É a agenda que escolhe o candidato
A eleição de 2026 já tem dois problemas definidos antes mesmo de ter candidatos: a oposição ainda não tem projeto, e o governo já tem fragilidades claras em segurança pública e ainda patina na economia. Para o campo oposicionista, o problema é duplo: a dificuldade de definir nomes competitivos e, sobretudo, a ausência de um projeto de país que vá além do antipetismo e que não fique atolado somente nas demandas do bolsonarismo. Para o governo, o desafio é mais objetivo: a pesquisa Meio/Ideia de fevereiro indica que suas maiores fragilidades estão nas avaliações negativas em segurança pública e na economia, dois temas que caminham para se tornarem a agenda da sociedade neste ciclo eleitoral. E, segurança pública, por exemplo, é um tema que puxa para baixo a aprovação e avaliação geral do atual governo.
Oposição na Câmara sinaliza apoio ao fim da escala 6×1
A oposição na Câmara dos Deputados decidiu encampar o fim da escala 6x1, pauta que desponta como a principal aposta do governo Lula (PT) no Legislativo para este ano eleitoral. O movimento foi confirmado pelo líder do bloco, Cabo Gilberto Silva (PL), que ponderou, entretanto, que o apoio não será irrestrito. A estratégia da base opositora é propor a aprovação da medida em "termos próprios": a implementação da jornada 5x2, permitindo a realocação das horas da estrutura anterior. Para viabilizar esse consenso, Silva sugere agregar as quatro propostas que já tramitam na Casa em um texto único. O Executivo, por sua vez, também pretende enviar um projeto unificador logo após o Carnaval.
Um acordão de sobrevivência eleitoral e política em 2026 parece estar em curso em Brasília

Pode estar vindo aí um acordão pra salvar o ano eleitoral, gente. Pra surpresa de ninguém, né? Não se deixem enganar pelos discursos de abertura do ano legislativo e do ano judiciário, que falou sobre democracia, diálogo entre os Poderes e compromisso com o interesse público. Tudo muito bonito, solene e institucional, como tem que ser mesmo. E essa parte sequer é necessariamente mentira de cabo a rabo. Mas esses discursos vieram também temperados com indiretas sobre o papel constitucional de cada um, independência, coragem e não submissão. 2026 foi inagurado em Brasília sob dois signos claros. O primeiro é o de “não me provoca que sobra pra você também”. E o segundo de “se organizar direitinho, todo mundo sobrevive”. Quase nunca o que mais importa é aquilo que está sendo dito no microfone, embora ali também estejam recados claros de um chefe de Poder para outro e para os cidadãos. O que costuma ser mais revelador é o que está sendo dito fora dos microfones. Seja nas entrelinhas ou nos corredores. E, num ano com eleições, CPIs em andamento, investigações sobre emendas parlamentares e um escândalo financeiro do tamanho do Banco Master, o contraste entre palco e bastidor fica ainda mais evidente. Publicamente, Lula foi ao Supremo Tribunal Federal para agradecer. Ele agradeceu ao STF por ter sido guardião da democracia, por ter garantido as eleições, por ter enfrentado os golpistas, por não ter se omitido. O subtexto é simples: o governo precisa de um Judiciário forte, atuante e disposto a seguir sendo linha de contenção contra qualquer tentativa de desestabilização em 2026. Quando Lula fala que a Justiça Eleitoral precisa agir com rigor, velocidade e precisão contra abuso econômico, fake news, uso de algoritmos e inteligência artificial, ele está falando para as plataformas digitais, mas está falando principalmente para o Tribunal Superior Eleitoral e para o STF: não vacilem nesta eleição, que o perigo segue por aí. No mesmo discurso, Lula, candidato à reeleição, tenta puxar para si a bandeira da segurança pública por duas vias. Primeiro, fala de crime organizado no “andar de cima”, de operações que atingem magnatas, e amarra isso à defesa da PEC da Segurança Pública e do PL Antifacção, que o governo quer ver aprovados em seus termos. São projetos que ajudam a montar o discurso eleitoral de que o Planalto não é conivente com crime, não deixou a pauta ser sequestrada pela direita e o de que seu governo defende os pobres dos ricos. Como a vitória nesses dois projetos está longe de ser garantida, a segunda via é a do combate ao feminicídio, pauta adotada mais recentemente pelo governo federal para voltar a conversar com as eleitoras e um dos pontos mais fracos do discurso linha dura sobre segurança da direita. Mas essa foi a parte vistosa do papo de Lula. Em seu quarto ano de mandato, o presidente decidiu entrar em campo para fazer a articulação política. Terá, nesta semana, um jantar com Hugo Motta e líderes partidários na Câmara para tratar das pautas de interesse do governo — e do que lhe for pedido em troca. Alcolumbre e outros senadores devem ser recebidos semana que vem. Enquanto isso, no Congresso, Hugo Motta e Davi Alcolumbre fizeram discursos quase gêmeos em alguns pontos e bem distintos em outros. Ambos defenderam diálogo, mas fizeram questão de sublinhar, mais de uma vez, a palavra independência. Alcolumbre chegou a falar em paz institucional, sem medo de partir para a luta se necessário. Motta foi mais explícito: o Congresso não aceita ser tutelado pelo STF, sobretudo no tema das emendas parlamentares. Quando Motta diz que cabe ao plenário da Câmara fazer valer a prerrogativa constitucional de destinar emendas pelos “rincões Brasil afora”, ele não está falando de teoria constitucional ou de descentralização de poder. É o contrário. Ele está falando de concentração de poder. Emenda se traduz em base eleitoral, obra em reduto, capital político. Em reeleição de parlamentares e aliados regionais. Em manutenção dos mesmos grupos políticos de sempre em seus cargos. Neste momento, as emendas também são um dos maiores focos de investigação no país. O ministro Flávio Dino, do Supremo, vem apertando o cerco por mais transparência, rastreabilidade e controle. Parte do Congresso vê isso como interferência. O discurso público é sobre descentralização de recursos. O bastidor é sobre preservar um instrumento central de sobrevivência eleitoral e tentar barrar uma nova Lava Jato no sentido de prisão de deputados e senadores. O mesmo vale para Alcolumbre. Quando ele diz que defender prerrogativas nunca será sinônimo de submissão, a tradução é direta: o Senado não pretende abrir mão de seus espaços, mesmo sob pressão do Judiciário e mesmo com investigações avançando. Mais que isso, no caso Master, tem investigação avançando pra todo lado, inclusive para o Supremo. E Alcolumbre, chefe da Casa que pode impichar ministro do STF, deu o recado de que não tem qualquer intenção de deixar essa água escorrer só pro Congresso. Ah, Motta e Alcolumbre também tentaram chamar para si pautas populares como a do fim da jornada 6x1 e a da isenção do Imposto de Renda, pro Planalto ficar bem esperto que não vai poder capitalizar essas vitórias sozinho. Teve mais recado e mais bastidor nesse réveillon do poder. Quer saber mais? Fica aqui mais um pouco. Do lado do STF, o discurso de Edson Fachin é talvez o que mais revela contraste entre o que é possível ou desejável falar em público e o que se combina nos bastidores. Em público, Fachin reconhece que o Supremo foi empurrado para o centro da arena política nos últimos anos. E que isso tem custos. Convocou seus pares a aceitar as consequências de suas escolhas. E pediu uma espécie de recalibragem dos magistrados, com menos voluntarismo, mais autocorreção, e uma reconstrução institucional de longo prazo. Ao anunciar formalmente como sua prioridade um código de ética para a Corte, nomeou Cármen Lúcia como relatora. A ministra funciona como um tipo de escudo, ou de reforço de peso pra essa batalha. Ficou muito claro que, nos gabinetes do STF, Fachin precisava desse movimento para se fortalecer e ter alguma chance, ainda que pequena, de fazer esse código avançar. Na dobradinha com Fachin, Cármen Lúcia, que é presidente do Tribunal Superior Eleitoral até junho, reforçou em seu discurso exatamente esse mantra: magistrados precisam ser comedidos, transparentes, não podem frequentar eventos com candidatos, não podem se manifestar politicamente, não podem gerar dúvida sobre imparcialidade. Em ano eleitoral, isso é um aviso interno, mas também um recado externo. O Judiciário sabe que será alvo, e está tentando se blindar antes que a pancadaria comece. Antes mesmo de os discursos começarem, conta o colunista Lauro Jardim, Lula, Geraldo Alckmin, Motta, Alcolumbre, Gleisi Hoffmann, Sidônio Palmeira, Jorge Messias e ministros do STF estavam juntos na chamada sala das togas, conversando longe das câmeras. Lula fez questão de circular, falar com todos, mas deu atenção especial a Fachin e a Cármen Lúcia. Já Alexandre de Moraes chamou Alcolumbre para uma conversa reservada, num canto. Nada disso é aleatório. E a jornalista Andreia Sadi acrescenta um elemento a tudo isso. Segundo suas apurações de bastidor, está em curso uma tentativa de grande acomodação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Ao melhor estilo “Com o Supremo, com tudo”. Porque diversos desses atores políticos já entenderam que as investigações em andamento — lembrando que tem investigação sobre o Banco Master, desvios de emendas, fraudes no INSS, crime organizado no mercado financeiro — têm potencial de atingir políticos em cheio em ano eleitoral e afundar de vez a credibilidade do STF. Há poucos vencedores. O Congresso manda um recado ao governo: vocês precisam de nós para aprovar fim da escala 6x1, PEC da Segurança Pública, PL Antifacção e outras pautas que rendem voto. Nós dependemos das emendas e queremos o Centrão, correntista-mór do Master, preservado. O governo, por sua vez, não gostaria de ver mais uma CPI instalada, para não contaminar a eleição nem atingir seu entorno político, notadamente a ala baiana do PT. O STF sabe que precisa dar respostas sobre autocontenção, mas também não está disposto a fazer a reforma de consciência mais profunda que deveria nem queimar um de seus ministros, Dias Toffoli liderando a fila. O problema é que existe um ator que não entra, até onde se sabe, em acordão: os investigadores. Polícia Federal, técnicos, auditores, gente que está atrás de rastro de dinheiro. E quando a engrenagem da investigação anda, ela não pede licença para calendário eleitoral. Então, o retrato de Brasília hoje é esse: no palco, discursos sobre harmonia, ética, democracia e diálogo. Nos corredores, conversas sobre como sobreviver a 2026 com o menor número possível de feridos. No fundo, todo mundo sabe que o que está em disputa não é apenas quem ganha a eleição. É quem chega vivo, politicamente, até ela.
Fim do recesso tem promessa de Código de Conduta no STF e harmonia entre Poderes

Hoje, no Central Meio, Flávia Tavares e Luiza Silvestrini recebem o professor de Direito da FGV Álvaro Jorge e o colunista do Meio e analista Político Creomar de Souza. Os dois comentam os discursos e as promessas feitas na abertura do ano no Legislativo e no Judiciário. Entre os temas estão a redação de um Código de Conduta para o STF, a harmonia entre os poderes e o fim da escala 6X1.
Qual o melhor? Descubra as principais diferenças entre o ChatGPT, Gemini e Claude

No Pedro+Cora do dia 3 de fevereiro de 2026, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai falam sobre as inteligências artificiais que mais usam diariamente e a diferença entre elas. No papo, falam sobre o valor das assinaturas para ter a versão pro do GPT, Gemini e Claude, como aproveitar ao máximo esse tipo de modelo de linguagem para realizar e gerenciar tarefas dentro de seus dispositivos e dicas de qual IA usar a partir do que usuário deseja executar.O Livro da Cora: “O toldo vermelho de Bolonha”, de John Berger
Fachin escolhe Cármen para relatar código de conduta do STF

Na abertura dos trabalhos do Judiciário, a ministra do Supremo mandou recados aos colegas, cobrando “decisões claras e transparentes” para garantir a confiança da sociedade. Alexandre de Moraes converte em medidas restritivas a prisão de dois militares envolvidos na trama golpista. Anvisa aprova uso da semaglutida para redução do risco de eventos cardiovasculares. O último show da turnê Tempo Rei de Gilberto Gil ganhará transmissão em horário nobre na TV. Musk mandou equipe da xAI produzir material sexualizado para aumentar a popularidade do Grok.
Cármen Lúcia será relatora de Código de Ética do STF, diz Fachin
Hoje, ‘No Pé do Ouvido, com Yasmim Restum, você escuta essas e outras notícias: Fachin anuncia Carmen Lúcia como relatora de Código de Ética do STF. Índice de jovens que conclui Ensino Médio sabendo matemática básica diminuiu no Brasil. Hospital realiza primeiro transplante de rosto com doadora que pediu eutanásia. Falha permitiu que qualquer pessoa assumisse agente de IA no Moltbook. Focus reduz projeção de inflação para 2026. E trailer de ‘Michael’ narra ascensão de astro infantil ao Rei do Pop.
O buraco do Master é fundo

Vocês já entenderam o tamanho do problema que é o Banco Master? Eu acho que talvez não, tá? A maioria do Brasil ainda não percebeu o tamanho do buraco. O ministro Edson Fachin abriu hoje o ano do Judiciário. De presto, indicou que a ministra Cármen Lúcia será responsável por construir um código de ética. Enquanto isso, outro ministro, José Antonio Dias Toffoli, segue responsável pelo caso do Banco Master. Mais antiético, impossível. Os irmãos de Toffoli, que vivem de forma muito humilde, são sócios indiretos de Daniel Vorcaro, do Master, num resort milionário. Toffoli ele próprio, frequenta o resort de jatinho e helicóptero. Apesar de que donos, donos mesmo, eram seus irmãos. Que não frequentam o resort. A gente não sabe, do conto do Master, a metade. Por quê? Porque Toffoli declarou sigilo máximo. Mas vamos dissecar aqui. Ele é o juiz e está envolvido. Como também está o ministro Alexandre de Morais. A mulher de Alexandre fechou, com o Master, um dos mais valiosos contratos da história dos escritórios de advocacia do Brasil. Mas calma. Não fica aí. Toffoli abriu este sigilo para o presidente do Senado, David Alcolumbre, do União Brasil do Amapá. Por quê? Ninguém sabe. Mas o presidente do Senado tem acesso a detalhes da investigação sobre a fraude do banco que outros ministros do Supremo não têm. Por quê? Olha, o Fundo de Previdência dos Servidores do Amapá aplicou cerca de 400 milhões de reais no Master. Perdeu tudo. Por que fez esse investimento num banco que a Faria Lima inteira sabia que era sujo e ia dar problema? Por incompetência? Ou tinha algum esquema? Só o Rio de Janeiro jogou mais dinheiro fora no Master. Mas, se você comparar a economia de um estado e do outro, nada é pior do que o Amapá. E Alcolumbre é um dos raros sujeitos em Brasília que sabe como está realmente a investigação. Não para. Ciro Nogueira. O senador, presidente do Progressistas. Que, como ministro da Casa Civil, mandava no Palácio do Planalto de Jair Bolsonaro. Pois então. Nogueira apresentou, no Senado, uma proposta para aumentar o Fundo Garantidor de Créditos. Esse fundo, o FGC, é um dinheiro que todos os bancos são obrigados a manter lá no Banco Central. Quando um banco qualquer fecha as portas, o FGC indeniza os correntistas até um certo limite. Hoje, 250 mil. Ciro quis muito, junto com Alcolumbre, aumentar esse valor pra um milhão. Ia ser um baita prejuízo para todo mundo, menos para, ora, quem estava com medo de terminar pendurado. Quando tentaram articular isso, em 2024, não rolou. Alguém tem dúvidas de para quem Ciro estava trabalhando? Eu poderia citar Antonio Rueda, gente, o presidente do União Brasil, seus jatinhos e a relação dos seus jatinhos com o dono do Master. Mas aí não daria tempo para falarmos do PT e de como o Banco Master chega, agora, na Casa Civil de Lula. Ou, ao menos, muito perto dela. De como chega, também, na liderança do governo no Senado. Vem comigo porque a história é longa. Em 2018, o hoje ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, era governador da Bahia. O hoje líder do governo no Senado, Jacques Wagner, era secretário de Desenvolvimento Econômico de Rui. Wagner privatizou, nesta época, a EBAL, Empresa Baiana de Alimentos. O principal produto dessa estatal era um cartão de crédito, o CredCesta, que permitia aos funcionários públicos do estado fazerem compras e a fatura era paga descontando-se diretamente da folha. É tipo um empréstimo consignado, só que via cartão de crédito. Pois bem. Quem comprou a empresa foi um empresário chamado Guga Lima que, ora, era sócio de Daniel Vorcaro. Dono do Master. Foi com o CredCesta que a gigantesca fraude bancária do Master começou. Porque, ali, estava um vínculo com garantia de crédito, dada pelo governo baiano via a folha salarial dos funcionários, que gerou a crescente bola de neve que nos trouxe até aqui. Nós sabemos que foi graças a um pedido de Jaques Wagner, que o ex-ministro da Fazenda de Dilma, Guido Mantega, terminou funcionário de Vorcaro ao módico salário de um milhão por mês. E, nessa toada, foi Mantega com Rui Costa que conseguiu costurar um encontro de Vorcaro com o presidente Lula. Veja, para ser bem claro: não há qualquer indício de que Lula tenha feito qualquer coisa por Vorcaro. Nenhum. Como não há, por enquanto, qualquer indício de que Jair Bolsonaro ou qualquer pré-candidato à presidência tenha relações diretas com o Master. Zero. Há uma relação indireta, via Fabiano Zettel, pastor, outro dos ex-sócios de Vorcaro, que comprou dos irmãos de Toffoli parte do resort Tayayá. Aquele, que Toffoli frequenta mas não é dele. Zettel foi doador da campanha de Tarcísio e de Bolsonaro. A gente pode ir além e além e além. Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master. Foi posto no cargo quando? Janeiro de 2022. Adivinha o que havia acontecido em janeiro de 22? Começou o governo Lula. Gala, ora, próximo de meio ministério da Fazenda. De novo, importante ressaltar: o ministro Fernando Haddad é um que circula alertando para o problema do Master faz um tempo. Não tem nada a ver com a turma do PT baiano, que fez negócios ativamente com o Master. O método de Vorcaro sempre foi esse: sair embrenhando no esquema, pagando dinheiro alto, todo mundo que conseguisse para, assim, abrir as portas do poder. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Bolsonaro, conseguiu. Quem quis fazer negócios e estava próximo do governo Lula, conseguiu. Quem quis fazer negócios e estava próximo do Supremo, conseguiu. Quem quis fazer e era ligado ao Senado, aos governos estaduais, a municípios mais ricos. Todo mundo conseguiu e, no meio desse lamaçal, muita gente abriu portas de gente mais poderosa. Não escapa ninguém. Vorcaro se meteu como pode no Estado brasileiro e as defesas do Estado são tão baixas que ele entrou. Não temos controles. Foram desmontados. E a gente tem as instituições funcionando aos trancos e barrancos. O procurador-geral da República protege Toffoli, Toffoli protege Vorcaro, o Supremo está travado, o Senado também, enquanto ao menos a Polícia Federal ainda vai trabalhando. Essa bomba vai explodir. E, se tudo der certo, uma CPI lá dentro do Senado vai trazer a público muita coisa. Lula está planejando fazer uma campanha dizendo que o problema do Brasil é o sistema. Na versão petista, o sistema é a Faria Lima, é o setor financeiro. Se depender do ministro Sidônio Palmeira, responsável pela comunicação de campanha, não vai ter Lulinha Paz e Amor, vai ser aquele Lula populista “a culpa é das elites”. O fato de que meia elite está dentro do partido dele é só um detalhe. Flávio Bolsonaro, ora, vai ser outro candidato que deseja ser anti-sistema, porque dizer que a culpa é do sistema é só o que a família sabe fazer. E o sistema? O sistema é a democracia. O sistema é o Estado. Que, sim, pós-Dilma, pós-Lava Jato, pós-Bolsonaro, pós-tomada do Centrão, piorou. Ficou mais disfuncional. Some a crise econômica seguida da crise de confiança seguida do sufocamento dos meios de controle e dois governos muito ineptos, temos um Estado com mais espaço de corrupção do que havia. Temos um Supremo mais politizado do que havia. E a gente ainda sofreu uma tentativa de golpe. Se Lula e Flávio Bolsonaro fizerem uma campanha contra o sistema, como parece que será, vão ser os dois líderes das pesquisas dizendo que o Brasil não funciona. É uma mensagem bem perigosa num momento de tanta fragilidade. Porque, embora impopular e sem o apelo populista, a verdade é que aos trancos e barrancos o Estado ainda funciona. Apesar de Toffoli, apesar de Alexandre, apesar do PT baiano, apesar do presidente do Senado, apesar dos presidentes de Progressistas e do União Brasil, apesar de tudo, o Master foi liquidado, há uma CPI no Senado, a Polícia Federal está investigando pesado e, veja só, a imprensa segue apurando e publicando. A notícia é que o Brasil vai mal. A notícia é, também, que apesar de mal ainda temos uma democracia. E esta democracia é transparente o suficiente para mostrar onde estão os pedaços podres. Isto é uma vitória. Não é o momento de fazer campanha eleitoral jogando nossa democracia no lixo. Quem faz campanha anti-sistema está fazendo exatamente isso.
Brasileiro é moderado – à esquerda e à direita – e mais nacionalista que cosmopolita

No Central Meio de hoje, Luiza Silvestrini, Pedro Doria e Christian Lynch conversam sobre o perfil ideológico dos brasileiros, mapeado na pesquisa Meio/Ideia. O levantamento indica que 59% são de direita, 34%, de esquerda. O centro existe, mas não chega a 7%. Somos um povo que olha mais para dentro do que para fora — 60% de nacionalistas, 40% de cosmopolitas. Mas não somos radicais, esses mal passam dos 10%. No todo, 89% se distribuem por ideologias moderadas.


