O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

Edição de Sábado: Eleitor liberal procura

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

“Um centro mais radical.” Foi assim que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, definiu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em entrevista ao Canal Livre. Na mesma fala, antes sequer de terminar a frase, classificou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como “um centro com posições mais conservadoras, mais à direita”, e posicionou o incumbente do Paraná, Ratinho Júnior, entre ambos, com “um perfil intermediário”. Naquele momento, há cerca de um mês, Kassab ainda mantinha os três nomes na sua estratégia. Caberia a ele escolher um para disputar a Presidência, alguém capaz de encarnar uma candidatura que oferecesse ao eleitor uma alternativa fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com o terno azul escuro alinhado, o olhar firme e a sobriedade que lhe são típicos, deixou escapar pistas sobre o critério de escolha.

“O eleitor que a gente procura é aquele que quer mudar, que quer fugir da polarização, mas quer que dê certo. Ele não quer perder o voto. Nesse clima de polarização, o cara que odeia o Lula vota no Bolsonaro. O cara que odeia o Bolsonaro, se perceber que esse candidato de centro não tem chance, não vai votar. Vai ficar na polarização, vai escolher aquele que odeia menos. Então, o nosso desafio é encontrar um candidato que traga confiança de vitória ao eleitor que quer fugir da polarização.” Confiança de vitória. Era nisso que se apoiava, até então, sua principal aposta: Ratinho Júnior, o mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais entre os três. Kassab não esperava um revés. Mas ele veio.

“O governador Ratinho Júnior decidiu concluir seu mandato no Paraná até dezembro deste ano”, dizia a nota do paranaense enviada à imprensa. A desistência pegou todos de surpresa, inclusive Kassab. A decisão só foi tomada, de fato, na noite de domingo, depois de uma conversa em família. Ali, sobre a mesa, um elemento difícil de contornar: o risco político. O alerta veio do pai. As investigações em torno do banco Master, avaliou ele, poderiam contaminar uma eventual campanha presidencial. O receio cresce à medida que avançam as negociações de delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e de seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro. Entre os pontos que devem emergir nos depoimentos está a aquisição, por cerca de R$ 35 milhões, de uma participação no resort Tayayá, no Paraná.

Além disso, a maré política virou em casa. O senador Sérgio Moro oficializou sua filiação ao PL para disputar o governo do Paraná. Um partido que ensaiava aliança e chegou a cogitar Ratinho como vice numa chapa com Flávio Bolsonaro, abandonou o barco. Diante das águas agitadas, Ratinho Jr. optou por não zarpar rumo à disputa nacional.

Quem ficou a ver navios foi Gilberto Kassab. No mesmo dia do anúncio da desistência, recebeu Ronaldo Caiado em sua casa — que, com a saída do plano A, passou a ser lido como o favorito. Em vez de recuar, Eduardo Leite partiu para a ofensiva: concedeu entrevistas, se apresentou como alternativa viável e elevou a pressão sobre Kassab. Na quarta-feira, foi recebido pelo presidente do PSD e saiu do encontro deixando o recado: “Destaquei ao presidente Kassab, com todo o respeito que o governador Caiado merece, mas aquilo que ele procura representar já tem representante. Essa eleição precisa ter uma candidatura ao centro.” A disputa interna do PSD tem data para acabar: não passa de terça-feira, dia 31 de março.

Ainda não sabemos qual será a decisão do partido de Kassab. Mas se a escolha for Caiado, e não Leite, esta será a primeira eleição da Nova República em que uma voz liberal estará ausente da corrida. Mesmo numa eleição radicalmente polarizada, como a de 2022, esse conjunto de ideias estava lá, representado por Simone Tebet. O problema não é só o desaparecimento de um jeito de pensar o Brasil. A causa não é só a autodestruição do PSDB. O liberalismo é a ideologia fundadora do país. É o que inspirou os inconfidentes de Minas Gerais e a confederação de Frei Caneca. Quando todos os partidos concluem que o eleitorado não quer ouvir uma voz liberal, isto não é só sintoma. É causa da crise democrática.

Na tradição de Rui Barbosa a José Guilherme Merquior, do Benjamin Constant francês, do visconde de Tocqueville ou Norberto Bobbio, o que o liberalismo representa na política é seu eixo de moderação institucional. Quando numa República todos perdem a capacidade de enxergar o outro lado como adversário legítimo e o substituem por um inimigo moral, é aí que a democracia é esganada. O que o liberalismo representa, mesmo quando minoritário, é a defesa do pluralismo, da tolerância, da legitimidade que há no debate. O Brasil tem uma tradição política liberal de 250 anos. Quando ela é calada é porque todos enxergam a eleição como uma guerra na qual ou se elimina o outro com uma vitória, ou se será eliminado.

De volta às bases

O cientista político Christian Lynch, colunista deste Meio, aponta que o liberalismo, mais do que uma ideologia específica, é o regime que permitiu a convivência entre diferentes correntes ao longo do tempo. “Uma revolução liberal cria o Estado de Direito e a democracia e, a partir daí, várias ideologias passam a operar dentro desse sistema.” Aliás, o próprio percurso histórico do liberalismo ajuda a entender esse papel. Como explica Lynch, a corrente nasce entre os séculos 17 e 18, em países como Inglaterra e Holanda, associada ao surgimento de uma nova classe ligada ao comércio e à defesa de limites ao poder absoluto. “A ideia era organizar a sociedade a partir de um governo constitucional e representativo, no qual o Estado existe para garantir direitos da sociedade civil”, afirma.

Na base desse pensamento está a noção de que a ordem política deve se fundar em um acordo, um contrato, entre indivíduos livres, e não mais na autoridade hereditária ou divina. É a partir daí que emergem conceitos centrais como Constituição, representação e divisão de poderes. Esse modelo se consolida com as revoluções liberais, como a Revolução Gloriosa e, depois, a Revolução Francesa, e se espalha pelo Ocidente ao longo do século 19, período em que o liberalismo se torna a linguagem dominante da política.

Essa “sociedade civil”, no entanto, estava longe de abranger toda a população. Naquele contexto, a participação política se organizava a partir de critérios de capacidade, como escolarização, renda e inserção social, refletindo a ideia, comum à época, de que o governo deveria ser conduzido por aqueles considerados mais aptos ao debate público. “Era uma espécie de aristocracia de mérito. Não eram os melhores por nascimento, mas os que se destacavam”, explica Lynch. Nesse modelo, o parlamento não era pensado como expressão direta da vontade popular, mas como um espaço qualificado de deliberação, onde diferentes interesses poderiam ser confrontados e negociados. A ampliação desse sistema viria apenas mais tarde, pressionada por transformações sociais e pela emergência de novas correntes políticas.

“O liberal acredita em pluralismo político. Parte da ideia de que a sociedade não é unânime e, por isso, o conflito de opiniões precisa ser institucionalizado”, diz Lynch. Nesse arranjo, o parlamento se torna o centro da vida política: é ali que divergências são organizadas, debatidas e transformadas em decisões de governo. Mais do que eliminar o conflito, o liberalismo busca dar a ele regras, convertê-lo em disputa legítima, mediada por instituições. Com o surgimento de novas correntes, como o socialismo e o conservadorismo moderno, esse arranjo se torna mais complexo. O liberalismo deixa de ser a única linguagem da política e passa a conviver com projetos que enfatizam, de um lado, a igualdade e, de outro, a autoridade e a tradição. Ao longo desse processo, também se transforma, incorporando elementos democráticos e sociais. “Ele passa a funcionar como uma espécie de árbitro entre forças que puxam para mais igualdade ou para mais autoridade”, resume Lynch.

É nesse papel que, segundo ele, o liberalismo se consolida como eixo de equilíbrio do sistema. “Esse centro funciona como um ‘miolo’ que ajuda a garantir a adesão dos candidatos de direita e esquerda à democracia. Os intermediários também cumprem o papel de reduzir a distância entre os governos, entre os programas de política pública. Esse miolo não precisa ser majoritário. É que, sem ele, o sistema tende a oscilar de um lado para o outro. Sua presença ajuda a sustentar a moderação.” Moderação que floresceu, embora por vezes em campos estreitos, em terras tupiniquins no período da redemocratização.

Moderação à brasileira

Em 1989, quando o sistema político buscava se reorganizar depois de duas décadas de regime militar, na primeira eleição direta pós-ditadura militar, se apresentaram Mário Covas (PSDB) e Ulysses Guimarães (PMDB). Ulysses, símbolo da Assembleia Constituinte e da reconstrução democrática, carregava uma candidatura mais ligada à institucionalidade do que à competição eleitoral tradicional, e acabou derrotado por uma dinâmica que já apontava para a fragmentação e a radicalização daquele pleito. Mas ali a moderação se fez presente. Depois de o primeiro governo eleito pós-ditadura terminar em impeachment, com a saída de Fernando Collor e a posse do vice, Itamar Franco, em 1994 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se coloca no páreo — e vence. Em 1998, se reelege.

“Eu vejo o episódio Fernando Henrique Cardoso mais como uma exceção que confirma a regra. Um candidato que é uma espécie de fusão da social-democracia com liberalismo, laico, intelectual, urbano. Isso aconteceu por um alinhamento de astros muito peculiar”, analisa Sérgio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso. Na visão dele, naquele momento, abriu-se um espaço para uma “centro-esquerda reformada”, que acabou se expressando sobretudo no PSDB, em aliança com um setor liberal-conservador também reformado, que aceitou a democracia e passou a jogar o jogo não só pelas regras, mas também pelos valores. Daí, em 2002, veio José Serra. Em 2006, Geraldo Alckmin. Serra tenta de novo em 2010. Em 2014, Aécio Neves. Todos chegam ao segundo turno, mas não conseguem vencer.

O problema é que o PSDB nunca conseguiu transformar o legado do governo FHC em marca, bandeira, identidade duradoura. “O PSDB num determinado momento resolveu que não tinha nada a ver com aquele legado, o que não faz o mais remoto sentido”, pontua Fausto. Ao abrir mão de defender o próprio passado, o PSDB foi perdendo densidade programática e se esvaziando como projeto político. No vácuo, o PT se mostrou mais eficiente. “O PT foi muito hábil em, ao mesmo tempo, estigmatizar a suposta herança maldita e se apropriar de algumas bandeiras. O PSDB foi se liquefazendo do ponto de vista de densidade programática.” Sem narrativa própria, os tucanos passaram a se definir pela negação: “Virou uma identidade pela negativa. É contra o PT.”

Esse esvaziamento cobrou seu preço quando o sistema político mudou de eixo. A ascensão de uma nova direita encontrou um partido já fragilizado. “Quando veio o tsunami da extrema direita, o PSDB já estava frágil, dividido, sem cara”, resume. O resultado foi um colapso que ultrapassa a sigla. “O naufrágio do PSDB é o naufrágio também desse centro democrático”, afirma, “que tinha um componente liberal importante.” Mais do que uma crise partidária, trata-se de um problema estrutural. Na leitura de Fausto, o Brasil nunca ofereceu terreno especialmente fértil para esse tipo de projeto. “A formação da sociedade brasileira, com enorme desigualdade, uma classe média relativamente pequena e frágil, nada disso propicia candidaturas liberais como a gente entende na Europa”, diz.

Em 2018, quando a extrema-direita já tinha um novo rosto, o de Jair Bolsonaro (PL), Geraldo Alckmin e João Amoêdo (Novo) se colocaram no pleito, mas tiveram desempenho limitado. Em 2022, já com a polarização cristalizada, Simone Tebet (MDB) se apresentou ao país como a voz liberal daquele ciclo. E agora, em 2026, as perguntas permanecem: haverá algum candidato liberal? Há espaço para isso? Antes de chegar lá, porém, é preciso entender como outra tentativa de reorganização desse campo também não conseguiu se consolidar.

Novo, a empreitada liberal que fracassou
Se o PSDB foi, por duas décadas, o principal veículo institucional do liberalismo democrático no Brasil, a tentativa mais recente de reconstruir esse campo se deu concretamente com o Partido Novo. Fundado em 2011 pelo empresário João Amoêdo, a sigla surgiu como uma resposta à crise de representação, propondo uma agenda liberal mais explícita, com ênfase em responsabilidade fiscal, redução do Estado e renovação política. Em 2018, essa agenda chegou à disputa presidencial Amoêdo. Ainda que com votação modesta, sua candidatura conseguiu inserir no debate público temas que até então orbitavam mais restritos a nichos.

Havia, ali, uma tentativa de reorganizar o liberalismo como identidade política assumida. Mas, poucos anos depois, essa experiência também se fragmentou. Para Amoêdo, o esvaziamento desse espaço começa pelo ambiente político mais amplo. “A gente partiu para um cenário de polarização onde o debate foi perdendo racionalidade. Hoje é muito mais um contra o outro do que uma exposição de ideias”, afirma. “Você não discute um plano para o país. Você reage a temas pontuais, sempre de forma binária.”

Esse ambiente, segundo ele, altera também a forma como o eleitor se relaciona com a política. “Os políticos passaram a ser tratados como celebridades. As pessoas tomam partido pelas figuras, não pelas ideias. A gente virou torcedor de político.” Mas há, na avaliação dele, um fator ainda mais determinante: o desenho institucional que passou a orientar os partidos. “Com o volume de dinheiro público — fundo partidário, fundo eleitoral e emendas — os partidos passaram a priorizar a eleição de bancada. A eleição presidencial virou secundária”, diz. “Hoje, o que importa para eles é eleger deputado federal, porque isso garante acesso a mais recursos. Não existe um plano para o Brasil. Existe um plano de manutenção de poder.”

Nesse contexto, candidaturas programáticas perdem espaço antes mesmo de nascer. O processo eleitoral vai sendo afunilado muito antes de a campanha começar. A própria trajetória do Novo, que buscou ocupar esse vazio, acabou sendo atravessada por essas distorções. Amoêdo relata um momento claro de ruptura. “Para mim, a virada foi quando houve a troca de gestão. Eu já tinha receios, mas ali ficou evidente que o partido começou a se desviar dos princípios que deram origem a ele.” Segundo ele, o descolamento se manifestou em decisões concretas. “O Novo começou a usar recursos públicos, coisa que a gente tinha se comprometido a não fazer. Passou a fazer alianças com partidos que tinham visões completamente diferentes. E começou a tomar decisões muito mais ligadas à manutenção de poder.”

A mudança, diz, também apareceu na postura política. “Inicialmente, o Novo não apoiava o bolsonarismo. Depois passou a fazer um apoio envergonhado. E hoje eu diria que é um apoio convicto.” Internamente, o processo veio acompanhado de um fechamento do espaço para divergência. Amoêdo cita a própria experiência como exemplo. “Quando eu declarei meu voto no Lula, mesmo fazendo todas as ressalvas, o partido entrou com um processo para me expulsar. Um partido que se dizia liberal tentando cercear a opinião de um filiado.” Depois do episódio, ele deixou a sigla.

Ainda assim, Amoêdo faz uma distinção importante: a ausência de uma candidatura liberal competitiva não significa que o eleitor rejeite essas ideias. “Poucos se definem como liberais, mas isso não quer dizer que o eleitor não esteja disposto a ouvir. O problema é que esse debate não está sendo colocado.” Sem esse espaço, ele acredita que o sistema tende a se empobrecer. No limite, o risco é de fechamento completo do jogo político. “Cada eleição vai estreitando mais as opções. E a gente volta sempre àquela lógica de votar no menos pior”, intui. “O problema é que, a cada eleição, o menos pior vai ficando muito próximo do pior.”

Ainda existem liberais no jogo
Apesar do esvaziamento de candidaturas nacionais, o liberalismo não desapareceu da política brasileira. Ele se fragmentou, se reacomodou e, em muitos casos, deixou de ser apresentado como identidade explícita. Para o pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo (MDB), o erro começa justamente na forma como o debate é colocado. “Mais do que o problema de não ter um candidato liberal, o problema é achar que isso, por si só, resolve alguma coisa. Não adianta falar que você é liberal. É falar qual é a sua solução para o problema.”

Na avaliação dele, há um descolamento entre o debate político e a realidade do eleitor, o que acaba tornando rótulos ideológicos pouco relevantes fora de bolhas muito engajadas. “Vai na rua e pergunta: ‘você é liberal?’. Ninguém sabe. Isso é papo nosso. O eleitor quer saber se a estrada está esburacada, se o filho está seguro, se consegue pagar as contas.” Essa desconexão, diz, é agravada por um ambiente político dominado por extremos e por uma lógica de comunicação que premia o conflito, não a moderação. “O algoritmo premia o escandaloso, o vexatório. Não premia quem está tentando resolver problema real.”

Ao mesmo tempo, Azevedo rejeita a ideia de que não haja espaço para candidatos liberais — desde que eles saibam se comunicar. “Claro que tem espaço. Mas isso exige estratégia, investimento pesado em comunicação, em pesquisa qualitativa. Comunicação não é achismo, é ciência.” Na prática, ele próprio tenta traduzir essa lógica em campanha, evitando o discurso ideológico e apostando em problemas concretos. “Ferrovia é de esquerda ou de direita? Morte na estrada é de esquerda ou de direita? Você precisa tirar a discussão desse lugar abstrato e trazer para o mundo real.” Essa estratégia passa também por uma leitura crítica do comportamento do eleitor — que, segundo ele, está cada vez mais distante da política. “Um adversário hoje é o desinteresse brutal das pessoas. Elas estão preocupadas em pagar boleto, cuidar da vida. Política virou coisa de uma minoria muito barulhenta.”

E, nesse cenário, insistir em identidades ideológicas rígidas pode ser mais um problema do que uma solução. “Existe espaço para um candidato liberal, desde que ele não faça disso a sua principal bandeira. Porque até explicar o que é liberalismo, já acabaram os 30 segundos de TV.” Essa percepção dialoga com uma leitura mais estrutural do cenário político. Para Luis Eduardo Lelis, consultor político-eleitoral e presidente do conselho administrativo do Livres, lideranças liberais continuam no jogo, mas estão dispersas, pressionadas pela polarização e, muitas vezes, recuando. “Eu não vejo que estão surgindo lideranças. Eu vejo que estão sumindo lideranças”, diz. Segundo ele, o auge recente, especialmente entre 2018 e 2020, foi interrompido por um ambiente que penalizou candidaturas fora dos polos.

“Muita gente que batia no peito e dizia que era liberal tomou um atropelo em 2022. E simplesmente desistiu da política.” Ainda assim, esses quadros seguem presentes em diferentes níveis de poder. Lelis cita, por exemplo, nomes como Raquel Lyra, em Pernambuco, ao lado de Daniel Coelho; Pedro Cunha Lima, na Paraíba; e, no Rio de Janeiro, figuras como Pedro Duarte e Chico Bulhões. Há também nomes que orbitam ou migraram recentemente entre partidos, como Marcelo Calero e Mônica Rosenberg, além de quadros que resistem dentro do Partido Novo, como Marcela Trópia e Thiago Mitraud. O próprio Azevedo aparece, nesse mapeamento, como uma das poucas apostas competitivas no Executivo estadual. Mas há um ponto em comum entre muitos desses nomes: a dificuldade, ou a escolha, de não se apresentar explicitamente como liberais. “Tem muita gente escondendo que é liberal para não perder voto. Ou até fingindo que é outra coisa”, diz Lelis.

A consequência é um paradoxo: as ideias continuam circulando, mas sem identidade clara ou protagonismo eleitoral. Hoje, segundo ele, o movimento é mais defensivo do que expansivo. “É um processo de resistência para não perder de WO. Se ninguém colocar o nome na urna, o liberalismo sai do debate público antes mesmo do jogo começar.” E mesmo onde há tentativa de reorganização, como no PSD, o objetivo não é dominar, mas influenciar.

O futuro a Kassab pertence
Na avaliação de Lelis, liberais têm se reagrupado no PSD na tentativa de se organizar para o longo prazo e influenciar um partido que, segundo ele, tende a se tornar “um dos maiores do Brasil e o principal da centro-direita”. “A ideia é influenciar como o Pérsio Arida e o pessoal da Casa das Garças influenciavam o PSDB. Sem ilusão de que a gente vai ser dono do partido ou que seremos maioria, mas com a convicção de que podemos ser um grupo intelectual forte ali dentro com alguma influência em política pública”, afirma.

Antes disso, porém, o partido ainda precisa resolver sua definição mais imediata: quem será seu candidato à Presidência — e, a partir daí, para onde o PSD tocará o barco ideologicamente. Entre todos os entrevistados — Lelis, Sérgio Fausto, João Amoêdo, Christian Lynch e Gabriel Azevedo — há um ponto de convergência: entre Caiado e Leite, o segundo é o único capaz de manter alguma presença liberal na disputa presidencial. Ronaldo Caiado, por outro lado, é visto como um nome externo a esse campo.

Christian Lynch é quem descreve essa diferença de maneira mais direta. Para ele, Caiado representa um conservadorismo de matriz histórica e social específica. “Ele é o estereótipo do conservador. É o representante das oligarquias do interior, porque é um conservadorismo de matriz interiorana que mantém a ideia de que o interior representa o verdadeiro Brasil, o Brasil profundo, que tem o lavrador, que tem o ‘Jeca’, que tem o homem do campo em contraste com as grandes ‘capitais da Costa’, que seriam as representantes de culturas estrangeiras, do liberalismo. Caiado é de uma oligarquia, uma aristocracia rural, de propriedade de terra”, afirma. Ele sugere também uma outra hipótese de leitura: de que parte do sistema político pode estar interpretando este momento como de menor polarização, com Lula percebido como mais moderado e Flávio Bolsonaro mais distante da retórica do pai, o que reduziria a noção de espaço para candidaturas realmente liberais, explicitamente de centro liberal. Mas isso está longe de estar cristalizado.

Na avaliação dos entrevistados, portanto, o que está em jogo não é apenas uma disputa interna do PSD, mas a própria permanência de um espaço liberal na eleição presidencial. Nesse contexto, o desempenho eleitoral imediato passa a ter peso crescente. É justamente esse tipo de lógica que preocupa Gabriel Azevedo. “O risco é a democracia brasileira se resumir a pesquisas eleitorais”, afirma. Ele lembra que a construção de lideranças políticas exige tempo e repetição: “as pessoas se esquecem que Lula concorreu a cinco eleições até virar presidente”.

Sérgio Fausto também chama atenção para o efeito estrutural desse tipo de racionalidade. No sistema político brasileiro, segundo ele, partidos tendem a operar sob a lógica da maximização imediata de votos. “O político quer maximizar voto no curto prazo. E faz sentido que seja assim. Mas então você fica num círculo vicioso: um quadro ossificado, uma estratégia sempre de curto prazo. Não faz sentido lançar um candidato como o Eduardo Leite. Mas com isso você fecha a possibilidade de ter uma renovação nas lideranças do país”, avalia.

Calculando a rota com base nos números, na mesma entrevista em que delineia os critérios de sua escolha entre Ratinho Jr., Caiado e Leite, Gilberto Kassab é confrontado com um cenário hipotético: se Flávio Bolsonaro chegasse ao segundo turno, seria “natural” um apoio do PSD? “Não digo natural, mas eu acho que a conversa é bem razoável e teria naturalidade.” Pragmatismo político-eleitoral puro. Uma resposta bem mais alinhada ao cálculo de curto prazo do que a uma visão de mundo liberal, de apego às bases do que funda nossa República.

O efeito, segundo os entrevistados, é o esgarçamento de uma democracia cada vez menos representativa de projetos e identidades políticas, e cada vez mais organizada em torno de incentivos de sobrevivência eleitoral. A eleição de 2026 está, potencialmente, no seu momento mais importante.

O T da questão

Filho do cantor sertanejo Leonardo, o também artista Zé Felipe surpreendeu recentemente ao contar que, aos 27 anos, recorreu a um tratamento à base de hormônios ao constatar, depois de alguns exames, que seus níveis de testosterona estavam baixos. Ao explicar a sua condição, atribuiu a queda hormonal a “pouco sono e alta taxa de cortisol”, e tentou resolver o problema fazendo um implante de testosterona. Relata que o procedimento o deixou com mais disposição e “vontade de viver”. Zé Felipe diz que está sendo acompanhado por um médico. A reposição hormonal do cantor foi divulgada em grandes portais de notícias e entre seus mais de 13 milhões de seguidores no Instagram.

Para o médico urologista Sidney Glina, professor titular do Centro Universitário FMABC (Medicina ABC) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, as declarações de Zé Felipe passam uma ideia equivocada de que ter altos índices de testosterona é algo necessariamente bom. Não é. O Estudo HAARLEM, publicado em agosto de 2022, acompanhou por um ano atletas amadores homens da Holanda que faziam uso intenso de esteroides anabolizantes androgênicos, a testosterona sintética. Mais de 70% apresentavam sintomas como disfunção erétil, perda de desejo, problemas de humor e uma tendência maior à violência.

“Não há estudos ou indícios científicos de que isso seja sinônimo de saúde, beleza, vigor ou bom desempenho sexual”, explica Glina. Não se deve prescrever testosterona a homens que já apresentam níveis normais desse hormônio no sangue. E a faixa de normalidade é bastante ampla, entre 180 e 800 nanogramas por decilitro.

“Recebo no consultório pacientes que fizeram tratamento hormonal e que apresentam índices entre 1500 e 2000. Eles enfrentam praticamente um vício no hormônio, têm muita dificuldade para diminuir a dose. Me procuram quando querem ter filhos, uma vez que o excesso de testosterona é um obstáculo fisiológico na produção de espermatozoides”, diz Glina.

Consumo em alta

Há sinais de que o tratamento à base de testosterona cresceu no Brasil, embora não exista uma mensuração consolidada como nos Estados Unidos, onde em dez anos a venda de testosterona aumentou mais de vinte vezes. Há dois possíveis fatores que explicam esse crescimento. O primeiro é um consenso entre muitos médicos de que a testosterona sintética é segura e de que é uma maneira efetiva de combater a deficiência desse hormônio. Sidney Glina explica que 15% a 20% dos homens com mais de 50 anos podem apresentar esse quadro e, para esses, o tratamento é indicado. A falta de testosterona, ou hipogonadismo, pode vir acompanhada de fadiga crônica, desânimo, libido baixa e disfunções sexuais. Sintomas muito parecidos com os da depressão.

A obesidade também pode contribuir para a queda da testosterona. Ainda assim, os médicos alertam que o tratamento deve focar primeiro na perda de peso e não na reposição hormonal. Jovens saudáveis precisam apenas comer bem, ter um sono reparador e fazer atividades físicas, completa o urologista. Um segundo fator para o crescimento do uso terapêutico da testosterona é a proliferação de clínicas de reputação duvidosa e academias de ginástica onde o hormônio é oferecido como uma cura para todos os problemas que assombram os homens, não só questões sexuais ou de estética, mas também psicológicas e sociais.

Muleta psicológica

“Eu tinha 19 anos, queria secar o corpo. Mas não tinha vontade de nada e, sem autoconfiança, também era tímido com as mulheres. Comecei o tratamento com um endócrino e agora admiro o meu corpo”, diz T., que prefere não revelar seu nome. Hoje, aos 23 anos, ele está em seu quinto ano de “testo”, como o hormônio é chamado entre os adeptos. Sob a camisa apertada, a musculatura do peito chama a atenção. “Comecei as aplicações a cada dez dias, depois a cada sete. Me sinto um Superman em disposição e produtividade”. No caso dele o apetite sexual foi maior no primeiro ano, depois diminuiu. Mas o stress está sempre no limite. “Se alguém te fecha no trânsito, se alguma coisa cai no chão, isso aciona a raiva, diz ele, embora negue ser uma pessoa agressiva. “Aprendi a me controlar”, alega.

O tratamento hormonal requer uma disciplina rígida. Vem acompanhado de dieta, atividades físicas, check-up anual, além de frequentes exames de sangue. T. também passou a fazer acompanhamento psiquiátrico. Em 2025, tentou diminuir a dose, mas não conseguiu. “O desejo sexual melhorou, mas perdi músculo, ganhei gordura, fiquei com menos energia no geral. O que me segura na ‘testo’ não é a estética, a minha ligação é mais com o que ela me proporciona psicologicamente”.

Danos graves

O psiquiatra e sexólogo Arnaldo Barbieri Filho, do departamento de Sexologia da Associação Brasileira de Psiquiatria, alerta para os perigos do abuso da substância. “O comportamento impulsivo, disparado pelo próprio hormônio, pode também se tornar compulsivo. Tive um paciente que se masturbava 12 vezes por dia, ficava vendo filme pornográfico e depois não conseguia ter uma relação sexual”, diz.

A busca desmedida pelos músculos também pode desembocar na vigorexia, um transtorno em que o paciente fica com ideias obsessivas de que o resultado ainda não é suficiente e que é preciso ficar mais e mais forte. “A maioria dos jovens tem conflitos emocionais. São frequentes os casos de pacientes que caem nas mãos de profissionais despreparados e, ao relatar problemas emocionais, saem com uma prescrição para aumentar a testosterona”, diz. Barbieri alerta que, para pacientes deprimidos, a testosterona não vai trazer bons resultados. Pode até ter um efeito placebo num primeiro momento, mas não resolve a depressão. É preciso fazer um diagnóstico, investigar o quadro sexual e tratar com medicações adequadas.

Mas a promessa da rapidez de resultados pode ser tentadora. Algumas academias de ginástica passaram a concentrar a cultura de uso da testosterona. Há casos mais preocupantes em que o produto comercializado vem do mercado ilegal. “É fato que o hormônio traz os músculos em menos tempo e com menos sacrifício. Mas o uso indiscriminado de testosterona para fins estéticos ou esportivos pode ter consequências irreversíveis. O testículo, responsável pela produção da testosterona, atrofia, fica dependente da droga e pode parar de funcionar para sempre, causando infertilidade. Além disso, estes indivíduos apresentam problemas de circulação, libido e performance sexual”, explica Glina. Outro efeito colateral do uso inadequado é o aumento na produção de glóbulos vermelhos, o hematócrito. Os valores normais em homens variam entre 40 e 50%. Com o hormônio podem chegar a 58%, elevando o risco de acidentes trombóticos: os vasos sanguíneos podem romper pela formação de um coágulo de sangue. Esse entupimento impede a circulação de sangue e oxigênio para os tecidos, podendo causar infartos ou AVCs. A testosterona também pode aumentar a espessura do miocárdio, levando a problemas cardíacos severos e até a morte.

Prescrição indevida

No Brasil a testosterona é vendida sob controle especial, ou seja, requer duas vias de receita para ser comprada na farmácia. A ideia é que a Anvisa possa rastrear o medicamento. A receita deve conter os dados do médico, do paciente e assinatura do farmacêutico. Comercializar testosterona e outros anabolizantes no mercado ilegal ou em academias é crime. “Infelizmente, há também médicos e nutrólogos que prescrevem fórmulas ou colocam implantes sob a pele de seus pacientes apenas para fins estéticos ou esportivos”, ressalta Glina. São remédios relativamente baratos. O paciente toma uma ampola a cada duas semanas e uma caixa com três ampolas pode custar entre R$ 100 e R$ 200. O medicamento em gel pode custar de R$ 500 a R$ 600 por mês.

Para Ivar Brandi, neurologista pela Universidade Federal do Paraná com mestrado em medicina e saúde, o uso da testosterona vem de um marco da nossa época: a cultura da performance. “Priorizamos o desempenho sem reconhecer os nossos sintomas e fragilidades. Há uma medicalização da vida com o uso de psicoestimulantes e antidepressivos”, conclui. Para o médico, seguimos rumo a uma existência anestesiada. Sob o pretexto da saúde, a busca por vigor e performance mascara as fragilidades da condição humana, com perda da própria autonomia.

Mito e talismã

Em um texto clássico, feito a partir de uma exibição de Ana Botafogo como Coppélia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1981, a crítica do Jornal do Brasil Suzana Braga escreveu que Ana Botafogo “transformou-se numa mistura de mito e talismã”. Hoje é fácil entender que, sim, as duas qualidades são pilares da atuação desta bailarina que foi muito além dos palcos.

A importância de Ana transcende a excelência técnica. Ela foi a grande responsável por popularizar o balé clássico no Brasil, levando a sapatilha de ponta para praças públicas, para televisão e até para a Sapucaí. Adepta da democratização da arte, defende que a bailarina deve dançar onde for possível. Seus 50 anos de carreira — sendo 45 deles no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde assumiu o posto de primeira-bailarina ainda nos anos 1980 — são contados na primeira Ocupação Itaú Cultural deste ano, que abre ao público neste sábado em São Paulo.

A montagem da exposição foi processo “maravilhoso e de pura emoção”, que levou a artista a revirar caixas intocadas e resgatar lembranças. “É muito bom ter história e ter memória”, diz ao ver sua vida profissional documentada, permitindo que as novas gerações conheçam a dimensão de sua dedicação à arte no país. Conversamos sobre a sua trajetória, seu legado e o estado da dança clássica hoje. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como a sua formação ajudou a moldar a sua identidade estética, permitindo que aliasse o virtuosismo físico à profunda emoção teatral em cena?

Minha formação aqui era muito da escola francesa, da minha escola de balé, ainda adolescente. Tive a oportunidade de estudar fora, porque meu tio era diplomata e morava em Paris. Em princípio eu fui para estudar francês, mas o que eu queria mesmo era poder me aperfeiçoar na dança. E essa foi a chance da minha vida, porque passei numa audição e acabei indo para Marselha e tendo esse primeiro contrato com Roland Petit. Na minha ida para Paris tudo era um desafio, estar numa turma nova, com professores novos. Tive isso em Marselha também. Eu estudei ainda em Cannes na escola de dança da Rosella Hightower, que tinha sido uma bailarina muito famosa lá na França, apesar de americana. E depois estudei também em Londres. Na realidade, eu tinha ido para uma companhia de balé de lá e não consegui o visto de trabalho. Eu conto isso nas minhas palestras para mostrar que nem tudo é sucesso. As pessoas acham que eu já nasci primeira-bailarina, mas esquecem de todo esse processo de estudos e de tentativas. Porque essa é a vida da bailarina, de treinos, de ensaios, porque ela é atleta antes de tudo.

Você é muito reconhecida pela leveza. Como foi o trabalho para moldar um corpo ideal para o balé?

No começo ninguém falava sobre o físico ideal. Eu sempre fui magra, então, em princípio, era tudo bem. Mas sou pequena, tenho 1,60 m, e não tenho pernas tão longas como, numa determinada época, todo mundo queria. Aquelas pernas monstruosas, corpinho pequeno. Quando falava que eu não tinha físico ideal, tinha gente que ficava furiosa. Eu trabalhei muito alongando a minha musculatura e estando sempre muito magra para que pudesse fazer esse físico cada vez mais alongado. Mas confesso que os meus melhores papéis foram sempre aqueles em que eu era mais a bailarina romântica, a Giselle, La Sylphide, Coppélia, em que eu estivesse com tutu romântico, mais do que os tutu bandeja. Não que eu tivesse fora de forma ou gorda. Mas os puritanos do balé queriam esse físico muito mais alongado. A minha diferença é exatamente interpretar. Sabia que mesmo sem ter este físico mais adequado, poderia emocionar o meu público. Porque balé não é esporte, não é mais uma pirueta ou uma perna mais alta. O balé é arte, e a gente precisa unir técnica com interpretação.

Como foi a trabalho para refinar a interpretação?

Falo para os jovens que é muito importante ter aulas de teatro também. Eu não tive na minha adolescência, porque não dava tempo. Eu era daquelas adolescentes que faziam quinhentas coisas, e o balé me consumia muito. E faz muita falta para a bailarina clássica, porque ela vai interpretar. Então, naquela época, o que eu podia muito era ler. Então, eu lia sobre, a gente via muito os poucos filmes sobre os grandes bailarinos, porque não tinha nada de internet. Nessa parte interpretativa, houve um lado muito empírico, muito natural. Eu tive a sorte de ter bons diretores para me orientar, e eu fui entendendo toda essa dinâmica da interpretação. Tanto é que os meus balés favoritos são os que eu interpreto uma personagem. Me dediquei e acho que foi a minha especialidade criar personagens através da minha dança. E o que é fascinante nisso é que, apesar de o balé ser o mesmo, a coreografia a mesma, a gente vai amadurecendo na interpretação e vai entendendo o que é melhor e o que não tem tanta importância.

Desde a volta ao Brasil nos anos 1980, você foi além dos palcos e se apresentou ao ar livre, fez novela, dançou na Sapucaí. Qual é o impacto dessa busca por popularizar o balé neste país?

Quando eu voltei e comecei no Theatro Municipal do Rio, tive a sorte de pegar uma mudança em termos de grandes produções. Grandes bailarinos e bailarinas vinham ao Brasil dançar com a nossa companhia também. Tudo isso foi um aprendizado para a jovem primeira-bailarina. E sempre foi a minha vontade popularizar. Eu conheci a Dalal Achcar nesse momento e ela fez alguns espetáculos criados para mim, com o intuito de popularizar. Um Romeu Julieta com música pop, uma Cinderela com a música da Donna Summer no auge da discoteca. Tinha um momento que eu já era a primeira-bailarina do Theatro Municipal e que nem todo mundo achava legal tudo o que eu fazia fora dos grandes clássicos. Mas eu ia dançar nas praças, na praia de Botafogo, na Cinelândia, em espetáculos populares. Tinha um diretor de teatro, o Ginaldo de Souza, que sempre me convidava pros espetáculos teatrais dele ao ar livre, no dia de São Sebastião, de São João. E eu ia e dançava clássico, dançava popular, dançava às vezes um chorinho brasileiro na ponta, para chegar um pouco mais perto do público. Tenho certeza que não foi sem muitas críticas dos puritanos do balé, mas eu achava que, enquanto bailarina, eu precisava dançar onde pudesse. Aí já um pouco mais tarde na minha carreira eu tive um encontro com Carlinhos de Jesus. Numa semana eu dançava um grande clássico no Municipal, na semana seguinte eu atravessava a Cinelândia e ia pro Teatro Rival dançar um espetáculo popular com ele. Era maravilhoso. O artista quer estar em cena.

Hoje você se dedica muito à formação de novos talentos e também à remontagem de obras. Como enxerga a dança clássica no Brasil nesse momento e o que acha fundamental transmitir para as novas gerações?

É muito importante que novas gerações se interessem pelo balé clássico. Às vezes as pessoas perguntam: “Giselle de novo? Quebra Nozes de novo?” Sim, a gente precisa repetir porque os grandes clássicos que sobreviveram há dois, três séculos, precisam ser preservados primeiro. A gente precisa fazê-los de tempos em tempos porque há novas gerações. E nós, os bailarinos clássicos, o Theatro Municipal, a São Paulo Companhia de Dança, somos os responsáveis, neste país, por manter essa tradição. Hoje em dia o ensino também cresceu, e temos excelentes professores que formam excelentes bailarinos. Mas eles vão para fora do Brasil por conta do campo de trabalho, porque não há companhias suficientes para contratá-los aqui. Eu queria muito que eles viessem todos os anos dançar pra gente para que o nosso país soubesse deles. O festival de Joinville já trouxe alguns deles para dançar, mas às vezes é muito difícil a gente conseguir conciliar todos num único momento, até porque eles estão em países diferentes, em companhias diferentes e nem sempre eles estão disponíveis. Uma vez eu falei que era um sonho meu assistir em Joinville, sei lá, oito desses bailarinos. Continua sendo o meu sonho ver essa nova geração. Vê-los para sentir orgulho e saber que a arte erudita no nosso país tem público para aprender e tem público para aplaudir.

Sábado pede um bom filme com pipoca. Já deu play no novo lançamento do Meio? Ponto de Partida — A Série: Nós, Brasileiros é a nova produção original do nosso streaming, apresentada por Pedro Doria. No episódio de estreia, A Sociedade, uma ideia muda o jeito de olhar para o país: o Brasil não está dividido em dois, mas em cinco grupos que convivem sem se entender. Uma boa escolha para hoje. Assista.

Política move o mundo, comida nos sustenta, mas não é sempre que morre uma lenda como Chuck Norris. Confira os links mais clicados pelos assinantes do Meio esta semna:

1. Omelete: Relembre os memes envolvendo o ator Chuck Norris, morto aos 86 anos.

2. Meio: No Ponto de Partida, Pedro Doria explica como um acordo entre Sergio Moro e o PL tirou Ratinho Jr. da corrida presidencial.

3. Panelinha: Calzone de escarola com queijo.

4. Meio: Pedro Doria avalia no Ponto de Partida o dilema do PSD entre Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.

5. Panelinha: Bife à milanesa com salada de batatas e repolho agridoce.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.

Esta é uma matéria para assinantes premium.
Já é assinante premium? Clique aqui.

Meio Premium: conteúdo pensado para leitores influentes

Quem toma decisões – seja na vida corporativa, profissional ou pessoal – precisa estar bem informado. Assinantes do Meio Premium recebem reportagens, análises e entrevistas que esclarecem os temas mais complexos da atualidade. Os últimos avanços tecnológicos, a geopolítica mundial, a crise climática – não há assunto difícil para o Meio.

Edição de 28/03/2026
EDIÇÃO DE SÁBADO

Uma newsletter elaborada com cuidado durante a semana, sempre com temas importantes e um olhar inovador e aprofundado sobre eles. Política, comportamento, cultura, vida digital apresentados em textos agradáveis e leves para você ler com calma no fim de semana.

Edição de 25/03/2026
MEIO POLÍTICO

Às quartas, tentamos explicar o inexplicável: o xadrez político em Brasília, as grandes questões ideológicas da atualidade, as ameaças à democracia no Brasil e no mundo. Para isso, escalamos especialistas que escrevem com base em pesquisas e fatos.

assine

Já é assinante? Clique aqui.

Nossos planos

Acesso a todo o conteúdo do Meio Premium com 7 dias de garantia e cancelamento a qualquer momento.

Premium

  • News do Meio mais cedo
  • Streaming do Meio
  • Meio Político
  • Edição de Sábado
  • Descontos nos Cursos do Meio
  • Pesquisa Meio/Ideia mais cedo

Assine por R$ 15/mês

ou

De R$ 180 por R$ 150 no Plano Anual, equivalente a R$ 12,50 por mês.

Premium + Cursos

  • News do Meio mais cedo
  • Streaming do Meio
  • Meio Político
  • Edição de Sábado
  • Todos os Cursos do Meio
  • Pesquisa Meio/Ideia mais cedo

Assine por R$ 70/mês

ou

De R$ 840 por R$ 700 no Plano Anual, equivalente a R$ 58,34 por mês.

Premium + Cursos

Para aqueles que querem aprimorar seu conhecimento, assine agora o plano Meio Premium + Cursos. Assista os cursos do acervo dos Cursos do Meio na sua TV, celular ou computador. Política, história, inteligência artificial, aprimoramento profissional. Temas importantes explicados por especialistas no assunto.

Capa do curso do Meio: Você pode ser um liberal e não sabe

Capa do curso do Meio: Você na mídia

Capa do curso do Meio: IA modo de usar

Capa do curso do Meio: Israel e Palestina

Capa do curso do Meio - Ideologias brasileiras

Capa do curso do Meio: O fim da nova república?

assine

Já é assinante? Clique aqui.

O que é o Meio

O Meio é uma plataforma de jornalismo pensada para o século 21. Acreditamos que informação de qualidade fortalece a democracia, por isso entregamos notícias e análises que ajudam você a entender o agora e decidir melhor. Seja por e-mail, vídeo ou podcast, chegamos até você da forma que mais combina com a sua rotina.

Christian Lynch

Cora Rónai

Creomar de Souza

Deborah Bizarria

Flávia Tavares

Márvio dos Anjos

Mariliz Pereira Jorge

Pedro Doria

Wilson Gomes