Edição de Sábado: A armadilha
Flávio Bolsonaro foi a Washington buscar um alívio à imensa pressão que sofria desde que vieram à tona seus áudios e mensagens com Daniel Vorcaro. Voltou com um álbum de fotografias de encher os olhos de sua própria militância e da direita brasileira. Mas ainda pairava sobre a viagem a dúvida do quão proveitosa e eficaz ela seria para a pré-campanha do senador.
Edição de Sábado: Vinte anos divididos

O Brasil que elegeu pela primeira vez Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, já não existe mais. Naquele país, o eleitorado era majoritariamente jovem e de baixa escolaridade, e a disputa presidencial ainda cabia no velho eixo entre PT e PSDB. Vinte anos depois, o Brasil que devolveu Lula ao Planalto, por uma margem apertada, tornou-se outro. Mais velho, mais feminino, mais escolarizado, mais evangélico. Nesse percurso, as bases sociais do voto se deslocaram. O PT perdeu força entre homens, nas grandes cidades e entre jovens de escolaridade média. A direita avançou justamente nesses segmentos, enquanto mulheres negras consolidaram o grupo de maior coesão eleitoral do país.
Edição de Sábado: ‘É perigoso escolher o Congresso como inimigo do povo’

Do congresso da juventude do PT a um almoço com faria limers, José Dirceu está em plena atividade política. Foi responsável pela reformulação do programa do partido que ajudou a criar, no ano em que seu maior líder, Luiz Inácio Lula da Silva, deve disputar sua última eleição. Enquanto isso, debate com economistas liberais a natureza da dívida pública; com caciques partidários uma possível reforma política; com o genro motoboy os desejos dos autônomos e empreendedores. E ainda prepara sua pré-campanha a deputado federal por São Paulo.
Edição de Sábado: Cercados

A estrada enlameada pela chuva forte da tarde faz qualquer curva parecer um desafio de rali. A caminhonete blindada rebola para um lado e para o outro, enquanto o motorista se esforça para manter o carro estável. Há um clima de tensão contida. Estamos todos quietos. Apenas a voz de um homem no rádio, em russo, corta o silêncio dessa noite fria, em que a garoa, de tempos em tempos, vira neve rala; mais grãos de gelo do que flocos. Nos aproximamos das linhas de combate. Estamos a 15 quilômetros da Rússia, na província de Kharkiv, na Ucrânia. Os drones dos dois lados infestam os céus em busca de qualquer coisa que se movimente, de noite ou de dia, sob o sol ou sob as nuvens. Entramos no que os soldados aqui chamam de Zona da Morte.
Edição de Sábado: Educando um computador
Era uma fresca tarde de primavera em Pittsburgh, a então poderosa capital da indústria do aço americana. Naquele sábado, 3 de maio de 1952, cerca de 500 dos maiores especialistas no nascente campo da computação atravessaram as portentosas colunas de mármore do Instituto Mellon para um dos primeiros encontros nacionais da Associação das Máquinas Computacionais (ACM na sigla em inglês). Entre os palestrantes daquele dia estava Grace Hopper, primeira mulher a obter um PhD em matemática por Yale, e já reconhecida como uma experiente cientista daquele novo ramo que estava surgindo. Em sua palestra, chamada A Educação de um Computador, Hopper fez o que talvez seja a primeira descrição do que seria um compilador. Ou seja, um programa de computador que “traduzia” um texto escrito, seguindo certas regras, para códigos de máquina que os computadores entendiam.
Edição de Sábado: A conta que dá trabalho
Nos últimos meses, o debate sobre o mundo do trabalho voltou ao centro da política brasileira. A escala 6x1 e o trabalho por plataformas estão na agenda do Congresso e do governo, embora a discussão sobre pejotização esteja paralisada no Supremo. À primeira vista, parecem discussões distintas. Na prática, elas esbarram no mesmo problema: em um país marcado por informalidade alta, renda instável e proteção desigual, mudar a regra não basta para garantir que ela alcance a maioria dos trabalhadores.
Edição de Sábado: O ocaso de uma hegemonia
Analogias históricas para explicar o presente raramente são exatas e muitas vezes levam a conclusões, se não equivocadas, ao menos distorcidas pelo calor do momento. Mas com o frágil acordo de cessar-fogo na guerra liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, diplomatas, historiadores e aliados antigos de Washington estão cada vez mais tentados a chegar a uma conclusão desconfortável para o Ocidente: a de que este pode ser o “momento Suez” dos Estados Unidos. Assim como a crise de 1956 sinalizou o declínio terminal do poder global britânico, o conflito de duas semanas contra a República Islâmica deixou a credibilidade americana em frangalhos, a economia mundial duramente impactada, o dólar fragilizado e criou um vácuo de influência que Pequim parece ter preenchido com uma rapidez alarmante.
Edição de Sábado: Microaten… ih, um vídeo de gatinho!
Era para ser só mais uma olhada rápida no telefone, mas você cai na armadilha de abrir o Instagram e se depara com algo que chama sua atenção: um vídeo, provavelmente, que o leva para um próximo conteúdo, que leva a outro post e mais outro. Enquanto olha para a tela, o cérebro libera dopamina, criando uma sensação de prazer e reforçando o comportamento para incentivar a repetição. Logo percebe que a pausa de “um minutinho” se tornou quase meia hora e volta ao trabalho ou estudo. Mas o foco foi quebrado, e sua mente vaga por uma atividade e outra, muitas vezes simultaneamente entre ler uma mensagem no WhatsApp, responder a um e-mail de trabalho e ver mais um story. É a atenção sendo fragmentada ao longo do dia, ou melhor, a microatenção, um problema que afeta em particular a educação e o trabalho.
Edição de Sábado: Eleitor liberal procura
“Um centro mais radical.” Foi assim que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, definiu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em entrevista ao Canal Livre. Na mesma fala, antes sequer de terminar a frase, classificou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como “um centro com posições mais conservadoras, mais à direita”, e posicionou o incumbente do Paraná, Ratinho Júnior, entre ambos, com “um perfil intermediário”. Naquele momento, há cerca de um mês, Kassab ainda mantinha os três nomes na sua estratégia. Caberia a ele escolher um para disputar a Presidência, alguém capaz de encarnar uma candidatura que oferecesse ao eleitor uma alternativa fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com o terno azul escuro alinhado, o olhar firme e a sobriedade que lhe são típicos, deixou escapar pistas sobre o critério de escolha.
