Edição de Sábado: Valsa brasileira

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Pouco mais das 18h30, o presidente Lula (PT) desembarcou do carro oficial. Não foi direto cumprimentar seus convidados no salão reservado para a confraternização. Antes, se dirigiu ao quarto da Granja do Torto, residência de veraneio da presidência, e trocou de roupa. Deixou ali o terno e a pompa que sustentara durante o dia cheio, com três reuniões e a cerimônia de assinatura do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. Colocou jeans e uma camisa azul clara pouco ajustada ao corpo, deixou-a para fora da calça mesmo. Vestiu-se de informalidade, o tom com que redigiria a noite. Cerca de dez minutos depois, finalmente foi dar as boas-vindas a seus ministros, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), a líderes partidários e deputados petistas que enchiam as seis mesas com oito cadeiras cada. A conversa próxima nas rodinhas abocanhou boa parte do jantar. Só então, quando todos já se sentiam à vontade, Lula iniciou o discurso mais formal.
Antes da fala, já com o microfone empunhado, pediu que tocasse Disparada, de Geraldo Vandré. “Prepare o seu coração/pras coisas que eu vou contar/eu venho lá do sertão”, cantou. Mas não na postura dos solistas, ereto, acima dos convidados, dominando o espaço, tal qual um karaokê. Naquela noite, Lula não estava isolado, num palco. Cantou ao nível das mesas, entre os líderes. E sua voz foi acompanhada pelo coro improvisado que tomou o salão. Não cantou sozinho.
Em seguida, o presidente disparou a discursar. Voltou ao sertão de Pernambuco, refez em poucas frases o caminho até a política e puxou da memória a derrota de 1989, quando Fernando Collor de Mello lhe atravessou a primeira disputa presidencial. Disse que a eleição deste ano “não está ganha”, mas que vai ganhar. A afirmação soou como quem avisa, aposta e convida ao mesmo tempo. Afagou Motta em público: declarou que o presidente da Câmara deve ter ido dormir muitas noites com “angústias”, mas ainda assim conseguiu aprovar “muita coisa”, votações caras ao governo. Estendeu o gesto ao Congresso como um todo. Reconheceu as divergências de 2025, mas decretou como positivo o saldo da relação. Motta respondeu elogiando o Planalto. Ao fim, o líder do PP, Dr. Luizinho, entregou a Lula uma garrafa de uísque. E só então “saiu a boia”, resumiu um líder partidário.
O pirarucu abriu caminho, seguido da farofa, do pirão, do arroz e da salada. Lula dividia a mesa com Hugo Motta, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), o deputado Arlindo Chinaglia (PT), a primeira-dama, Janja da Silva, e o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT). Não havia música durante a comilança. O som ambiente era outro: o burburinho constante das conversas ao pé de ouvido que antecedem acordos.
Depois dos respectivos vinhos, uísques, cerveja e sobremesa, Geraldo Vandré voltou à caixa de som para embalar as despedidas. Assim, partiram “caminhando e cantando e seguindo a canção”. Para os que se demoraram um pouco mais a deixar a Granja do Torto, outro ritmo embalou o encerramento: o enredo da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageará Lula no Sambódromo no dia 15, e que, antes mesmo de estrear no Grupo Especial da Sapucaí, já se meteu em um imbróglio.
O recado estava dado. As cenas do jantar de quarta-feira, oferecido pelo presidente a expoentes da Câmara, deram a largada informal da pré-campanha eleitoral. Serviram para mostrar que o Planalto está aberto a quem quiser caminhar junto rumo à reeleição de Lula, por mais tortuosa que seja a viagem. Em contrapartida, o governo reiterou o peso dos parlamentares na construção política e na aprovação das propostas que pavimentam esse caminho.
Lula, do alto do quarto ano de seu terceiro mandato, compreende como poucos a importância desse tipo de afago, por mais tardio que ele seja. Parlamentares gostam de ser vistos, ouvidos. A avaliação entre governistas é a de que o clima com a Câmara é o mais harmonioso em muito tempo. E, enquanto calcula os próprios interesses, da garrafa de uísque oferecida a Lula à presença de todos os seus líderes partidários, o Centrão ensaia sua valsa de aproximação.
“Com certeza, três meses atrás esse jantar não aconteceria. Agora aconteceu, foi possível”, avalia o deputado Pedro Uczai (PT), novo líder do PT na Câmara. Presente no encontro, ele relata que Lula trabalhou ali em dois registros complementares. O primeiro, afetivo, foi o do reconhecimento. O presidente elogiou os deputados pelas matérias aprovadas, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O segundo, mais político, foi o da corresponsabilidade, de topar dividir o bônus. “O Congresso faz parte das vitórias que o próprio governo tem”, resumiu Uczai ao reproduzir o recado de Lula. A mensagem, segundo ele, foi clara: se a economia apresenta indicadores positivos, por exemplo, isso também se deve ao papel do Legislativo. “Vocês fizeram parte dessa história. Então, continuem fazendo parte dessa história”, foi a linha que atravessou o recado do presidente aos parlamentares.
Na avaliação de Uczai, é essa lógica de reciprocidade que ajuda a explicar a aproximação do Centrão. De um lado, o governo se move em direção a Hugo Motta para viabilizar pautas consideradas estratégicas. De outro, Motta e os partidos do bloco fisiológico reavaliam o trajeto com base na experiência acumulada no último ano e na leitura do cenário eleitoral.
Uczai cita ainda o papel do MDB como exemplo dessa inflexão. Com ministérios estratégicos (Planejamento e Orçamento, encabeçado por Simone Tebet; Cidades, por Jader Filho; e Transportes, por Renan Filho), o partido colhe resultados que ajudam a reforçar a aliança. Programas como o Minha Casa, Minha Vida, e os investimentos em infraestrutura liderados por Renan Filho são mencionados como ativos políticos. Para o deputado, essa participação torna natural não apenas a sustentação do governo, mas uma convergência eleitoral. Nos bastidores, o movimento já alcança até a negociação da vice na chapa de Lula, hoje discutida com o MDB e capaz de tensionar antigos arranjos, como a permanência de Geraldo Alckmin na dupla.
O cálculo é pragmático. Ao se reconhecerem como coautores das vitórias do governo, os partidos do Centrão passam a enxergar na continuidade mais um ativo do que um risco concreto. Ao menos essa é a leitura, e a aposta, do Planalto.
Fim da escala 6x1
“Querem produtividade no país? Reduzam a jornada de trabalho. Querem saúde para o trabalhador? Reduzam a jornada de trabalho. Querem qualidade de vida para o povo brasileiro? Reduzam a jornada de trabalho.” A frase, repetida como um refrão, foi dita pelo deputado Pedro Uczai (PT) na terça-feira, ao deixar a reunião da liderança do partido na Câmara. Ali, ao lado da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e de toda a bancada petista, selava-se a passagem de bastão de Lindbergh Farias para Uczai no comando do PT da Casa Baixa.
Desde então, o novo líder tem martelado a mesma ideia nos corredores do Congresso. A prioridade do governo é aprovar o fim da escala 6x1. O problema é o relógio. Os ponteiros correm contra o Planalto em duas frentes: o tempo regimental da tramitação e o tempo político da costura de apoios.
Segundo interlocutores próximos a Hugo Motta, a relação do presidente da Câmara com o Planalto sempre foi razoável, mas perdeu o compasso no segundo semestre do ano passado, após uma sequência de atritos envolvendo o então líder do PT, Lindbergh Farias. O ponto de inflexão teria sido a escolha do deputado Guilherme Derrite (PP), aliado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (àquela altura ainda o nome mais cotado como possível oponente de Lula nas urnas), para relatar o PL Antifacção, projeto gestado no próprio Planalto. Ela veio na sequência da ofensiva da esquerda ao carimbar que o Congresso é o inimigo do povo, que, por sua vez, veio depois da tentativa de se aprovar a PEC da Blindagem. A escolha de Derrite foi lida pelo PT como um gesto político, não apenas regimental, e aprofundou a desconfiança entre as partes. Por ora, no entanto, os ventos são outros.
Entre governistas, a avaliação é de que o fim da escala 6x1 reúne um ativo raro: popularidade e impacto direto no cotidiano do eleitor. Não embarcar nessa agenda pode sair caro. Segundo fontes do Planalto, está em amadurecimento uma proposta do próprio governo, a ser enviada ao Congresso em regime de urgência, com o objetivo de aglutinar as quatro iniciativas hoje em tramitação. O Planalto, porém, descarta qualquer modelo que resulte, na prática, em aumento da carga horária semanal. O recurso à urgência serviria justamente para vencer o obstáculo do tempo legislativo. Propostas com esse status não passam pelas comissões e devem ser apreciadas em até 45 dias. Se o prazo for estourado pode inclusive trancar a pauta da Casa.
A movimentação, contudo, não é exclusiva do governo. Apresentar uma proposta própria que consolide os projetos existentes também entrou no radar da oposição. O líder oposicionista na Câmara, Cabo Gilberto (PL), admitiu apoio ao fim da escala 6x1, desde que as horas trabalhadas em seis dias sejam redistribuídas em cinco. Para alcançar esse “meio-termo”, diz, sua bancada estuda protocolar um texto alternativo. O debate, pondera, ainda está imaturo. Por enquanto, a oposição tem mais com o que se preocupar. O governo também.
O obstáculo Master
Na mesma terça-feira em que Pedro Uczai era apresentado como o novo líder do PT na Câmara, o Salão Verde se enchia de deputados do PL. Aos montes, formaram um círculo no centro do espaço. E riam, e conversavam, e celebravam. Haviam finalmente alcançado, e até ultrapassado, o número de assinaturas necessário para protocolar o requerimento de criação de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) destinada a investigar o Banco Master e a fraude financeira envolvendo a instituição. Para a instalação de uma comissão mista, são exigidas 171 assinaturas de deputados e 27 de senadores, o equivalente a um terço da Câmara e do Senado. Segundo o deputado Carlos Jordy (PL), o pedido reuniu o apoio de 42 senadores e 236 deputados.
Esperaram a imprensa se posicionar e só então anunciaram o feito, em coletiva. O recém-empossado líder da oposição na Casa, Cabo Gilberto, ocupou o centro diante do microfone. Logo atrás, comprimiam-se rostos conhecidos da tropa bolsonarista: Capitão Alden, Chris Tonietto, Altineu Côrtes, Caroline de Toni, Delegado Caveira, Domingos Sávio, Helio Lopes, Rodolfo Nogueira, Bia Kicis, Zé Trovão, Sargento Gonçalves, Coronel Fernanda, além do senador Magno Malta. Somavam-se ainda Marcel Van Hattem e Adriana Lima, do Novo. O último a romper o cordão humano e alcançar o microfone foi Jordy, responsável pela articulação que viabilizou a coleta das assinaturas.
Cabo Gilberto abriu espaço para que Jordy tomasse a palavra. O deputado concentrou a fala em críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo Lula. Com a Corte na mira, questionou a condução do caso pelo relator, Dias Toffoli. “Esse ministro jamais era pra ser relator do caso, era pra ser investigado”, afirmou. Em relação ao Executivo, citou o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, lembrando sua atuação como consultor do Banco Master após deixar o STF e classificando sua posterior saída do governo como uma “confissão de culpa”. Também mencionou “agendas secretas” envolvendo o então dono do banco, Daniel Vorcaro, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente Lula.
A ofensiva se estendeu à base governista no Congresso. Jordy acusou o antigo líder do PT, Lindbergh Farias, de “jogo de cena” ao sinalizar apoio à apuração do caso. Argumentou que os pedidos de CPI citados pelo petista não avançariam e defendeu que apenas a CPMI protocolada pelo PL reunia condições reais de instalação. “Se ele quer fazer a apuração do caso, se quer que esse governo seja levado a sério, tem que assinar o nosso pedido de CPMI”, disse. O discurso dialogava com um ambiente político mais amplo. A mobilização em torno do caso Master atravessou, sem pedir licença, a pauta do Legislativo. E provocou uma disputa pelos holofotes.
Ainda na terça, a CPI do Crime Organizado previa ouvir o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que declinou do convite. Indicou o secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar, mas quem compareceu foi o secretário-executivo Alexandre Patury, o “substituto do substituto”, o que levou ao cancelamento da reunião. No dia seguinte, foi a vez de o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, adiar sua oitiva, sob a justificativa de viagem à Europa. Um dia antes, a Polícia Federal havia prendido o ex-presidente do Rioprevidência, indicado por seu governo. Castro deverá prestar depoimento na próxima semana sobre os investimentos do fundo no Banco Master.
No Senado, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), presidida por Renan Calheiros (MDB), instalou uma subcomissão, uma espécie de “mini-CPI” para acompanhar as investigações relacionadas ao caso, com previsão de depoimentos e requisição de documentos. Integrante da base do governo, Calheiros afirmou que seus questionamentos se estenderão a Lula. “Todos que estiveram na reunião podem colaborar com essa comissão. Ao presidente da República, pretendemos fazer algumas perguntas por escrito”, disse, referindo-se a encontros de Vorcaro no Palácio do Planalto que não constaram na agenda oficial.
Mas a maior ofensiva partia daquele microfone tomado por Jordy. Ele ancora sua estratégia no artigo 21 do regimento interno do Congresso Nacional, que prevê que, uma vez lido em sessão conjunta o requerimento de criação de uma CPMI com as assinaturas exigidas, sua instalação é automática. Ou seja, não depende de deliberação do plenário nem de juízo político do presidente do Congresso. Tradicionalmente, essa leitura ocorre na sessão seguinte ou na primeira sessão convocada após a confirmação do quórum. “Não cabe conveniência. O presidente do Congresso não decide se instala ou não. Se não o fizer, pode incorrer em crime de responsabilidade”, esbravejou Jordy. A rigidez da norma, no entanto, esbarra na maleabilidade do calendário.
Quem sabe faz a hora
A primeira sessão conjunta do Congresso Nacional concentra outra prioridade da oposição: a votação que decidirá se o Legislativo mantém ou derruba o veto do presidente Lula ao projeto da dosimetria. A pauta é essencial para parlamentares bolsonaristas, que poderão (ou não) dar uma reposta ao eleitorado, uma vez que o projeto reduz penas de envolvidos nos atos de 8 de janeiro, inclusive do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Como o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil), ainda não se mostra disposto a autorizar a leitura do requerimento da CPMI, a convocação dessa sessão vem sendo postergada.
Na quarta-feira, o líder da oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL), ligou para Alcolumbre em busca de uma definição. Ele não é o único líder de partidos de direita que tenta exercer pressão, ouvindo que a conversa fica para depois do Carnaval. O adiamento acende um alerta duplo. Se a sessão escorregar para março ou, no limite, abril, a CPMI do Master passa a correr contra um relógio ainda mais apertado. Teria pouco fôlego político para produzir efeitos concretos antes de ser engolida pelo calendário eleitoral. O prazo inicial de funcionamento é de 180 dias, prorrogável por mais 90, mas, a partir de julho, o Congresso esvazia. Quem se propõe a investigar deixa a cadeira para ocupar o palanque.
Nesse compasso truncado, a oposição corre o risco de tropeçar no próprio passo e acabar criando um conflito de agendas que fragiliza sua pauta dupla. “A CPMI acabou atrapalhando a votação da dosimetria”, admite Izalci.
Do lado do governo, a votação do veto também permanece no horizonte. Integrantes do Planalto afirmam que ainda construirão os votos necessários para barrar a derrubada. Admitem, no entanto, que qualquer costura neste sentido ficou, igualmente, para depois do Carnaval. Depois do Carnaval, também, Lula promete outro jantar, desta vez para a Casa Alta. Parece que depois da folia Ratinho Jr. e Flávio Bolsonaro também iniciam suas campanhas presidenciais no Brasil, depois de viagens internacionais. Tem coisa que só começa mesmo depois do Carnaval.
Rojava: o fim de uma utopia igualitária no Oriente Médio
A internet estava intermitente. A conexão caía, voltava, e as comunicações com Kobani — uma das cidades-símbolo da luta dos curdos contra o Estado Islâmico, mais de uma década atrás — permaneciam extremamente difíceis. As forças do Exército regular da Síria, reforçadas por ex-combatentes do EI desde que Ahmed al-Sharaa assumiu o poder após a queda de Bashar al-Assad, avançavam rapidamente em direção à cidade. Um novo cerco, como em 2014, começava a se formar. A pequena Kobani, destruída e reconstruída ao longo dos últimos anos, já estava sem fornecimento regular de energia e água e sobrevivia com os parcos estoques de comida de seus moradores. O passado recente retornava, outra vez com ares de tragédia, no mesmo palco, com os mesmos atores.
Mahmoud Bali viveu intensamente os dramas e tragédias de 2014. Viu combatentes do Estado Islâmico tomarem metade de sua cidade, matarem muitos de seus amigos e sequestrarem mulheres das vilas próximas para as tornarem escravas sexuais — prática que o Estado Islâmico adotaria contra diferentes etnias nas regiões que ocupou no norte da Síria e do Iraque. Há duas semanas conseguimos nos comunicar brevemente, com Kobani já praticamente sitiada por milícias aliadas a Damasco. “Nós vamos lutar, Yan. Não há o que fazer. Vamos lutar.”
Mahmoud foi meu tradutor e guia no nordeste da Síria por uma década. Juntos, visitamos Raqqa após a derrota do Estado Islâmico, percorremos os grandes campos de concentração onde dezenas de milhares de mulheres e homens do grupo terrorista estavam presos e acompanhamos as últimas batalhas contra o EI, já na fronteira entre a Síria e o Iraque. Mahmoud, como todos os curdos dessa parte da Síria, experimentou os extremos opostos do iminente massacre ao florescer da única experiência democrática, laica e de igualdade genuína de gênero em uma região do mundo marcada pelo patriarcado mais arraigado. Na nossa última troca de mensagens, antes de as comunicações serem cortadas, Mahmoud escreveu apenas: “Good bye, my friend”.
Mahmoud está vivo. Mas a sociedade igualitária pela qual ele e seus compatriotas curdos lutaram — e pereceram — ao longo dos últimos 12 anos morreu. Rojava, uma vasta área no nordeste da Síria controlada pelos curdos após o início da guerra civil contra Bashar al-Assad, em 2011, foi um experimento único no Oriente Médio e que, muito provavelmente, demorará a se repetir nesta região do mundo onde a força define o destino das ideias. Ali, nas planícies ora férteis, ora áridas, entre os míticos rios Eufrates e Tigre, os curdos tentaram construir um proto-Estado de inspiração marxista-leninista, no qual as mulheres ocupavam posição central no desenvolvimento comunitário e político. Rojava buscou, pela primeira vez no Oriente Médio, criar uma estrutura burocrática em que mulheres e homens tinham papéis — ainda que, em muitos casos, apenas teoricamente — igualitários.
Rojava foi, ainda que imperfeitamente, a realização de uma utopia em que gênero, riqueza e força não ditavam os rumos do coletivo. Homens e mulheres tinham — ou tentavam ter — a mesma voz naquele enclave curdo espremido entre o autoritarismo turco de Erdogan e a intolerância sunita em sua forma mais radical que tentou dizimá-los. Em cada cidade havia sempre um prefeito e uma prefeita. Em cada repartição pública, uma diretora e um diretor. Em cada escola, universidade ou associação de bairro, mulheres e homens compartilhavam o poder. Mesmo nas forças armadas havia uma tentativa de equanimidade. Em Rojava existiam um exército masculino, o YPG, e um exército exclusivamente feminino, o YPJ.
Nas ruas, as mulheres tinham o direito de se vestir como bem entendessem. Em 2024, enquanto passeava por um novo parque em Qamishli, a capital de Rojava, me vi perdido no tempo, observando mulheres desfilarem por alamedas cortadas por pequenos canais de água corrente, com vestidos colados ao corpo, maquiagem pesada e sapatos de salto agulha. Não muito longe dali, tomei chá com um pelotão de combatentes do YPJ, que me explicavam que a luta era libertar as mulheres da opressão masculina. Rojava, ainda sob Assad — que por décadas perseguiu os curdos —, vivia um momento especial. Parecia navegar em águas calmas, mas que invariavelmente desaguariam em corredeiras perigosas.
O turbilhão chegou rápido, como sempre acontece nessa parte do mundo. Desde que assumiu o poder com apoio da Turquia, dos Estados Unidos e de potências regionais que se opõem ao Irã, Ahmed al-Sharaa vem lutando de forma violenta e, por vezes, bárbara, na tentativa de subjugar os grupos que fazem da Síria uma colcha de retalhos multiétnica. Contra os alauítas, o ramo do islã ao qual pertence Assad, permitiu que milícias apoiadas pelo Exército cometessem um massacre na região costeira do país, deixando mais de mil mortos. No sul, onde vivem os druzos, houve outro massacre, com centenas de mortos, interrompido por Israel — que também abriga uma população curda e aproveitou os eventos violentos para, na prática, ocupar parte importante do sul da Síria.
Em seu projeto de unificação — sempre sob o risco de uma desintegração aos moldes da antiga Iugoslávia —, faltava dominar Rojava. Além de abrigar a experiência autônoma mais bem estruturada do país, Rojava concentra as maiores áreas de produção de petróleo da Síria. Além disso, foram os curdos, com intenso apoio americano, que ao fim e ao cabo derrotaram o Estado Islâmico — grupo intrinsecamente ligado ao passado de Sharaa.
Até assumir a presidência da Síria, Sharaa usava o nome de guerra Abu Mohammad al-Jolani. Foi comandante da Al Qaeda, do Estado Islâmico e da Jabhat al-Nusrah — todos grupos jihadistas adeptos do ramo mais radical do islã sunita, o wahabismo. Até a queda de Assad, os Estados Unidos ofereciam recompensa de US$ 10 milhões por informações que levassem à sua prisão ou morte. Jolani criou um novo grupo quando o Estado Islâmico foi destruído pelos curdos com apoio americano — o Hay’at Tahrir al-Sham — e passou a dominar Idlib, a última província sob controle sunita na Síria.
Com apoio turco, Jolani adotou postura menos radical, afastou-se dos grupos jihadistas que seguiam na clandestinidade e adotou tom conciliatório com potências regionais. Por cinco anos, o governo Assad, com apoio russo, tentou retomar Idlib, mas não conseguiu. A província tornou-se porto seguro de combatentes de diferentes facções, especialmente os mais radicais. Foi de Idlib que Jolani iniciou sua marcha em direção a Damasco, derrubando Assad em apenas oito dias. Lembro-me de caminhar pelas ruas da capital síria na mesma semana em que Assad fugiu do país e ver combatentes de Jolani ainda usando insígnias do Estado Islâmico em seus uniformes.
Rojava nasceu e morreu sob os auspícios americanos, em uma aliança militarmente pragmática, mas ideologicamente contraditória. Em 2014, quando Kobani estava prestes a ser dizimada pelo EI, o então presidente Barack Obama decidiu intervir contra o grupo, que havia conquistado em poucos meses um território do tamanho da Grã-Bretanha, com 12 milhões de habitantes sob o domínio do califa Abu Bakr al-Baghdadi. Temendo um massacre sem precedentes, Obama autorizou bombardeios americanos ao redor de Kobani, convenceu Erdogan a abrir um corredor para combatentes curdos da Turquia e do Iraque e, via CIA, iniciou um programa de treinamento e armamento do YPG.
Assim nasceu Rojava: uma experiência financiada com dinheiro, armas e assistência de Washington e baseada na ideologia marxista-leninista do líder curdo Abdullah Öcalan — Apo, ou “tio”, no dialeto kurmanji. Apo é um dos fundadores do PKK, movimento separatista que travou uma guerra sangrenta contra a Turquia por quatro décadas. Ele defende que a libertação das mulheres do patriarcado é condição central para uma sociedade livre, critica ferozmente o capitalismo e sustenta que os Estados-nação são fontes primárias de opressão e violência. Para ele, autodeterminação e autonomia são pilares de uma ordem mais justa. Apo está preso e incomunicável em uma ilha turca desde 1999.
Por isso, o apoio americano a Rojava sempre foi contraditório, marcado por altos e baixos e por permanente desconfiança mútua. Apesar de terem sido aliados centrais dos Estados Unidos nos estágios finais da Guerra ao Terror, os curdos sempre foram tratados como atores secundários pela Casa Branca — e frequentemente traídos em nome de interesses maiores. Em 2018, Donald Trump permitiu que Erdogan invadisse Rojava com apoio de milícias sunitas, tomando grandes áreas do território curdo. A traição custou cidades, vilas e a vida de dezenas de civis e militares. “Nos esfaquearam pelas costas”, dizia-me um comandante curdo naquele ano, enquanto me levava à linha de frente.
Desta vez, a traição foi total. Trump prometeu não intervir desde que Damasco permitisse a transferência de cerca de sete mil combatentes do Estado Islâmico sob custódia curda para bases americanas no Iraque. Sem apoio externo, cercados e enfrentando um inimigo muito maior, os curdos sucumbiram. Na semana passada, assinaram um acordo que, na prática, encerra Rojava. Em troca, acreditam, evitaram mais um massacre. Agora, Damasco controla todas as regiões antes administradas pelos curdos. Toda a infraestrutura burocrática igualitária está sendo desmontada. O exército masculino será integrado às forças sírias. O YPJ, com milhares de combatentes mulheres, será dissolvido.
Consegui voltar a falar com Mahmoud nesta semana. Ele e sua família estão bem. Mas a incerteza ronda a tudo e a todos. Muitos dos que agora chegam para dominar foram, um dia, dominados. Os perdedores do passado venceram. Ainda é cedo para saber se os compromissos de uma transição pacífica se concretizarão. Mahmoud diz que segue acreditando na filosofia de Apo e espera que, um dia, Rojava volte a existir. Mas, por ora, afirma, o desafio é sobreviver.
“This is the Middle East, my friend.”
Ao vivo no escritório
Toda a atmosfera é envolta em mistério. A começar pelo convite. Você sabe que haverá uma gravação do Tiny Desk Brasil, o horário e o local. E mais nada. Mesmo o local não deixa de ser um tanto enigmático. Quem assiste à versão brasileira do clássico programa da NPR (National Public Radio), a rádio pública norte-americana, vê o cenário aconchegante e imagina uma casinha gostosa em um bairro tranquilo. Nada mais longe da realidade. As gravações acontecem na cobertura do prédio do Google, na avenida Faria Lima, o pulso financeiro de São Paulo.
Poucas horas antes do evento, você recebe as instruções para conseguir acessar o prédio, aquela coisa corporativa tradicional aliada à tecnologia, com formulário digital para preencher com seus dados e a obrigatoriedade de realizar um cadastro com reconhecimento facial. Quando se é liberado para subir ao último andar da torre A, mais uma barreira. Você precisa se identificar para receber um crachá para entrar no estúdio e um saco para guardar seu celular na hora de ir para a gravação, além de assinar um termo para liberar o uso de sua imagem, caso a câmara passe pelo seu rosto, o que qualquer pessoa que já tenha assistido aos programas no YouTube sabe que é uma hipótese bastante rara.
No total, somos apenas 40 pessoas nessa plateia, entrando aos poucos numa sala com uma sacada onde são servidos, além dos tradicionais pães de queijo e suco de laranja, cervejas sem álcool de uma das marcas que patrocinam o projeto. Entre as 40, vários rostos conhecidos, principalmente do mundo da música. A plateia é formada somente por convidados. A atração musical tem alguns poucos convites, assim como a produção. Apenas um jornalista é convidado por sessão. A maior parte dos convites é feito pelas marcas que patrocinam ou pelo YouTube, que cuida da distribuição e da comercialização do Tiny Desk e convida potenciais anunciantes para viver essa experiência.
E é de fato uma experiência única. Só ao se reunir antes da apresentação é que as pessoas convidadas descobrem quem vão ver e, o que a torna mais especial é o fato de que, quando a entrada para ver o show é liberada, todos os celulares são devidamente ensacados. Com isso, tem-se uma atmosfera bem diferente daquela que costumamos ver em apresentações ao vivo. Livres do celular, da vontade daquele registro midiático, quem está na plateia consegue se concentrar no que interessa: a música.
Manter o segredo e esse clima é essencial para “que quem estiver tenha a mesma experiência do público que assiste pelo YouTube, que vai saber quem é o artista convidado na hora em que o episódio vai ao ar na terça às 11h”, diz Bárbara Teixeira, CEO da Anonymous Content Brasil, que trouxe o programa para o país junto com a Amabis, formada pelos irmão Mainha, Rica e Gui Amabis, que também assinam a supervisão musical.
E também tem a ver com a própria criação do programa original. Reza a lenda que os criadores da série para a NPR tinham ido a um festival de música e não conseguiram ouvir o show de Laura Gibson porque a plateia falava o tempo todo. Stephen Thompson e Bob Boilen então tiveram a ideia de convidá-la para uma sessão nos estúdios, gravada de forma intimista. Isso há 16 anos. Essa atmosfera íntima é replicada no Brasil.
O cenário é uma adaptação daquele ambiente dos programas originais, com uma escrivaninha forrada de livros e uma estante feita de brasileiríssimos cobogós repleta de livros, discos, fotos, cartazes e objetos. Uma das coisas mais legais, inclusive, são esses objetos. Cada artista que passa pelo Tiny Desk Brasil deixa um suvenir, alguns mais óbvios, como o banjo de Péricles ou o cartaz da última turnê de Alceu Valença, outros mais íntimos, como o boné de Manoel Cordeiro. Uma brincadeira bacana para quem assiste é tentar achar esses easter eggs e adivinhar quais serão os próximos artistas a se apresentar por lá.
O dia em que estive no estúdio era o último das gravações da segunda temporada, iniciadas no começo do ano. Mas Bárbara confirmou que podemos esperar programas o ano todo, com novas gravações retornando em abril. “O projeto vai continuar existindo porque temos a sorte de ter patrocinadores que acreditam em investir no valor que é a música. Porque muito mais do que botar uma garrafa de uma marca na nossa prateleira, que não é uma coisa que a gente faz, porque é um projeto que nasce de um lugar do jornalismo, a gente oferece essa possibilidade para a marca de estar inserida e se associar a esse valor que é a paixão pela música”, conta.
E o Tiny Desk é sobre essa paixão, tanto no original quanto no Brasil. Quando os músicos entram no estúdio para gravar, o clima é mágico, de total atenção, com uma plateia quente aglomerada de frente ao cenário, curtindo o show, dançando e cantando junto. Ao todo são cinco canções, gravadas de forma ininterrupta. Diferentemente de concertos normais, ali naquela pequena sala, atrás da escrivaninha, os artistas tocam ouvindo uns aos outros, sem caixas de retorno, apenas o som dos instrumentos e de seus amplificadores, um desafio que esquenta ainda mais a performance.
“Tem a ver com capturar um momento. Isso é uma coisa que a gente aprendeu na NPR. Por que a gente não edita o som? Por que a gente não tem corte? Por que é um take sem retorno e sem a duplicação de voz? Porque é um momento. Então, se tem erro, a gente preserva porque o erro faz parte, sabe?”, analisa Bárbara, que compara a experiência com ligar o rádio sem saber o que vai tocar e também com a tendência dos tempos dilatados que vemos hoje na ficção, “como os planos sequências de Adolescência, ou com The Pitt, que é um tempo corrido de um turno de hospital.”
A curadoria do Tiny Desk é 100% brasileira, mas é discutida com a NPR. Desde que foi ao ar em outubro do ano passado com a sensação do piseiro João Gomes, passaram por lá artistas de diferentes regiões, estilos e gerações, de Ney Matogrosso a Tim Bernardes, de Arnaldo Antunes a Metá Metá com Negro Leo.
Sobre a curadoria, Mainha Amabis diz que o próprio formato desafia o artista a criar algo especial para o projeto. “A gente tem visto o nervoso, toda a preparação e a cabeça dos artistas para pensar algo dentro desse formato. O que a gente fala primeiro é que tem de ter um desejo muito grande daquele artista fazer isso, que é um pouco passar pela sua trajetória musical, pensar quem é ele musicalmente e transpor isso para um arranjo que vai funcionar naquele naquele espaço e naquelas condições”, analisa, reforçando que é um programa de legado. “E aí nós fazemos reuniões, ensaios”, completa Rica Amabis.
Todo o processo é intuitivo e orgânico, e leva em conta não só um alcance nacional e diversidade regional como o desejo de apresentar “pérolas da música brasileira”, como diz Mainha. Quando curadoria e artista dão match, os nomes são submetidos à NPR. “Eles aprovam tudo no fim do dia, porque eles são uma redação de jornalistas musicais da melhor qualidade e o conhecimento deles sobre música brasileira é algo muito impressionante. A gente sempre se surpreende, porque não é que eles escutam duas faixas no Spotify e falam sim ou não. Eles vêm com análise. São os guardiões do projeto”, diz Bárbara. Os episódios finalizados também são aprovados pelos norte-americanos.
Esse cuidado todo que faz com que a experiência de ver um dos concertos do Tiny Desk in loco como fiz nesta semana ou pelo YouTube traga uma aura especial para quem realmente curte música. Dá um certo ânimo saber que o projeto está com todo gás aqui no Brasil, crescendo com mais velocidade do que os dois outros Tiny Desk internacionais, feitos na Coreia do Sul e no Japão.
Sobre quem eu vi, você vai ter de descobrir junto com todo mundo quando esse episódio for ao ar numa terça feira, às 11h da manhã. Mas eu posso dizer que foi realmente especial, mesmo para uma pessoa como eu, que há mais de vinte anos tem o hábito de ver mais de um show por semana.
Nesta semana lançamos o Painel Ideológico do Meio, um teste baseado na pesquisa do cientista político Christian Lynch. Ele vai além dos rótulos de direita e esquerda e mostra como você organiza suas crenças políticas a partir de três eixos centrais. Em poucas perguntas, o resultado ajuda a se localizar com mais precisão no cenário político brasileiro. Se ainda não fez, fica o convite: descubra qual é a sua ideologia.
Mais do Meio. Nos links mais clicados da semana pelos leitores, só deu nosso próprio jornalismo — e isso nos enche de orgulho. Confira:
1. Meio: Faça o teste para saber qual a sua ideologia.
2. Meio: A rodada de fevereiro da pesquisa Meio/Ideia.
3. Meio: Ponto de Partida — O buraco do Master é fundo.
4. UOL: Checagem da entrevista do presidente Lula.
5. Meio: Nosso Compara Pesquisas, também em parceria com o Ideia.


























