Quem está certo no Irã?

Imagine a seguinte situação: você está tão cansado, tão exausto de um governo que sai às ruas todo dia para protestar. Agora, dobra isso. Imagine que sair às ruas para protestar seja um risco de vida. Literalmente a polícia, ou o Exército, pode matar você. Ou talvez pior. Você pode ser preso e levado para uma cadeia onde será barbaramente torturado sem que ninguém, nenhum amigo, nenhum familiar, tenha qualquer ideia de onde você está, se vivo ou morto. Estou falando de tortura do pior tipo. Da mais dolorosa. E, ainda assim, você segue escolhendo sair às ruas. Processou esta ideia? Imagine, então, que você é pai ou mãe. Que o líder máximo do seu governo foi à televisão e disse o seguinte: não deixe seus filhos irem às ruas. Se deixarem, não reclamem se o pior acontecer com eles. E, ainda assim, o povo segue tomando as ruas. Segue protestando. Segue pedindo a queda do governo. É isso que está acontecendo no Irã neste momento. A ideia de liberdade é abstrata até o instante que deixa de ser. A gente não tem essa experiência, no Brasil, há muito, muito tempo. Mas, para estas pessoas no Irã, a vida está tão insuportável que não dá mais. Esse “não dá mais” tem este peso: arriscar a vida, arriscar o nível máximo de sofrimento físico, é preferível a continuar como está. Sabe, são momentos assim da história que nos fazem lembrar que a luta por liberdade, que o anseio por liberdade, move povos a situações de limite. Como construir uma opinião a respeito do Irã? Se acreditamos na autodeterminação dos povos, então só há um caminho a seguir. Se o povo do Irã derrubar o regime dos aiatolás, se o povo conseguir derrubar a ditadura do Irã, então viva os iranianos. Eles estão tentando. Agora vamos para um teste muito, muito duro de resiliência. De um lado, o quanto um povo consegue aguentar de violência, de brutalidade, de morte, até ser posto de joelhos. Do outro, enquanto as pessoas com mais poder dentro do regime acreditam que seguirão capazes de se manterem no poder. Quem piscar primeiro, perde. É isso que a gente vai ver nos próximos dias. Nas próximas semanas. Agora, tem algumas coisas inéditas. A coalizão que está nas ruas é totalmente diferente de todos os protestos, no Irã, neste século. São muito mais grupos sociais, pela primeira vez juntos. A ditadura dos aiatolás também nunca esteve tão frágil militarmente. É, igualmente, a primeira vez em que há um clamor visível pelo retorno do xá, o antigo rei, nas ruas do Irã. Não é que isto seja bom ou seja mal. É o que é, e é muito diferente do que foi. Mas, fundamentalmente, é importante não esquecer de um ponto, um único ponto crucial. A estimativa das organizações de direitos humanos é de que já morreram pelo menos 500 pessoas. E, ainda assim, as pessoas continuam enchendo as ruas. A gente precisa respeitar isso. A alternativa é, de longe, acreditar que nós estamos entendendo melhor o que acontece no Irã do que os próprios iranianos. A alternativa é considerar que sabemos melhor o que serve aos iranianos do que eles. É de uma prepotência inimaginável. Então, vem cá, quem está nas ruas? E por que o regime dos aiatolás está mais fraco do que jamais esteve? O que mudou desde a última onda de protestos, em 2022, para cá? Vem comigo, vamos dissecar esse jogo. Primeira coisa a entender, por que o regime está mais fraco? Bem, após o desmanche do Iraque pelos americanos, os aiatolás estenderam forte sua influência militar no Oriente Médio. Já tinham laços fora do país, reforçaram. Mantinham o Hizbolá, dentro do Líbano, o Hamas, em Gaza, e outros grupos. Isso garantia ao país, essencialmente, um nível altíssimo de controle sobre estes dois territórios. Além disso, estava também lá a ameaça nuclear. Em 2025, tudo mudou. Israel decepou a liderança do Hizbolá e e um bom naco da do Hamas. Israel também promoveu assassinatos seletivos de inúmeros líderes da Guarda Revolucionária, o principal braço armado do regime iraniano. Os americanos bombardearam pesado instalações nucleares dentro do país. O poder que o Irã tinha sobre a região simplesmente desapareceu. Sua capacidade de impor instabilidade não tem, nem de longe, o alcance que teve. Internamente, isso tem peso. Porque o povo olha para o regime com a compreensão de que ele está mais fraco. As revoltas populares no Irã são recorrentes. Em 2009, foi por conta da fraude eleitoral que tirou a vitória do candidato à presidência Mir Hossein Mousavi. Foi a Onda Verde. Quem foi pras ruas? A classe média cosmopolita de Teerã. Porque isso é importante de compreender sobre o Irã. O país é divido mais ou menos entre alguns grandes centros urbanos. A capital, gigante, com um quarto da população do país, aí Mashaad, Isfahan, Karahj, Shiraz e Tabriz. A cidade de Shiraz, aliás, diz a lenda que é a origem da uva Sirah. Estas grandes cidades têm uma população cosmopolita e com altíssimo nível educacional. Há mais mulheres do que homens com curso superior, no Irã. Estamos falando de uma das quatro civilizações da Antiguidade com histórico contínuo de produção artística e científica. Irã, Índia, China, Grécia. É um país sofisticado, que tem história de um período democrático no século 20. Essa classe média altamente educada foi às ruas em 2009 e, depois, em 2022. Essas são as passeatas do hijab, contra a polícia religiosa, a basij, que estava prendendo e torturando mulheres que permitissem um chumaço de cabelo escorregando para fora do véu. Entre 2017 e 2019, houve outra onda de protestos. Esta pegou comerciantes e trabalhadores mais pobres, inclusive no interior. O Irã é muito desigual. Esse interior é bastante pobre, com índices baixíssimos de educação formal. O motivo? Crise econômica. Foram protestos fragmentados, espalhados, pequenos em número de pessoas, mas em muitos lugares diferentes. O que está acontecendo agora é que juntou todo mundo. O Rial, a moeda do Irã, foi muito desvalorizada em dezembro. Há seca no país e escassez de produtos nos supermercados. O comércio não está vendendo nada. Então estão todos estes grupos nas ruas. A classe média cosmopolita e educada, a classe trabalhadora pobre e com pouca educação, a elite comercial que é muito importante. E, temos indícios, o baixo clero. Os clérigos que não têm acesso aos líderes de Qom, a cidade dos aiatolás. Nesse baixo clero, veem os aiatolás como uma elite corrupta que se distanciou dos verdadeiros valores da religião. Veja, estes grupos querem coisas muito diferentes e esse movimento revolucionário não tem um líder claro. Talvez seja por isso que, nos protestos iranianos, pela primeira vez se ouça cânticos e slogans clamando pelo retorno do xá Reza Pahlavi, que é o filho do antigo xá, derrubado pela Revolução Islâmica. Nada é dado, tá? Muita coisa diferente pode acontecer. Não é absurda a ideia de que a Guarda Revolucionária chute para fora os aiatolás, isso de alguma forma satisfaça a população, e feche numa ditadura diferente. Uma ditadura militar. Pode terminar numa solução espanhola. Põe o xá como chefe de Estado, numa solução que traz algum tipo de líder consensual simbólico, e vai pruma democracia constitucional. Pode ser que a matança siga e os aiatolás continuem no poder. Muita coisa pode acontecer. Mas, sabe, nessa história em particular só tem um lado no qual se deve estar. É o lado do povo iraniano que está arriscando muito. Que está arriscando tudo.
Brasil leva dois Globos de Ouro com O Agente Secreto; Protestos escalam no Irã

No Central Meio de hoje, Pedro Doria, Luiza Silvestrini e o colunista do Meio e cientista político Christian Lynch comentam a vitória de O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, em duas categorias no Globo de Ouro: melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama para Wagner Moura. Em seguida, o assunto é a escalada dos protestos no Irã, com pelo menos 500 mortes nos últimos dias.
Brasil brilha em dobro no Globo de Ouro

O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, é escolhido melhor filme de língua não inglesa, enquanto Wagner Moura ganha o inédito título de melhor ator em drama. Hamnet foi o melhor filme em drama e Uma Batalha Após a Outra ganhou como comédia ou musical. Repressão a protestos no Irã deixa mais de 500 mortos, mas manifestantes não saem das ruas. Após criação de imagens de nudez de pessoas públicas e crianças, chatbot Grok fica restrito a usuários pagos do X. E os alertas de desmatamento caem 9% na Amazônia e no Cerrado em 2025, diz Inpe.
Brasil brilha em dobro no Globo de Ouro
Hoje, ‘No Pé do Ouvido, com Yasmim Restum, você escuta essas e outras notícias: Filme ‘O Agente Secreto’ e Wagner Moura vencem Globo de Ouro. União Europeia aprova acordo com Mercosul, após mais de 25 anos de negociações. Empresas de irmãos e primo de Toffoli tiveram como sócio fundo ligado ao Master. Afastamentos de trabalho por burnout sobem 493% em quatro anos e pressionam Previdência. Mortes em protestos no Irã disparam e repressão continua. Clima extremo marca fim de semana no país. E autor Manoel Carlos morre aos 92 anos.
O golpe do Brad Pitt

Golpes românticos viraram indústria: começam com afeto, passam por manipulação e terminam em Pix — roubando dinheiro e dignidade. O vídeo reúne dados, histórias reais e mostra por que pessoas mais velhas são alvos preferenciais tanto nesses “golpes do amor” quanto em outras fraudes digitais, além de sinais de alerta para se proteger.
Edição de Sábado: As fronteiras do chavismo

Não fossem os quatro blindados e a dúzia e meia de soldados das Forças Armadas colombianas equipados com velhos fuzis de assalto, poucos diriam que algo mudou nesta última semana na Ponte Simón Bolívar, a principal ligação por terra entre a Colômbia e a Venezuela. Carros, motos e ônibus circulam de um lado ao outro sem interrupções. Milhares de pessoas cruzam a pé a ponte que liga Cúcuta, na Colômbia, a San Antonio del Táchira, na Venezuela, como se nada de especial tivesse acontecido no sábado passado, quando as forças especiais americanas atacaram Caracas e sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro. A calma e a normalidade, no entanto, são só aparentes.
3,2,1…Feliz Nova ordem mundial?

No primeiro Ponto de Partida React de 2026, nesta sexta-feira (9), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre a possível ruptura da ordem mundial do nosso último século a partida da invasão dos Estados Unidos na Venezuela no início de janeiro. A conversa passa por comparações entre as potências China e Estados Unidos, e os riscos inerentes a democracias liberais em um contexto de lideranças autoritárias. No entanto, o movimento do presidente estadunidense não é algo novo no mundo, e remonta um perigoso anacronismo que põe em xeque a soberania das nações e acordos multilaterais. Dá pra chamar de imperialismo? E se essa moda pega? Como o Brasil e outros países semelhantes ficam nesse cenário? Junte-se a Yasmim Restum e Pedro Doria nessa jornada de perguntas e respostas orientada pelos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta no Youtube. Acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido e assista em vídeo no Youtube.
PF diz que Vorcaro pagava até R$ 2 milhões a influenciadores para promover Master

No Central Meio de hoje, Pedro Doria, Luiza Silvestrini, Flávia Tavares e o colunista do Meio e diretor-executivo do Livres Magno Karl conversam sobre os desdobramentos mais recentes do caso Master. Depois, Guilherme Werneck, da Ladrilho HIdráulico, traz os destaques da programação cultural do fim de semana.
A Copa de 1994: o jejum, o tetra, Romário

A Copa de 1994 foi marcante para os brasileiros. Completávamos 24 anos de jejum. Ayrton Senna, grande ídolo nacional, havia acabado de morrer de forma traumática. Muito criticado, o time tinha perdido um jogo pela primeira vez em toda a história da participação brasileira em Eliminatórias. Este episódio do Meio de Campo mergulha na Copa de 1994 com a nossa marca registrada: o estudo de como o jogo foi jogado. Explicamos o 4-4-2 (ou, mais exatamente, o 4-2-2-2) de Carlos Alberto Parreira e os outros esquemas táticos presentes na Copa. Falamos das grandes surpresas da competição, como a Suécia e a Bulgária. Analisamos a exclusão de Diego Armando Maradona pelo antidoping. Comentamos o papel que teve a Copa no desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos. Damos um destaque especial ao grande craque do time brasileiro, Romário.


