Bets e endividamento: o boomerang eleitoral que o governo criou
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Fabiano nunca teve sorte. No sertão de Graciliano Ramos, o vaqueiro de Vidas Secas era explorado pelo patrão, enganado pelo fiscal e humilhado pelo soldado amarelo, e ainda assim seguia, porque não havia outra saída visível. Graciliano escreveu esse personagem em 1938. Não precisou imaginar plataformas digitais para retratar algo que o Brasil insiste em reproduzir: o homem pobre, jovem, encurralado por um sistema que lhe fecha as portas e lhe vende, pela fresta que sobra, a fantasia do acerto. O algoritmo mudou. A armadilha, não.
Levantamento do TCU, com dados do Banco Central, mostrou que beneficiários do Bolsa Família transferiram cerca de R$ 3,7 bilhões para plataformas de apostas (bets) em um recorte de apenas um mês, em janeiro de 2025. Poderia se afirmar, a partir desses dados, que o governo transfere renda com uma mão e parte migra para as plataformas pela outra. Depois disso, o governo já tomou diversas medidas para tentar evitar esse derramamento, no entanto elas têm se mostrado paliativas.
O perfil do apostador brasileiro tem contrastes importantes e evidentemente não se concentra nos beneficiários dos programas sociais. Diríamos que o buraco é mais amplo. Pesquisa Meio/Ideia de maio mostra que 29% dos homens apostaram online nos últimos 30 dias, contra 22% das mulheres. As faixas mais ativas são as de 25 a 34 e 45 a 59 anos. E o fenômeno já atravessou a porta de casa: 34% dos adultos entre 25 e 34 anos afirmam que um familiar apostou recentemente e 31% acreditam que alguém da família aposta sem contar para ninguém. É o retrato estatístico de Fabiano multiplicado por milhões. E passa, assim, a ser tema central das eleições presidenciais.
Homens apostam mais, perdem mais e defendem mais a continuidade do setor: 27% são favoráveis à manutenção das bets, contra 21% das mulheres. São as mulheres, porém, que administram as consequências: contas atrasadas, orçamento refeito às pressas, filhos sem material escolar. No romance de Graciliano, era Sinhá Vitória quem segurava a família enquanto Fabiano tropeçava. Em 2026, essa geometria se repete. E vota.
Os dados da pesquisa Meio/Ideia são inequívocos: 60% das mulheres acreditam que as bets contribuem para o endividamento das famílias brasileiras, e 48% defendem a proibição total das casas de apostas no Brasil, contra 40% dos homens. Isso pode representar uma demanda política organizada, com peso eleitoral concreto: as eleitoras representam 52,8% do eleitorado brasileiro, 82,8 milhões de mulheres aptas a votar. Não custa lembrar que a decisão das eleições passa pelas mulheres, assim como foi em 2022.
O governo enfrenta constrangimentos simultâneos. Primeiro, a contradição arrecadatória: restringir as bets significa abrir mão de quase R$ 10 bilhões anuais, equivalente ao que o governo arrecadou entre impostos e taxas no primeiro ano completo de regulação, 2025, receita obtida às custas do endividamento da base eleitoral que mais precisa mobilizar. Segundo, o fosso entre a norma e o mercado real: as plataformas ilegais seguem ativas aos milhares e restrições às autorizadas empurram os apostadores para o mercado clandestino.
Terceiro, o problema comportamental: 69% do público entre 35 e 44 anos já reconhece que as bets estão viciando os brasileiros. A experiência americana mostra que o desvio de renda para apostas é permanente, não temporário. Estamos diante de uma bomba relógio socioeconômica.
Em Vidas Secas, Fabiano sente no corpo que algo está errado, mesmo sem nomear o sistema que o oprime. O apostador endividado de 2026 também sente. A mulher que recompõe o orçamento depois dele também sente. A questão política não é condená-los, é perguntar quem construiu a mesa, quem lucrou com o jogo e quem agora, às vésperas da eleição, deveria apagar as luzes do cassino.


