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O premiê canadense está certo

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O primeiro ministro canadense Mark Carney fez, ontem, talvez o melhor e mais importante discurso deste ano em Davos. E esse discurso é, essencialmente, um convite às médias potências do mundo a caminharem juntas. É com a gente, tá? Brasil, hoje, é a décima economia do mundo. O Canadá é a nona. Coreia do Sul, a décima segunda. Índia, a quarta. França, Itália, sétima e oitava. Agora, neste pacote do Carney, está também uma leitura muito pragmática de como o mundo funcionava e como parece que está caminhando para funcionar.

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Qual o risco, aqui? O de fazermos o diagnóstico incorreto. Também esses dias, recebi uma provocação pelas redes. Jogo jogado, normal mesmo. Mas era alguém me marcando para eu ler um rapaz que estava entendendo tudo, muito diferente de mim, que não estava entendendo nada. O que o rapaz dizia: Donald Trump não representa uma aberração no cenário americano. Ele é a apoteose, o momento em que os EUA decidem mostrar sua cara, a cara que sempre ocultaram mas estava lá desde o início para os espertos que sabiam ver.

Bem, vamos lá. Como é que o Carney descreve como o mundo vinha funcionando? Por algumas décadas, o Canadá prosperou naquilo que nós chamávamos de ordem internacional baseada em regras. O Brasil também. O que a gente cresceu entre meados dos anos 1990 e por volta de 2010 está diretamente ligado ao fato de jogarmos neste jogo. Segundo o premiê, nos ligamos às instituições internacionais, elogiamos seus princípios, nos beneficiamos de sua previsibilidade. Vale para eles, vale para nós.

Essa ordem internacional baseada em regras é a ordem liberal. Ela começou a ser consolidada após a Segunda Guerra, mas vingou mesmo a partir da queda do Muro de Berlim. Por que chamamos de ordem liberal? Ela é baseada em conversa, não em guerra. É baseada no princípio de que toda nação pode fazer acordos com qualquer outra nação. Que a soberania de cada país será respeitada. E que vamos, conjuntamente, as nações do mundo, combinar regras coletivas que todos vamos seguir. Ou seja, que todo mundo vai seguir o mesmo conjunto de critérios.

E como é que a gente faz isso? Bem, a gente constrói organizações internacionais onde todos tenhamos assento. São os colegiados onde essas regras são combinadas. A ONU é a principal delas, claro, mas não se trata apenas da ONU. A OMC, gente, a Organização Mundial do Comércio. A gente também combina encontros regulares de conversa. Tinha o G4, as quatro maiores economias do mundo se encontravam de tempos em tempos. Aí formou-se o G20, as vinte maiores economias. Numas reuniões vinham os chefes de governo, noutras os ministros da Fazenda, então os presidentes de Banco Central. E aos pouquinhos consensos vinham. Mas por que só isso? Os BRICS, o conjunto de economias despontando. Ou o próprio Fórum Mundial de Davos, em que grandes empresários, grandes consultorias, grandes intelectuais, líderes de ONGs, cientistas relevantes, chefes de Estado, são postos num mesmo resort isolado na Suíça por um número de dias para que ouçam uns aos outros. Para que conversem.

Uma das coisas mais importantes que aconteceu no mundo, nesse período, foi a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Aquilo foi uma vitória extraordinária. A maior economia em ascensão, àquele momento, dizia: quero fazer parte do jogo internacional.

A crença por trás de tudo isso é que conversas, mesmo que demorem, levam a acordos. Acordos levam a cooperação. Cooperação leva a descobertas científicas, inovação tecnológica, oportunidades de comércio. E crescimento econômico generalizado.

O Carney não falou, mas deixa eu trazer uns números para vocês, aqui. Pra vocês entenderem o resultado da liberalização do mundo, daquilo que a gente chama de globalização. O PIB do mundo mais que triplicou entre 1990 e 2010. Regionalmente, esse número varia. O PIB da Ásia quase quadruplicou. Isso é riqueza em estado bruto. O da África, o das Américas, duplicou. A Europa foi onde menos cresceu, dá uns 40% de aumento do PIB. Mas, olha, é raro, isso, tá? A gente tinha um PIB de meio trilhão de dólares, em 1990. O Brasil. Em 2010 estávamos em 2,2 trilhões.

Quer outro número. Em 1990, 20% da população mundial passava fome, no mundo. Números da FAO. Da ONU. Em 2010, 12%. Em 2020, 10%. A gente não reduziu pela metade a fome do mundo, não. Fizemos muito mais do que isso. Porque diminuímos percentualmente enquanto aumentamos enormemente a população mundial.

Eu sei, falamos muito em desigualdade. A distribuição da riqueza foi desigual, mas é importante entender o que é este desigual. Primeiro, é geográfica. A classe média asiática explodiu, principalmente na China e na Índia, mas por todo continente. Uma quantidade imensa de pessoas que eram pobres, no mundo, vieram pra classe média. É uma coisa de não saber se teria teto para um estágio de pagar boletos. No Oriente e no Ocidente isso aconteceu, em todos os continentes. E os ricos, claro, ficaram muito mais ricos.

Quem perdeu? Um grupo perdeu. Os operários, na Europa e nas Américas, perderam. Essa é a turma que, em sindicatos, formava a base dos partidos de esquerda europeus e por aqui. E que foram, muitos deles, pra extrema direita. A manufatura foi pra Ásia e os operários ocidentais se ferraram.

Outro grupo não perdeu, mas não ganhou. A classe média de Europa e Américas. Estagnou. Não viu crescimento, ou quase não viu. E viu, simultaneamente, os ricos se distanciarem e, os pobres, se aproximarem. O seu lugar não mudou, mas o lugar relativo se transformou. Os pobres, perto, os ricos muito longe. Aí dá aquela impressão de perda. Sabe o clima “o aeroporto virou rodoviária”? Tipo isso.

Então tem desigualdade, os ricos se distanciaram, o jogo ficou mais complicado. Mas o crescimento do mundo, a melhora da qualidade de vida das pessoas por toda parte, não são ilusão. A gente perdeu a capacidade de perceber que o mundo melhorou muito, muitíssimo, com a ordem liberal.

Essa ordem liberal era perfeita? Não, não era, e o Carney fala isso com uma clareza que, acho, nunca vi um chefe de governo falar. E é em cima dessa clareza que ele faz um convite a países como o Brasil. Vem comigo.

“A gente sabia que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa.” Frase do premiê canadense Mark Carney. Às vezes o mais forte não obedecia algumas das regras. Às vezes as regras de comércio não eram obedecidas. O rigor não era o mesmo para todos os jogadores. É. O mundo nunca foi perfeito, o mundo não é perfeito. A diferença é a seguinte. Antes da Ordem Liberal, só o que valeu foi força. O mais forte sempre se impôs sobre o mais fraco. O que a Ordem Liberal trouxe foi uma ética, o constrangimento de quem burlava essa ética. E, portanto, um nível razoável de compromisso.

Sabe, nós liberais não acreditamos em utopias. A gente não acha que o mundo vai ficar perfeito. Se alguém te disser que acredita que o mercado é perfeito, olha, essa pessoa não é liberal. Ela é libertária, ela é movida lá por um tipo de fé, dela. Liberais acreditamos em ir melhorando aos pouquinhos, tanto quanto dê. A justiça é uma coisa da qual a gente se aproxima com o tempo. Não tem como acelerar. Tudo depende de consenso, e consenso é uma arte demorada. Por isso que aquilo que chamamos de Ordem Liberal é uma eterna construção de fóruns nos quais as pessoas certas sentam para conversar e buscar acordos.

Donald Trump acabou com isso. Olha, não tem nenhuma surpresa em Vladimir Putin invadir a Ucrânia porque quer tomar um pedaço do país. Putin é um ditador de extrema direita que quer se portar com czar, como um Stálin de sinal invertido. Mas, quando o presidente americano começa a agir como Putin, aí são as duas maiores potências militares do mundo agindo como trogloditas.

”Eu posso, então faço o que quero.”

Eu juro que entendo que, para algumas pessoas de esquerda, dá uma vontade danada de dizer que Trump não tem nada de novo. Ele simplesmente representa o que os Estados Unidos sempre foram. Mas não é verdade. A Ordem Liberal funcionou até engasgar. Ela engasgou porque não foi ouvir o apelo da classe operária no Ocidente, como não percebeu a frustração de um pedaço da classe média. São aqueles que sentem terem perdido com a globalização. Eles estão pedindo uma nova ordem mundial. Políticos como Donald Trump estão dispostos a oferecê-la.

Como diz o Carney, esta nova ordem mundial é pior para todo mundo. Inclusive para os americanos. Haverá menos cooperação, haverá uma profunda desconfiança. Num ambiente em que ninguém confia em ninguém, menos acordos são feitos. Menos pesquisadores passam tempos noutros países. Menos trocas, menos conhecimento, menos comércio. Tudo piora.

A gente não pode fazer nada se as potências militares querem horrorizar. Mas somos economias grandes. O Brasil assinou um excelente acordo, via Mercosul, com a União Europeia. Vamos ver se os europeus manterão esse acordo de pé. Se ele vingar, é um golaço. Hora de sentar com os canadenses, com os indianos. Se os americanos não querem conversar, vamos procurar quem queira confiar e quem seja confiável. Vamos abrir o Brasil para quem é parceiro. Neste momento, temos muito a ganhar abrindo mais nosso mercado, procurando essas médias potências. Como os canadenses estão propondo.

Mark Carney está certo. O mundo piorou muito por causa de Donald Trump. Mas a gente não tem de fazer o jogo do presidente americano. A velha ordem não fica de pé como era sem a maior economia do mundo. Mas isso não quer dizer que precisamos, ou mesmo que devemos, abandoná-la por completo. Porque aquela ordem enriqueceu o Brasil. Temos muito a perder se a abandonarmos.

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