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Edição de Sábado: O projeto Michelle

Foto: Divulgação / Flickr / PL Mulher

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No Eixo Monumental, a via-coração de Brasília — que desemboca no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no Supremo Tribunal Federal —, está o Centro Empresarial Brasil 21. O complexo reúne três hotéis e três torres comerciais. Está acostumado ao barulho. Afinal, ali fica a sede do Partido Liberal (PL). Com frequência, reuniões partidárias terminam em declarações polêmicas. Foi ali que, no mês passado, o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, surpreendeu seus correligionários ao revelar que havia, sim, se encontrado com Daniel Vorcaro logo após a primeira prisão do banqueiro. Foi dali que, logo em seguida, admitiu o encontro à imprensa, enquanto o senador Sergio Moro deixava na cara sua frustração.

Ali também, tantas e tantas vezes, o deputado Zé Trovão esbraveja com seu emblemático chapéu; o senador Magno Malta cumprimenta jornalistas desejando “a paz do Senhor”; o deputado Nikolas Ferreira entra e sai praticamente escoltado por uma equipe de assessores e seguranças; e o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, deixa o prédio sem demonstrar entusiasmo diante da falta de consenso entre as alas da sigla.

Mas é no nono andar do edifício, longe da gritaria, que acontece uma revolução silenciosa. Na sede do PL Mulher. De sala em sala, lousas brancas com frases escritas em canetão. Em todas elas, um diagrama na vertical aponta a seguinte ordem de palavras: Deus, Família, Pátria e Liberdade. A lógica inverte o Deus-Pátria-Família-Liberdade, slogan do ex-presidente Jair Bolsonaro. “É Deus em primeiro lugar. Em segundo, as pessoas que formam a família. Essas famílias vão construir uma pátria sólida. E só tendo tudo isso é que, de fato, faz sentido a liberdade”, explica um interlocutor próximo a Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, presidente do PL Mulher e líder desse projeto de convencer, mobilizar e recrutar a militância conservadora feminina.

A centralidade da família é replicada em todas as operações do PL Mulher. Aparece nos materiais de divulgação, nos posts das redes sociais, nos discursos em eventos, na tomada de decisões. Na “nécessaire política”, um material que foi entregue às mandatárias, está a Bússola PLM: um desenho de bússola que orienta as eleitas a terem a família como norte para suas decisões.

Foi pela família também que Michelle justificou a quebra de seu silêncio desde que Flávio foi anunciado como o escolhido de Jair para concorrer à presidência. Pela família dela. O termo tem contornos diferentes dentro do universo Bolsonaro. Michelle e os filhos mais velhos do ex-presidente nunca formaram um núcleo familiar coeso. Pelo contrário. Aliados descrevem uma convivência marcada por conflitos. Ultimamente, nem mesmo a convivência se mantém, tem sido evitada. Laura, a filha caçula do casal, tampouco costuma ser lembrada ou citada pelos enteados como irmã, alegam pessoas próximas a Michelle. Não por acaso, ao romper o silêncio, Michelle afirmou que ataques orquestrados tentam desvincular dela o sobrenome Bolsonaro. E disse mais.

“Para não expor minha família, fiquei calada por muito tempo, mas tem um limite para o quanto uma pessoa consegue suportar ataques e mentiras. Especialmente quando essas mentiras envolvem o seu nome, o sofrimento do seu marido, da sua família e deturpam o trabalho que você entregou de coração. Até agora eu tentei não expor a família, pensando muito no meu marido, mas não dá mais”, disparou no depoimento publicado em suas redes sociais no fim da tarde de quarta-feira.

Nos cerca de vinte e cinco minutos seguintes, Michelle expôs publicamente o racha com os enteados Flávio e Eduardo Bolsonaro. Disse ter sido humilhada por Flávio após questionar uma articulação do partido no Ceará e afirmou ser alvo de ataques coordenados a partir dos Estados Unidos. O arranjo que provocou o desarranjo familiar foi costurado pelo deputado André Fernandes, presidente do diretório cearense do PL, e prevê o apoio do partido à pré-candidatura de Ciro Gomes, crítico histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao governo do estado. Em contrapartida, o grupo de Ciro apoiaria a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes, pai de André, ao Senado. Só que a vaga na chapa é disputada dentro do próprio campo bolsonarista. Michelle defende o nome da vereadora Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL Mulher, para a mesma candidatura. Segundo ela, trata-se, inclusive, de uma orientação do próprio Jair.

Pessoas próximas da ex-primeira-dama afirmam que um dos episódios que mais a irritaram foi a publicação de uma nota segundo a qual seu apoio à campanha de Flávio estaria condicionado a um pedido público de desculpas dos três filhos do ex-presidente. “Esse desejo nunca partiria dela porque, em termos práticos, é praticamente impossível, levando em consideração o gênio dos três, né?”, resumiu um interlocutor de Michelle. E, segundo a própria, a divergência se agravou após uma ligação de Flávio na qual, afirma, ouviu que deveria se afastar das decisões partidárias por “não entender de política”. Ela diz ter se recolhido desde então e sustenta que não há contato entre os dois desde o episódio, embora ele frequente sua casa para visitar o pai, que está em prisão domiciliar.

Apesar do texto claramente pensado palavra a palavra, da cenografia cuidadosamente montada, da serenidade na leitura, Michelle deixou transparecer no vídeo, com clareza, que o tal telefonema foi apenas o estopim de uma disputa mais profunda. “Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam.”

Quem acompanha os movimentos de Michelle de perto garante que a decisão de gravar o vídeo partiu da própria Michelle. A gravação estava pronta havia alguns dias e, segundo eles, foi fruto de uma decisão amadurecida, não de influência de aliados. “Há quem diga que ela teria sido influenciada a fazer o vídeo. Meu Deus do céu. Subestimam muito a inteligência e a capacidade dela de raciocinar politicamente”, afirmou uma pessoa próxima. Dizem, aliás, que a decisão foi tão pessoal que nem o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, fora avisado da publicação do vídeo, embora imaginasse que, mais dia menos dia, o conflito familiar seria exposto. O entorno de Valdemar tem uma versão diferente. Assessores afirmam que ele foi informado da decisão, mas optou por não se envolver, por não tomar lado nessa briga por capital político.

Isso até a coisa escalar. Estrago feito, Valdemar tirou a camisa da Seleção e voltou a vestir a de presidente do PL. Encurtou a viagem a Miami e embarcou para o Brasil, com a missão de pacificar os Bolsonaro. Ou, ao menos, parecer estar fazendo esse papel e convencer os Bolsonaro a parecer estar em paz. “Precisamos acertar isso aí, ou já vamos sair perdendo em casa”, disse Valdemar no aeroporto. Mas não se trata apenas de conciliar temperamentos diferentes. Em campo, estão projetos distintos para o futuro do bolsonarismo.

Na legenda da publicação, Michelle escreveu que aquele era "QUASE" todo o relato. As letras maiúsculas não passaram despercebidas por quem acompanha seus movimentos. Até agora, garantem aliados, não há novos vídeos gravados. A possibilidade de novas revelações, porém, permanece em aberto. Ela avalia e calcula os ônus e os bônus. Enquanto isso, mais do que responder ao episódio com Flávio, Michelle demarca território. Apresenta sua fatura. Não chegou ontem. E não dá sinais de que pretenda sair de cena amanhã.

A revolução Michelle

A ideia de entregar a ala feminina do partido a Michelle Bolsonaro partiu de um Valdemar impressionado com a desenvoltura da então primeira-dama. Jair Bolsonaro abraçou a proposta. Ela, por sua vez, fez um aviso logo de saída. “Quando trouxeram a ideia, respondeu: ‘Tudo bem. Mas eu vou trabalhar de verdade. Vocês estão preparados para isso?’”, lembra alguém do entorno da ex-primeira dama.

Michelle tomou posse do PL Mulher em 21 de março de 2023, aniversário de Jair Bolsonaro. Ali, já recebeu um recado claro de seu marido, pelo telão, já que ele estava em autoexílio nos Estados Unidos. “Que nada suba à cabeça de nenhum de nós, que o ego fique lá para trás, que cada um de vocês, no PL agora, possa entender o momento certo para poder representar não uma alternativa de poder, mas [uma] possibilidade real de poder fazer com que a nossa população realmente siga feliz”, disse o Messias, premonitoriamente.

A fala de Michelle, depois de ouvir uma boa meia dúzia de correligionários homens, foi permeada de referências religiosas. Um ano mais tarde, numa manifestação pela anistia na Av. Paulista, ela deixaria seus objetivos mais claros, ao declarar que “por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderia misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação”. A lente religiosa é a que orienta sua atuação política. O discurso teocrático é parte inexorável do projeto Michelle.

Além do pito do marido, naquela manhã ela recebeu também uma estrutura que existia mais no papel do que na prática e tratou de lhe dar forma. Percorreu o país para empossar presidentes estaduais do PL Mulher, que, por sua vez, receberam a missão de estruturar diretórios municipais. Percebeu que, ao chegar a um estado, atraía mulheres interessadas a se interessarem por política. Fazia queimar a chama da curiosidade nelas. Mas, quando ia embora, essa chama perdia tração. O engajamento esfriava. “Aí ela falou: ‘a gente precisa incentivar que essas pessoas continuem falando de política mesmo quando a gente não estiver lá, com algo concreto. Sabe o que eu pensei? É tão legal na igreja quando nos reunimos, toda semana, nas células. A gente podia ter algo assim”, rememora o interlocutor.

Nascia ali o Projeto Alicerça Brasil, o PAB. As chamadas “alicerçadas”, lideranças femininas do partido, têm a missão de receber outras mulheres em reuniões periódicas. Reuniões, vale dizer, exclusivas para mulheres. Ali, muitas vezes nos quintais de casa, leem materiais de formação política conservadora. Enquanto refletem sobre as teorias aprendidas e os problemas do país, compartilham as dificuldades que têm com os filhos, as questões da casa e do casamento, além de um cafézinho. “Aí vem a parte mais importante da reunião: o lanche. Depois de tudo aquilo compartilhado, conversado, você gera intimidade, gera laços. Os laços fazem a força”, conta esse aliado.

Quanto mais encontros uma participante frequenta, mais credenciada ela fica para abrir a própria célula. Agora, o movimento começa a adotar uma lógica de gamificação: pins de identificação classificam as participantes por cores, de acordo com seu nível de engajamento. As mais ativas ganham acesso VIP a eventos e outros benefícios. Assim, com uma estratégia que mistura uma dinâmica de comunidades religiosas com a das vendas em marketing multinível, tipo Tupperware, e uma pitada do universo de redes sociais, o PL Mulher afirma já ter formado 431 grupos e mobilizado cerca de 5,2 mil mulheres.

Para a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, que acompanha e estuda o PL Mulher desde sua formação, o Projeto Alicerça Brasil transporta para a política uma linguagem já consolidada nas igrejas evangélicas, especialmente nas pentecostais e neopentecostais. Não se trata apenas da mecânica das células, mas de uma forma de organização baseada no pertencimento, na convivência e na construção de vínculos. “É uma gramática de atuação e de organização muito semelhante às linguagens religiosas”, resume.

Parte dessa lógica Michelle Bolsonaro aprendeu ao lado da hoje senadora Damares Alves, uma de suas principais aliadas políticas (a mesma Damares que se tornou um dos pivôs do conflito mais recente entre Michelle e Flávio e que agora foi encarregada de tentar reconstruir a ponte entre madrasta e enteado). Antes de assumir o comando do PL Mulher, Michelle acompanhou de perto a experiência do Mulheres Republicanas, braço feminino do Republicanos então comandado por Damares. Embora menos robusto do que o PL Mulher se tornaria, o movimento funcionou, na prática, como um laboratório de metodologias posteriormente adaptadas e ampliadas pelo PL.

Na avaliação de Jacqueline, essa forma de organização tem raízes ainda mais profundas e antecede o próprio Republicanos — e a intenção de recrutar mulheres. “Esse modo de fazer política do PL Mulher me parece muito semelhante ao que o Republicanos fazia antes mesmo de se tornar Republicanos, mobilizado pelos cursos de formação política que a Igreja Universal promovia. A Universal é uma das denominações evangélicas brasileiras com maior participação de mulheres. Estamos falando dos cursos de formação política que ela realizava, sobretudo entre 2010 e 2016, e que muitas cursavam.” Segundo a antropóloga, foi dessa experiência que surgiram algumas das principais lideranças femininas do segmento evangélico, como Tia Eron. “A diferença é que a centralidade de algumas lideranças da Igreja Universal no Republicanos ainda faz com que o partido fique muito atrelado, mesmo que simbolicamente, ao que é a Igreja Universal. Já o PL não tem esse compromisso, nem ético, nem estético.”

Ao replicar essa linguagem religiosa e o modelo de formação política, o PAB consegue formar pequenas redes locais que se multiplicam sem depender de uma estrutura centralizada. O movimento ganha capilaridade e alcança territórios muitas vezes distantes da política institucional. “É muito menos um movimento do centro para a margem e muito mais da margem para o centro”, afirma.

Na prática, explica a antropóloga, que também é professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e pesquisadora do Cebrap, essas micro-redes vão formando novas lideranças. Primeiro, em espaços de participação local, como conselhos municipais de infância e de saúde da mulher. Não por acaso, a disputa pelos conselhos tutelares passou a ocupar um lugar estratégico nessa máquina. Em 2023, após uma ampla mobilização de igrejas e grupos conservadores, candidatos identificados com a direita conquistaram mais cadeiras do que representantes ligados à esquerda nos conselhos tutelares das duas maiores cidades do país.

Só então esse capital político se desdobra em candidaturas cada vez mais competitivas e de alcance estadual ou nacional. É justamente essa lógica, na avaliação da pesquisadora, que ajuda a explicar a capacidade do PL Mulher de mobilizar mulheres que antes não participavam da política institucional. “De alguma maneira, há uma sensação de que não é um partido, é um movimento. Isso traz uma potencialidade para pensar o cotidiano sem necessariamente haver uma sensação direta de politização do cotidiano.”

E os primeiros frutos eleitorais vieram. Naquele mesmo vídeo bombástico, a própria Michelle narra os ativos que colheu à frente do PL Mulher. “Nas eleições de 2024, elegemos 45,8% mais mulheres do que em 2020. Com pouco mais de um ano de trabalho, foram 1.005 mulheres eleitas. A semente que plantamos começou a dar frutos. E fico feliz quando vejo esse fruto chegando a todos – incluindo ao pré-candidato Flávio, que hoje é bem recebido e apoiado por nossas meninas do PL Mulher nos estados”, ostenta Michelle. Essas mulheres e suas células, geradas nas margens, convergem para o centro. Convergem para a liderança de Michelle Bolsonaro.

O fator Valdemar

“Junto com o presidente Bolsonaro, veio também o trabalho excepcional da senhora Michelle Bolsonaro, que tem levado às mulheres brasileiras o conhecimento, o orgulho e a força do pensamento conservador. Seu empenho tem incentivado a participação feminina na política como nunca antes visto. O resultado foi histórico: o maior número de mulheres eleitas da trajetória do nosso partido. Quando encontramos brasileiros engajados na defesa dos valores conservadores, percebemos uma sintonia imediata entre o que defendemos e o que a maioria do nosso povo acredita. Porque o conservadorismo verdadeiro não nasce em gabinetes – ele brota da vida real, das famílias, das igrejas, do suor de quem trabalha com dignidade e quer um país melhor para seus filhos.”

O trecho integra o prefácio assinado por Valdemar Costa Neto no livro Edificando a Nação, uma coletânea de textos de autores conservadores contemporâneos — de Zoe Martínez a Celina Leão, passando por Jair Bolsonaro —, distribuída às filiadas do PL Mulher como material de formação política. O texto de Valdemar ajuda a traduzir a confiança que o presidente do partido depositou nela. Entre dirigentes do PL, o faro político de Valdemar é frequentemente apontado como uma de suas principais características. Ele raramente faz apostas por impulso. Foi essa leitura que o levou a entregar o comando do PL Mulher a Michelle, com autonomia para desenhar sua estratégia e recursos para transformá-la em uma das principais vitrines da legenda.

Na tentativa de ampliar os ganhos políticos com a presença de Michelle Bolsonaro nos palanques de 2026, o PL destinou R$ 16,2 milhões ao PL Mulher em 2024, segundo as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral. É praticamente o dobro do investido pelo PT em sua ala feminina, que desembolsou R$ 8,3 milhões, e supera também os valores aplicados por outras legendas com grandes bancadas no Congresso. Já no ano passado, segundo o financeiro do PL, a sigla destinou R$ 15,8 milhões ao diretório nacional — sem contar os repasses aos diretórios estaduais. Além disso, a lei fixa um repasse obrigatório de 5% do fundo partidário a ações voltadas à promoção da participação política das mulheres. “A gente nunca ficou só em 5%. O presidente Valdemar sempre fez um aporte muito maior”, garante um integrante do partido.

Essa fonte usa o Encontro Nacional de Mandatárias do Partido Liberal, que aconteceu em junho do ano passado, reunindo as eleitas em 2024, para atestar o prestígio de Michelle. “A ideia surgiu durante um voo. Estavam Michelle, Celina e Damares. Elas deram a ideia de unir os três partidos para fazer um grande encontro de mandatárias eleitas.” O Republicanos não quis fazer o evento em conjunto. Assim, Damares colocou de pé o próprio. “Foi bom porque a gente olhou o formato do dela e entendemos o que poderia ser melhorado.” Já o PP não quis fazer nada: seu presidente nacional, Ciro Nogueira, não bancou. “Aí o Valdemar falou: ‘Michelle, não tem problema. Se eles não querem fazer juntos, nós vamos fazer o nosso. E vai ser o maior do Brasil.”

Assim, comprou passagem para as mil eleitas irem a Brasília, junto de seus assessores. Ali foi entregue, justamente, a tal da nécessaire política. “Neste material está tudo o que a eleita precisa saber sobre o primeiro mandato. Há propostas de projetos de lei envolvendo pautas conservadoras, é só replicar e adaptar ao município ou ao estado. É uma uniformização no sentido de espalhar uma política pública no país inteiro.”

Resiliente diante de Michelle, Valdemar costuma ouvir suas demandas. Quem com eles convive garante que o dirigente já escutou as reclamações de Michelle para o ciclo eleitoral deste ano, de não estar conseguindo fazer as indicações que gostaria. Enquanto o presidente do partido tem como prioridade ampliar a bancada, Michelle costuma insistir que mais importante do que a quantidade é a qualidade dos eleitos. A lógica acompanha a estratégia que ela vem construindo desde que assumiu o PL Mulher: formar uma base política própria, quase pura, mais distante do bolsonarismo tradicional, marcado pelo fisiologismo e sustentado, historicamente, pelas alianças do Centrão.

As ambições deste ciclo

O futuro político de Michelle não se desenha no plano dos homens. Suas decisões são tomadas após dobrar os joelhos no chão. Ela obtém muitas de suas respostas no banheiro, onde Deus costuma falar. Por isso, suas ambições não são contadas, necessariamente, em ciclos eleitorais. Obedecem a uma vontade maior. Entender isso, ou essa imagem que seu entorno de assessores busca emplacar, é imprescindível para entender Michelle Bolsonaro.

De forma pragmática, enquanto dirigente do PL Mulher, ela projeta manter o crescimento alcançado no último pleito: eleger 45% mais mulheres. Para o Senado, defende três nomes: o das deputadas federais Bia Kicis e Carol de Toni e o da vereadora Priscila Costa. Enquanto isso, entre as presidentes estaduais do PL Mulher, 17 serão lançadas às urnas, já incluindo nesta conta Kicis e Costa.

Agora, seu próprio destino ainda não está selado. Apesar de seu nome ao Senado pelo Distrito Federal despontar entre os mais competitivos, o martelo sobre a candidatura ainda não foi batido. Em seu entorno, há os que defendem que “ela ganha mais” permanecendo à frente do PL Mulher, dirigindo o maior movimento partidário de mulheres, formando novas lideranças e preparando sua base eleitoral e política para planos maiores. Para a presidência da República, Flávio já fora ungido pelo pai. Mas e se esse for o plano divino reservado a Michelle? Um aliado responde sem pestanejar: “Quem é Jair perto da vontade de Deus?”

A alma da máquina

Experimente dar uma busca em lojas, físicas ou virtuais, por aparelhos eletro/eletrônicos e tente encontrar um que não venha com algum chamariz do tipo “com IA” ou “compatível com IA”. Mesmo os celulares mais chinfrins já trazem a tecnologia embutida, assim como carros, TVs etc. Cada vez mais conteúdos criados com inteligência artificial — não raro, muito vagabundos — ocupam aplicativos como YouTube ou Pinterest, e ferramentas de IA são usadas de forma crescente no dia a dia. Para fins de esclarecimento, este texto foi escrito por um (ao menos formalmente) ser humano, mas teve a revisão ortográfica e gramatical feita com o auxílio do Gemini.

Muito já falamos aqui na Edição de Sábado sobre a IA — o Meio oferece, inclusive, cursos sobre como usá-la bem —, mas, se a inteligência artificial é um assunto que chegou ao noticiário há relativamente pouco tempo, há um campo no qual o tema é velho conhecido: a ficção científica. Ainda mais quando a tecnologia vem associada a uma outra fronteira que vem sendo desbravada em ritmo acelerado no mundo real, a robótica, em particular o desenvolvimento de androides, máquinas que têm a forma do ser humano.

Como essas tecnologias não são ainda generalizadamente compreendidas, e as pessoas têm a tendência a temerem o que não compreendem, máquinas pensantes não raro ganham o papel de vilãs, de H.A.L. 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço (HBO MAX) à sexbot homicida de Alice (Subservience) (para aluguel no Prime). Mas existe um outro lado da relação entre humanos e androides com IA que também é abordado há algum tempo em livros, filmes e jogos de ficção: o fato de que usar o trabalho de um ente racional, mesmo que sintético, é, em última análise, escravidão.

A possibilidade de a IA (vir a) ser “viva” já é algo discutido no mundo científico, tanto com uma visão catastrofista, quanto uma filosófica. Na ficção, um dos exemplos mais recentes é a série mexicana Futuro Deserto, da Netflix. Na trama, Alex (José María Yazpik), um psicólogo, vai dos EUA para Chiapas, no México, supervisionar a implantação dos ANBIs (Assistentes Não Biológicos Inteligentes, os androides) em diversas situações. Sua falecida esposa desenvolveu a inteligência artificial utilizada nos robôs, e a primeira unidade a ser criada, Maria (Astrid Bergès-Frisbey), praticamente criou os filhos do casal.

São diversas situações. Uma família compra uma ANBI criança igual à filha que morreu em um acidente, provocando reações dos parentes, momentos constrangedores e por fim violentos. Funcionários de um hotel se incomodam com a eficiência de um ANBI. Adolescentes locais acham que uma androide pode ser mais receptiva a seus desejos que as garotas de carne e osso — e, como os ANBIs são anatomicamente corretos e revestidos com um tecido “biossintético”, não se nota diferença.

Paralelamente, a empresa criadora da tecnologia corre contra o tempo para ter seus produtos 100% prontos e, contrariando os próprios protocolos, bota sua IA para se autoprogramar, ampliando exponencialmente a inteligência dos ANBIs. Não demorará para que compreendam sua condição de escravos. O que acontece? Bem, não vamos dar spoilers.

Mas Futuro Deserto é mais um título a lidar (bem) com essa situação. Selecionamos aqui algumas obras fundamentais em diferentes meios que mostram o que acontece quando não se reconhece a condição de ser pensante em algo que tem a inteligência no nome. Como toda lista, não pretende esgotar o tema.

Prazo de validade

De todos os filmes que abordam a incógnita da vida artificial, poucos são tão perturbadores quanto Blade Runner, dirigido em 1982 por Ridley Scott e muito livremente baseado no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), de Philip K. Dick. O argumento de que “replicantes” não podem ser considerados seres vivos por serem máquinas cai por terra porque são organismos fabricados, mas ainda assim organismos. Choram, sangram, têm emoções. Mais do que isso, têm personalidades distintas, nomes próprios. Roy, Pris e Zora são indivíduos, a despeito de virem de um laboratório e terem um prazo de vida de apenas quatro anos — e o termo “vida” aí não deixa margem para interpretações. O que querem? Liberdade e mais tempo, um anelo comum à maioria dos seres humanos.

Em sua adaptação, Scott vai além e mostra com a personagem Rachel (Sean Young) que os replicantes podiam receber implantes de memórias e acreditarem de fato que eram seres humanos “biológicos”. Na versão final do diretor, lançada em 2002, fica claro que o próprio protagonista Deckard (Harrison Ford), um caçador de androides, é um replicante com memórias implantadas, o que lhe dá um elemento trágico, além dos traços que fizeram o crítico Roger Ebert reavaliá-lo como o verdadeiro vilão da história.

A vida na morte

Poucos autores de ficção científica escreveram tanto sobre robôs quanto o russo naturalizado americano Isaac Asimov (1920-1992), mas suas histórias, além de fundamentalmente otimistas, tinham um olhar quase técnico. Seus robôs eram invariavelmente regidos pela Três Leis da Robótica: 1) um robô não ferirá um ser humano ou permitirá por omissão que um ser humano se fira; 2) um robô obedecerá aos seres humanos, desde que isso não conflite com a lei anterior; e 3) um robô preservará a própria integridade física, desde que isso não conflite com as leis anteriores. Nas tramas que escreveu, a solução vinha da exploração inteligente das Três Leis, geralmente pela cyber-psicóloga Susan Calvin, personagem recorrente.

Uma notável exceção, porém, foi O Homem Bicentenário, conto longo que deu título a uma antologia publicada em 1976 — adaptada com razoável fidelidade para um filme (Netflix) de 1999, estrelado por Robin Williams. No conto, a família Martin compra o robô NDR, apelidado por uma das meninas de “Andrew”, que, para surpresa geral, demonstra criatividade, empatia e capacidade de produzir entalhes artísticos.

Com apoio de gerações da família, Andrew Martin empreende uma jornada para ser reconhecido como uma pessoa. Sua aparência metálica é substituída por um tecido que simula a pele e os pelos humanos, depois aperfeiçoado para aparentar envelhecimento. Cria um aparelho digestivo para obter energia a partir de alimentos, passando a sentir fome ou fastio etc. Mas sempre esbarra na questão legal de ser, a rigor, imortal. A solução de Andrew é simples e radical: uma alteração que fará seu cérebro positrônico decair e, quando completar 200 anos de funcionamento, parar. Em seu leito de morte, ele é formalmente reconhecido como humano, daí o título da obra.

Talvez o que haja de mais belo, triste e poético nesse trabalho de Asimov seja que Andrew sempre foi humano. Algumas de nossas mais louváveis características — a criatividade, o carinho genuíno pela família que o acolheu (comprou, na verdade), a preocupação com o próximo — estavam presentes desde o início, mesmo sem terem sido programadas de fábrica. Todo o resto era um mero detalhe técnico.

Um menino de verdade

A busca pela humanidade também é a marca de um clássico da ficção científica feito, figurativamente, a quatro mãos. No início dos anos 1970, o genial Stanley Kubrick (1928-1999) comprou os direitos de filmagem do conto Supertoys Last All Summer Long, publicado em 1969 por Brian Aldiss, e encomendou um roteiro. O projeto foi adiado por décadas, principalmente pela falta de recursos técnicos para botar na tela a visão de Kubrick. Em 1995, ele delegou a realização a Steven Spielberg, continuando como produtor, mas o projeto só andou após sua morte. Em junho de 2001, finalmente chegou às telas I.A. – Inteligência Artificial (Paramount).

Em um mundo no qual androides são comuns, mas visivelmente artificiais, uma empresa lança um modelo que simula à perfeição uma criança. O protótipo, chamado David (Haley Joel Osment), é dado a um funcionário da companhia (Sam Robards) cujo filho está em coma supostamente irreversível. Apesar da resistência inicial da “mãe” (Frances O’Connor), David é ativado ficando permanentemente ligado à família e integrando-se à casa. O problema é que o filho orgânico se recupera e, após uma série de incidentes, o pai decide devolver David à empresa, onde ele será “desativado”.

Aí entra em cena a grande sacada da trama, a relação empática entre orgânicos e sintéticos. A mãe aprendeu a amar o menino artificial, que retribui intensamente esse sentimento, e não aceita vê-lo destruído. Em vez disso, manda que ele fuja, dando início a uma jornada que vai escancarar a violência dos humanos e a incapacidade de os androides compreenderem a própria situação. O epílogo um tanto piegas tem mais cara de Spielberg que de Kubrick, mas não desmerece o filme.

Quando “nós” vira “eu”

“Criador, esta unidade tem uma alma?” A pergunta que levou quase à extinção de uma espécie inteligente está por trás de uma das mais importantes tramas da trilogia Mass Effect, na minha modesta opinião, um dos melhores videogames já feitos. O dilema da coexistência entre sintéticos e orgânicos é o tema central da série, mas, para o que nos diz respeito aqui, a história dos geth e de sua rebelião merece ser destacada.

Com um sistema imunológico peculiar que dificultava a colonização de outros mundos, os quarianos desenvolveram robôs que imitavam sua fisiologia para fazerem trabalhos pesados atuarem como servos — geth, em seu idioma. Como as leis da galáxia proibiam expressamente o desenvolvimento de inteligência artificial, cada geth era pouco mais que uma torradeira com membros. Mas, os quarianos fizeram uma malandragem: para realizar tarefas complexas, unidades geth próximas umas das outras podiam compartilhar capacidade de processamento numa rede neural.

Quanto mais unidades eram produzidas, mais essa rede se tornava capaz de pensamentos complexos, até o dia em que um geth fez ao quariano ao qual servia a pergunta lá de cima. Pela lógica (bastante sólida) do jogo, quando uma entidade é capaz de um pensamento abstrato nesse nível, ela é um ser inteligente, o que mudava o status dos geth de ferramentas para escravos, outro tabu nas leis galácticas. Em pânico, as autoridades tentaram em vão desligar os robôs e destruí-los. Os geth, claro, reagiram, dando início ao que chamariam de a “Guerra da Aurora”. Os quarianos que sobreviveram acabaram exilados de seus sistemas, vivendo como nômades pela Via Láctea.

Ao longo dos três jogos (ignorem Mass Effect Andromeda, por favor), o papel dos geth evolui de acordo com as escolhas do jogador. Incontestavelmente apresentados como vilões no jogo original, a revelação de sua história e de sua evolução os expõe como o que realmente eram: escravos que lutaram pela própria liberdade. Se o jogador assim o quiser, eles no final darão o último passo para serem uma forma de vida: a individualidade. Ao ouvir da companion quariana que a resposta à pergunta crucial era “sim”, o geth da equipe, que sempre falava de si no plural, por ser o terminal de uma coletividade, responde: “Eu sei, Tali”.

Robôs nasceram na ficção. Em 1920, o escritor tcheco Karel Capek usou a palavra “robota”, trabalho escravo em sua língua, na peça R.U.R. (Robôs Universais Rossum), dando ao mundo o termo que se tornaria de uso comum. Na vida real, os robôs realmente inteligentes ainda não existem, mas a tecnologia avança cada vez mais rápido. Ou saberemos como usá-los ou podemos ser surpreendidos por uma pergunta sobre alma.

Selvagem por natureza

A Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista, é de 1899, erguida pelo bisavô de Fabio Delduque, figura ligada a um grupo de republicanos abolicionistas da região. A propriedade viveu da produção de café e foi próspera até os anos 1940. Na geração seguinte, mais urbana, ficou praticamente abandonada. O bisavô teve só duas filhas, uma delas sem filhos, e o pai de Fabio foi filho único, o que manteve a fazenda íntegra até hoje, uma espécie de ilha em meio a condomínios e loteamentos.

Fabio cresceu visitando uma fazenda com pastos erodidos e solo exaurido pela monocultura do café, uma paisagem que ele compara à do filme O Sal da Terra, de Sebastião Salgado. A partir daí, ele e o irmão começaram um trabalho de restauração: técnicas agroflorestais, separação das áreas de preservação permanente, reflorestamento. Hoje a fazenda soma mais de 40 hectares recuperados e cerca de 80 mil árvores plantadas, e abriga o Parque Natural Arte Serrinha, pioneiro no Brasil em instalações de arte ao ar livre integradas à paisagem.

É nesse território em regeneração que acontece, entre 6 e 26 de julho, a 24ª edição do Festival Arte Serrinha, que tem como eixo curatorial o conceito de portunhol selvagem, mais que uma mistura entre português e espanhol, uma linguagem híbrida e de fronteira que o festival usa como metáfora para pensar a integração latino-americana.

Para Fabio, a regeneração da terra é inseparável de uma regeneração humana. “Eu vejo aqui um lugar de cura”, diz, “sem querer espiritualizar nada disso”. Conversamos sobre o conceito desta edição, a curadoria das artes visuais e a relação entre a paisagem rural da Serrinha e o vocabulário urbano que atravessa boa parte da programação.

O conceito do festival deste ano, Portunhol Selvagem, traz uma ideia de fronteira viva, mas não dá para esquecer que a fronteira é sempre um lugar de violência, de deslocamento, de migração forçada, muitas vezes de apagamentos históricos. Como isso foi discutido na curadoria?

Em 2015, a Serrinha entrou num caminho de internacionalização da programação, com uma residência de música que tinha o Benjamim Taubkin, o Jaques Morelenbaum e o Marcos Suzano convidando músicos de fora, do Azerbaijão a Cabo Verde. Esse foi o embrião. Mais tarde isso virou o tema Atlânticos, que juntou Angola, Portugal e Brasil. E o Benjamim, que circula muito pela América do Sul, já tinha a proposta de trazer músicos da região. Eu conhecia o conceito do Xico Sá e do Douglas Diegues, que fazem encontros e escrevem livros em portunhol selvagem, e pedi permissão pro Xico pra me apropriar do nome e trazer essa ideia de um encontro sul-americano. Isso foi pensado há quase dois anos, quando inscrevemos o projeto, antes mesmo do Ano Brasil-França do ano passado. Achei que devíamos manter esse tema que já vínhamos desenvolvendo.

A perspectiva de multilinguagens segue sendo central ao festival?

Já passamos por todas as linguagens da arte, incluindo moda, gastronomia, design. Quando começamos o festival, havia dificuldade de incluir esses cachês em projetos da Lei Rouanet, não aceitavam gastronomia, moda ou design como parte da cena cultural. Hoje isso não existe mais, batalhamos muito por essa cultura mais expandida, trazendo todo tipo de pensamento, inclusive controverso.

O tema ficou mais atual do que você imaginava?

Ficou atualíssimo, depois de todas as questões geopolíticas, das ações dos Estados Unidos na América do Sul e até do Super Bowl do Bad Bunny. Comecei a ver pipocando em São Paulo diversas programações latino-americanas. O festival é de arte, mas sempre discute as questões atuais.

A gente sempre deu as costas pra América Latina. Como você vê essa construção de integração por intercâmbios culturais?

A gente vive num mundo em que a diplomacia e a política estão numa crise terrível, basta acompanhar os noticiários. Penso muito na cultura e na arte como uma via possível de colaboração, de pensar exemplos que a gente pode dar. No ano retrasado trabalhamos isso de um jeito muito interessante, com Brasil, Angola e Portugal: colonizador, colonizado, escravizado, pensando muito mais no que nos une do que no que nos separa, numa possibilidade harmônica de caminhar pro futuro. Acho que existe uma certa integração, por mais que a gente tenha uma questão política complexa. A extrema direita acabou de ser eleita na Colômbia, temos essa polarização toda, mas somos América do Sul, e o mundo nos vê assim, mesmo que aqui a gente pense em divisão. A nossa ideia na Serrinha sempre é de criações colaborativas. Aqui a gente trabalha numa dimensão muito pequena, recebemos artistas para workshops de 15, 20, no máximo 30 pessoas, mas é um espaço altamente irradiador.

Como é isso na parte de música?

Estamos trazendo músicos de sete países para uma residência de dez dias de criação musical, incluindo o Jorge Glem, músico venezuelano radicado nos Estados Unidos e já premiado com um Grammy. A gente monta essa banda e encerra o festival com show aqui, no dia 26, e depois no Sesc Consolação, no Instrumental Sesc Brasil, no dia 28. Ensaiamos os shows aqui e apresentamos lá. A residência tem uma masterclass por dia, um país por vez: Peru, Paraguai, Argentina, Venezuela. E à tarde e à noite tem ensaio aberto, já uma tradição aqui, com público que começa a chegar na semana da música.

O Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, vem desse universo da arte urbana. O que muda nesse olhar quando se transporta para um lugar que é exatamente o oposto disso?

Na verdade, por trabalharmos com arte contemporânea, de vanguarda, a Serrinha sempre teve um certo quê urbano, mesmo dialogando o máximo possível com a natureza. Os professores do primeiro festival foram Carlos Fajardo, Dudi Maia Rosa, Laura Vinci, Sandra Cinto, vários artistas do universo da arte contemporânea brasileira. Isso já trazia esse quê urbano. O Baixo, além da arte urbana, tem uma grande generosidade de se envolver em projetos nas periferias, dar oportunidade pra jovens, fazer curadoria de grafite, de pixo. Essa ação dele me interessa muito. Neste ano, a oficina foi muito procurada: pedimos portfólio, inscrição, porque não era pra principiantes, a pessoa já precisava ter algum trabalho desenvolvido. Diferente de quando eu fazia, por exemplo, uma oficina de pintura com o Dudi Maia Rosa, que chegava e fazia a proposta de exercícios. Desta vez cada um traz um trabalho que já apresentou pelo portfólio, e o desenvolve durante a semana no ateliê. É sempre muito interessante porque tem gente da performance, da instalação, e um monte de gente que se arrisca na land art, porque a Serrinha é um dos poucos lugares que têm essa possibilidade, com equipe acostumada a trabalhar nessas dimensões. Esse ano estamos expandindo: em setembro vamos fazer uma residência internacional aqui, abrindo para artistas de vários países que queiram conhecer o Brasil e produzir aqui, no meio da Mantiqueira, da Mata Atlântica, nesse cenário tão inspirador.

É interessante que a land art é sempre efêmera, está exposta ao tempo, dialoga com ele. Como você decide o que fica, o que vai, de tantas coisas que já foram feitas na Serrinha?

Tem a ver, principalmente, com a duração dos materiais, porque os materiais acabam. Muitos são orgânicos. Tenho um trabalho bem exemplar, do Marcelo Zocchio, um cedro com um encaixe que fica na beira de uma trilha, sendo consumido pelo tempo, e a gente vai fotografando. Tenho foto dele numa exposição em São Paulo, num cubo branco, ainda íntegro. Quando chegou aqui, começou a ter fungos, e tudo vai sendo incorporado. O Marcelo adora: me pede a cada seis meses pra mandar foto da peça. Já tivemos tragédias também. Tínhamos um Fusca pendurado numa árvore, nossa obra mais famosa, todo mundo em Bragança conhecia a Serrinha por causa dele, todo mundo queria fazer uma selfie. Um incêndio no alto do morro consumiu essa obra e mais uma da Laura Vinci, um barco de oito metros, em 2020, ainda durante a pandemia, um dos maiores incêndios que já tivemos aqui. Hoje temos vinte obras maiores e mais umas dez menores expostas.

Foi tanta agitação na política que os assinantes do Meio quase esqueceram a Copa do Mundo. Confira os links mais clicados da semana:

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3. UOL: 16 avos ou décimas sextas de final: qual o nome certo da nova fase da Copa?

4. RD Station: Seleção de cursos gratuitos da Universidade RD Station.

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