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São Paulo virou o centro do xadrez eleitoral para Lula e Flávio

Deixa eu puxar a sardinha aqui pro meu lado de paulistana e arriscar uma aposta: mais do que Minas Gerais, que tradicionalmente decide eleições presidenciais no Brasil, este ano São Paulo vai ser decisivo.

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Eu sei que pode parecer que o jogo está jogado com Tarcísio de Freitas praticamente reeleito governador e, com isso, entregando a vitória fácil a Flávio Bolsonaro no Estado.

Bom, claro que Tarcísio é favoritíssimo por aqui. Não à toa escolheu ficar quando não sentiu mais firmeza no apoio de Jair. Também não é à toa que os nomes do campo lulista estão se estapeando pra não vir disputar o governo contra ele.

Mas tem muita coisa ainda sendo definida em território paulista. Definições que passam por alianças, ideologias, tensões sociais e por matemática.

São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com mais de 34 milhões de eleitores. A cidade de São Paulo, só a capital, é o quinto maior, com mais de 9 milhões. É verdade que o estado de São Paulo tende ao conservadorismo, tendo eleito primeiro figuras como Orestes Quércia, depois décadas de tucanos que começaram com Montoro e Covas, mas foram adotando cada vez mais um perfil conservador — sim, isso incluía o companheiro Geraldo Alckmin — e, por fim, chegando a Tarcísio, não sem antes passar por João Doria.

Tem um pedaço relevante do interior que é mais parecido com Goiás e sua visão de mundo vinculada ao agro. Tem outro que é mais industrial e há ainda um litoral com questões bastante próprias, onde o PSB de Márcio França, por exemplo, já foi a força mais importante.

Já a capital abriga uma diversidade ideológica imensa e concentra um eleitorado urbano de classe média e classe média baixa que se tornou decisivo para qualquer presidenciável. Nos últimos ciclos eleitorais, elegeu prefeitos à direita. Mas também já elegeu figuras como Luiza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad. Deu ainda a Guilherme Boulos, militante dos sem-teto do PSOL, chances reais de disputa. Na capital, Lula venceu Bolsonaro em 2022. No Estado, perdeu de bastante.

Então, tá fácil, né? É só Tarcísio fazer campanha pro filho como fez para o pai e pronto.

Bem, segundo a colunista Malu Gaspar, aliados de Flávio Bolsonaro não estão contando com isso. O cálculo deles é o de que, para ter alguma chance de vencer Lula nacionalmente, Flávio precisaria obter em São Paulo ao menos três pontos percentuais a mais do que Jair Bolsonaro conseguiu no estado em 2022.

O palanque paulista de Flávio Bolsonaro é tudo, menos sólido. Seu aliado natural, Tarcísio de Freitas, está desconfortável nesse papel. Seja por mágoa ou por falta de entusiasmo mesmo, Tarcísio vem manifestando um apoio pra lá de tímido a Flávio e tenta, de uma maneira bastante desengonçada, evitar herdar os passivos mais tóxicos do bolsonarismo.

Parte importante do empresariado paulista de todos os setores se ressentiu demais da agenda pró-tarifaço de Eduardo Bolsonaro, do gesto de Tarcísio de vestir o boné MAGA e dos efeitos econômicos das taxas de Trump. Parte importante da população, especialmente da capital e do litoral, é muito crítica da política de segurança pública de Tarcísio, embora ela faça sucesso imenso no interior.

Outro exemplo claro é a agenda de vacinas. São Paulo foi um dos principais polos institucionais de resistência à política antivacina de Jair Bolsonaro. O Instituto Butantan se tornou símbolo disso e do rompimento do BolsoDoria. Pois Lula escolheu justamente ir ao Butantan para anunciar R$ 1,4 bilhão em investimentos federais, levando a tiracolo Fernando Haddad, Geraldo Alckmin e Márcio França.

Tarcísio preferiu não aparecer. Sua agenda oficial estava vazia. Mas ele deixou Lula capitalizando sozinho ali.À tarde, o presidente seguiu para Mauá, encontrou prefeitos, e fez afagos a seu modo, inclusive em prefeitos do PL, ao ouvir queixas de que Tarcísio anda atrasando repasses estaduais. Essas queixas refletem também o fato de que o verdadeiro dono das prefeituras paulistas é Gilberto Kassab, não Tarcísio.

Para a reeleição ao Bandeirantes, isso pode não fazer tanta diferença. Para o apoio automático a Flávio Bolsonaro, é bem diferente. Kassab, como se sabe, promete ter candidatura própria ao Planalto. Se estiver levando isso a sério, vai precisar botar seu candidato para bater em Flávio, para ter alguma chance real de chegar ao segundo turno. Os prefeitos paulistas podem acolher Tarcísio em seus palanques com facilidade. Mas talvez ele tenha de dividir a cena com Ratinho Jr., não com Flávio.

Bom, ok, mas e Lula? Como vai fazer para reverter a derrota de 2022, ainda mais com um Tarcísio tão forte e um Kassab motivado?

Fica aqui comigo pra gente analisar o lado de lá do tabuleiro do xadrez paulista. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. 2026 é ano eleitoral, é também aniversário de dez anos do Meio e a gente tem a cobertura de política como nossa marca mais forte. Tanto que a gente fechou parceria com o Instituto Ideia pra produzir nossa própria pesquisa eleitoral, mensal, que o nosso assinante premium recebe antes de todo mundo pra mandar nos seus grupos e pautar a conversa. Seja um assinante premium e faça parte do jornalismo independente e plural do Meio. São só 15 reais por mês.

O presidente Lula está muito longe de ter vida fácil no estado de São Paulo. Mesmo na capital, em 2022, ele ganhou por coisa de 500 mil votos, não foi com folga. E ele já não pode contar com a mesma folga histórica no Nordeste, vai precisar de um desempenho bem melhor por aqui.

O próprio governo reconhece, nos bastidores, que o avanço da direita em alguns estados e a fragmentação do Centrão tornaram o mapa regional mais instável. Lula ainda é o maior cabo eleitoral do Nordeste, sem dúvida, tanto que até figuras como o senador piauiense Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, flertam com a ideia de deixar Flávio pelo caminho e ficarem “neutros” para não espantar o voto lulista em suas bases.

Ainda assim, a vantagem de Lula já não é tão vistosa. E em São Paulo as fragilidades são imensas. O PT nasceu e se criou no ABC paulista, com os pés na base sindical e do operariado, além dos laços com os católicos e com as universidades.

A base sindical vem se enfraquecendo com o fim dos chãos de fábrica. O catolicismo cedeu espaço às igrejas evangélicas. E a sombra da árvore de Lula não deixou muitas outras lideranças brotarem, pra usar o clichê da política. Tanto é assim que, tirando Fernando Haddad, com sua forte identidade com o braço universitário do petismo, as opções de Lula no estado são Simone Tebet, do MDB, e Geraldo Alckmin, do PSB. Mais à esquerda, corre por outra pista Guilherme Boulos, mas como projeto de longo prazo.

A aposta de Lula até o momento está na costura de alianças, nos afagos aos prefeitos e, mais recentemente, na estratégia de reacender uma pauta puramente trabalhista, que é a cara do PT clássico, com o fim da jornada 6×1. Nacionalmente, a bandeira foi erguida também pelo PSOL, pela deputada Erika Hilton, mas diante de sua popularidade o Planalto acabou embarcando, ainda que tardiamente. Até o Centrão já embarcou.

Esse movimento vai ser muito interessante de acompanhar. Lula e Flávio vão colocar em São Paulo dois discursos opostos para brigar, na disputa pela classe média baixa dos grandes centros urbanos. De um lado, a noção de direitos trabalhistas, de redução de jornada, de luta de classes atualizada para o século 21. De outro, a noção do empreendedorismo, do “pare de depender do governo e do Bolsa-Família”, discurso de sucesso de Pablo Marçal na cidade e que Flávio já adotou integralmente em suas entrevistas mais recentes.

Quem quiser vencer em 2026 vai precisar ganhar São Paulo — muito além das pautas morais. Aqui tem tanto reacionário religioso que lota a Paulista pedindo anistia quanto identitário raiz que promove manifestações pró-maconha e do tipo #elenão. O verdadeiro laboratório que São Paulo oferece aos candidatos é o de, construídos os palanques, testar os discursos sobre mundo de trabalho e visão de futuro e perspectiva.

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