O atalho que quebrou o Brasil
O Brasil está prestes a cair num buraco fundo. E por dois lados ao mesmo tempo. De um lado, a política sendo engolida pela corrupção — a essa altura, prova aparece e já não derruba mais ninguém. Flávio Bolsonaro ganhou 60 milhões de Vorcaro? Só desliza um pouquinho nas pesquisas. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, ganhou um apartamento? Passa uma semana e o presidente ainda está pensando se demite ou não. Do outro, a economia saindo dos trilhos outra vez, porque a gente insiste no mesmo truque que já quebrou o país uma vez. Dois buracos. E olha: eles têm a mesma causa. Uma só. O Brasil foge do trabalho difícil. Apitar a falta não importa pra quem e segurar a economia no lugar são coisas chatas, lentas, que não rendem aplauso nem um inimigo bonito pra apontar. Trabalho de dia a dia não dá meme, não gera história de mocinho e bandido pra virar vídeo de um minuto. O atalho é sempre mais fácil. E é por isso que nenhum — nenhum — dos candidatos que estão aí na sua frente se oferece pra enfrentar os dois. Só que enfrentar os dois ao mesmo tempo é a única saída. A gente está empacado. Crescimento medíocre. As pessoas achando que não têm futuro. Onde está a liderança política que explica direito o problema? Que trabalha sem ser histriônico? Ainda tem adulto na sala?
Vem comigo, esse segundo buraco é mais fundo do que parece. Aliás, lembra de quando o Brasil crescia loucamente, Cristo Redentor disparando na capa da Economist? Você entendeu o que aconteceu ali? Então vamos voltar a 2003. Primeiro ano de Lula presidente.
A partir de 2003, começou a entrar dinheiro grande no Brasil. Dinheiro chinês. A China crescia feito louca e comprava do mundo inteiro — comprava o nosso minério, a nossa soja, o nosso petróleo. E quando entra muito dinheiro de fora, acontece uma coisa: o real se valoriza. O dólar, que valia quatro reais, foi caindo pra dois, pra um e pouco. De repente o brasileiro ficou rico sem fazer força. Viagem pra Disney, computador, TV de tela plana — tudo importado. Tudo mais barato. A sensação de mais dinheiro era real. E, até aí, era só dólar baratinho.
Mas esse mesmo dinheiro encheu o caixa do governo. Claro. Se você vende mais, arrecada mais. Royalty de petróleo, imposto de mineradora, imposto do agro — tudo subindo junto. Com o caixa cheio, dava pra fazer o bem. O governo aumentou o salário mínimo de verdade — e, junto com ele, aposentadoria, BPC, Bolsa Família. O Banco Central pôde baixar um pouco o juro, e o crédito ficou mais fácil. Com esse excedente, o país quitou a dívida, acertou as contas, ganhou o selo de bom pagador. Selo mesmo. Investment grade, um selo de agências de risco que libera alguns dos maiores fundos do mundo para investir no país.
Pois é. Aí veio 2008. A crise estourou lá fora. Tipo, olha o tamanho da nossa sorte. O que Europa e Estados Unidos decidiram fazer? Jogaram dinheiro nas economias deles pra não afundar, e o juro por lá foi pra quase zero. E o investidor estrangeiro descobriu o pulo do gato: pegava dinheiro quase de graça na Europa e botava no Brasil, onde o juro ainda pagava bem. Pois é, né? A nossa taxa de juro, até quando é baixa, é alta. Os caras pegavam dinheiro emprestado quase de graça lá e investiam aqui. Lucro fácil pra eles. E uma quantidade absurda de dinheiro entrando aqui. Vocês lembram? Eu lembro. A gente nunca foi tão rico.
Bem, todo o vento soprando a favor do Brasil. Hora de guardar. Certo? Não pro governo brasileiro da época. Antonio Palocci não era mais ministro da fazenda. Então o governo decidiu estimular as pessoas a gastarem mais. Mandou os bancos públicos — o BNDES, a Caixa — abrirem a torneira do crédito. O crédito pras famílias, que era 24% do tamanho da economia, foi pra 46%. Quase dobrou. O brasileiro consumindo, a construção bombando, serviço brotando em toda esquina.
Turma, aquilo não foi milagre econômico. Não foi mérito. Foi um vento que veio de fora. Foi a China construindo sua infraestrutura para crescer, depois americanos e europeus gastando porque estavam em crise. E nós, que não estávamos em crise, ao invés de investir ou guardar, também gastamos.
Pensa num avião. Um avião decola porque tem motor. O que o Brasil teve, de 2003 a 2011, não foi motor — foi um vendaval nas costas, empurrando. O avião subiu, todo mundo aplaudiu, e a gente se achou um piloto genial. Só que vento ninguém controla. E vento passa.
Porque, no meio de toda aquela bonança, sabe o que o Brasil não fez? Não construiu o motor. Não investiu pesado no que sustenta crescimento de verdade — estrada, porto, ferrovia, energia limpa. O dinheiro que devia virar obra escorreu pelo ralo do Petrolão, ou virou Belo Monte — uma usina que custou quase o triplo do previsto, atrasou anos e até hoje entrega bem menos do que prometeu. Construíram? Construíram. Virou motor? Não. Virou monumento ao desperdício. Dez anos de festa, e o país não saiu mais forte do que entrou.
Só que vento que vem de fora, uma hora para. A partir de 2011, a China desacelerou, parou de comprar tanto. Em 2013, o juro lá fora começou a subir, e o investidor levou o dinheiro de volta pra casa. O vendaval virou brisa, e depois virou nada. E o avião, sem motor, fez o que todo avião sem motor faz. Em 2014, despencou. A pior recessão da nossa história. E olha: aquilo não foi azar, não foi sabotagem de ninguém. Foi o ciclo. Quem se preparou, preparado estava. Nós não nos preparamos.
Olha, o desmonte daquilo que segurava a economia no lugar não é de agora — começou ainda no segundo governo Lula, lá por 2007, 2008, e foi se aprofundando desde então. Pior a cada ano. E agora, neste governo, o Lula está fazendo de novo. O mesmíssimo truque: convencer o brasileiro a consumir, empurrar gasto, fingir que dá pra repetir 2007. Só que não tem vento chinês dessa vez. Não tem vento americano ou europeu. Não tem caixa. E continua sem motor. Bolsonaro fez a mesma coisa e ainda tentou um golpe militar. A sorte é que os generais não quiseram.
Pois é. Os dois buracos — o da corrupção e o da economia — se encontram exatamente ali: no dinheiro da obra que virou propina em vez de virar estrada. É a mesma fuga do trabalho difícil. Porque imaginar uma obra que é para desviar dinheiro é fácil. Pensar política pública que dê certo, não. E esse trabalho difícil, o de verdade, tem nome. Vem comigo.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
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Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Vem comigo, que esse nome eu te devo desde o começo.
O trabalho difícil, na economia, tem um nome meio sem graça: chama tripé macroeconômico. São três pernas. Gastar o que se arrecada — não mais que isso. Controlar a inflação. E deixar o câmbio flutuar, em vez de segurar na marra. Foi o que o Fernando Henrique montou e o primeiro Lula respeitou. Não é glamouroso. Não ganha eleição. Não cria futuro, tá? Mas é o que mantém o avião estável no ar. É o que dá pro Brasil uma chance.
Manter o avião estável não é a mesma coisa que ter motor. O tripé segura o país pra ele não explodir — mas, sozinho, ele não faz o Brasil crescer. Quem cresce de verdade é quem fica mais produtivo: quem produz mais com o mesmo esforço. E produtividade não vem de discurso. Vem do trabalho mais chato que existe.
Vem de desentortar um cipoal de regras que ninguém consegue entender. De enfrentar a montanha de subsídios que o Estado distribui pra uns e não pra outros — dinheiro seu, que some sem você nem saber pra onde foi. De dar segurança jurídica. Assinou o contrato? Nenhum juiz vai decidir que não vale. Quem investe precisa saber que a regra de hoje ainda vale amanhã. Disso a gente quase nunca fala. Porque é árido, é técnico, não rende manchete. Gente: não tem vilão. Não tem juiz, ou deputado, ou candidato pra torcer. É o meu juiz ou é o seu? O Brasil montou o tripé, quando o tripé funcionou o país pegou um baita vento a favor. Quando tinha o vento, confundiu estar estável com estar crescendo. Confundiu vento com mérito.
Os dois buracos do começo, a corrupção e a economia, são uma coisa só. Apitar a falta — não importa de quem — é o árbitro fazendo o trabalho chato. Segurar o tripé e fazer a reforma é o economista fazendo o trabalho chato. É a mesma coisa. É escolher o difícil que constrói em vez do fácil que rende aplauso.
Isso não acaba, tá? Não existe o dia em que o Brasil consertou e pode relaxar. Jogo justo não se conquista uma vez — se mantém todo santo dia. O juiz nunca larga o apito. A casa nunca para de precisar de arrumação.
Por isso nenhum candidato te oferece os dois. Os dois dão trabalho, não dão palco, e não entregam um inimigo pra você odiar no domingo. É sempre mais fácil prometer o inimigo. Silêncio, o Bolsonaro vai voltar. Ou o Lula. Só que o atalho é exatamente o que nos trouxe até aqui — crescendo pouco, com medo do futuro.
A pergunta que abriu o Ponto de Partida de hoje não era retórica. Ainda tem adulto na sala? Tem que ter. Porque a conta dos dois buracos, quando ela chega, não chega pro político. Chega pra você. Chega pra gente. E posso dizer uma coisa? Não somos nós quem pagamos. São nossos filhos.


