Flávio e Neymar: a direita refém dos camisa 10
Flávio Bolsonaro mentiu. De novo. Mentiu pra você, eleitor de direita, pra mim, jornalista, pros colegas de PL e pros coordenadores de sua pré-campanha. Mentiu pra todo o Brasil.
Flávio Bolsonaro visitou Daniel Vorcaro depois que o banqueiro foi preso. Depois que a Polícia Federal o deteve tentando embarcar num voo para o exterior. Depois que o Banco Central liquidou o Master. Depois que o escândalo virou escândalo. Flávio foi até a casa do “irmão”, que estava em liberdade com tornozeleira eletrônica. Afinal, ele tinha mesmo prometido “estar sempre” com Vorcaro, né?
Na sexta-feira passada, em entrevista à CNN Brasil, Flávio disse: “Pode vazar um ‘videozinho’ mostrando o estúdio que eu possa ter enviado pra ele, algum encontro que eu possa ter tido com ele, foi tudo para tratar sobre o filme, não vai ter surpresinha”. Teve surpresinha. A visita de Flávio com Vorcaro já flagrado, preso e solto em liberdade restrita veio à tona, revelada pelo Metrópoles, e agora ele jura que foi lá pra romper o relacionamento, a broderagem.
Esta terça-feira havia sido programada para ser o dia da recuperação. Flávio convocou as bancadas do PL na Câmara e no Senado para dar explicações sobre o escândalo original — os R$ 134 milhões pedidos a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, revelados pelo Intercept Brasil. A ideia era recalibrar, coordenar a resposta, mostrar ao partido que a candidatura seguia de pé.
A proposta na mesa era apresentar o tal contrato em que os termos do patrocínio oculto foram firmados e dar transparência aos gastos do filme. Deu errado, né? Os correligionários foram. E saíram de lá com mais uma surpresinha para explicar.
Em vez disso, Flávio se viu ladeado da bancada, com a presença marcante de Sergio Moro e a ausência ainda mais marcante de Nikolas Ferreira, dando entrevista sobre a tal visita. Em seguida, sua assessoria vazou o trailer do filme do azarão, que tem tudo aquilo que se espera. E, instantes depois, um texto sobre escala 6×1 e uma promessa de campanha de manter os benefícios da CLT para os autônomos, dando liberdade para o empreendedor e, principalmente, agradando as mulheres e as mães-solo. Nada de concreto, tá? Só diversionismo mesmo. Esse é o tamanho do desespero que bateu.
Até aqui, a estratégia de Flávio foi: pedir dinheiro pra banqueiro suspeito, não dar conta do destino desse dinheiro, visitar o parça preso, negar tudo até não poder mais negar e então admitir o mínimo possível.
A primeira pesquisa depois do escândalo original, da Atlas/Bloomberg, mostrou que o impacto já começa a ser sentido, Flávio aparece 6 pontos atrás de Lula. Ao mesmo tempo, o levantamento aponta que 84% dos eleitores de Jair Bolsonaro dizem que Flávio deve manter a candidatura. E 65% dos brasileiros que souberam do caso disseram que as revelações “não surpreenderam”. O país já sabia o que Flávio é.
Mas Flávio não é só Flávio, né? Ele é o nome em torno do qual a direita brasileira organizou sua aposta eleitoral para 2026. E a direita foi em peso à coletiva desta terça defender esse nome. As bancadas foram lá. Não para avaliar se a candidatura ainda faz sentido. Para fechar fileira. Porque a direita chegou a 2026 sem ter produzido agenda, programa, nada além do bolsonarismo e do antipetismo. Perdeu chances preciosas, até que não precisou mais, se rendeu ao sobrenome que já construiu tudo. E enquanto o nome ungido por Jair Bolsonaro existir como candidato, ninguém no campo precisa fazer o esforço de inventar outra coisa.
Nos cenários da Atlas sem Flávio e sem Michelle, Zema e Caiado disparam — o que confirma que há voto conservador disponível, represado sob o peso do sobrenome. O campo está refém de um nome que ele mesmo sabe que tem teto baixo. Flávio já tem 52% de rejeição — o candidato mais rejeitado do campo, acima até do próprio Lula e do pai.
Sabe o que isso me lembra e pode parecer doideira? Me lembra a convocação de Neymar pra Copa e o tanto que a seleção se deixou ficar refém dele. Você quer entender minha comparação?
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Antes mesmo de Ancelotti anunciar a lista dos convocados, o PL publicou um vídeo de inteligência artificial com Flávio de camisa 10 da seleção. A legenda: “Flávio é Neymar. Neymar é Flávio.” Depois que a convocação saiu, mais posts em tom de vitória política. Como se fosse um gol da direita. Como se a Copa fosse deles.
Já Neymar comemorou bem a seu estilo: assim que ouviu seu nome, postou uma publi de bet para 230 milhões de seguidores, muitos deles crianças e adolescentes. Em seguida, mais publis, todas no tom de “fiquem caladinhos” que craques em má fase costumam fazer quando voltam a balançar as redes. Ancelotti depois revelou que cedeu à pressão pela convocação muito por conta do lobby dos parçcas de seleção de Neymar.
Neymar não se tornou figura política ontem. Desde 2022, quando entrou na superlive da campanha bolsonarista, cantou o jingle e fez o 22 com as mãos, ele escolheu um time. Tudo certo, legítimo. Só que essas coisas marcam, né?
Daí que a Copa, que em outros anos funcionaria como pausa do noticiário político, volta carregada de ideologia. Neymar em campo é, inevitavelmente, o Neymar político em campo. Cada jogo vai reacender a mesma divisão.
Agora, o amor pelo futebol e a vontade de ser hexa dos brasileiros têm potencial de transcender isso, já foi assim em 2022, quando muitos se renderam ao clima de Copa e superaram a divisão. A ver. Ainda assim, a Copa se torna sobre ele. Joga ou não joga? Está causando no vestiário? Machucou? Um protagonismo que ele está longe de merecer em 2026. E assim a seleção fica, mais uma vez, a serviço de Neymar, não o contrário.
Flávio e Neymar têm, em alguma medida, a mesma lógica de apelo. Os dois são sustentados pela lealdade de um grupo, cabe dizer predominantemente masculino, num momento em que o desempenho objetivo não justificaria a aposta.
Os dois operam pelo mesmo manual sob pressão: a narrativa de perseguição como defesa, o grupo como escudo, qualquer cobrança externa como ataque injusto. Neymar que jura garra e paixão e posta publi assim que é convocado. Flávio que se apresenta como homem de Deus e da moralidade e age com o mesmo descontrole do pai.
Não é coincidência que esse apelo ressoe mais forte entre homens, especialmente jovens. O bolsonarismo sempre teve no eleitorado masculino uma de suas bases mais sólidas. O professor Jairo Nicolau me contou, na Edição de Sábado, sobre como esse apoio é particularmente relevante entre quem tem ensino médio.
E Neymar encarna um tipo de masculinidade que fala diretamente a esse público: o craque genial que não deve satisfações, que excede nos erros e segue sendo celebrado, que confunde irreverência com impunidade e chama isso de autenticidade. É a versão gramada do “mito”. Flávio não tem o carisma de nenhum dos dois. Mas é herdeiro do mesmo código.
E se depois de tudo que está vindo à tona a direita ainda escolher Flávio como seu camisa 10, estaremos diante do mesmo fenômeno. Um campo político inteiro a serviço de uma família, e não o contrário. É absolutamente lamentável.


