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Pedro Doria

Diretor de jornalismo do Meio. É também figura fácil no Twitter e Instagram. Colunista de O Globo, O Estado de S. Paulo e da CBN. Foi editor-executivo do Globo e editor-chefe de digitais do Estadão, além de colunista da Folha de S. Paulo. Knight Fellow pela Universidade de Stanford. É autor de oito livros, a maioria sobre história do Brasil.

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É inconstitucional, ministro!

A liminar do ministro Gilmar Mendes, que visa blindar a Corte de processos de impeachment, desafia o equilíbrio dos Três Poderes. Tanto a classe política quanto os mais variados juristas têm dificuldade de entender e defender a decisão de Mendes. No Ponto de Partida React desta sexta-feira (5), Yasmim Restum e Pedro Doria conversam sobre as caracterísicas da liminar e Pedro explica como ela pode ser interpretada como inconstitucional. O papo também atravessa a pesquisa Brasil no Espelho, da Quaest com o Grupo Globo, sobre quem somos e no que acreditamos. Yasmim Restum e Pedro Doria te guiam nessa jornada com uma seleção dos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta. Assista em vídeo no Youtube, e acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido.

Código vermelho na OpenAI? O alerta da grande concorrência do ChatGPT com o Google

No Pedro+Cora do dia 4 de dezembro de 2025, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai falam sobre o alerta “código vermelho” que Sam Altman declarou diante da grande concorrência contra o ChatGPT. No papo, falam sobre o momento crítico do ChatGPT como inteligência artificial e como a empresa está trabalhando para sair na frente e ser melhor que as IA’s desenvolvidas pelo Google.

A PEC da Blindagem do Supremo

O que o ministro Gilmar Mendes fez, hoje, é perigosíssimo. Ele colocou o Brasil na antessala de uma crise constitucional. Mas, antes de explicar qual é o problema em sua decisão, vamos deixar clara as consequências. O que é uma crise constitucional? É o momento em que um dos três poderes diz que vai fazer x. O outro diz que não pode fazer x. E a Constituição não deixa claro quem desempata o jogo. Ou seja, um ou dois dos três poderes foi tão no limite da sua autoridade pela lei que não está mais claro, pela Constituição, como resolver o problema. Ou um dos dois volta atrás ou só há solução fora da Constituição.

Conheça o Nano Banana Pro, novo modelo do Gemini 3 que imita fotógrafos célebres

Você sabia que seu IR pode ajudar a salvar vidas? Acesse https://doepequenoprincipe.org.br/impostoderenda e saiba como.

No Pedro+Cora do dia 2 de dezembro de 2025, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai falam sobre o modelo de geração de imagens por inteligência artificial do Gemini apelidado de Nano Banana Pro. No papo, falam sobre como acessar e ativar a conta do Gemini Pro, as primeiras impressões de Pedro e Cora usando o novo modelo de geração de imagens do Google e comparações, vantagens e desvantagens entre outros modelos de imagem por IA.

Você conhece as bolhas brasileiras?

A edição deste Sábado do Meio, aquela que os assinantes premium recebem por email no fim de semana, é uma entrevista que fiz com o Felipe Nunes, da Quaest Pesquisas, na semana passada. Os assinantes podem assistir a entrevista inteira, também, no nosso streaming. Mas eu queria trazer um pouco da conversa para cá. Para a nossa conversa cotidiana. Pelo seguinte: essa é a maior pesquisa de valores jamais feita no Brasil. Dez mil entrevistas, mais de uma hora e meia de questionário. Essa pesquisa gigantesca, o Brasil no Espelho, é tema do livro que o Felipe acaba de lançar. E muitas das perguntas que nos fazemos cotidianamente estão respondidas lá. Por exemplo: bolhas existem. E vamos dar a real aqui. São nove bolhas no Brasil. São grupos fechados, que compartilham de valores bastante específicos, e têm resistência a falar com quem é muito diferente. Estas nove bolhas se dividem da seguinte forma: três estão fechadas com Lula. No total, representam 41% do eleitorado. Quatro estão fechadas com a direita. Representam 49% do eleitorado. E tem duas que podem ir para um lado ou para o outro, 10%. Mas calma. Isso quer dizer que a direita tem uma vantagem? Claro que sim. Mas, primeiro, o brasileiro não é tão coerente assim. Então há traições, gente numa bolha que, apesar de comungar de valores, vota no outro lado. E tem gente que não vota. Então a vantagem da direita existe, mas ela não define a eleição. A eleição do ano que vem deve ser apertada. Mas antes de entrarmos no detalhe sobre o que é cada bolha, vamos falar de ser brasileiro. Porque há alguns traços que todos nós compartilhamos. O primeiro é bem triste. Somos uma das sociedades com menor índice de confiança interpessoal do mundo. A gente simplesmente não confia um no outro. Sabe, democracias liberais dependem de dois elementos. Um é a capacidade de autonomia individual. As pessoas poderem fazer suas escolhas para sua vida. Governo não dá pitaco, família não dá pitaco, cada adulto faz suas escolhas e se responsabiliza por elas. Mas, simultaneamente, um senso forte de comunidade. A ideia de que estamos juntos nesse barco, precisamos nos respeitar uns aos outros e entrar em acordos para colaborarmos. É assim que negócios nascem e a economia cresce, é assim que construímos um lugar bacana no qual moramos os vizinhos. É um sentir: hashtag tamo junto. Não tem isso no Brasil. A gente não confia no outro. Isso tem consequências institucionais. Não importa se você é de direita ou de esquerda, o brasileiro quer um Estado forte e quer muita regra. Muita proibição. É um Estado forte para controlar que o outro não esteja quebrando as muitas regras. O tipo de governo que temos, o tipo de lei que fazemos, está diretamente ligado ao fato de que a gente não confia. Aí tem outro elemento interessante. O brasileiro entende muito pouco de Brasil, entende muito pouco de economia, mas não percebe isso. Ele acha que entende muito. A turma da Quaest perguntou sobre PIB, sobre segurança, sobre inflação, quem respondeu errou quase tudo. Mas errou tendo a certeza de que estava certo. O que isso quer dizer? Que põe dois sujeitos num debate, um de um lado, o outro do outro, ninguém vai ceder, os dois vão ter certeza de que estão certos, e ambos têm muito pouca informação real. O Felipe chama isso de a “ilusão do conhecimento”. Agora, sabe o que é interessante? Mulheres e homens são bem diferentes. Não é que as mulheres tenham mais informação. Não têm. Mas elas reconhecem quando não sabem. Nós homens? Nenhuma surpresa, né? Mulheres são, também, a força que empurra por transformações na sociedade. Se há mudanças, no Brasil, é por causa delas. A maioria dos homens são conservadores. E, sim, isso vale para a esquerda, também. A direita brasileira é bem homogênea. 70% dela é conservadora. Mas a esquerda, bem, metade da esquerda é conservadora a respeito de gênero, põe a família como núcleo moral, defende autoridade do pai, tem uma visão de mundo em que a providência de Deus tem um papel imenso. São pessoas que votam em Lula sem piscar mas não compram discurso de diversidade. Progressistas, a turma identitária, eles são 11% dos brasileiros. É uma super-minoria. Talvez muitos de vocês já saibam disso, mas vamos dar a real para quem não sabe. O Lulismo é conservador nos costumes. Vamos falar das bolhas brasileiras? Vem comigo. Vamos da esquerda para a direita. Os três conjuntos de brasileiros que votam em Lula majoritariamente são, primeiro, os militantes de esquerda. Representam 7% do eleitorado. Imagina um sindicalista, uma pessoa de muitos dos movimentos sociais como MST. Pessoas de partido, fundamentalmente. Aí tem a classe dos dependentes do Estado. São 23% de nós. É gente para quem programas sociais são fundamentais. Os brasileiros mais pobres. Os serviços públicos, para eles, o Bolsa Família, um Jovem Aprendiz, tudo faz diferença gigante no mês. Cada dia é uma batalha, é sair de casa e matar um leão para trazer comida. Eleitores fidelíssimos de Lula. E, sim, conservadores. Como muitos dos militantes. Aí os progressistas. 11%. Já falamos deles. Alto nível educacional, em geral renda mais alta, muitos fazem parte da elite econômica embora tenham profunda dificuldade de reconhecê-lo. Esses não têm nada de conservadores. No total, 41% do eleitorado brasileiro e vão de Lula. Agora, à direita. Conservadores cristãos. 27% do eleitorado. Não são todos evangélicos, há católicos no grupo, mas é uma gente conservadora que se aproxima muito de considerar que as leis da nação deveriam se aproximar de valores religiosos. O Agro. 13%. Não são só os grandes fazendeiros, mas é este mundo no interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, do Centro Oeste, que orbita o agronegócio, a cultura do sertanejo. Empresários, 6%. O nome explica. Não entram na conta só os grandes, não, mas também médios e pequenos. É gente que emprega, que gera PIB, que produz, e que acha que o Estado atrapalha mais do que ajuda na economia. E, por fim, extrema direita. 3%. É a menor de todas as bolhas. Esse é o pessoal que realmente preferia um regime autoritário. Não é muita gente, é a menor das bolhas, mas não custa lembrar. São seis milhões de pessoas. Total, 49% do eleitorado. E os outros dez? As duas bolhas que estão em disputa são muito diferentes com exceção do tamanho. Cada uma representa 5% do eleitorado. Um grupo é o dos empreendedores individuais. São homens, são jovens, tiveram uma educação melhor. Seus pais eram pobres. Muitos tiveram educação superior. E são frustradíssimos. Porque estudaram em faculdades públicas novas ou nas muitas particulares onde tiveram uma educação muito ruim. Fizeram faculdade, saíram com um canudo, mas não são uma mão de obra realmente qualificada. Então dirigem Uber. Isso dá uma frustração, a crença de que educação faz você crescer foi rompida. É como se o país não permitisse que eles cresçam. E essa turma tem uma gana de crescer. Olha que complicado, esse grupo. Votaram em Lula, em 2022. Os de São Paulo votaram em Pablo Marçal, em 2024. Por que votaram em Lula? Porque não tiveram qualquer ganho no governo Bolsonaro. É um público que não está nem aí para se o candidato é de direita ou de esquerda. Vota pensando na economia, pode votar em qualquer um, e só pensa em crescer na vida. Agora, vem cá, não confia no Estado, tá? Acha que o Estado atrapalha. Lula se deu muito mal com esse público quando tentou regular quem trabalha por aplicativo. Não querem que se metam na vida deles. A popularidade de Lula não passa de 50% principalmente por causa desses caras e, sim, são principalmente homens. Mas dá para reconquistá-los. Tem de ver se o PT vai ser capaz de criar um discurso para eles. Se criar, eles vão prestar atenção. E aí, por fim, os liberais sociais. Classe média tradicional, ávidos leitores, liberais na economia, progressistas nos costumes e defensores de um Estado de bem-estar social. Acham o PT, Lula e a esquerda em geral um desastre na economia. Tomaram horror da política externa deste governo Lula. Querem votar na direita. Querem não precisar votar na esquerda. Mas esse grupo tem um detalhes. De todas as nove bolhas, é a única que põe a democracia como o valor máximo. Se a direita vier com alguém com muita cara de bolsonarista, não leva o voto desse pessoal. Os dois, empreendedores individuais e liberais sociais, votaram em Lula em 2022. Preferiam não, mas votaram, por razões distintas. Um pela economia, o outro pela democracia. São, na leitura de Felipe Nunes, os dois grupos que definirão o próximo presidente da República. Quando Tarcísio fala que o Brasil precisa trocar o CEO, os empreendedores gostam. Quando Tarcísio defende a anistia, os liberais sociais tomam asco. Quando Lula trata Putin de um jeito e Netanyahu do outro, os liberais sociais não gostam. Mas pé de meia pega bem. A eleição já começou, pessoal.

Bolsonarismo fraco, democracia forte

No Ponto de Partida React desta sexta-feira (28), Yasmim Restum e Pedro Doria falam sobre um momento decisivo e sem precedentes na política brasileira, marcado não apenas pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de altos oficiais condenados pela trama golpista, mas também pelo esvaziamento do bolsonarismo. Estamos falando da encruzilhada histórica enfrentada pelo Superior Tribunal Militar (STM), que vai julgar a perda de posto e patente desses militares. As Forças Armadas vão decidir se tentar derrubar a República é algo "normal" ou a "desonra máxima" para quem veste o uniforme — um processo que pode revelar o amadurecimento da nossa democracia. Yasmim Restum e Pedro Doria te guiam nessa jornada com uma seleção dos comentários que vocês enviam nas redes sociais e canais do Meio. Para participar, comente nos vídeos do Ponto de Partida de segunda ou quarta. Assista em vídeo no Youtube, e acompanhe em áudio no seu tocador de podcasts preferido.

Explicando o projeto que prova que você é humano

No Pedro+Cora do dia 27 de novembro de 2025, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai recebem Juliana Felippe, Diretora Geral da Tools for Humanity, para uma conversa sobre o projeto que escaneia e fotografa a íris de seres humanos em troca de criptoativos. No papo, falam sobre o caos instalado na internet que dividiu opiniões sobre vender imagens da íris, qual a ideia global do projeto da World ID e desmistificam a polêmica do roubo e vazamento de dados.

O que os militares acham do golpe?

O julgamento dos golpistas não acabou. Eu sei, eu sei. Todo mundo está mexido com a declaração, pelo governador paulista Tarcísio de Freitas, de que vai conceder a graça presidencial a Bolsonaro, caso seja eleito. Gente, essa aí está muito longe. Até finais de março do ano que vem, ou seja, ainda antes de sabermos se Tarcísio vai ser candidato a presidente ou não, uma decisão muito mais importante será tomada. É o futuro dos generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, além do almirante Almir Garnier dos Santos. Quem vai tomar a decisão? O Superior Tribunal Militar.

Pedro Doria conta sobre a cirurgia que fez em seu ombro

No Pedro+Cora do dia 25 de novembro de 2025, Pedro Doria e Cora Rónai conversam sobre saúde e histórias passadas. No papo, Pedro conta em especial sobre a sua cirurgia e seu novo "ombro biônico", e ambos comentam sobre a admiração mútua pela medicina e pela saúde pública. No quadro O Livro da Cora de hoje, são duas recomendações: "A formação da terra vegetal pela ação das minhocas, com observações sobre seus hábitos", de Charlie Darwin, e uma edição especial de "Incidente em Antares", de Erico Verissimo.

Acabou, Bolsonaro

Aconteceram muitas coisas interessantes nesse fim de semana, não é? E vocês bem imaginam que não estou falando só da prisão de Jair Bolsonaro, né? Porque é mais do que isso. As coisas que aconteceram nos últimos três dias abrem uma janela imensa para compreendermos o fenômeno do bolsonarismo. E, dessa compreensão, põe no centro do palco a pergunta mais importante que temos para fazer. Tudo leva a crer que esta prisão preventiva se tornará permanente ainda esta semana. O bolsonarismo está acabando de vez? A pergunta importa, tá? Ela é mais premente do que nunca. Pelo seguinte: na quinta-feira, o senador Flávio Bolsonaro foi para as redes e convocou uma vigília quase na porta da casa do pai. Uma grande oração coletiva, uma grande muvuca, para aguardar a prisão que todos sabem estava por vir. Só que aí o ex-presidente tomou a decisão de meter um ferro de solda na tornozeleira eletrônica, que é a condição fundamental para a prisão ser domiciliar. Gente, do ponto de vista jurídico não faz diferença se ele surtou ou se fez consciente. No momento em que ele se mostra inconfiável para usar uma tornozeleira, não pode ficar em casa. Porque ele é um homem em risco de fuga. E esse é um dos assuntos nos quais a gente vai entrar hoje. O fato é que antecipou-se a prisão. Convocou-se a vigília, o presidente foi preso e aí foram meia dúzia de gatos pingados. Não tem multidões acampadas, não tem multidão na paulista. Não tem milhares. Está entre as dezenas e centenas. A prisão não está mobilizando os bolsonaristas. Por quê? O que isso quer dizer? E tem dois pontos aos quais quero me ater aqui, pra gente fazer o mergulho que precisamos fazer. O bolsonarismo tem duas características. Uma é que ele é paranoide. Ele se sustenta por paranoia. Por um pensamento conspiratória. Quando os advogados dizem que o ex-presidente entrou num surto achando que a tornozeleira estava gravando, olha, ele é um paranoico sim. Se houve surto, é médico que pode afirmar. Mas ele tem uma mentalidade paranoide, sempre teve. Tudo tem uma grande teoria para explicar qualquer coisa. Desde o tempo em que ele queria espalhar umas bombas, lá atrás, ainda capitão do Exército, paranoia já era um traço importante dele. E isso ajuda a compreender o bolsonarismo demais. O segundo traço, a segunda característica, é a covardia. Vamos lá. Do Mensalão para cá, a gente prendeu um monte de políticos. José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, o próprio Lula. Todos se entregaram à polícia. Tem mais. Se entregaram perante as câmeras e erguendo a mão direita fechada. Estavam na luta, mobilizando a militância. Mas não ficou nisso, né? Foram presos também Michel Temer, Moreira Franco, Eduardo Cunha, Rodrigo Rocha Loures. Caramba, acho que quase todo governador do Rio dos últimos 25 anos. Sobra quem? A Benedita? Sergio Cabral Filho ficou seis anos na cadeia. E em penitenciária, tá? Eles não ergueram braço, não fizeram campanha, mas quando a polícia bateu à porta, foram. Ora, são políticos, são ex-parlamentares, trabalham dentro de uma máquina que é um Estado de leis e quando o Estado decide pelo cerceamento de liberdade, você joga dentro. E no bolsonarismo? Allan dos Santos, Zé Trovão, Carla Zambelli, Alexandre Ramagem. A lista é longa, viu? Bolsonarista rejeita a Justiça brasileira. Acha que não se aplica a ele. Bolsonarista acha que as regras valem pros outros mas não para eles próprios. Pra não falar do Jair, né? Carta pros argentinos pedindo asilo, noite dormida na embaixada húngara. É tal coisa, né? Sobe o carro de som e fala que nem macho. Ou me reelejo, ou me prendem, ou vão me ver morto. E prisão não é alternativa. Pura bravata, não acredita em nada disso. Como essas duas peças se encaixam? A paranoia e o achar que as regras são para os outros, não para si? E o que entender essa chave do bolsonarismo ajuda a desvendar se o bicho está vivo ou moribundo? Vem comigo, vamos contar. Vou lançar mão de dois cientistas políticos aqui, tá? O primeiro é o birtânico Michael Freeden. Ele é, possivelmente, a maior autoridade viva no estudo de ideologias políticas. E, mais do que explicar o que diz cada uma, ele tenta compreender a visão de mundo que as pessoas que abraçam cada ideologia emanam. E a mete conservadora, ela é bem diferente da mente socialista e da liberal. É que o conservador parte de uma maneira bem particular de compreender o jeito que a sociedade se organiza. Para ele, a organização social, as hierarquias, o chefe e o funcionário, o marido, a mulher, os filhos, a escola, o quartel, a firma, tudo está organizado de um jeito que veio de muito tempo atrás, foi construído muito lentamente, e que isso promove um equilíbrio sólido mas delicado. Se mexe demais, gera desordem, gera caos, gera uma ameaça a todos. O incômodo do conservador com liberais e socialistas vem principalmente disso. Os dois querem mexer com políticas públicas. De jeitos diferentes, claro, mas querem mexer. O conservador acha isso um risco tremendo. Agora olha pros últimos 35 anos. De 1990 para cá. Fim da União Soviética, globalização, abertura das nações ao comércio de todos com todos, formação da União Europeia, Internet, comunicação rápida de todos com todos, consolidação de direitos LGBTQIA+, de direitos femininos, ampliação da classe média, urbanização rápida, mudança radical do perfil religioso brasileiro com ampliação dos evangélicos por um lado e dos ateus, principalmente entre os mais educados. Líderes políticos perdem poder para plataformas digitais globais. O perfil do trabalho operário muda para trabalho mediado por plataformas. O desenho da família tradicional entra em colapso, os casais param de ter filhos. E IA já entrando. Olha, se você parte de um olhar que qualquer coisa distinta do que sempre foi é desordem, se conta com lentos movimentos, estamos no caos. Estamos no surto. O mundo colapsou. Agora pensa o seguinte. Se você acha que a organização da sociedade é um processo de muito séculos, muito lento, isso quer dizer também que, quando as mudanças são rápidas, na sua cabeça, isso não pode ser natural. Não é porque houve uma transformação de base tecnológica que levou a contatos que antes não haviam e isso altera economia e comportamento e valores. Não é porque multidões mudaram de tal forma seu jeito de ser que, coletivamente, isso levou a um rearranjo ainda em curso. Não pode. O conservador, no ambiente que ele entende como a mais pura desordem, acha que tem de ter um culpado. Aí entra outro cientista político, o americano Richard Hofstadter. Ele propõe a ideia de um “estilo paranoico de fazer política”. Puro Bolsonaro. Bolsonaro sempre foi um camarada conspirador. Por que ele não tinha público grande em 1990? Por que não tinha em 2010? Por que começou a crescer em 2016 e explodiu em 18? Porque os conservadores não estavam assustados antes. Mas conforme compreenderam que o mundo estava acelerando sua transformação, panicaram. E, ao entrar em pânico, foram buscar um culpado. Alguém que explicasse quem, ou que pequeno grupo de pessoas, havia tomado a decisão de mudar tudo secretamente. O Foro de São Paulo, o Marxismo Cultural, as ONGs a serviço de estrangeiros. Jair Bolsonaro soa cada vez menos atraente para este público. O conservador, gente, gosta de ordem. Não gosta de caos. E talvez, fora do núcleo principal bolsonarista, aqueles 12 a 13%, muitos estejam começando a ver Bolsonaro ele próprio como um agente do caos e da desordem. Será? É uma tese na mesa. Mas isto não quer dizer que outro que apresente outra teoria conspiratória não ganhe espaço. Ou pode querer dizer que exista sede por uma direita que traga tranquilidade, paz, que prometa um governo chato. Sabe chato? Presidente que chega no Palácio to dia 9 horas, saia à 5, faça suas viagenzinhas, cumprimente outros presidentes e não grite, e não faça marola com pouco. O estilo paranoide de política sempre tem ali seus 10% da sociedade, na direita, que vive mergulhado nele. Ele se amplia por um tempo, em momentos como o atual. De muita transformação. A ironia é que ele não evita a transformação, ela vai continuar acontecendo. Ele só aumenta a dor, o esforço coletivo para lidar com as mudanças, ele só cria mais atrito, faz com que o custo de se adaptar à nova realidade fique maior. Tem uma hora que as pessoas percebem isso. Sabe o que os cientistas políticos não sabem dizer? Quanto tempo demora pra ficha cair? Oito anos, dez? Vinte? Será que, no Brasil, já caiu? Eu acho que temos indícios de que sim. Depende de alguém na direita comprar a ideia da tranquilidade como plataforma. Depende de alguém, na direita, vestir a camisa do conservador de verdade e rejeitar o tumulto reacionário.