Edição de Sábado: O ocaso de uma hegemonia
Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
Analogias históricas para explicar o presente raramente são exatas e muitas vezes levam a conclusões, se não equivocadas, ao menos distorcidas pelo calor do momento. Mas com o frágil acordo de cessar-fogo na guerra liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, diplomatas, historiadores e aliados antigos de Washington estão cada vez mais tentados a chegar a uma conclusão desconfortável para o Ocidente: a de que este pode ser o “momento Suez” dos Estados Unidos. Assim como a crise de 1956 sinalizou o declínio terminal do poder global britânico, o conflito de duas semanas contra a República Islâmica deixou a credibilidade americana em frangalhos, a economia mundial duramente impactada, o dólar fragilizado e criou um vácuo de influência que Pequim parece ter preenchido com uma rapidez alarmante.
O que começou como uma demonstração de força para paralisar o programa nuclear de Teerã terminou em um impasse onde o regime dos aiatolás permanece no comando do Estreito de Ormuz e continua capaz de atingir alvos americanos e de seus aliados mais próximos no Oriente Médio, além, claro, de se colocar em uma posição na qual pode ditar os termos para um acordo de paz de longo prazo. Para observadores internacionais, a guerra “está começando a parecer uma derrota militar, mais séria do que o Iraque ou o Afeganistão”, como diz Bruno Maçães, ex-secretário de Estado de Portugal. A crença em uma América todo-poderosa, capaz de garantir o fluxo global de petróleo e resolver qualquer crise, está desaparecendo.
A guerra por opção
O enfraquecimento do Estado americano não é uma questão puramente militar, mas também um declínio de governança e de sua capacidade de projetar poder de forma concreta ou simbólica. O conflito demonstrou, em um único incidente, como Washington é capaz de realizar um julgamento precário do estado de coisas e, consequentemente, agir de maneira errática. Diferentemente de conflitos anteriores, esta foi uma “guerra de escolha”, iniciada sem consultas aos aliados e após uma série de políticas que já haviam gerado profunda desconfiança — desde guerras tarifárias até a bizarra ameaça de tomar a Groenlândia da Dinamarca, uma das fundadoras da OTAN e, até segunda ordem, aliada fiel da política externa americana.
Internamente, o Departamento de Defesa, insistentemente chamado de Departamento da Guerra, sob o comando de Pete Hegseth, injetou uma camada de nacionalismo cristão que muitos especialistas acreditam ter minado a coesão das Forças Armadas e a imagem externa do país. Ao descrever operações militares como “milagres de Páscoa” e invocar uma “guerra santa” contra o Islã, Hegseth transformou o conflito em uma “política do Armagedom”. Analistas como Melissa Deckman, do Public Religion Research Institute, notam que Hegseth usa abertamente uma linguagem sectária que promove a ideia de uma América que deve exercer domínio cristão sobre a sociedade.
Essa retórica alienou aliados muçulmanos críticos ao Irã — como Turquia, Paquistão e Egito —, também serviu como uma “bonança de propaganda” para o recrutamento de grupos terroristas como a al-Qaeda, o Estado Islâmico e reforçou o espírito de Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana. Além disso, a purga de oficiais que não se alinhavam com a visão de Hegseth, incluindo o primeiro capelão-chefe negro do Exército, Major General William Green Jr., gerou temores de que o Pentágono esteja aplicando um “teste religioso de fato”, violando a Constituição e enfraquecendo a pluralidade necessária para a eficácia militar.
Doeu no bolso
O impacto na economia mundial foi devastador, mas as cicatrizes mais profundas podem estar no sistema financeiro. Durante décadas, a capacidade de Washington de “armar” o dólar e desconectar adversários do sistema Swift foi seu “grande porrete”. No entanto, na guerra do Irã, esse porrete quebrou na mão de quem o empunhava, assim como já havia demonstrado pouca eficácia contra a Rússia. O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circulam 20% do petróleo mundial, não apenas fez dispararem os preços do produto como forçou o mundo a buscar alternativas ao sistema financeiro americano.
Teerã, já sob sanções extremas, encontrou formas de vender petróleo em renminbi (moeda chinesa) e agora exige que companhias de navegação paguem pedágios em criptomoedas para garantir a passagem de navios. “O sistema de dólar, que por tanto tempo foi fonte de estabilidade global, evoluiu para ser uma fonte de instabilidade à medida que se tornou mais armado”, diz o analista Daniel Davies, da Frontline Analysts em um artigo no jornal inglês Financial Times.
O isolamento econômico do Irã, assim como o da Rússia, falhou em parar sua máquina de guerra, enquanto o custo para os aliados dos EUA foi imenso. Mais grave ainda: a guerra exauriu o arsenal tecnológico americano. A defesa contra mísseis iranianos exigiu que os EUA disparassem, às vezes, 10 ou 11 interceptores para derrubar um único alvo, o que esgotou rapidamente os estoques.
Negócio da China
Ironicamente, a reconstrução desse estoque de armas depende agora da China, que detém um monopólio quase total sobre o processamento de gálio e outros metais de terras raras, como o neodímio, essenciais para mísseis de alta tecnologia. O preço do gálio saltou 32% no último mês, dando a Pequim uma alavancagem sem precedentes sobre a indústria de defesa americana.
Se Washington projetava uma imagem de desordem e beligerância, Pequim emergiu estrategicamente como o agente de estabilidade nesta crise que impactou o mundo como poucas outras na história contemporânea. “Enquanto parecemos enlouquecidos e falamos em bombardear um país até a idade da pedra, a China parece uma pacificadora”, disse ao New York Times Rajan Menon, professor emérito de Ciência Política da City University.
O papel de Pequim na mediação das negociações em Islamabad, no Paquistão, que levaram ao cessar-fogo, solidificou sua imagem como uma potência responsável. Para a China, o conflito foi uma oportunidade de observar como a Marinha dos EUA opera e de consolidar sua influência no Oriente Médio, onde já havia mediado a inesperada aproximação entre a Arábia Saudita e o Irã em 2023. Analistas sugerem que a China não precisou fazer muito esforço; o governo Trump, ao aceitar as exigências iranianas para o cessar-fogo, essencialmente “abriu a porta” para a diplomacia chinesa.
Agora, o presidente chinês Xi Jinping se coloca em uma posição de força superior nas futuras negociações com Washington. A dependência americana de minerais chineses para se rearmar e o papel de Pequim como garantidor do fluxo de energia transformaram a dinâmica de poder. A China não apenas venceu no campo diplomático, mas também garantiu que o mundo visse os Estados Unidos como um parceiro imprevisível e pouco confiável.
Analistas de política externa traçam paralelos sombrios com a Operação Tempestade no Deserto de 1991. Naquela época, os EUA destruíram o exército de Saddam Hussein, mas falharam em alinhar estratégia e política, caindo em uma armadilha de contenção de uma década que exauriu sua legitimidade. Hoje, os EUA enfrentam um risco semelhante: um regime iraniano enfraquecido, mas intacto, capaz de mobilizar a opinião pública global contra um cerco americano visto como irracional e, ao mesmo tempo, incapaz.
Viver com o que se tem
O governo Trump recuou da retórica de derrubada do regime, mas o custo de “apenas conter” o Irã será uma presença militar permanente e confrontos repetidos que prejudicam a economia internacional. Para evitar o desastre, especialistas sugerem que Washington deve fazer o que os líderes não fizeram nos anos 1990: aprender a viver com o regime existente, por mais desagradável que seja, e oferecer um caminho para a normalização econômica em troca de conformidade nuclear.
No entanto, a imprevisibilidade de Trump e a influência de falcões messiânicos como Hegseth tornam essa transição diplomática incerta. O fracasso em negociar uma saída diplomática clara deixará os EUA mais isolados do que nunca, especialmente em uma era em que não são mais a única superpotência.
Para o Partido Republicano, o custo da aventura iraniana pode ser o fim do controle do Congresso americano. Apesar das declarações de vitória da Casa Branca, estrategistas operam sob um clima de pânico. O aumento no custo de vida, impulsionado por preços de gasolina acima de US$ 4 por galão (3,8 litros), tornou-se o tema central da campanha, eclipsando qualquer outra mensagem econômica. “Esta guerra no Irã quase cimenta o fato de que perderemos as eleições de meio termo em novembro — o Senado e a Câmara”, admitiu um deputado republicano próximo à Casa Branca ao site Politico. O sentimento de que o tempo está contra o presidente é reforçado por dados eleitorais recentes: na Geórgia e em Wisconsin, democratas superaram as expectativas em distritos historicamente republicanos, capitalizando sobre a ansiedade dos eleitores com a inflação e a instabilidade.
Com a aprovação de Trump estagnada em 39%, o eleitor médio está focado no próprio bolso. Para muitos americanos, a guerra no Irã não foi um milagre espiritual ou uma vitória estratégica, mas um erro caro que tornou a vida mais difícil. Estrategistas republicanos temem que, se a tendência continuar, novembro será um “banho de sangue” nas urnas.
A guerra do Irã pode ser lembrada como o momento em que a clareza moral e a superioridade militar dos Estados Unidos foram substituídas por uma política de fragmentação e dependência. Ao tratar aliados como inimigos e permitir que a retórica religiosa dominasse a estratégia militar, Washington destruiu a legitimidade de seu próprio poder. Enquanto os Estados Unidos tentam se rearmar com minerais comprados de Pequim e o dólar luta para manter sua relevância frente a moedas digitais e alternativas chinesas, o mundo já busca portos seguros preferíveis à influência americana. O desafio de Trump agora não é apenas militar, mas a aceitação dolorosa de que a era da hegemonia incontestada terminou no Golfo Pérsico. Para sobreviver, Washington precisará aprender a arte da diplomacia em um mundo onde não pode mais simplesmente dar as ordens.
Harry Potter, a polêmica além da magia
“Eu te falei, você é um garoto normal. E vai começar a agir como tal. Não há nada de especial em você”, diz uma irritada Tia Petúnia no teaser da nova série de Harry Potter. O rosto que carrega a cicatriz do protagonista de uma das sagas de maior sucesso da cultura pop não é mais o de Daniel Radcliffe, e sim o do promissor Dominic McLaughlin. De maneira orgânica, o trailer da nova produção somou 277 milhões de visualizações nas primeiras 48 horas, tornando-se o mais assistido da história da HBO, que possui franquias de grande sucesso, como Game Of Thrones. Em pouco tempo, as cenas de Harry Potter já tinham mais que o dobro do recorde anterior da plataforma.
Um documentário sobre a produção da série foi lançado no domingo de Páscoa, e, ainda que os dados de audiência não sejam públicos, o material não saiu do top 10 filmes mais assistidos da HBO Max desde então. Mesmo os filmes originais da saga passaram a frequentar a lista, pegando carona no hype. O primeiro dos oito episódios desta temporada — que adapta o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal — será lançado no dia 25 de dezembro deste ano, com um novo episódio a cada domingo.
Autora x obra
Esse é o lado que a HBO está comemorando, mas há outro mais polêmico. O posicionamento ideológico da autora JK Rowling voltou a ser objeto de debate nas redes sociais. Desde 2020, a escritora é associada à transfobia por postagens em suas redes sociais. E ela não se limita a opiniões polêmicas: financiou e até criou grupos que militam, fazem lobby e promovem a ideia de que o gênero é definido apenas pelo sexo. Por isso, nem todos os criadores de conteúdo ou jornalistas de entretenimento estão dispostos a cobrir a série, e alguns sugerem claramente boicote da produção, na qual ela é supervisora de roteiro e produtora executiva.
É possível separar o autor da obra se o autor (no caso, autora) está vivo e usa parte de seus ganhos para fazer lobby antitrans? Existe consumo ético ou tudo não passa de hipocrisia dos que se incomodam com Rowling? A obra de Harry Potter ainda pode ser considerada progressista em seus valores, por ressaltar a diversidade, ou existem problemas não percebidos anteriormente?
A origem do problema
Rowling costumava ser apontada como uma autora com ideias progressistas, era eleitora e doadora do Partido Trabalhista e fez campanha contra o Brexit, uma bandeira da direita britânica. Por ter sofrido violência doméstica nas mãos do primeiro marido, sempre apoiou causas feministas.
Os livros da saga Harry Potter, por trás de toda magia e ficção, têm uma mensagem apontada como de inclusão e respeito às diferenças. O principal vilão principal, Lord Voldemort, tinha vários pontos de analogia com Adolf Hitler, incluindo a defesa de ideias da “raça pura” de bruxos (embora ele próprio fosse um “mestiço”), o autoritarismo e o fato de seus seguidores se reconhecerem por um símbolo — a Marca Sombria. Um estudo feito por pesquisadores da Itália e do Reino Unido intitulado The Greatest Magic of Harry Potter: Reducing Prejudice (A Maior Magia de Harry Potter: Reduzir o Preconceito, em tradução livre), aponta que “o contato prolongado por meio da leitura dos populares livros de Harry Potter melhora as atitudes em relação a grupos estigmatizados (imigrantes, homossexuais, refugiados)”.
Porém, após o início das polêmicas envolvendo gênero, críticos passaram a apontar um suposto antissemitismo — devido aos duendes do filme serem parecidos com caricaturas feitas contra judeus no aspecto físico e comportamental —, representatividade caricata de algumas minorias e até apoio à escravidão. Esta, porém é uma leitura enviesada, já que a servidão dos elfos domésticos é combatida pelos protagonistas e mostrada como um lado vergonhoso do mundo bruxo.
Mas então, em 2019, usando principalmente a sua conta no X, a escritora começou a se posicionar na pauta de gênero. Rowling manifestou apoio público a Maya Forstater, que perdeu o emprego após publicar tweets considerados transfóbicos. No ano seguinte, a autora criticou o uso da expressão “pessoas que menstruam”, reiterando que a palavra correta seria “mulheres”. Com a imensa repercussão, Rowling usou o seu site para escrever um ensaio argumentando e defendendo os seus posicionamentos.
“Estamos vivendo o período mais misógino que já experimentei. (...) Nunca vi mulheres serem desumanizadas a esse ponto”, afirma. “A linguagem ‘inclusiva’ que chama mulheres de ‘menstruadoras’ e ‘pessoas com vulva’ soa desumanizante e degradante para muitas mulheres.” Ela complementa: “Quero que as mulheres trans estejam seguras. Ao mesmo tempo, não quero que as meninas e mulheres cisgênero estejam menos seguras. Quando você abre as portas de banheiros e vestiários para qualquer homem que acredite ou sinta que é uma mulher, então você abre a porta para todos os homens que desejarem entrar”, alegou.
Reação contrária
Se a tentativa era amenizar as críticas, o inverso aconteceu: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint e Eddie Redmayne, protagonistas dos filmes do universo de Harry Potter, emitiram comunicados e deram declarações em apoio à comunidade transgênero.
Desde então, Rowling só dobrou a aposta em suas pautas. Dois livros de sua saga de romance policial, que narra casos desvendados pelo detetive Cormoran Strike, chamaram a atenção nesse aspecto. Ainda em 2020, ela lança Troubled Blood, que traz um assassino que se veste de mulher para atacar vítimas. Dois anos depois, a continuação das histórias trouxe Coração de Nanquim, em que uma cartunista do YouTube é acusada de ser racista, capacitista e, adivinhem, transfóbica. A personagem é esfaqueada até a morte.
Por fim, a autora compartilhou no X uma notícia falsa durante as Olimpíadas de Paris de que a boxeadora argelina Imane Khelif, medalhista de ouro, era na verdade uma mulher trans. Semanas atrás, Rowling insistiu na desinformação já amplamente desmentida, para comemorar a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) que veta a participação de mulheres trans em competições femininas oficiais a partir dos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles.
Ainda neste ano, outro post gerou controvérsia, quando a autora aparece fumando um charuto, bebendo whisky em um iate. “Adoro quando um plano dá certo”, postou ela no dia em que a Suprema Corte britânica estabeleceu que o conceito de mulher é definido pelo sexo biológico. E não bastou. Ela respondeu o próprio post com um deboche. “Para aqueles que estão comemorando o fato de eu estar fumando um baseado: é um charuto. Mesmo que ele se identificasse como um baseado para fins desta comemoração, continuaria sendo, objetivamente, comprovadamente e demonstrativamente, um charuto.”
Quem a autora apoia
Há pelo menos cinco grupos e entidades que JK Rowling apoiou, financiou ou mesmo criou que façam parte da pauta denominada por alguns de “feminismo radical” “ou feminismo trans excludente”. Um deles é a LGB Alliance (sim, sem o T e as outras letras da sigla atualizada), um grupo que se separou da Stonewall em 2019 e alega que a defesa dos direitos trans está prejudicando os direitos de lésbicas, gays e bissexuais. Rowling doou £ 70 mil para a organização, que tem sido descrita por oponentes como um grupo de ódio. Outra organização similar é a Sex Matters, cofundada por Maya Forstater (a mulher demitida em 2019 que recebeu apoio público de Rowling). Essa entidade recebe apoio financeiro e logístico da rede de Rowling.
Em outras três organizações, ela é ainda mais atuante. O J.K. Rowling Women’s Fund se descreve como um fundo jurídico para mulheres que lutam pela proteção de seus direitos baseados no sexo em todos os aspectos da vida, incluindo o local de trabalho, esportes e clubes, e espaços exclusivos. No site da organização, há um apontamento de vitórias jurídicas (que ativistas trans entendem como retrocessos) que o fundo apoiou ou para as quais fez lobby, incluindo a decisão da Suprema Corte. O fundo não opera como uma instituição de caridade registrada, mas como uma entidade privada financiada diretamente pela fortuna pessoal de Rowling, estimada em mais de US$ 1,2 bilhão.
A escritora também criou o Beira's Place, descrito como um serviço privado de apoio para mulheres vítimas de violência sexual, com sede na Escócia. Fundada em 2022, a organização se descreve como um “serviço exclusivo para mulheres” e não contrata ou presta serviços para mulheres trans. Em poucos parágrafos, a exclusividade do atendimento para mulheres cisgênero é ressaltada diversas vezes. No “sobre nós”, JK Rowling é celebrada como fundadora e financiadora, com destaque para seu passado como vítima de violência doméstica e agressão sexual.
E o maior desses grupos é o For Women Scotland. No entendimento da organização, “os direitos das mulheres e meninas estão em crise na Escócia” e, por isso, campanhas são feitas para proteger esses direitos, sempre com o entendimento de que “existem apenas dois sexos, que o sexo de uma pessoa não é uma escolha, nem pode ser mudado”. Em uma parte de curiosidades e dados estatísticos, o For Women afirma que 80 a 95% das pessoas que se dizem trans optam por não fazer nenhum tratamento médico e que, então, “mulheres trans são apenas homens que acreditam subjetivamente ser mulheres. Só isso”. Há uma relativização da violência contra pessoas trans e o texto ainda afirma ser mais provável uma mulher trans matar alguém do que ser morta no Reino Unido — o que não é confirmado pelos fatos.
Entidades de direitos humanos apontam inconsistências na conclusão. Apesar de o número absoluto de homicídios de pessoas trans ser baixo no país, a amostra é considerada estatisticamente pequena demais para gerar uma taxa de probabilidade definitiva. Além disso, argumentam que há subnotificação, já que o registro policial muitas vezes utiliza o sexo biológico e que comparar a taxa de criminalidade de um grupo minoritário pequeno com a sua taxa de vitimização precisaria de um método mais sólido.
O que o público acha?
Em que pese a intensa polêmica nas redes e os embates entre os grupos de apoio às pessoas trans e o que lhes são contrários, essa discussão não parece chegar ao grande público. O sucesso do trailer é apenas um exemplo. Produtos da marca Harry Potter seguem vendendo, os parques temáticos na Universal Studios, em Orlando, são sucesso de público, e o videogame Hogwarts Legacy foi o jogo mais vendido de 2023, concorrendo a prêmios e sendo bem avaliado pela crítica — e há uma personagem trans no enredo.
O lançamento da nova série coloca o público diante de um paradoxo persistente. A principal responsável por trás desse universo utiliza o peso de sua relevância e sua conta bancária em pautas que afetam diretamente a vida de pessoas que muitas vezes encontraram nos seus livros um refúgio. Entre desiludidos, fãs fiéis e novas pessoas que se interessarão pela obra, a discussão se o consumo da obra de Rowling é ético tem previsão de muitas temporadas.
Tudo sob controle
Depois do lançamento do álbum Uhuuu! em 2009, a sonoridade do Cidadão Instigado tomou de assalto a música brasileira. Muito por conta da maneira bastante particular com que Fernando Catatau transmite uma emoção com sua guitarra, capaz de agradar desde os fãs de música romântica a devotos do Pink Floyd.
Como produtor e guitarrista, Catatau foi responsável por levar essa assinatura estética para uma série de trabalhos distintos de outros artistas, como Longe de Onde, de Karina Buhr, Iê-Iê-Iê, de Arnaldo Antunes, Caravana Sereia Bloom, de Céu, e Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3, de Don L. Perdi a conta das vezes que o vi no palco com outros artistas, fora as que comandava o seu grupo, que tem alguns dos melhores discos brasileiros produzidos neste milênio.
De 2002, quando lança O Ciclo da Dê.Cadência, até Fortaleza, de 2015, o Cidadão Instigado operou como uma banda que trazia uma proposta nova a cada lançamento. Mais de dez anos depois, volta agora com o álbum Cidadão Instigado pelo selo RISCO. Nesses anos, Catatau voltou a morar em sua Fortaleza natal “para se reenergizar” e, de volta a São Paulo, foi pego pela pandemia.
Os anos pandêmicos já haviam rendido seu primeiro disco solo, de 2022, batizado simplesmente como Fernando Catatau. Agora, uma nova leva de canções integra o quinto álbum do Cidadão Instigado. Mas há uma pegadinha aí. A banda deixa de ser um quinteto estável e passa a ter uma formação flutuante. Só na faixa Tudo Vai Ser Diferente temos os cinco integrantes originais. Nas outras, Catatau está ao centro, colaborando com uma série de artistas de diversas gerações, como Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Ava Rocha, Jadsa, Anna Vis, Mateus Fazeno Rock, YMA e Edson Van Gogh.
Algumas dessas experimentações que chegaram ao disco foram gestadas a partir dos encontros da temporada Frita, que aconteceu no Centro da Terra em São Paulo em 2022. Com curadoria de Alexandre Matias, nessas temporadas um artista ocupa as segundas-feiras do mês com a proposta de correr riscos, sempre se apresentando com formações diferentes.
Nesses shows de 2022, além da guitarra, Catatau comandava uma music station da Roland, uma bateria eletrônica com sintetizador que também funciona como sampler. Foram esses sons que ele incorporou ao novo álbum. “Só que eu toquei tudo, não usei nenhum sample.” Ao ser perguntado se cansou um pouco da guitarra, a resposta é certeira: “De jeito nenhum. Acho que eu voltei totalmente pra guitarra. E também tenho estudado canto, tem alguns anos que eu tenho me dedicado muito a melhorar meu rolê de música.”
Falamos sobre a feitura do novo disco, sobre esse novo momento do Cidadão Instigado e sobre abrir o leque para participar como ator do filme Centro Ilusão, de Pedro Diogenes. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Como foi o processo do disco? Ele nasce dessas experimentações da temporada Frita no Centro da Terra?
É, o disco surgiu bem no começo da pandemia. Eu fiquei em casa, solitário, e eu tinha uma music station da Roland. Eu tenho falado que é um sampler, mas ela é mais do que isso. Saiu até em umas matérias que eu troquei o rock pelo sample, e não foi isso. Eu não sampleei nada, eu toquei tudo. Eu usei os timbres que vinham nela. Foquei em aprender a usar o instrumento e fui criando coisas aleatórias, até para preencher o tempo e não enlouquecer.
Você voltou de Fortaleza um mês antes da pandemia, né?
Foi bem louco. Em Fortaleza eu praticamente me ausentei dos meus trabalhos, de tudo. Eu cansei, queria me renovar, queria voltar a me enraizar. Fiquei quatro anos morando em Fortal. Aí, quando voltei, teve esse lance que pegou todo mundo desprevenido.
No disco você usa elementos da música pra dançar, batidas quebradas, às vezes parece até drum and bass. Como foi essa pesquisa?
Isso já é uma coisa que eu venho mudando naturalmente nos últimos anos. Quando fui para Fortal, eu entrei numa de querer realmente voltar a dançar. Comecei a experimentar no palco, no show dos 20 anos do Cidadão. Porque quando eu era novo, era bem na época do pós-punk, rock nacional, curtia ir às festas, botar esses sons e dançar, era isso. Até um dia que eu travei e nunca mais dancei. Nem mexer um pé, uma mão, nada. Depois dessa volta a Fortaleza, acho que por essa busca de me reconhecer novamente na minha cidade, no meu eu cearense, veio isso. Comecei a me testar, a ir me jogando. Entendi que não sou dos melhores pés de valsa, mas é uma coisa que me faz muito bem. Já me salvou de várias bads, dançando, botando meu corpo para funcionar. E eu tentei achar esse lugar fazendo música, pensando nesse caminho. É uma coisa muito clara para mim.
Até Fortaleza o Cidadão era uma banda. E agora é mais fluido, com você ao centro. Você é muito controlador?
Sempre fui muito controlador. Mas acho que me liberei mais, hoje em dia sou menos. Porque quando eu comecei a criar a ideia do Cidadão, era muito dentro da minha cabeça. Fiquei dois anos só compondo, sem parar. Cada dia era uma eternidade. Eu já tinha muitas certezas, já tinha desistido de várias coisas e voltado atrás. E aí ao longo do tempo eu fui me desapegando, perdendo a vontade quando as coisas não me interessavam mais. Eu vou me enjoando de mim, sabe? Não é nem das pessoas, é do que eu tô fazendo. Eu lembro quando o Dustan [Gallas] começou a botar os teclados em Fortaleza e ficou muito parecido com o Uhuuu!. Aí eu disse: cara, eu não quero fazer mais um Uhuuu!. Tanto que do Ciclo da Dê.Cadência pro E Método Tufo de Experiências não ia mais existir Cidadão ali. Tem uma hora que eu encho o saco e digo: eu quero virar a página, não quero mais isso.
Esse disco é bem diferente do seu disco solo também. O solo é mais intimista, esse é um disco para fora.
Uma amiga minha, a Juliana R., escutou meu disco solo pronto e o começo dessas experimentações, e disse uma coisa que foi das que eu entendi mais o rolê: esse disco solo é uma ponte do que tu fez para o que tu ainda vai fazer. E eu realmente visualizo assim.
O que desse mundo pandêmico veio para o disco?
Ele é um disco muito mental, fala sobre esse lugar. Os meus conflitos, os meus medos, mas ao mesmo tempo tentando achar caminhos, jogando esse lugar para cima. E quando eu chamei as outras pessoas para compartilhar foi muito legal, porque rolaram vários diálogos com artistas de quem eu era muito fã. Dentro dessa temporada que a gente fez no Centro da Terra foi uma conversa de verdade. Eu mandava umas letras e a pessoa via como uma conversa mesmo. Não era “ah, vou complementar essa letra a partir daqui” não. Eram trocas. Isso para mim foi a coisa mais marcante. Acredito que é uma forma de a pessoa chegar a ela mesma. Cada participação no disco imprime bem ali.
E são trocas geracionais também. Vão desde gente da sua geração como Juçara Marçal e Kiko Dinucci até as jovens Jadsa e Anna Vis. Como você vê essa nova cena?
Cara, eu voltei para morar em Fortaleza em 2016 por causa da nova cena. Quando eu vi a galera, eu disse: cara, eu quero estar perto. Tem desde o Mateus Fazeno Rock, Getúlio Abelha, eu fui tutor de uma banda de rap chamada Sem Saída, acabei de ser tutor de uma banda chamada Os Bardos, tem a Ayla Lemos, que é uma artista incrível, a Mumutante, a Zabeli... Sou muito fã não só da cena musical, mas da cena artística de Fortaleza. Tem muita gente fazendo muita coisa incrível lá.
Como foi a experiência de atuar no cinema?
Quando eu participei do filme do Pedro Diógenes, já tinham me convidado para participar de filme umas três vezes e eu tinha fugido. Nem recusava, sumia. Porque para mim era um pânico ter de me colocar, decorar falas. Eu achava impossível, do mesmo jeito que antes de eu começar a cantar. Fiquei cinco meses sem dar resposta pro Pedrinho. Aí teve um momento que eu disse: não, cara, as coisas estão chegando para mim e eu tô recusando. E foi assim que eu aceitei. Uma coisa que me fez acreditar que era possível foi minha mãe. Um amigo a chamou para atuar num filme, e ela foi. Já fez sete filmes, virou atriz depois da vida toda. Ela não é atriz formada, foi no flow da vida mesmo, chegava lá e acreditava e fazia. Aí eu disse: vou acreditar e vou fazer aqui.
E como vai ser esse disco no palco?
A gente tá ensaiando já. Tem eu, o Dustan e o Clayton [Martin]. Entrou o Samuel Fraga na bateria, parceiro de muitos anos. A Anna Vis tocando samples e cantando, e a Rubi Assumpção cantando. Como é um disco bem do rolê dos eletrônicos, a gente tá levando pro palco tocando, não tem VS [música pré-gravada], nada assim. A gente tá tentando trazer esse disco de uma maneira humana-eletrônica.
O presidente Lula falou ao ICL, mas e o que está nas entrelinhas das respostas? No Reage, Pedro Doria passa pelos principais trechos da entrevista, comentando e questionando o que está em jogo por trás de cada declaração. Um conteúdo para quem quer compreender o que está em jogo sem cair na rixa direita X esquerda. Assista no canal do Meio no YouTube.
Esta semana os assinantes do Meio estavam literalmente no mundo da Lua, tendo só a Pesquisa Meio/Ideia para mantê-los no planeta Terra. Confira os links mais clicados:
1. CNN: Em imagens, a histórica missão lunar da Artemis II.
2. Meio: A edição de abril da Pesquisa Meio/Ideia com a intenção de voto, a avaliação do governo e a opinião dos eleitores sobre os temas da atualidade.
3. g1: Artemis II consegue imagem inédita da Lua feita por humanos.
4. g1: Veja os detalhes das imagens da Terra e da Lua divulgadas pela Nasa.
5. CNN: Nasa divulga novo “pôr da Terra” e imagens de eclipse feitas durante voo histórico sobre a Lua.






























