O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

Edição de Sábado: A Copa para o Brasil e o Brasil para a Copa

Divulgação/CBF
Divulgação/CBF

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

A Copa do Mundo não é apenas o período em que a maioria dos brasileiros pensa em futebol. A Copa é também o período em que a enorme parte da população mundial que tem alguma relação com o futebol se vê obrigada a pensar no Brasil. A simbiose entre esse evento e este país não tem paralelo. Qual foi o processo pelo qual o Brasil passou a ser quase uma metonímia da Copa e a Copa passou a ser, para o Brasil, esse evento quase transcendental que o define?

A primeira Copa em que o Brasil se viu como Brasil não foi a inaugural, de 1930. Nas duas primeiras, hospedadas por Uruguai e Itália, o Brasil sofreu efeitos da cisão entre Rio e São Paulo e, na de 1934, entre amadores e profissionais. Na Copa da Itália, nosso melhor futebol já vivia sob a égide do profissionalismo, mas filiada à Fifa estava apenas a CBD, amadora, e não a FBF, profissional. Arthur Friedenreich, o maior jogador das primeiras três décadas de futebol no Brasil e autor do gol do nosso primeiro título, o Sul-Americano de 1919, jamais atuou em um Copa, apesar de que continuava no auge em 1930 e 1934.

Em 1938, o Brasil começou a se ver como Brasil na Copa. O time foi completo, não cindido por brigas regionais. Com o profissionalismo enraizado, as competições estaduais estavam unificadas. Embora o racismo continuasse se manifestando, o futebol de ponta já era multiétnico. Os três maiores jogadores da década, o centroavante Leônidas da Silva, o zagueiro Domingos da Guia e o centromédio Fausto dos Santos, eram negros.

O acompanhamento da Copa de 1938 esteve inserido no projeto varguista de unificação nacional via rádio. Alto-falantes foram instalados Brasil afora e multidões se reuniam para ouvir os jogos: 6 x 5 contra a Polônia, na estreia, depois 1 x 1 com a Tchecoslováquia, o que impôs a realização de um segundo jogo, que o Brasil venceu por 2 x 1. Isso o levou à semifinal contra a então campeã Itália. Sendo obrigado a viajar de Bordeaux a Marselha depois de ter jogado uma partida a mais, o Brasil caiu por 2 x 1. A transmissão foi repleta de mal-entendidos. A contestação oficial de um pênalti, feita pela CBD ante a Fifa, gerou o boato de que a partida seria anulada. Uma multidão aguardou, em frente à sede do Jornal dos Sports, notícias da anulação que, obviamente, nunca veio. De qualquer forma, o time foi recebido com festa e Leônidas foi consagrado como artilheiro da competição.

Já 1950 sintetiza uma das metades de nossos mitos sobre quem somos. Éramos campeões sul-americanos de 1949, donos do maior estádio do mundo e anfitriões em plena campanha eleitoral para presidente. Os cancelamentos de Índia, Escócia e Turquia deixaram o torneio capenga, com 13 equipes. Enquanto o Uruguai ficou sozinho com a Bolívia, a quem goleou, o Brasil derrotava o México e se matava em pelejas contra Suíça (2 x 2) e Iugoslávia (2 x 0). A partida contra a Suíça foi marcada para São Paulo, atendendo a reclamos por um time com mais paulistas. Na única Copa do Mundo em que não houve uma final, os dois sul-americanos se juntaram a Espanha e Suécia em um quadrangular decisivo.

Naquela segunda semana de julho, o Brasil viveu cinco dias em que se consolidou a outra metade da nossa mitologia: a soberba e a ilusão de invencibilidade. Batemos a Suécia por 7x1 e a Espanha por 6x1. Ficou famosa a rendição de “Touradas de Madri” pelas arquibancadas, enquanto o time passeava ao ritmo da marcha. O Uruguai sofria para empatar em 2 x 2 com a Espanha e vencia a Suécia por 3 x 2 com um gol a cinco minutos do fim. Nada em toda a história do futebol, a não ser esses cinco dias, autorizava alguém a pensar que o Brasil era o favorito contra o Uruguai. Mas assim o Brasil viveu aquela semana. O empate era suficiente, mas não se esperava menos que uma goleada. Os jogadores foram arrancados da tranquila concentração no Joá, levados ao burburinho de São Januário e submetidos a discursos políticos que mal lhes permitiram almoçar no dia do jogo. A capa de O Mundo no domingo ficaria famosa. Ela estampava a foto da equipe brasileira sob a manchete “Estes são os campeões do mundo”.

Tínhamos zero títulos mundiais e o Uruguai possuía três: duas Olimpíadas e uma Copa. O Uruguai havia sido campeão sul-americano oito vezes e o Brasil, três. Dois meses antes, o Uruguai nos  derrotara por 4 x 3 em pleno Pacaembu. Com base em que evidência empírica, então, o Brasil se imaginou campeão antes de entrar em campo? Não seria a última vez que o país se faria essa pergunta.

Perdemos, como se sabe, por 2 x 1. E foi de virada, ou seja, em três ocasiões o Brasil teve em mãos um resultado que lhe servia: no 0 x 0 inicial, na vantagem parcial com o gol de Friaça, e no 1 x 1 que se seguiu ao gol de Schiaffino. O Brasil provavelmente poderia ter cozinhado o 1 x 1 até o final, mas a soberba havia tornado inaceitável ser campeão com um empate.

Esse jogo inaugurou a fábrica de mitos que viriam a ser os jogos da Seleção em Copas. “Mito” aqui deve ser entendido como o entendem os antropólogos: não uma mentira, mas uma narrativa totalizante que organiza a percepção que uma comunidade tem de seu entorno. Sobre o Brasil 1x2 Uruguai de 1950, Nelson Rodrigues cunharia a expressão “complexo de vira-latas”, que designa nossa suposta tendência de fraquejar na hora H. Os jogadores negros, especialmente o goleiro Barbosa, sentiriam a culpabilização pesada e eterna.

Pouco explorada foi a explicação tática: México, Iugoslávia, Suécia e Espanha, as quatro equipes que o Brasil derrotara, jogavam no WM, o esquema que dominou o mundo entre os anos 1920 e os anos 1950, assim apelidado pela disposição em 3-2-2-3, na qual os cinco jogadores da frente formavam um W e os cinco de trás formavam um M. O Brasil importou o WM, mas jogou a década de 1940 em uma variação dele, a diagonal, em que o quadrado do meio se convertia em um paralelogramo no qual um lado, em geral o esquerdo, ficava mais avançado que o outro. Para a Copa, o técnico Flávio Costa decidiu voltar a um WM ortodoxo, com o resultado de que o lado esquerdo do quadrado (Danilo, atrás, e Jair, na frente) terminava sempre mais avançado do que deveria, dada a força do cacoete. Atrás deles, ficou o latifúndio em que Ghiggia, ponta-direita, avançou sobre Bigode para criar os gols uruguaios.

Naquela época, o encaixe de WM contra WM costumava ser perfeito, e até pelos números os jogadores sabiam a quem marcar. O Uruguai fugiu à regra, voltou às origens do futebol centro-europeu, e atuou como havia feito a Suíça em São Paulo: no 1-3-3-3, com o chamado beque recuado. Tendo um jogador na sobra, atrás de todo mundo, o Uruguai pôde destacar outro zagueiro para perseguir Zizinho, o craque brasileiro, enquanto a última linha continuava protegida.

Mas a nada disso se deu muita importância. Um leve toque do capitão uruguaio Obdulio Varela no rosto do zagueiro Bigode, sim, ganhou ares de tapa que ofendeu a honra, e em 1954 o Brasil inaugurou outra tradição: a de se preparar para uma Copa reagindo de forma automática à Copa anterior.  Era preciso ser machos, não se deixar intimidar.

Em 1954, o Brasil derrotou o México e empatou com a Iugoslávia, enquanto corria procurando a vitória e os iugoslavos desesperadamente tentavam explicar que o empate servia às duas equipes. Nas quartas-de-final contra a Hungria, o melhor time da época, o Brasil talvez pudesse ter tido chances, se não fosse o excesso de pilha e a vontade excessiva de não ser intimidado. O Brasil perdeu a “Batalha de Berna” por 4 x 2 e, depois do jogo, se envolveu em uma das maiores pancadarias da história.

Na Copa de 1958 e na Copa de 1962, chegamos ao topo do mundo, nos torneios que consagraram Pelé e Garrincha. Esses mitos são tão potentes que todo o conjunto de causas das vitórias foi sendo esquecido. Na primeira, o Brasil estreou vencendo a Áustria e empatando com a Inglaterra, dois jogos em que Pelé e Garrincha não atuaram. O empate com os ingleses fez do último jogo da primeira fase, contra a União Soviética, uma peleja decisiva. Uma derrota carimbaria a volta para casa.

Não temos o vídeo do que aconteceu ali, mas alguns clipes sustentam a lenda. Um jornalista inglês se referiria ao começo dessa partida como “os três maiores minutos da história do futebol”.  O Brasil venceu apenas por 2 x 0, porque os soviéticos tinham o melhor goleiro do mundo, Lev Yashin, e as traves os salvaram. Nas quartas contra Gales (1x0), nas semifinais contra a França (5x2) e na final contra a Suécia (5x2), Pelé consolidou-se como o primeiro mito adolescente da história do futebol. Gol de cabeça, de placa com chapéu e voleio sem a bola cair, de oportunismo de centroavante, de puxeta para abrir um ferrolho: Pelé fez de tudo em 1958 e, daí em diante, o Brasil teria que lidar com o mito. Os dois últimos jogos dessa Copa estão disponíveis em vídeo na íntegra.

Mais esquecido ficou o fato de que o Brasil concebeu ali outra preparação para a Copa, levando médicos, dentistas e psicólogos, e inventou outra forma de jogar. Em vez do WM que o mundo usava, o Brasil foi tecendo ao longo dos anos 1950 uma de suas grandes inovações: a linha de quatro. Com quatro zagueiros, já não era necessário perseguir cada atacante individualmente. Ainda na Copa de 1962, era possível ouvir um locutor da BBC estupefato: “eles não marcam homens, mas espaços”.  O Brasil inventava ali a marcação por zona, que nunca mais deixaria de ser parte do futebol.

Na Copa de 1966, o Brasil inaugurou outra tradição sua, a de repousar sobre os lauréis de uma conquista anterior, fazer uma preparação bagunçada e desprezar os adversários. Isso se repetiria em 1974, depois do tricampeonato de 1970, e em 2006, depois do pentacampeonato de 2002.

Antes e durante essas três Copas que se sucederam a grandes conquistas, o Brasil fez festas injustificáveis. Em 1966, a peregrinação da Seleção por várias cidades atendia exigências de prefeituras de que estivessem presentes os bicampeões do mundo, especialmente Pelé e Garrincha. 44 jogadores foram convocados para satisfazer os lobbies regionais, agora não apenas o paulista e o carioca, mas também o gaúcho e o mineiro.

Na Copa de 1974, fazia quatro anos que o mundo conhecia a revolução que realizavam os holandeses, com um futebol chamado de total e caracterizado pela troca constante de posições em linhas verticais e a pressão coordenada sobre a saída de bola adversária. Os holandeses já haviam massacrado Uruguai e Argentina, mas o técnico Zagallo ainda dava entrevistas dizendo que a Holanda jogava futebol de “entretenimento” e “não era competitiva”.

Na Copa de 2006, a bagunça chegou ao ponto de que os treinamentos eram marcados no horário conveniente para a televisão e os jogadores acordavam de madrugada para aparições ao vivo. Perdemos todas essas três, claro. E vivemos aquelas derrotas como vexames, embora somente em 2014 entenderíamos o sentido profundo que pode ter essa palavra.

Entre as vitórias, o tricampeonato de 1970 e o tetracampeonato de 1994 representaram dois paradigmas opostos: a arte e a eficiência, o idealismo e o pragmatismo, a beleza e a funcionalidade. Em 1970, tudo conspirou a favor: a Copa aconteceu sob o sol do México e a transmissão a cores (ainda não disponível no Brasil) ressaltava o brilho da camisa canarinho em contraste com o verde dos gramados. A paixão alucinada dos mexicanos pela seleção brasileira, combinada com a meticulosa preparação do time para a altitude (que incluiu o que havia de mais moderno até no trabalho físico da Nasa), fez com que o Brasil jogasse em casa, sobrando nos segundos tempos, enquanto os europeus se derretiam no calor. Em 1994, também sob o sol brutal do verão da América do Norte, o Brasil construiu uma fortaleza intransponível, na qual a única aparição da beleza se reservava para as ocasionais estocadas de Romário.

Entre nossas derrotas, nenhuma doeu tanto como a de 1982, para a Itália. Aquele time inesquecível, caracterizado pela alegria, pelo amor ao jogo, e pela troca estonteante de passes, deixou uma legião de fãs pelo mundo. A ele, o argentino Ángel Cappe dedicou um verdadeiro poema em prosa: “o povo olhava o relógio com a intenção de deter o tempo, porque queria que a partida durasse para sempre”. E ainda: “A bola chegou a uma zona do campo e desapareceu, para voltar a aparecer em forma de coelho ou de pomba; depois, eles a esconderam novamente dos adversários, que, em sua angústia, a procuraram nos lugares mais estranhos, sem conseguir encontrá-la”. Sim, essa declaração de amor ao time de Zico, Sócrates, Cerezo, Éder e Falcão foi escrita por um argentino.

De novo, não prestamos atenção à explicação tática da derrota. O time era tão belo que gerou arrogâncias pomposas do tipo “se Brasil e Itália jogassem 100 vezes, o Brasil venceria 99” (um patente delírio) ou “naquele dia, o futebol morreu” (como se outras formas de jogar também não fossem  futebol). Assim como em 1950, sofremos ao passar de uma estrutura simétrica para uma estrutura torta. Havia um vazio na ponta-direita, causado pela retirada de Paulo Isidoro, que jogara as Eliminatórias, para a entrada de Falcão que, já na Roma, não havia participado do ciclo. O quadrado que deu ao mundo algumas das mais maravilhosas trocas de passes da era moderna também forçava um revezamento pela direita que não conseguiu preencher o buraco à frente de Leandro. Sim, Jô Soares (“Bota ponta, Telê!”) estava certo.

Como em 1994, vivemos hoje um jejum de 24 anos. Nas últimas cinco, perdemos ao primeiro encontro com um europeu no mata-mata. Em duas delas, 2006 e 2014, cometemos um de nossos erros favoritos, voltar a um técnico outrora campeão do mundo (primeiro Parreira, depois Felipão) agora já defasado ante a evolução do jogo. Em 2010, mantivemos a tradição de reagir mecanicamente à Copa anterior, saltando para o extremo oposto. Depois do pagodão bagunçado e televisionado de 2006, trouxemos o militarismo evangélico de Dunga. De fazer preparação em forma de pose para as câmeras de TV, a Seleção passou ao igualmente inaceitável extremo oposto, o de atacar a imprensa como se ela fosse a inimiga. Essa pilha gerou uma equipe desequilibrada emocionalmente que, ao se encontrar em desvantagem no marcador, só conseguiu reagir brigando de forma histérica com o árbitro, dedo em riste, e pisando em adversários caídos.

Como se sabe, 2014 trouxe esse outro ineditismo, um resultado de jogo de futebol transformado em substantivo comum reconhecível por qualquer falante nativo. Não há quem não entenda a frase “é cada dia um sete-a-um diferente”. Se vivemos o Maracanaço de 1950 como tragédia, 2014 foi a farsa. Espancando manifestantes, avançando sem merecer, jogando péssimo futebol e sendo auxiliado pelas arbitragens, o Brasil encontrou no 7 x 1 contra a Alemanha a revelação de uma verdade sobre si próprio, por mais que as explicações mais superficiais insistissem que o ocorrido havia sido fruto de um apagão de dez minutos.

Depois do 7 x 1, ficou claro que os técnicos brasileiros estavam defasados ante as inovações táticas do esporte. Ainda tivemos que padecer dois anos inteiros de um segundo ciclo de Dunga até que a CBF reconhecesse que Tite era o mais equipado para assumir o cargo.  Em 2016, com Tite, a Seleção passou a jogar um futebol competitivo e dominante, e o Brasil dominou duas Eliminatórias sul-americanas em sequência. De novo, perdemos ambas as Copas nas quartas-de-final, mas vexame não houve. Competimos, brigamos, caímos de pé. Mas, tanto em 2018 como em 2022, Tite foi surpreendido por um arranjo tático que não antecipou. Foi derrotado no xadrez da bola por técnicos que dirigiam potências médias, a Bélgica e a Croácia. Nosso melhor técnico levou nós táticos de treinadores de segunda prateleira da Europa.

De novo desperdiçando tempo como só nós sabemos fazer, jogamos fora três anos inteiros do ciclo seguinte ao contratar técnicos brasileiros pouco equipados para a tarefa antes de trazer Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol de clubes. Independente do que aconteça na Copa de 2026, está claro que devemos continuar com ele para 2030 (inclusive o seu contrato já está renovado), porque tempo de fazer grande coisa ele ainda não teve. Favoritos não somos, mas tampouco o éramos em 2002. Naquela Copa, todos temiam a França e a Argentina. Hoje, todos temem a França e a Espanha. A atual Argentina, campeã do mundo e bicampeã da América, joga com mais confiança que nós. Portugal, virgem de conquistas mundiais, tem um meio-campo mais estrelado que o nosso.

Ou seja, algo espetacular pode acontecer.  Ou não, como diria Caetano.


*Idelber Avelar é professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane e autor de vários livros sobre literatura e política. Escreve regularmente sobre futebol e co-apresenta o “Meio de Campo”.

A nova ofensiva dos EUA na América Latina

As urnas mal haviam fechado quando o presidente colombiano, Gustavo Petro, começou uma ladainha muito típica entre mandatários da extrema direita, de quem ele se diz um dos maiores opositores na América Latina. Com as contagens iniciais dos votos mostrando que seu candidato a sucedê-lo, o senador Iván Cepeda, não venceria no primeiro turno e sequer liderava a apuração, Petro foi às redes fazer o que Donald Trump e Jair Bolsonaro já haviam feito no passado: acusou o sistema eleitoral de estar fraudado. A jogada, ao melhor estilo de presidentes sem muito apreço pela democracia, foi logo refutada. Primeiro, pela Procuradoria-Geral do país, que afirmou não haver qualquer indício de fraude, tanto na votação quanto na contagem dos votos. Depois, pela Organização dos Estados Americanos, que, com base no relatório de sua equipe de observadores internacionais, afirmou que as eleições e a apuração preliminar haviam transcorrido na mais absoluta normalidade.

A reação extremada de Petro ao não aceitar o resultado das eleições surpreendeu tanto dentro da Colômbia quanto fora dela. Ex-guerrilheiro que se notabilizou por sua defesa da democracia, o presidente colombiano teria ficado profundamente abalado ao ver que Cepeda terminara atrás de Abelardo de la Espriella, o candidato de extrema direita que promete ser uma versão anabolizada do controverso presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Assim como Bukele, Espriella afirma que não terá qualquer diálogo com o crime organizado e as facções narcoguerrilheiras que seguem operando no país. Uma de suas principais promessas de campanha é construir dez prisões de segurança máxima nos moldes do Cecot, o famoso e polêmico complexo penitenciário erguido por Bukele em El Salvador.

Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda terminaram o primeiro turno, de acordo com a contagem preliminar, praticamente empatados — Espriella recebeu cerca de 43% dos votos, enquanto Cepeda teve 40% — e vão se enfrentar no dia 21 de junho no segundo turno das eleições colombianas. Independentemente de quem vencer, o resultado terá impactos profundos na política latino-americana, que, ano após ano, vem observando políticos de direita ou extrema direita vencerem eleições democráticas e passarem a governar a maior parte dos países do continente.

Nesses últimos anos, onda vermelha que varreu a América Latina vem dando lugar a um tsunami de vitórias de políticos conservadores e profundamente alinhados à política de intervenção regional estabelecida pelos Estados Unidos no segundo mandato de Donald Trump. Colômbia, Brasil e México são hoje os últimos países com alguma importância regional ainda governados pela esquerda ou pela centro-esquerda no continente. Mas isso pode mudar. E os Estados Unidos têm se esforçado para que isso aconteça.

A mão pesada dos EUA

Desde o início de seu segundo governo, Donald Trump colocou como uma de suas principais prioridades exercer domínio político, militar e econômico sobre as Américas. Após décadas concentrados em guerras sem fim no Oriente Médio, os Estados Unidos perceberam, ainda que tardiamente, que a China havia se tornado o maior parceiro comercial de praticamente todos os países da América do Sul, com exceção, veja só, da Colômbia. Mas a preocupação americana não está concentrada exatamente na balança comercial dos países sul-americanos. Em um mundo cada vez mais polarizado, no qual a influência americana se esvai no mesmo ritmo em que Trump dispara bravatas, a grande preocupação dos Estados Unidos está no acesso aos recursos naturais que movimentam sua indústria, como as terras raras e os minerais críticos tão fartos na América do Sul.

Trump já vinha sinalizando, desde o início do ano passado, que a política externa dos Estados Unidos passaria a atuar na América Latina sob um profundo viés ideológico. Aos amigos, tudo; aos considerados inimigos, a força. Foi assim com a Argentina de Javier Milei, que recebeu um aporte de US$ 20 bilhões para evitar uma nova crise financeira. Foi assim com o Brasil de Lula, o país mais atingido pelas tarifas impostas pelos americanos.

Logo veio a divulgação da nova Política de Segurança dos Estados Unidos, que defendia que o país não poderia abrir mão de sua influência na América Latina e que o continente era prioridade econômica, política e militar para Washington. Semanas depois, forças especiais americanas atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. Em março, sob a justificativa do combate ao narcotráfico, Trump criou o Escudo das Américas, uma aliança regional entre países do continente governados pela direita. Praticamente todos os países sul-americanos aderiram ao acordo, com exceção, claro, de Brasil, México e Colômbia.

A incógnita peruana

A derrota do esquerdista Cepeda e a consequente vitória de Espriella na Colômbia atenderiam de forma profunda aos interesses americanos, que manteriam influência direta sobre quase todo o continente, com exceção do Brasil e do Uruguai. No Peru, onde as eleições ocorrem na próxima semana, o resultado ainda é impossível de prever, com a candidata de direita Keiko Fujimori mantendo leve vantagem sobre o candidato da esquerda, Roberto Sánchez.

Por isso, a ação coordenada que os Estados Unidos lançaram contra o Brasil nesta semana, em campos tão distintos — econômico, político e de defesa —, tem focinho, rabo e orelhas do início de uma séria tentativa de influenciar as eleições de outubro. O apoio explícito de Trump a Flávio Bolsonaro, o novo tarifaço e a declaração do secretário de Estado, Marco Rubio, de que o Brasil não é um país amigo não podem ser analisados fora desse contexto regional. Uma eventual derrota de Lula significaria a hegemonia quase absoluta dos Estados Unidos sobre o continente, objetivo declarado pelos americanos em sua nova política de segurança nacional.

E ainda vem mais. Como dizem os americanos: “brace for impact”.

Enciclopédia das HQs

Rogério de Campos é um dos editores mais importantes da história dos quadrinhos no Brasil. Estudante, fez fanzine na ECA-USP e virou crítico de quadrinhos na Folha e no Estadão antes de montar a editora Conrad onde publicou, entre outros, Neil Gaiman, Alan Moore e Joe Sacco. Em 2012, fundou a Veneta, que hoje pode ser considerada a principal editora de quadrinhos autorais do país. O nome não surge à toa: trabalhar “de veneta” é se guiar pela intuição, sem as amarras do mercado.

Na nossa conversa, ele fala da crise do comic book americano como paradoxo gerador do quadrinho autoral, da explosão criativa do Brasil atual: “nunca na história desse país teve tanto quadrinho bom”. E, claro, de Robert Crumb, seu autor de cabeceira. A Veneta acaba de lançar Tempos Modernos, antologia inédita no Brasil reunindo Robert, Aline e Sophie Crumb. O livro traz a costumeira lente antissistema para retratar o mundo que se desenha entre a pandemia, os tempos de paranoia informacional e a presidência de Donald Trump.

Os Crumb transformam o caos político em humor ácido e franqueza total. Faz sentido que seja Rogério de Campos quem traga isso pro Brasil e que ele mesmo tenha assinado a tradução. Afinal, como ele mesmo diz: “Eu sou nostálgico do tempo da esquerda com senso de humor.” Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como você avalia o espaço e a viabilidade para publicações de quadrinhos independentes e de vanguarda dentro do mercado de hoje no país?

O negócio dos quadrinhos no Brasil é difícil. Tem vários marcos inaugurais. A Câmara Brasileira do Livro definiu o lançamento do Suplemento Juvenil como o início dos quadrinhos no Brasil, que é o momento em que chegam as histórias americanas por aqui. Depois houve o movimento que “antes disso teve O Tico-Tico.” E aí até chegar no ponto de falar que Ângelo Agostini é o início. Mas nessa polêmica está muito implícita uma visão do que é o quadrinho no Brasil. O Adolfo Aizen, a editora dele chamava EBAL (Editora Brasil-América), estava ali no nome. O Roberto Marinho foi durante muito tempo o cara dos Estados Unidos no Brasil. E o terceiro grande nome é o Victor Civita, e esse era americano mesmo. Veio pro Brasil para publicar a Disney. Esses três homens determinaram a indústria, determinaram o formato dos gibis. Mesmo o fenômeno que é o Maurício de Sousa acontece dentro do formato do comic book da Disney. Teve uma certa resistência, como o Millôr Fernandes, o Pasquim, o humor sofisticado influenciado pelos franceses, mas essa resistência sofreu muito economicamente. As tiras americanas chegavam muito baratas no Brasil, era impossível competir. O J. Carlos chegou a falar: “Desisto de fazer quadrinho. Os caras chegam com preços que não pagam meu trabalho de um dia.”

Tem um momento de virada?

O que foi bom pros quadrinhos foi que tudo isso entrou em crise lá nos Estados Unidos. A venda de comic books vem caindo desde o início dos anos 1950. E essa crise do modelo industrial deu uma abertura no mundo inteiro. É incrível falar isso, mas coincidiu a crise do quadrinho industrial com a abertura para outro tipo de quadrinho, inclusive nos Estados Unidos. Editoras como a Fantagraphics viraram potências de publicação de quadrinho autoral, que está surgindo da crise do quadrinho industrial. Existe uma euforia com esse ambiente de crise.

Você lançou uma série de novos cartunistas e autores de graphic novels maravilhosos. Como é o seu farol para esses caras?

Eu gosto das coisas que eu não entendo. Eu trabalhava na Folha e fui convidado para um festival de quadrinhos em Ribeirão Preto. Tinha um concurso, eu ia ser jurado. Cheguei atrasado, eles já tinham feito uma pré-seleção. Na hora do almoço, resolvi olhar os desclassificados e topei com o trabalho do [Marcello] Quintanilha. Nunca tinha visto, ele era Marcello Gaú. Era uma história de uma página, uma menina falando com um pipoqueiro. Fiquei embasbacado. Não entendi o que era aquilo. Você vê aqueles carrinhos de pipoca esquemáticos nos quadrinhos, em que até a lata de lixo é americana, os caras ficam replicando. Mas pela primeira vez eu estava vendo o Brasil nos quadrinhos. E eu enchi tanto o saco dos outros jurados que ele passou de desclassificado a campeão do festival.

Vocês acabaram de lançar os Tempos Modernos, com Crumb, a Aline e a Sophie. Vocês têm uma relação longa com o Crumb.

Sim. O Crumb é o maior quadrinista no sentido mais amplo. Se você mede a importância de um artista por quantos outros artistas ele gerou. Me parece a medida mais palpável. O Crumb é difícil de superar. É muito raro você falar de um autor importante que de alguma maneira não tem influência do Crumb. Todo o Ocidente está baseado nele. O Moebius, que era Jean Giraud, quando ele descobre o Crumb, muda o desenho, muda as temáticas, e vira isso daqui. E o Moebius, por sua vez, influenciou meio mundo. De tabela, o Crumb tá influenciando todo mundo. Mas tem a importância da cultura também. O Crumb foi, naquele momento, o ponto onde os quadrinhos foram a grande narrativa ficcional da contracultura. Não que não tenham tido romancistas e cineastas, mas os quadrinhos foram onde aquela geração se enxergou, se viu. E é surpreendente porque ele continua evoluindo como desenhista e continua se desmontando como pensador. Ele é um crítico de si mesmo o tempo todo. É uma figura sensacional.

E como a Aline entra nesse bolo?

A Aline Kominsky-Crumb é das autoras mais subestimadas dos quadrinhos, ainda que seja muito conhecida. É uma quadrinista muito importante, com um desenho que era uma coisa que ninguém esperava. E é muito difícil para o povo do academicismo antigo. Esse pessoal dos super-heróis olha e fala: “Isso está mal desenhado.” Acho até irônico: você vê tanta gente querendo ser reconhecida como arte, fazendo coisa copiando Michelângelo. E no final quem está no MoMA são os caras desenhando de forma mais solta. E eu acho que ela foi prejudicada porque o Crumb sendo tão importante, foi muito fácil rotulá-la como “senhora Crumb” e deixar de ver. Eu acho que ela teve uma influência no próprio Crumb. Quem segurou a onda de fazer as histórias terem senso de humor e pé no chão foi ela, puxando ele para a terra firme.

Como você enxerga o grau de maturidade da produção brasileira atual em relação ao resto do mundo?

Cara, uma coisa que eu não sofro é de nacionalismo, nunca. Mas te garanto: o quadrinho brasileiro atual é um dos mais interessantes do planeta. Algumas das melhores coisas estão acontecendo aqui. A quantidade de mulheres negras fazendo quadrinhos, o festival POC CON, de quadrinhos LGBT, que lota de gente e de artista, o Segue o Baile, da Magô Pool, falando do extermínio de meninos negros na periferia com uma narrativa de suspense genial. São vários autores, é muita coisa acontecendo. O que tá faltando é o resto: ter mais livraria, ter um acompanhamento de mídia mais próximo. Mas o nível está muito alto. Nunca na história desse país teve tanto quadrinho bom.

Em 1960, o candango que erguia Brasília e o Niemeyer que a desenhava compartilhavam o mesmo sonho: a construção de um novo Brasil. Foi essa ideia comum de país que fez o nosso sistema partidário funcionar por décadas. Mas o que acontece quando essa visão desaparece? Em Os Partidos, o novo episódio de Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros, Pedro Doria investiga o colapso das nossas siglas e as raízes da fragmentação política atual. Um mergulho essencial para decifrar o cenário em que vivemos. Disponível no streaming, exclusivo para assinantes Premium. Já assistiu?

Em semana de estreia de um novo episódio do Ponto de Partida, a Série no nosso streaming, os leitores deste Meio provaram que Pedro Doria tem mesmo futuro na firma e clicaram pra valer na sua coluna semanal no YouTube. Confira os mais clicados:

1. Meio: Ponto de Partida — A régua dupla de Lula.

2. Meio: Cá entre Nós — O gol contra de Flávio nos EUA.

3. Panelinha: Esfriou? Vem ver uma farofa crocante de bacon para jogar na sopa.

4. Curta! Festival: Você pode votar e eleger o melhor curta do evento.

5. Meio: Estreia do Ponto de Partida, a Série — Os Partidos.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.

Esta é uma matéria para assinantes premium.
Já é assinante premium? Clique aqui.

Meio Premium: conteúdo pensado para leitores influentes

Quem toma decisões – seja na vida corporativa, profissional ou pessoal – precisa estar bem informado. Assinantes do Meio Premium recebem reportagens, análises e entrevistas que esclarecem os temas mais complexos da atualidade. Os últimos avanços tecnológicos, a geopolítica mundial, a crise climática – não há assunto difícil para o Meio.

Divulgação/CBF
Edição de 06/06/2026
EDIÇÃO DE SÁBADO

Uma newsletter elaborada com cuidado durante a semana, sempre com temas importantes e um olhar inovador e aprofundado sobre eles. Política, comportamento, cultura, vida digital apresentados em textos agradáveis e leves para você ler com calma no fim de semana.

Edição de 03/06/2026
MEIO POLÍTICO

Às quartas, tentamos explicar o inexplicável: o xadrez político em Brasília, as grandes questões ideológicas da atualidade, as ameaças à democracia no Brasil e no mundo. Para isso, escalamos especialistas que escrevem com base em pesquisas e fatos.

assine

Já é assinante? Clique aqui.

Nossos planos

Acesso a todo o conteúdo do Meio Premium com 7 dias de garantia e cancelamento a qualquer momento.

Premium

  • News do Meio mais cedo
  • Streaming do Meio
  • Meio Político
  • Edição de Sábado
  • Descontos nos Cursos do Meio
  • Pesquisa Meio/Ideia mais cedo

Assine por R$ 15/mês

ou

De R$ 180 por R$ 150 no Plano Anual, equivalente a R$ 12,50 por mês.

Premium + Cursos

  • News do Meio mais cedo
  • Streaming do Meio
  • Meio Político
  • Edição de Sábado
  • Todos os Cursos do Meio
  • Pesquisa Meio/Ideia mais cedo

Assine por R$ 70/mês

ou

De R$ 840 por R$ 700 no Plano Anual, equivalente a R$ 58,34 por mês.

Premium + Cursos

Para aqueles que querem aprimorar seu conhecimento, assine agora o plano Meio Premium + Cursos. Assista os cursos do acervo dos Cursos do Meio na sua TV, celular ou computador. Política, história, inteligência artificial, aprimoramento profissional. Temas importantes explicados por especialistas no assunto.

Capa do curso do Meio: Você pode ser um liberal e não sabe

Capa do curso do Meio: Você na mídia

Capa do curso do Meio: IA modo de usar

Capa do curso do Meio: Israel e Palestina

Capa do curso do Meio - Ideologias brasileiras

Capa do curso do Meio: O fim da nova república?

assine

Já é assinante? Clique aqui.

O que é o Meio

O Meio é uma plataforma de jornalismo pensada para o século 21. Acreditamos que informação de qualidade fortalece a democracia, por isso entregamos notícias e análises que ajudam você a entender o agora e decidir melhor. Seja por e-mail, vídeo ou podcast, chegamos até você da forma que mais combina com a sua rotina.

Christian Lynch

Cora Rónai

Creomar de Souza

Deborah Bizarria

Flávia Tavares

Márvio dos Anjos

Mariliz Pereira Jorge

Pedro Doria

Wilson Gomes