Edição de Sábado: Os sentidos da folia

Tempo é algo que se mede de forma diferente quando pensamos em Carnaval. Se hoje é oficialmente o primeiro dia de folia e tudo vai se acabar na quarta-feira, como lembra a icônica canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, para quem tece a trama invisível que sustenta a maior festa popular do Brasil, a ideia de que o Carnaval é um evento de quatro dias é uma ficção burocrática. Uma ilusão conveniente para turistas e planilhas de prefeituras. Em 2026, ao tentar entender “o que significa brincar o Carnaval?”, a primeira resposta que emerge das vozes que constroem a folia — do chão de terra batida da Zona da Mata pernambucana aos camarotes climatizados de Salvador — é uma recusa radical à efemeridade.
Edição de Sábado: Valsa brasileira

Pouco mais das 18h30, o presidente Lula (PT) desembarcou do carro oficial. Não foi direto cumprimentar seus convidados no salão reservado para a confraternização. Antes, se dirigiu ao quarto da Granja do Torto, residência de veraneio da presidência, e trocou de roupa. Deixou ali o terno e a pompa que sustentara durante o dia cheio, com três reuniões e a cerimônia de assinatura do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. Colocou jeans e uma camisa azul clara pouco ajustada ao corpo, deixou-a para fora da calça mesmo. Vestiu-se de informalidade, o tom com que redigiria a noite. Cerca de dez minutos depois, finalmente foi dar as boas-vindas a seus ministros, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), a líderes partidários e deputados petistas que enchiam as seis mesas com oito cadeiras cada. A conversa próxima nas rodinhas abocanhou boa parte do jantar. Só então, quando todos já se sentiam à vontade, Lula iniciou o discurso mais formal.
Edição de sábado: O próprio termo
Os parentes e amigos de Patrícia Kisser que chegavam ao seu velório, em julho de 2022, queriam saber se ela estava vestindo meias. A pergunta era referência a uma piada feita pela própria Patrícia, que sofria de frio nos pés e pedia para que ficassem aquecidos, mesmo após a morte. Imagine passar a eternidade com os pés frios? A dor estava lá, mas as pessoas de Patrícia talvez tivessem uma certeza: ela estava em paz com a morte, por mais que o processo em si não tivesse sido pacífico. O viúvo dela, o guitarrista Andreas Kisser, mundialmente famoso por décadas no Sepultura, lembrou da brincadeira em entrevista ao Meio sobre um assunto muito diferente dos que costuma conversar com jornalistas: a discussão no Brasil sobre morte assistida. Patrícia morreu de um câncer no cólon, bastante agressivo, cerca de um ano e meio depois de descobrir a doença.
Edição de Sábado: Quem vigia o mercado?
Em uma única mordida, ele devorava uma fatia inteira de pizza marguerita. Deixava a borda. Entre uma fatia e outra, na noite de quarta-feira, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, era questionado sobre a crise em seu colo. No jantar com jornalistas, promovido pela Frente Parlamentar do Livre Mercado, Accioly buscava explicar os ruídos entre a CVM e o Banco Central e a atuação de sua autarquia no que pode ser a maior fraude financeira da história do país.
Edição de sábado: A ideologia do brasileiro
Em números, 59% dos brasileiros são de direita, 34%, de esquerda. O centro existe. Até poderia ter seu corpo esticado para alcançar uns 7% — mas é um arredondamento ousado de quase seis pontos decimais. Muito para o tamanho que tem. Segundo o que coletamos na Pesquisa Meio/Ideia, o centro brasileiro reúne 6,45% do total da sociedade. Somos um povo que olha mais para dentro do que para fora — 60% de nacionalistas, 40% de cosmopolitas. Mas não somos radicais. Os radicais entre nós mal passam dos 10%. No todo, 89% se distribuem por ideologias moderadas.
Edição de Sábado: As fronteiras do chavismo

Não fossem os quatro blindados e a dúzia e meia de soldados das Forças Armadas colombianas equipados com velhos fuzis de assalto, poucos diriam que algo mudou nesta última semana na Ponte Simón Bolívar, a principal ligação por terra entre a Colômbia e a Venezuela. Carros, motos e ônibus circulam de um lado ao outro sem interrupções. Milhares de pessoas cruzam a pé a ponte que liga Cúcuta, na Colômbia, a San Antonio del Táchira, na Venezuela, como se nada de especial tivesse acontecido no sábado passado, quando as forças especiais americanas atacaram Caracas e sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro. A calma e a normalidade, no entanto, são só aparentes.
Edição de sábado: A ilusão do contragolpe preventivo
No último dia 3, o ministro Gilmar Mendes provocou revolta ao decidir que apenas a Procuradoria-Geral da República (PGR) pode pedir o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão, tida como uma manobra autoritária de blindagem, acabou por não se sustentar diante da forte repercussão negativa. Uma semana depois, o magistrado voltou atrás, anulando os trechos que versavam sobre o tema.
Edição de Sábado: O generalato da Venezuela

As ruas do centro de Caracas seguem cheias nestes dias de incerteza na Venezuela. Funcionários públicos sobem e descem a Plaza Bolívar como se nada estivesse acontecendo ou prestes a acontecer no país. As lojas seguem abertas, os restaurantes oferecem o pabellón criollo como sempre aos trabalhadores que parecem já acostumados a viver num estado permanente de carestia. Em volta dos ministérios, palácios e pontos importantes da cidade, muita polícia, muitos agentes de inteligência, muita gente que sempre usou a força para manter o regime de pé. As piadas e brincadeiras seguem, mas falar de política, uma paixão venezuelana, e sobre o estado das coisas desapareceu das ruas caraquenhas.
Edição de sábado: O Brasil em Nove Bolhas

Nos acostumamos a dizer que vivemos em bolhas. Agora, temos a evidência científica de que é verdade. Saiu esta semana O Brasil no Espelho, novo livro do cientista político Felipe Nunes, fundador e diretor da Quaest Pesquisas. O livro traz o resultado da mais profunda survey realizada no Brasil com o objetivo de mapear quais são nossos valores. Em 2023, sob encomenda do Grupo Globo, Felipe e sua equipe caíram no país para realizar mais de dez mil entrevistas com um questionário que leva algo próximo de duas horas para ser completado. Raramente pesquisas de opinião vão tão fundo para compreender o que pensam as pessoas.