção, anti-PT, anti-Lula, anti-Centrão. Como bom neopolítico, sua plataforma central de discurso são as redes sociais (Quem não lembra daquele grande momento dele segurando um calendário numa foto para provar que aquele era seu perfil no Twitter?). Há posts para todos os gostos: chamando Bolsonaro de mentiroso, de covarde, de indigno, de corrupto. Enquanto desancava o desmonte das ferramentas de combate à corrupção no governo a que serviu, tentava se construir como opção de uma terceira via entre Lula e Bolsonaro. Apostava que, da forma como a luta contra a corrupção havia pautado as duas últimas eleições, e como seu proclamado arauto, ele seria a escolha natural. “Acho que foi pela vaidade. Eu o conheci pessoalmente quando ele saiu do ministério. Percebi que ele tinha um medo de perder a eleição e sair desmoralizado. Tinha um sentimento de insegurança pessoal também. Quando Moro era ministro, já dava sinais de que era fraco. Não tinha convicções e completo controle das próprias pautas, como o pacote anticrime." A descrição é do deputado federal Kim Kataguiri. Kim é um filhote político de Moro. Seu MBL nasceu da Lava Jato. Eles hoje são correligionários no União Brasil. Mas Kim se sente à vontade para chamar Moro de vaidoso. Inseguro. Fraco.

E por quê? Bem, domingo passado, no debate presidencial do pool liderado pela TV Bandeirantes, Moro foi de advogado do diabo. Foi conselheiro de Bolsonaro, coach. A visão dos dois juntos traumatizou muita gente. Merval Pereira, da Globo, ficou desorientado. Os ex-Antagonistas Mario Sabino e Diogo Mainardi, constrangidos. O Estadão teve de fazer a difícil escolha de se manifestar. Como assim, Moro? Depois de tudo... Rachadinha, compra irregular de vacinas, de imóveis em dinheiro vivo, de voto. “Respeito a liberdade de imprensa. Podem me criticar o quanto quiserem: Lula na Presidência representaria o fracasso moral do país e um desastre econômico. Quando juiz, apliquei a lei e nada mais. Agora, na condição de Senador eleito, sou contra o Lula e o projeto de poder do PT”, justificou-se, pelo Twitter. O apelo é ao caráter político de sua decisão, agora que é um senador, um parlamentar.

Moro nasce para o Congresso assassinando o movimento político que pariu: o lavajatismo. Se já havia enorme dificuldade em defender o lavajatismo depois da adesão de Moro ao governo Bolsonaro e da Vaza Jato, agora é impossível. É o terraplanismo da corrupção. Mesmo com uma suposta bancada eleita a partir da operação, que inclui ainda Deltan Dallagnol e Rosangela Moro, a conja. “Não vai existir uma bancada lavajatista. Talvez no começo da legislatura atual, em 2019, você tenha esboçado essa situação. Mas hoje isso não existe mais. E isso se diluiu na pauta de costumes, na questão ideológica e na adesão ao sistema, como é o caso da manifestação do Moro. Ser político não significa perder a vergonha na cara. Qual dos Moros falou a verdade? O Moro juiz, o Moro ministro, o Moro candidato, o Moro assessor de debates do Bolsonaro? É um vexame”, diz o senador Alessandro Vieira (PSDB-SE), ex-delegado da Polícia Civil, também eleito com a plataforma anticorrupção.

“O lavajatismo acabou“, decreta Kataguiri. A mágoa que o deputado sente está mais ainda em ver Moro ao lado de Ciro Nogueira. ”Ciro é réu em lavagem de dinheiro, em corrupção, e um dos principais pilares do ‘petrolão’. Moro se submete não só a ser um assessor do Bolsonaro, mas ser também uma figura subalterna ao ministro da Casa Civil.“ Mas não só. ”Não esperava que os dois pilares da Lava Jato, Moro e Dallagnol, pudessem dar apoio a Bolsonaro. Não faria o menor sentido, ainda mais quando isso não envolve um cálculo político sensível para as candidaturas deles, porque eles já estão eleitos." Exatamente. Não foi sequer um cálculo eleitoral. A não ser o cálculo anti-eleição de Lula que, hoje sabemos, vem desde os tempos de operação. E o de serem representantes do bolsonarismo, não do lavajatismo. Depois do debate, Moro deu uma entrevista ao lado de Bolsonaro. Político profissional que é, fugiu da pergunta sobre todas as acusações que fez contra o ex-atual-chefe.

Deputados, senadores e governadores se elegeram com a plataforma do lavajatismo. Partidos se criaram e se organizaram em torno desse projeto. E Moro foi destruindo tudo enquanto se transmutava no político que sempre foi. Enquanto tentava ser candidato à Presidência, usou o senador Álvaro Dias e seu Podemos no projeto. Largou o padrinho pelo caminho e correu para os braços do União Brasil, onde conseguiu, com muito custo, se viabilizar a candidato ao Senado pelo Paraná. Foi eleito, derrotando Dias. Agora, Moro vai ter de reencontrar essa gente toda no Congresso. Como político assumido. “Todos os indicadores apontam para o isolamento do Moro. Ele tinha um respeito muito grande de um grupo de parlamentares, em particular do Podemos. Ele perdeu esse respeito totalmente. Mas a política é dinâmica, vamos ver como é que eles se reinventam”, acrescenta Vieira. Mas também parece o desfecho perfeito para quem sempre negou ser político e só agiu politicamente. Enfim, a hipocrisia.

*Colaborou Luciana Lima

Exposições imersivas: tem de tudo, até arte

Painéis de alta resolução de sete metros de altura projetando reproduções de 285 obras licenciadas do pintor francês Claude Monet em 360°, com sons imersivos e uma explosão de cores e imagens animadas em 2D e 3D num ambiente de 400m², que prometem mergulhar o espectador nas principais obras do artista ícone do Impressionismo. É assim que a exposição Monet à beira d’água chega neste fim de semana ao Parque Villa Lobos, em São Paulo, após uma temporada no Rio de Janeiro. Outros eventos semelhantes circulam pelo país, com as paisagens urbanas de Rio de Janeiro e Brasília estampando obras de artistas consagrados como Van Gogh e Renoir. Mas o espetáculo por trás dessas atrações tende a mergulhar o espectador em um show de luzes e sons, privilegiando mais o efeito lúdico durante a experiência do que a concepção artística em si, o que incomoda especialistas e críticos.

“Desfrute de uma experiência única, explore mundos sem limites e deixe-se transportar para o coração da arte.” Esse é o convite do Atelier des Lumières, espaço dedicado a exposições imersivas inaugurado em Paris em 2018, que acumula mais de seis milhões de visitantes desde então. O local é considerado um dos pioneiros nesse tipo de produção de arte imersiva, ao ficar internacionalmente reconhecido por organizar exposições de artistas consagrados como Gustav Klimt e Vicent van Gogh, além de receber mostras de artistas contemporâneos pensadas para o ambiente, explorando o poder tecnológico das instalações.

As exposições imersivas são sucesso absoluto de público. Somente Beyond Van Gogh, atualmente passando por Brasília, teve mais de 20 milhões de espectadores em cerca de 25 países. Um fenômeno.

Sucesso de público, não de crítica

O jornalista e crítico de arte Antonio Gonçalves Filho questionou no Estadão a qualidade desses eventos, que, segundo ele, “levam o público a leituras equivocadas das obras que expõem em escala monumental e com alta tecnologia”. Ele lembrou que uma dessas exposições tinha como tema o pintor francês – também impressionista – Pierre-Auguste Renoir, e estava instalada em um espaço na mesma avenida que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), que tem 12 pinturas originais do artista em seu acervo. “Deve haver algo errado com uma sociedade autocentrada que prefere um contato superficial com uma projeção do que um corpo a corpo com a obra real”, arrematou com acidez.

“Uma coisa que as imersivas desse tipo fazem pensar é que elas parecem supor que a experiência da pintura, que está lá no museu, parece não ser suficiente”, explica a doutora em história da arte Priscila Sacchettin. “É como se elas partissem do pressuposto de que a pintura mesmo estaria de alguma maneira obsoleta.” Ela avalia que o conteúdo desse tipo de evento é produzido com muitas distorções da obra original, inserindo outros elementos que não fazem parte do conceito idealizado pelo artista, como o movimento, a reprodução em escalas enormes de cada quadro, além dos sons introduzidos para dar uma sensação maior de imersão. “De modo que eu fico me perguntando o que é que resta da pintura?”, questiona. “É um grande espetáculo que quer te engolir sensorialmente. É como te envolver nesse turbilhão sensorial, mas será que a pintura e a arte são sobre isso?”

A arte tem como objetivo nos desafiar, levar a reflexões profundas, a questionar sobre a obra e o que ela carrega em si, e o papel do espectador frente àquele trabalho. Para Sacchettin, esses eventos que arrastam multidões acabam focando apenas no aspecto lúdico da arte, sem contrabalancear com esses outros pontos. "Eu acho que isso é muito importante e tenho a impressão de que as imersivas tendem a aplainar esse tipo de coisa, e a pacificar as obras de arte, talvez facilitar um pouco demais [a relação entre observador e obra]'', defende. “É como se elas apresentassem a arte com uma docilidade que ela não tem.”

Além disso, o tempo em uma exposição de museu ou galeria de arte é diferente, sem a pressa do olhar rápido, exigido pela organização de uma mostra imersiva. Cada quadro é uma oportunidade de explorar o universo do artista, um momento contemplativo que exige paciência, tempo e coragem para encarar o desafio que a obra propõe ao olhar. Cada peça é um convite ao silêncio e à reflexão. O que leva a uma certa liberdade para escolher a sequência que quer ver, por quanto tempo olhar, e como observar. Na exposição imersiva é comum que haja um tempo previsto para completar o trajeto, um roteiro predefinido de uma sequência preparada de antemão, sem levar em consideração a vontade do espectador.

Dos painéis às telas

Não está claro qual o potencial dessas exposições em fazer com que seu público massivo seja instigado a migrar para as obras originais, físicas, em museus e galerias, às vezes, como vimos, na mesma rua. Para a doutora em história da arte, pode ser que essas imersões satisfaçam o desejo do consumidor que queira apenas potencializar a experiência digital que já tem diariamente pelas telas do celular, ao acessar o conteúdo de uma rede social como o Instagram. “Me parece que o que a exposição imersiva oferece é muito mais solidário com esse olhar apressado que é o nosso olhar corriqueiro. É como se elas dissessem o que a gente quer ouvir, elas nos dão o que a gente está acostumado a ter, que é essa experiência de bombardeamento, de intensidade, de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo.”

Apesar de ser um simulacro das obras consagradas em versões digitalizadas e expostas em painéis soberbos de ultra definição, é possível que exposições desse perfil despertem o interesse do público em visitar pinturas em tela, mas há dúvidas quanto ao caráter educativo que elas podem trazer por si só. “Eu acho que a imersiva não vai ser capaz de oferecer esse aprofundamento”, aposta Priscila Sacchettin. “O meu medo é que a grande atração, o ponto de interesse seja menos a arte, a obra, e mais o espetáculo em si. Porque se é isso que desperta o interesse das pessoas a ir, elas vão sair dali, e o espetáculo vai se reduzir a si mesmo”, explica, ao ressaltar que a busca do público pelo entretenimento é louvável, e mesmo saudável.

Independentemente das críticas ao formato, a doutora em história da arte avalia que esses espaços podem ser uma maneira de divulgar nomes de artistas consagrados a pessoas que ainda não tiveram nenhum tipo de contato com a obra, além de poder apresentar-se em um ambiente acolhedor para alguém que veja em museus e galerias de arte locais intimidadores e pouco convidativos. O que não quer dizer que esse ambiente seja convidativo a todos os públicos, já que o valor dos ingressos pode repelir uma parcela significativa da sociedade em tempos de crise econômica e social, como a que vivemos. Beyond Van Gogh, por exemplo, tem entradas que vão de R$ 50 a R$ 380.

A quantas anda a Inteligência Artificial

Dois relatórios publicados essa semana dão um panorama completo da indústria de Inteligência Artificial no mundo e no Brasil. O primeiro é a quinta edição do relatório produzido por Nathan Benaich e Ian Hogarth, dois investidores com larga experiência na área e que possuem um excelente histórico em suas previsões. O segundo é uma pesquisa feita pelo Google Startup Labs em conjunto com a ABStartups e Box1824 que busca responder à pergunta crucial: Como está o uso de inteligência artificial pelas startups brasileiras?

O que primeiro chama a atenção no State of AI 2022, o texto de Benaich e Hogarth, é o fato de que o mundo acadêmico está praticamente ausente das pesquisas na área. E, ao contrário do que se imaginava, as Big Techs não estão conseguindo monopolizar esses estudos. Centros de pesquisa independentes, trabalhando de forma comunitária, estão desenvolvendo em ritmo acelerado modelos em código aberto tão sofisticados como o dos grandes laboratórios. Além disso, a redução de investimentos e o congelamento de novas contratações pelas grandes empresas estão gerando um fluxo de novos empreendedores que criam startups inovadoras.

A China segue se distanciando dos Estados Unidos na produção de pesquisa em AI. Enquanto isso, o movimento de retorno de parte da produção de chips para os EUA está avançando consistentemente, mas as tensões geopolíticas estão à toda. A NVIDIA segue sendo o inconteste líder na produção de chips para uso em aprendizado de máquina. Nenhuma das diversas startups de semicondutores conseguiu ainda conquistar parte relevante desse mercado. Algoritmos que fazem desenhos por comando de texto são uma das principais tendências do momento, Dall-E 2, Imagem e Parti estão em briga ferrenha por esse mercado, enquanto uma série de startups já trabalham na criação de algoritmos para produzir vídeos à partir de textos.

Já o estudo do Google mapeou mais de 700 startups brasileiras de Inteligência Artificial. A maioria delas está focada em três áreas diferentes: AI como Serviço, BI e Analytics nas multissetoriais e Saúde e Biotecnologia nas que focam em um setor específico. Cerca de 70% delas possuem menos de 20 funcionários, e quase 60% foram fundadas de 2016 para cá. A grande maioria trabalha para o mercado B2B, menos de 15% têm como alvo o consumidor final. Falta de mão de obra qualificada é o principal gargalo da indústria, especialmente com a competição global por profissionais especializados. Outro problema constante é a qualidade dos dados por conta da péssima cultura de organização de dados no Brasil. Apesar disso, a criatividade e a diversidade brasileiras são fatores importantes que podem abrir caminho para transformar o país em um campo aberto e propício para fomentar uma AI única no mundo, capaz de dar o salto exponencial não apenas de si mesma, mas de ajudar a tornar o Brasil uma superpotência.

Vocês só quiseram saber de eleição e de debate. Aqui estão as mais clicadas pelos leitores ao longo da semana:

1. UOL: Em debate na Band, Lula esgota tempo, e Bolsonaro fala quase 6 minutos seguidos.

2. UOL: Esses e os outros minutos todos, na íntegra.

3. G1: “Pintou um clima” — a abjeta fala de Bolsonaro dominou as redes.

4. UOL: Um resumo do debate da Band.

5. UOL: Bolsonaro e Lula se comprometem a não mexer no número de ministros do STF.

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