Edição de Sábado: ‘É perigoso escolher o Congresso como inimigo do povo’

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Do congresso da juventude do PT a um almoço com faria limers, José Dirceu está em plena atividade política. Foi responsável pela reformulação do programa do partido que ajudou a criar, no ano em que seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva, deve disputar sua última eleição. Enquanto isso, debate com economistas liberais a natureza da dívida pública; com caciques partidários uma possível reforma política; com o genro motoboy os desejos dos autônomos e empreendedores. E ainda prepara sua pré-campanha a deputado federal por São Paulo.
Protagonista da esquerda há seis décadas, Dirceu é uma das figuras mais bem posicionadas para fazer análise política, porque, mesmo preso, nunca perdeu o ímpeto de seguir fazendo justamente isso, política. Aos 80 anos, repete algumas das noções norteadoras do partido nascido em São Paulo, mas reconhece o desafio enorme de atualizá-las em tempos de, como ele define, profundo “mal-estar” da sociedade. Em uma conversa generosa com o Meio, tratou dos rumos da esquerda, da campanha de reeleição de Lula, de caso Master e de frente ampla, além de política externa e governabilidade. “Da ideia de que o Congresso é inimigo do povo eu tenho medo, porque tem muita gente que gostaria de fechar o Congresso e governar o Brasil sem ele”, diz o ex-ministro da Casa Civil de Lula 1. A íntegra da entrevista pode ser vista em vídeo no streaming do Meio. Confira abaixo os principais trechos.
O PT é criticado por não conseguir projetar novas lideranças e atualizar a conversa com o público mais jovem. Como o senhor enxerga essa crítica?
O mundo e o Brasil mudaram. O PT também mudou. Já vem mudando, porque em 2024, nas eleições municipais, nós elegemos um conjunto de jovens, em diferentes capitais e cidades do Brasil, como vereadoras e vereadores. Há um esforço muito grande no PT de renovação geracional. O partido há 12 anos fez paridade de gênero e começou uma política de cotas para incentivar a participação dos negros e negras, dos povos indígenas, de toda a comunidade LGBT, que é principalmente da juventude. Teve um congresso recente da juventude do PT muito concorrido. E há um esforço também de uma agenda ligada à juventude. Tanto a juventude que trabalha, por exemplo, de motoboy, como a que trabalha no comércio, nos serviços. O exemplo mais claro é a luta pelo fim da escala 6x1, que mais de 70% dos brasileiros apoiam. Ontem mesmo eu estive numa construção na Barra Funda com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, lá a imensa maioria era de jovens. E o apoio ao fim da escala 6 x 1 é muito grande.
Mas essa agenda não inclui os autônomos e empreendedores.
Ao contrário do que dizem, temos uma agenda de conexão também com os trabalhadores de aplicativo. Posso falar desse assunto, porque tenho um genro que é motoboy. Veja, não há precedente histórico de que uma categoria de trabalhadores aceite trabalhar em péssimas condições com baixo salários, horários de 12, 14 horas e que não começa a lutar. Quando cheguei à Assembleia Legislativa como funcionário em 1981, eu tinha voltado da clandestinidade com a redemocratização, e começou aquele processo selvagem de terceirização. Selvagem porque as mulheres, as mães, por exemplo, não tinham direito nenhum. Alguns anos depois, elas ocuparam o plenário da Assembleia e conseguiram registro, piso salarial, uniforme, vale-refeição, vale-transporte. No Brasil, está se vendendo uma ideia de que uma parcela importante dos trabalhadores não aceita a CLT. Da mesma maneira que fizeram uma campanha contra os sindicatos. Mas os motoboys já iniciaram um processo de luta.
De que maneira?
No fundo, o quilômetro rodado é um piso salarial. O descanso semanal, o adicional noturno, o que eles estão reivindicando é o que está na CLT. Mas há uma propaganda deliberada contra. E há também um sentimento num setor da juventude, não podemos desconhecer isso, que não quer trabalhar registrado. Porque a economia basicamente é de serviço. É natural que o MEI, o empreendedor, o autônomo surjam. O que não podemos aceitar é a fraude. A pejotização é uma espécie de fraude, que acaba arcando com o déficit da previdência. Depois vem a gritaria de que a previdência dá déficit. Mas a previdência dá déficit no mundo todo. Agora, sem previdência, nós teríamos milhões de idosos nas ruas. O país tem de fazer opções e uma das opções que o PT fez é de defender os trabalhadores. Tem de ter seus direitos assegurados, porque é a maneira de eles participarem da riqueza nacional. Por isso também nós propusemos a reforma tributária.
Ainda assim, a popularidade do presidente Lula segue baixa.
O PT tem procurado entrar em sintonia com as demandas atuais. Agora, é natural que um partido que passou tanto tempo sendo reprimido — e essa é a verdade — de 2013 a 19, foram seis longos anos, que eu mesmo passei na prisão. E o presidente Lula ficou preso 582 dias. A presidente Dilma sofreu um processo de impeachment que nós consideramos um golpe jurídico-parlamentar. Esse período e as mudanças tecnológicas no mundo do trabalho, com automação, robotização, precarização… A reforma trabalhista e a previdenciária não resolveram o problema do Brasil de déficit público, nem do juro alto. E quem perdeu foi a classe trabalhadora. Quando se diz que hoje há milhões de brasileiros trabalhando de maneira precária, intermitente, sem direitos, isso é produto daquela reforma trabalhista, previdenciária e sindical. A reforma sindical tirou o financiamento dos sindicatos, enquanto os sindicatos patronais têm financiamento, têm o sistema S, veja a diferença.
O PT já governou o Brasil cinco vezes. O senhor acredita que haja um desgaste de material do discurso do PT e do presidente Lula em particular? O que o PT ainda pode oferecer de fresco neste momento?
O PT disputou as eleições de 89, 94, 98, só venceu em 2002 sob a liderança do presidente Lula. Em 14, 18 e 22 perdemos uma e ganhamos por muito pouco as outras duas. A de 18 nem dá para incluir porque Lula foi impedido de fazer campanha. Se ele tivesse feito campanha, talvez tivéssemos evitado o período Bolsonaro. E em 22 nós ganhamos com o Alckmin e com uma frente ampla. Não é novidade para nós essa situação e nem acho que haja fadiga de material. Vamos lembrar que nós governamos com minoria na Câmara e no Senado, que quatro partidos de direita fazem parte do governo, não da base parlamentar. A explicação é que a insatisfação é real, nós reconhecemos. Ela tem razão de ser porque não conseguimos dar resposta para problemas importantes, porque não temos maioria no Congresso. Não é porque nós não queremos. Quando nós podemos, nós realizamos.
Que realizações o senhor considera importantes?
Com muito esforço, começamos a Nova Indústria Brasil, começamos a trazer o Brasil para a inovação tecnológica através do BNDES e do Ministério do Comércio. Fizemos o PAC, mesmo sem poder investir os 4, 5% do PIB que sempre se investiu no Brasil, na infraestrutura do país. Fizemos todo o apoio às concessões de saneamento. Também avançamos em ferrovias, rodovias, portos e aeroportos no Brasil nesses últimos 20 anos. Se o Brasil cresceu tanto, se a produção agrícola hoje é 10 vezes maior, é porque a infraestrutura do país também cresceu. E fizemos um esforço também que é muito importante para não envolver o Brasil numa guerra. Os bolsonaristas, o Flávio Bolsonaro, o ex-presidente, o filho que está lá nos Estados Unidos, eles apoiam abertamente a política do presidente Trump, inclusive com relação ao Brasil, ao tarifaço. Conseguimos superar o tarifaço e qualquer conflito com o governo Trump que poderia prejudicar muito a economia brasileira. E a democracia é um fator fundamental, termos evitado um governo autoritário.
São esses os temas que vão aparecer na campanha?
Não podemos pensar que o eleitor vai votar em nós só pelo que fizemos e dizemos que vamos fazer. Se nós não mostrarmos pros eleitores o que significa Flávio Bolsonaro governando Brasil por quatro anos, as consequências… Que projeto Bolsonaro está apresentando para o país? Privatizar o Banco do Brasil, Caixa Econômica, a Petrobras, o BNDES, desvincular o salário-mínimo da previdência, eliminar o piso salarial de saúde e educação para resolver o problema do déficit fiscal. E a renúncia fiscal de R$ 600 bilhões? E os 2% de brasileiros que não pagam imposto sobre lucros e dividendos, sobre grandes fortunas, nem sobre a riqueza nem sobre o patrimônio? O cidadão vai ter de tomar decisões.
O senhor sente que esses temas atendem a insatisfação dos eleitores?
Por que essa insatisfação? Por que esse mal-estar na sociedade brasileira? Primeiro, por causa do mundo em que estamos vivendo. A geração que tem entre 25 e 35 anos está vivendo a crise climática, o risco de uma guerra real. Nosso debate com a sociedade é por que o Brasil não cresce? Por causa da concentração de renda, da estrutura tributária e do juro alto. Como é que o Brasil pode ter taxa de 15% quando os próprios bancos sabem que 8%, 9% estaria excelente? Por que está todo mundo insatisfeito com o endividamento? É natural o endividamento no capitalismo. É por causa dos juros. A dívida pública está entrando em crise por causa dos juros, não por causa do déficit público. Se você pegar de 1998 até hoje, o Brasil não teve praticamente déficit público. E se o sistema tributário não funciona, está de ponta-cabeça, quem tem de pagar não paga e quem não tem que pagar paga, você derruba o consumo. A economia não cresce. Nós vamos ter de debater com a sociedade os problemas: custo de vida, insegurança, o transporte, o excesso de trabalho, as dificuldades do mundo atual, das grandes cidades brasileiras.
O governo tem políticas para isso?
Tem. Mas nós precisamos de recursos. Flávio Bolsonaro vai resolver o problema da alimentação, se ele é contra a agricultura familiar? O agronegócio não alimenta a mesa dos brasileiros. A educação integral, toda mãe hoje quer o filho na escola o dia inteiro. O Piauí já está com 70%, São Paulo com 40%. Creche universal, economia de cuidados, sistema de transporte tarifa zero ou uma radical mudança no sistema de transporte. Em todos os setores, nós vamos apresentar a proposta, principalmente de como fazer o país crescer. Mas precisa crescer num ambiente sustentável, senão vamos destruir a possibilidade de a humanidade de continuar existindo. Precisa crescer distribuindo renda.
O presidente Lula fez campanha em 2022, dizendo que não se candidataria à reeleição. E havia uma expectativa de alguns setores, até mesmo da esquerda, de que ele formasse um sucessor. Muitas dessas mensagens que o PT defende não atravessam a barreira do antilulismo. Por que o presidente decidiu se candidatar à reeleição?
Não apareceu um sucessor nem no campo da esquerda nem no da direita. Flávio Bolsonaro é o Bolsonaro. Ele já disse que o pai vai ser indultado e vai subir a rampa e governar com ele, o irmão vai ser ministro de Relações Exteriores, a madrasta vai ser senadora, o irmão vai ser senador, o outro irmão vai ser deputado federal. É uma família que vai governar o Brasil. Nesse sentido, eu acredito que o presidente Lula, do ponto de vista de qualidade e de viabilidade, de possibilidade histórica, tem mais condições de governar o Brasil. Nós temos que discutir as questões concretas. Não surgiu sucessor, porque não surgiu. O presidente Lula entregou ministérios importantes para grandes para lideranças novas: Camilo Santana, Wellington Dias, Fernando Haddad. Poderia ser o Haddad o candidato a presidente? Ele já foi candidato. Mas quem representa melhor o Brasil desde a era Getúlio? Poderia ter sido outro, poderia, mas não surgiu. Nós vamos de Lula. Se Lula tomar outra decisão, aí é outra questão. Mas ele não tomou essa outra decisão de apresentar outro nome.
O senhor acha que Lula pode ganhar mesmo com a rejeição que tem?
Eu não vejo a sociedade brasileira prisioneira disso. Com todas essas circunstâncias históricas, o antipetismo pesa muito, é uma realidade, mas ele foi construído. Faço questão de repetir que durante 10 anos a direita ficou livre para fazer política no Brasil, porque nós estávamos reprimidos. É preciso ver a dimensão do que aconteceu conosco, que abriu espaço para que a ideologia de direita penetrasse e se consolidasse em amplos setores da sociedade, que são conservadores, são liberais, às vezes são fundamentalistas. Não vejo que nesse período que estamos vivendo no mundo e no Brasil houvesse possibilidade de termos construído um outro nome. Lula tem condições de continuar sendo presidente.
Uma nova frente ampla vai ser construída?
O PT fez um esforço grande nesse sentido. Para você ter uma ideia, nós temos 27 estados no Brasil. Em 15 estados nós estamos apoiando candidatos de centro-direita. Em 15. Temos quase metade do MDB conosco, quase um terço do PSD. Pela primeira vez, temos todos os partidos de centro-esquerda conosco, PDT, PSB, PSOL, Rede, PV, PCdoB, além do PT. Então, a mensagem que vamos apresentar para o país atende à expectativa, porque reconhecemos esse mal-estar na sociedade, a insatisfação com os serviços públicos, com o modo de vida. Agora, são problemas estruturais e o mal-estar é geracional. Todos os países passam por isso. Como eu tenho filhas de 15 anos e de 47, e como eu ando muito, converso muito, eu vejo. Para muitos problemas não temos resposta, para outros nós temos, mas não temos a maioria na Câmara e no Senado.
Entre os feitos da sua carreira política, está a construção de uma aproximação do PT com partidos de centro e de centro-direita no Lula 1. Hoje, há quem diga que o Lula 3 não foi de frente ampla. O que foi, na sua opinião, a frente ampla neste Lula 3? E que cara teria uma coalizão num Lula 4?
Primeiro, uma observação. Eu não fui o responsável lá atrás. Hoje mesmo é aniversário da morte do Luiz Gushiken, que eu considero muito superior a mim como intelectual, quadro político e estrategista. Também tínhamos o Marco Aureliano Garcia. Éramos uma orquestra. O Lula era o regente e eu era, vamos dizer, o subregente. Nós vamos crescer o PT com deputados e senadores. PSD, PL e outros têm de disputar 300 votos entre os partidos deles. Dizer que vai fazer 80 deputados, bem, vamos conferir. Nós temos condições de crescer as bancadas dos partidos de centro-esquerda. Agora, o governo entregou tudo que se comprometeu na frente ampla.
De que forma?
Primeiro, o Alckmin foi o vice e foi um um dos principais ministros do governo, junto com Fernando Haddad e com o Mercadante no BNDES. Os bancos públicos jogam um papel fundamental naquilo que interessa para o país. Segundo, nós evitamos o retrocesso democrático. Evitamos que o Brasil perdesse sua soberania e que o Brasil deixasse de crescer, caísse numa recessão, em desemprego, a inflação estourasse. Garantimos a liberdade. Qual era o maior medo das classes médias que entraram na frente ampla? A ditadura. Perder a liberdade. Fizemos o esforço de reforma tributária. A ideia de que é necessária uma reforma tributária no Brasil quase não existia, fazendo uma caricatura. Mas hoje 80% são a favor de cobrar impostos dos BBBs, bancos, bets e bilionários. Isso é uma coisa extraordinária, já que essa classe média quer eliminar a pobreza, a desigualdade. Ela pode discordar de nós nos caminhos. Muitos brasileiros de direita também querem diminuir a desigualdade.
Não há autocrítica sobre a frente ampla, então?
Pode haver um sentimento de que não houve diálogo. Isso, sim, eu reconheço, que não houve acolhimento, não houve espaços para opinar, para discutir. Agora, que a política tenha sido esquerdista, para simplificar, e não atendeu os reclames das camadas médias brasileiras, pelo contrário. Nós fizemos um esforço sobre o endividamento, o financiamento habitacional, a própria estrutura tributária, para minorar a situação das classes médias de média, baixa ou alta renda. Fizemos uma política agressiva mesmo com relação ao agronegócio. Respeito muito a senadora Tereza Cristina, mas ela dizer que somos contra o agro, levantando duas questões, a do armazenamento e do juro alto... É verdade, mas se quer baixar o juro, o agronegócio devia apoiar a nossa política contra o aumento de juro. Agora, nós somos a favor da agricultura familiar e da reforma agrária. A França está defendendo o quê? A Polônia, a Romênia, a China e a Índia se sustentam com que tipo de agricultura? Talvez sejam centenas de milhões de propriedades agrícolas para os 3 bilhões de chineses e indianos. Por que nós não podemos sustentar uma agricultura orgânica familiar?
Por que o senhor acha que as medidas do governo não repercutem com os eleitores?
Há um sentimento grave numa parcela grande do eleitorado pêndulo que me preocupa muito. Eles comparam o governo do Lula atual com o segundo governo do Lula e não com o governo Bolsonaro. E muitos acham que a situação econômica do governo Bolsonaro foi melhor do que é agora. É verdade que o endividamento é um problema sério, que a segurança é um problema sério. Agora, o que os bolsonaristas fizeram pela segurança pública? Nada, zero, ao contrário, eles promoveram, incentivaram e protegeram o nascimento das milícias. Nós erramos. Há 10, 15, 20 anos, devíamos ter criado o Ministério do Interior de Segurança Pública, por causa do narcotráfico, do crime organizado. Mas agora adotamos a PEC da Segurança Pública, além do PL antifacções, da Operação Carbono Oculto. O que que eles oferecem para nós? Operações especiais que matam 50, 100, 200 jovens, criminosos ou não. Queremos reestruturar as polícias, reformar os sindicatos e mudar totalmente a concepção de segurança pública no Brasil. A direita não tem proposta. A proposta do Caiado é matar. Mas a experiência história já provou que em lugar nenhum do mundo isso funcionou. É melhor olhar a experiência do favela bairro que o César Maia começou, a experiência de Medellin, e começar a construir uma política.
Que papel o senhor imagina que vai desempenhar, caso eleito deputado, tanto na base do governo, caso Lula se reeleja, quanto na oposição, caso Flávio se eleja?
Primeira coisa que eu vou defender como pré-candidato é reforma política. São Paulo teria que ter 111 deputados, tem 70 e ninguém fala nada. Os paulistas não se levantam contra isso. Minas teria que ter mais 15, 20 deputados. Segundo, o Brasil não tem fidelidade partidária. Se você falar no exterior que tem um mês em que deputado pode mudar de partido, ninguém acredita. Nós aprovamos a cláusula de barreira e o Supremo disse que era inconstitucional. Isso nos atrasou 12 anos. E quem viabilizou a infidelidade partidária foi o Supremo também, com um monte de situações em que o político pode sair. Não, não pode sair. Se sair, tem de cumprir quatro anos de quarentena. Também precisamos do voto em lista. Tudo isso para fortalecer os partidos. E partidos têm de exigir que as decisões sejam tomadas pelos filiados. Quem escolhe candidato são os filiados, não é a direção do partido. Partido no Brasil é uma farsa, é uma mentira. Agora, eu quero que me mostre onde no mundo a democracia funcionou sem partido. Precisa de partido, de programa. Pode criticar o PT em tudo, mas o PT sempre teve programa. Quem votou no PT sabe que a gente tem ideias, as forças básicas são ideias históricas. E as outras ideias que defendo são a da reforma do Judiciário e priorizarmos a ciência, a educação e a questão da segurança pública.
O que faz o senhor acreditar que vai ser possível debater reforma política a partir de 2027, tendo em vista a degradação da qualidade do Legislativo e das relações entre os Poderes?
Aí a sociedade brasileira, o povo brasileiro, os eleitores vão ter de passar por essa experiência e vão ter que ir se formando correntes políticas, ideias. É uma luta. Vamos examinar o governo do presidente Lula 3. Ele fez com o Congresso mudanças importantíssimas para o país. Tem o lado “dark” do Congresso, vamos dizer, com emendas impositivas, fisiologismo, denúncias de uso indevido ou de desvio de recursos de emendas parlamentares, lobbies, defesa de interesses muito corporativos. Agora, o Congresso aprovou a reforma do IVA, o Plano Nacional de Educação. O Congresso aprovou todas as medidas que o presidente Lula pediu na reforma tributária. Só não avançamos na cobrança de lucros e dividendos. Essa coisa de “Congresso inimigo do povo” é perigosa. Uma coisa é você denunciar que a maioria do Congresso está se opondo aos interesses populares. Eles podem dizer que estão defendendo os interesses populares. Quem vai decidir é o eleitor. Mas da ideia de que o Congresso é inimigo do povo eu tenho medo, porque tem muita gente que gostaria de fechar o Congresso e governar o Brasil sem ele.
Ainda assim, esse é um slogan que está ficando cada vez mais forte na campanha do governo.
A opinião pública sente uma aversão ao Congresso por causa das práticas e muito por que o Congresso não defende certos interesses, né? Mas, por exemplo, o Congresso vai aprovar o fim da escala 6 x 1. O Congresso aprovou a isenção do imposto de renda. É verdade que foi por pressão popular e pelas pesquisas. O deputado tem de mediar, entre os interesses legítimos que ele defende — o interesse do agro, dos banqueiros, qualquer um tirando os interesses ilícitos ou de autobenefício —, mas cada deputado tem legitimidade para defender interesses de determinados setores. Nunca, na minha vida parlamentar, eu questionei um deputado porque ele é de direita. Ele tem a mesma legitimidade que eu, ele tem o direito de falar, de propor, o mesmo que eu tenho. Eu posso não concordar com a proposta dele, mas não deslegitimar. Isso não é democracia.
Um dos pontos de crítica do centro e dos liberais a Lula é a sua política externa, particularmente no caso da guerra na Ucrânia e em Israel. Como o senhor avalia isso?
A política externa do presidente Lula seguiu a tradição da política externa e da Constituição brasileira. Nós condenamos a invasão da Ucrânia. Nós temos que condenar. A nossa Constituição nos proíbe de não condenar, porque o Brasil defende a autodeterminação, a não intervenção nos assuntos internos, a solução passiva dos conflitos internacionais e o não uso da guerra. Como nós estamos criticando o presidente Trump e como criticamos Israel. Então, no caso da Ucrânia, o que eu sempre digo, como eu conheço profundamente o tema, é que foram feitos os Acordos de Minsk. Se eles fossem respeitados, teriam equacionado o problema da Ucrânia. Putin vinha deixando claro que não ia aceitar subverter ali e depois ver os adversários apoiando a oposição dentro da Rússia para derrubá-lo. Nós condenamos a invasão, mas temos que ser fazer justiça às razões que a Rússia tem, apesar que não podemos concordar com a guerra. Com relação a Israel, o Brasil sempre reconheceu o direito de Israel existir, a segurança de Israel e o direito de Israel se defender. Agora, nós reconhecemos também o Estado Palestino. Nosso governo condenou o que aconteceu no 7 de outubro, quando o Hamas invadiu Israel e cometeu todos aqueles crimes. Outra coisa é querer chamar o Hamas de terrorista, porque o exército de Israel foi fundado em cima de três organizações terroristas que combatiam os ingleses e faziam atentado, derrubavam hotéis, assassinavam autoridades britânicas. Então, o Mandela era terrorista? Não. O Brasil nunca deixou de defender o direito de existência do Estado de Israel, das fronteiras seguras, o direito de Israel se defender. E nunca nós estimulamos qualquer tipo de antissemitismo. Nunca.
O Brasil está diante potencialmente do maior escândalo de corrupção da história, o caso Master. Por que o senhor acha que a pecha de corrupto pega mais no PT do que em outros partidos? Como é que o senhor entende que o presidente Lula e o PT podem superar essa essa mácula? É possível que esta seja a grande pauta de 2026.
Se o Brasil transformar o debate político eleitoral de 26 na corrupção, o país está perdido. O Jânio Quadros ia acabar com a corrupção. A ditadura foi contra a corrupção e a subversão. E nunca houve tanta corrupção como na ditadura. O Collor ia acabar com a corrupção. Depois, o Bolsonaro. Isso não quer dizer que a corrupção não seja um problema grave no Brasil. É. Por outro lado, não tem nenhuma sustentação factual, nem indícios de que o escândalo Master tenha ligação com a esquerda. E os fatos vão provar isso, né? Mas as coincidências são assustadoras. De uma hora para outra, foi arquivado o processo contra o Ibaneis [Rocha] de 8 de janeiro. Todo mundo ficou estupefato. E aparece essa questão do ministro Alexandre Moraes e do contrato com o escritório da esposa dele. Agora se vai desvendando um escândalo que envolve a CVM, o Banco Central e o próprio mercado financeiro. Como é que os bancos — BTG, XP —, sendo que em novembro de 24 já se questionava se aquilo não era uma pirâmide… E agora você já vê na TV Mercado Pago oferecendo 140% [no CDI]. Tem uns 30 Master por aí. Talvez o maior erro tenha sido o consignado. Pensa bem, cobrar 50% de juro de um trabalhador, um aposentado, com a inflação de 4,5%? É um verdadeiro roubo, assalto à mão armada. Mas nós não temos nenhuma responsabilidade no escândalo do Banco Master.
Tem questões com o PT da Bahia.
Aí eu vou explicar. Nós privatizamos lá na Bahia, eles privatizaram, o CredCesta. Mas eles não fizeram, nenhum município do PT, nenhum governo do PT fez com o Master acordos de consignado de qualquer outro tipo. Não tem PT nisso. Porque o governo da Bahia vendeu o CredCesta, ou porque o Jacques Wagner recebeu dividendos, lucros, renda, das aplicações financeiras dele, não pode dizer que ele tem envolvimento com o Master. Essa tentativa de colocar o Master com relação com a esquerda não tem sentido nenhum, não tem sustentação nos fatos. Agora, é preciso dar o direito de defesa, o ônus da prova é de quem acusa, respeitar o devido processo legal. Não pode já julgar que o Ciro Nogueira é um criminoso. É grave, ele vai ter que se explicar. Os fatos precisam ser investigados, eu não estou acusando ninguém. Mas como é que o Banco Central e a CVM e o próprio sistema financeiro deixaram? São R$ 50 bilhões. Se fossem R$ 5 milhões já seria grave. Eu poderia comparar que o caso do mensalão eram R$ 4,5 milhões de empréstimo. Não se trata disso, se trata que se foi Caixa 2 era crime e ponto final. Tanto é que nós respondemos por isso, fomos condenados e cumprimos pena. Eu cumpri pena. E eu era inocente.
Como o senhor lida com essa condenação hoje?
Eu era inocente e não há nenhuma prova de que eu tinha participação. Eu não fui acusado nem de lavagem de dinheiro, nem de formação de quadrilha, que eu fui absolvido, nem de peculato. Foi o domínio do fato. Como não tinha prova contra mim... E depois veio aqui o alemão que criou o domínio de fato, o Claus Roxin, e disse que não tinha nem pé nem cabeça o que foi feito, que não tinha nada a ver a forma como foi aplicado em mim. O instituto dele é que depois que você condena quatro, cinco pessoas, vai fazer a dosimetria, e quem tinha o domínio de fato tem o agravamento da pena. Quem só seguiu ordens tem uma atenuação da pena. Não estou querendo minorar nenhum problema. Eu quero dizer o seguinte: o governo do presidente Lula, a CGU, a Polícia Federal, mesmo no caso do INSS, foram iniciativas do governo que levaram a desvendar. É a Polícia Federal que está investigando. Bolsonaro falou: “Eu demito o delegado do inquérito, demito diretor da Polícia Federal e demito o ministro da Justiça para proteger meu filho”. O filho do Lula está sendo investigado. Lula falou: “Ele tem que responder. É o CPF dele aqui, ele tem que responder”. E ele está respondendo com os advogados. Também não pode pré-julgar e já condenar. Eu fui condenado, cumpri a pena, não fugi do país, não falei que o Supremo tinha que ser fechado, que tinha que fazer impeachment de ministro. Aceitei a justiça do meu país, apesar de me considerar inocente, e cumpri a pena toda. Todo mundo se esqueceu do que foi a Lava Jato. Foi um sistema de perseguição atroz, violento e que não poupou nada. Mas nunca alguém me viu com orgulho, com espírito de vingança, nada. Eu simplesmente tinha tranquilidade, porque eu sabia o que eu tinha feito na vida.
Ormuz, o estreito sem saída
Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, no fim de fevereiro, o mundo se pergunta quais serão os impactos do conflito sobre a economia global, em especial sobre os preços dos combustíveis. Entre mísseis e bravatas, promessas e traições, a instabilidade segue como senhora do amanhã. Ora o mercado se anima e reduz o preço futuro do petróleo, ora entra em pânico e eleva o valor do barril a preços vistos poucas vezes na história. Passados mais de dois meses de caos no mercado mundial de energia, uma certeza começa a emergir: vai demorar muito tempo para que o mundo volte a considerar o Estreito de Ormuz como uma rota segura e estável para o escoamento do petróleo e do gás produzidos no Oriente Médio em direção aos mercados consumidores, em especial os asiáticos e europeus.
Para tentar contornar essa certeza incômoda, os países do Golfo iniciaram uma corrida frenética para abrir e ampliar rotas alternativas de escoamento da produção para que haja uma dependência menor de Ormuz no tráfego mundial da commodity. Não é uma tarefa simples. Pelo estreito passam ao menos 20% de todo o petróleo e gás que são consumidos no mundo e, até agora, ele é a única ligação efetiva entre os países produtores e os consumidores. Ao contrário de outros pontos vitais de possível estrangulamento, como Suez, Panamá ou Bab al-Mandeb, na costa do Iêmen, não há rota marítima alternativa possível.
Com Ormuz subitamente bloqueado, os países produtores do Golfo aceleram projetos que antes eram vistos como redundâncias caras e passaram a ser considerados vitais para a sobrevivência econômica de exportadores e para a estabilidade de grandes importadores asiáticos. A batalha, que antes era travada em gabinetes diplomáticos, agora ocorre em canteiros de obras de oleodutos e terminais ferroviários, enquanto o mundo observa o preço do barril ultrapassar a marca dos US$ 100 — para os mais pessimistas, pode superar a casa dos US$ 150 se não houver uma solução rápida para a crise.
Tubo no deserto
A Arábia Saudita está na vanguarda dessa manobra de diversificação. O reino maximizou o uso do Petroline (Oleoduto Leste-Oeste), uma infraestrutura de 1.200 km que atravessa a Península Arábica até o porto de Yanbu, na costa saudita do Mar Vermelho. Atualmente, o duto opera em sua capacidade total de emergência de 7 milhões de barris por dia (b/d), um salto dramático em relação aos 2 milhões de b/d transportados antes do conflito. Além disso, o governo saudita estuda a reativação de rotas históricas, como o duto IPSA, que outrora transportava petróleo iraquiano cruzando o deserto saudita. Ele deixou de ser operado em 1990 por conta da primeira guerra do Golfo, após o Iraque invadir o Kuwait. Há planos ainda de reviver o antigo Tapline, um oleoduto que não opera há décadas e que ligava os campos produtores sauditas à costa libanesa, passando por Jordânia, Israel e Síria.
Os Emirados Árabes Unidos (EAU) também intensificaram sua estratégia de “contorno”. O oleoduto ADCOP, que liga os campos de Habshan, em Abu Dhabi, ao porto de Fujairah, no Golfo de Omã, é atualmente a única grande rota da região que deságua diretamente no Oceano Índico, fora do estreito. Abu Dhabi já anunciou planos para dobrar a capacidade desta linha, uma decisão estratégica que ganhou força após a saída do país da OPEP, liberando-o das cotas de produção. Em paralelo, os Emirados improvisam o transporte de fertilizantes e querosene — produtos críticos para a agricultura global — por rodovias até portos seguros fora da zona de bloqueio.
Para lá de Bagdá
Para o Iraque, o bloqueio de Ormuz é uma ameaça existencial, dado que 90% do seu orçamento depende das exportações de petróleo. Com os terminais de Basra operando sob restrições severas, Bagdá anunciou a construção emergencial de um oleoduto de 700 km ligando Basra a Haditha, no centro do país, visando mercados na Síria e na Turquia. Embora o projeto leve cerca de dois anos para ser concluído, o país já conseguiu reativar a linha Kirkuk (Iraque) - Ceyhan (Turquia) em setembro de 2025, escoando 250 mil barris por dia para o mercado turco. Até o próprio Irã, ciente da volatilidade, desenvolveu o oleoduto Goreh-Jask, que liga os grandes campos de petróleo iraniano a portos estabelecidos fora do Golfo. Sua capacidade de 300 mil barris diários, no entanto, ainda é marginal diante da crise.
Apesar do esforço nos oleodutos, o mundo enfrenta um impasse intransponível com o Gás Natural Liquefeito (GNL). O Catar, maior exportador global, não possui oleodutos alternativos que atravessem o deserto, deixando seus 77 milhões de toneladas de capacidade anual — cerca de 19% do comércio mundial — sem saída viável. Projetos de gasodutos ligando o Catar à Turquia através da Arábia Saudita, Jordânia e Síria voltaram à pauta ministerial, mas exigem anos de construção e um nível de estabilidade política que a região ainda não oferece.
Pressão sobre a Ásia
Os grandes importadores asiáticos — China, Índia, Japão e Coreia do Sul — são os que mais sentem a pressão, sendo destino de 74% do petróleo que normalmente transita por Ormuz. A China tem tentado utilizar corredores ferroviários através do Irã, que, embora mais rápidos que a rota marítima, conseguem movimentar apenas uma fração do volume necessário.
A questão central para os mercados financeiros é se o mundo pode, de fato, abandonar Ormuz. A resposta das fontes é cautelosa: as alternativas são paliativos necessários, mas não substitutos plenos. Países como o Kuwait e o Bahrein continuam sem qualquer opção terrestre, tendo visto suas exportações despencarem drasticamente. Mas o que a crise atual solidificou foi a percepção de que a infraestrutura de redundância, antes descartada como um “luxo caro”, tornou-se uma necessidade geopolítica absoluta. O mundo está investindo centenas de bilhões de dólares não para substituir Ormuz, mas para garantir que o coração da economia global não pare de bater caso a artéria principal seja obstruída novamente. A era da confiança cega em corredores marítimos estreitos terminou.
Feitiço do Villa
Como compositor, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) incorporou muitos elementos da tradição musical popular do Brasil, sem se distanciar das convenções europeias da música erudita. Em Erika Ribeiro: Villa-Lobos, que acaba de sair pela Rocinante, a pianista leva o maestro brasileiro para outras paragens, ao ler sua obra a partir de uma orquestração que explora de maneira inédita o ritmo em suas composições.
O álbum parte de uma criação coletiva com o arranjador e produtor Marcelo Galter, o percussionista Reinaldo Boaventura, o contrabaixista Ldson Galter e a percussionista Natália Mitre. No disco, que sai em vinil, além de estar nas principais plataformas de streaming, Erika consegue aproximar o piano da família das cordas percutidas, unindo o instrumento clássico ao teclado Wurlitzer, à marimba, ao berimbau e às enxadas.
Olhando em retrospecto, parece um caminho natural. Erika partiu do piano clássico, venceu inúmeros concursos, entre eles o 3º Concurso Nelson Freire, e há anos se apresenta como solista, camerista ou à frente de orquestras como a OSB, a Petrobras Sinfônica, a Filarmônica de Minas Gerais e a Filarmônica de Kalisz.
Desde seu primeiro disco, Images of Brazil, que divide com a violinista americana Francesca Anderegg, nota-se uma inquietação em aproximar os mundos do erudito e do popular. Inquietude que transparece também em seu primeiro disco solo, Erika Ribeiro, lançado em 2021 e indicado ao , um trabalho introspectivo, focado em transcrições para piano de obras de Stravinsky, Hermeto Pascoal e Sofia Gubaidúlina.
Conversamos por vídeo sobre o novo disco, seu trabalho acadêmico, hoje ela dá aulas na UNIRIO, e sobre a cultura erudita. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Letieres Leite fez o disco sobre o maestro Moacir Santos com um rearranjo da parte rítmica para emular o som das religiões de matizes africanas. Você realça o lado rítmico do Villa-Lobos. Existe essa inspiração do Letieres no disco?
Adorei que você falou de Letieres porque realmente, tendo Marcelo [Galter] como produtor é impossível a gente não ter Letieres como referência. Ele não é exatamente uma referência minha pessoal, mas é um tipo de aproximação que eu quis realizar com esse com esse trabalho a partir do repertório do Villa-Lobos. Uma coisa que sempre me incomodou é que eu sinto que o Villa sugere muita rítmica, especialmente para o piano, que o próprio instrumento não dá conta de trazer, mas as intenções estão todas lá. Como pianista, a gente vem de uma formação clássica, com esse sotaque europeu no instrumento, e eu sempre quis saber como é o ritmo, como é o sotaque dele. A intenção maior era de falar português através do Villa.
Seu álbum anterior é muito introspectivo. Agora você tem o piano no centro de uma criação coletiva, como foi esse processo?
Foi maravilhoso. Quando a gente começou, eu juro que eu falei assim: “Meu Deus, será que a gente vai conseguir?” Eu e o Marcelo viemos de lugares e formações muito distintas, mas, no momento que a gente se encontrou, começou a investigar e achar, a partir da partitura do Villa, essas intenções rítmicas. Marcelo e Rei [Reinaldo Boaventura] trouxeram várias referências de ritmos, de manifestações culturais, e a partir daí a gente foi criando e se inspirando. A gente partiu de criar a liga entre o piano e a percussão, que era também um desejo meu de aproximar o piano da própria família de cordas percutidas, de tirar um pouco o piano desse ideal romântico, embora, lógico. A música do Villa-Lobos tem toda uma lírica muito presente. No clássico, por exemplo, Stravinsky e Bartók, são compositores que trazem o piano como um instrumento percussivo. E aí isso acho que se conecta um pouco com o meu primeiro trabalho, no sentido de que, com as transcrições, entrei numa viagem de tentar entender um pianismo meu, onde eu pudesse, a partir do texto, criar uma maneira minha de elucidar a música.
Sua tese sobre Egberto Gismonti já traz um olhar para a fronteira do erudito e do popular. Como isso a preparou para manipular Villa-Lobos desse jeito imaginativo?
Não sei se teve uma coisa muito acadêmica nesse sentido, embora, claro, meu doutorado acabe se debruçando sobre esse lugar. Fiz meu mestrado sobre as sonatas para piano de Beethoven. Eu investiguei processos no piano, e isso sempre me despertou muita coisa sobre o que está escrito e como a pessoa toca o que não está escrito. Nesse momento eu conhecia a música do Egberto e aquilo deu um nó na minha cabeça. Falei: “Gente, não é possível, não tá escrito e ele tá fazendo isso. Então como que a gente faz? Como é que eu faço?” Por outro lado, eu sempre tive essa grande identificação com ser uma pianista brasileira, de ouvir Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso. Em paralelo ali, o piano erudito. Então eu sempre quis juntar essa musicalidade mesmo e precisei encontrar caminhos. A gente fala dessas coisas do erudito e popular, mas eu acho Egberto super erudito e [Ernesto] Nazaré super popular. Então, sabe, esses rótulos dizem muito pouco sobre a música brasileira.
Especialmente em relação ao Villa-Lobos?
Eu acho que o Villa é um compositor popular nesse sentido. Os temas dele são hinos. Claro que ele tem a toda a parte da música de tradição escrita, sinfonias, concertos, isso tudo é pensado para formações clássicas, orquestras, mas eu sinto que tem muito da essência da música dele que pode viajar para outros lugares. A gente está num momento de investigar essas tendências, né? O intérprete está deixando de ser só aquele cara que obedece ao que o compositor escreveu. Ele está se tornando também parte do processo, como um coautor. Não só um improvisador, mas também um pensador. Esse tipo de processo de seguir uma intuição musical também sempre me interessou muito.
No disco tem a novidade do uso do Wurlitzer e o ataque dos martelos nas cordas do piano. Como foi a descoberta da cama timbrística do disco?
Foi surgindo a partir da percussão, a partir do momento que eu comecei o piano com a percussão, a música foi sugerindo coisas e a gente foi experimentando. O Wurlitzer apareceu realmente meio por acaso, porque tem um maravilhoso no estúdio Sou meio chata com teclados. No piano clássico, a gente trabalha muito o tipo de toque, a dinâmica e eu sempre chego em teclados e me sinto um pouco limitada. Mas quando cheguei no Wurlitzer, eu pensei: “Gente, mas isso parece uma celesta, uma harpa, tem tudo a ver com Villa-Lobos!”. Foi aí que comecei a experimentar com o Carnaval das Crianças, que nem estava no repertório, e decidi incluir na hora. Eu gosto de trabalhar assim: sair da resposta pronta e investigar como poderíamos fazer as coisas.
Como você pensa nas pessoas que ainda estão presas ao purismo da música erudita?
Eu tenho muito apreço pela tradição, ela leva a gente a conclusões incríveis. Mas ela não deixa também de ser uma convenção. Sinto que o texto pode sugerir outras coisas. A partir do momento que você está no Brasil e tem toda essa outra musicalidade, sinto que a gente pode se enriquecer disso. Eu sei muito bem seguir essa convenção, aprendi e acho bacana entender como é. Mas, a partir desse conhecimento, você pode expandir. Eu posso fazer uma leitura de Shakespeare, sem perder o texto. O Villa-Lobos falava que a sua música não estava no papel, ela existia no mundo, na natureza. A escrita, a caligrafia, a linguagem vêm de um lugar europeu. A gente é brasileiro, toca música brasileira, ele é um compositor brasileiro. Por que não imaginar, a partir desse repertório, o que também pode ser possível incluir? Acho que é um trabalho político a gente se autorizar a fazer isso.
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